Sob o Sol escaldante do deserto de Shurima encontