Before - League of Legends II
11 Desabrigados
Meus pés pousaram em terra firme quando o túnel dourado alcançou o seu destino, mas aquilo não era Piltover. O chão estava coberto por fuligem e pó, entre ruínas e sujeira. No horizonte, nada havia, como se uma borracha gigante tivesse apagado a paisagem do lugar onde estávamos.
– Essa é a cidade do progresso? – Vayne perguntou, erguendo uma sobrancelha para o cenário devastado. – Eu imaginei que teria um pouco mais de… progresso.
– Isso não é Piltover. – Comentei, enquanto os outros chegavam pelo portal que se fechava, com Bardo nos abandonando ali. – Estamos no lugar errado.
– Eu pensei que aquele gordo fosse um tipo de deus, então ele nos enviou para o lugar errado? – Riven perguntou, fincando a espada negra partida no chão enquanto se ajoelhava para examinar o solo. Me espantava que ela não tivesse perdido aquela espada durante tudo o que passamos.
– Ele nos enviar parra a morrte! – Gangplank exclamou, se debatendo nas cordas. Bardo não tinha feito questão de desamarrá-lo. Sob o olhar raivoso de Sarah Fortune, o pirata se calou novamente.
Comecei a andar pelas pedras e pó que nos rodeavam tentando descobrir onde estávamos. O cheiro era quase insuportável, não tinha sentido nenhum. Por que nós teríamos sido enviados para aquele lugar? Desfiz um punhado de areia na minha mão esperando os grãos me responderem enquanto eles eram levados pelo vento. Olhei para os meus companheiros, desolado. Quando as coisas tinham se complicado tanto?
Riven tocou o meu ombro gentilmente (o mais gentilmente que ela era capaz, pelo menos):
– Talvez… talvez estejamos no lugar certo.
– O que você quer dizer com isso? – Perguntei, enquanto ela apontava para uma poça de gosma verde. ZAC.
– Eu já vi isso antes. Eu estava em Galrin, com uma tropa noxiana, quando… — A voz dela falhou pela primeira vez desde que eu a conheci. Ela levou um tempo para se recompor, todos nós esperamos em silêncio. – É algum tipo de veneno.
Com dois dedos, recolhi um pouco da gosma: — É, eu também já vi bastante disso. É o que me permitiu renascer. Mais de uma vez.
– Na Ilha das Sombras, aquele seu ferimento se curou. – Lucian comentou, nem um pouco surpreso. Ele já tinha visto muita coisa na vida.
– É, mas isso está um pouco diferente. – Cheirei a substância. Não era como o ZAC do Viktor, ou o meu. – Você disse que estavam usando como veneno? Que curioso.
– Então, isso é ou não Piltover? – Sarah perguntou, levantando um clima pesado entre todos. Se esse lugar fosse Piltover, todos estariam mortos.
Me levantei, alarmado. Ainda que involuntariamente, eu tremia. Pela primeira vez em muito tempo, não era medo. Era raiva: — Quem fez isso? Quem poderia… Por que?
– Warlock. – Riven suspirou.
– Quem é Warlock? – Vayne perguntou, embora não fosse receber uma resposta. Não quando uma das miras mais afiadas do mundo apontava na direção dela. – O qu…
– Se mexa, e eu acabo com você. – Um punho gigante e metálico irrompeu na minha frente a poucos centímetros do meu rosto. Não imaginei algum dia que me sentiria acolhido com aquilo, mas depois de tudo que eu tinha passado, a polícia de Piltover era quase um alívio. Quase.
– Ei, Vi, abaixa essa mão. Sou eu, Brandon. – Falei, esboçando um sorriso para a moça enquanto erguia as mãos em rendição. Foi aí que dois quilos de manopla hextec atingiram o meu rosto, me fazendo cair no chão.
– Eu avisei para não se mexer. Sei exatamente quem você é. – Vi falou, antes de se voltar para os outros. Lucian e Sarah pegavam suas pistolas, Vayne colocava um dardo em sua besta e Riven sacava a espada. – Também querem um pouco de violência?
Contudo, sob a mira de Caitlyn, eles não se atreviam a atacar. A dupla de Piltover nos derrotara tão facilmente quanto fazia com todos os bandidos que ousavam tentar alguma coisa na cidade. Quando havia uma cidade para se tentar alguma coisa.
– Você me bateu! – Exclamei, enquanto o meu nariz voltava para o lugar sozinho, não antes de sangrar bastante. – O que vocês pensam que estão fazendo?
– Você pode começar explicando porque a droga da sua ilha apagou a minha cidade do mapa. – Ela respondeu, me segurando pela camisa com o olhar mais feroz que eu já vi em seu rosto. O olhar mais feroz que eu já vi em qualquer rosto.
– Minha… Minha ilha? – Eu entendia perfeitamente bem. Ellie sabia muito bem como operar a Ilha, e ela estava sob o controle de Warlock. A ilha de Doran tinha armas. Armas que eu construí. Tudo fazia o mais perfeito sentido, mas eu não poderia aceitar. Não podia acreditar.
– Deixe ele em paz, Vi. Todos já sofremos um pouco demais por hoje. – Eu ouvi por trás de nós e reconheceria aquela vozinha em qualquer lugar do mundo.
Heimerdinger parecia cansado. Seus bigodes brancos nunca tinham demonstrado tanta velhice, e seus grandes olhos, sem lentes, estavam carregados de tristeza. Do pescoço para baixo ele usava um traje de contenção amarelo em vez de suas roupas tradicionais. Ele fez um sinal para Caitlyn, que abaixou o rifle de onde estava.
– Então, sem “estou feliz por te ver, filho”? – Perguntei para ele, enquanto seguíamos para onde os sobreviventes se reuniam. Caitlyn parecia um pouco indiferente a mim, embora Vi me fuzilasse com o olhar. Os outros não diziam muito, embora Gangplank tentasse convencer um ou outro a desamarrá-lo. – Eu estraguei tudo?
– Ficarei muito grato se você começar a me explicar o que aconteceu. — Então paramos diante de uma rocha. Não sabia o quanto havíamos andado, mas, com certeza, estávamos muito longe de onde Piltover já foi. – Oh, a senha, a senha.
– Morello. – Caitlyn falou para a rocha, que se abriu em duas, revelando uma passagem subterrânea.
– Desde quando você tem isso? – Questionei, durante a descida. As escadas não eram escorregadias, mas no escuro tínhamos que tomar cuidado.
– Desde que você decidiu que ia brincar de dono do mundo, geniozinho. – Vi me respondeu com ironia. Não a sua ironia habitual, mas sim uma ironia triste e malvada. – Deu certo para você?
– Eu construí o abrigo prevendo… Eventualidades. – Heimer respondeu, tateando a parede de pedra, enquanto descia com suas curtas pernas.
– Eventualidades que me envolvessem? – Perguntei, indignado.
– Elas sempre te envolvem. – O yordle comentou casualmente, enquanto pulava o degrau final e abria uma porta de aço digitando um código.
Por onde eu olhasse no abrigo, via feridos e assustados. Pessoas conhecidas, pessoas desconhecidas, crianças, mulheres e adultos. Robôs, yordles e todo o tipo de raça que existia. Em comum conosco, o medo e a ansiedade. A cidade do progresso havia sido reduzida a muito pouco. Os olhares que me identificavam eram repletos de medo e susto.
– Isso foi o que sobrou de vocês? – Lucian comentou, surpreso, compartilhando de meus pensamentos.
– Temos pelo menos mais três salas como essas. Cheias de pessoas para cuidarmos, até ser seguro. – Caitlyn nos explicou, apontando para mais três portas de aço nas paredes. – Além disso, temos uma enfermaria para cuidar dos casos mais severos.
– Algum laboratório? – Perguntei, recebendo como resposta um aceno de Heimer que me fez segui-lo. Antes de ir, me dirigi aos outros. – Vocês ficam aí, comam alguma coisa, ou descansem. Você não, Gangplank.
– Suponho que você não está sabendo. – Heimerdinger comentou, exibindo uma projeção de tela saída de seu relógio. O cartaz continha a minha foto e os dizeres: “Procurado para interrogatório”. – Está sendo exibido em todas as cidades-estado filiadas ao Instituto. Você está sendo acusado por desligar todos os sistemas do Instituto e pela destruição de Piltover. E é considerado um fugitivo.
– Eu realmente os desliguei. Ellie foi comprometida, não tive escolha. Mas eu não fazia ideia do que aconteceu em Piltover. – Suspirei, indignado. Tudo estava acontecendo tão depressa, eu não sabia como reagir a tudo aquilo.
– Bem, você tem alguma ideia de como arrumar essa bagunça?
– É claro. – Respondi calmamente. – Tenho que invadir a prisão do Instituto e tirar o Kristofer de lá.
Ele me olhou como se eu estivesse louco. Sinceramente? Talvez eu estivesse.
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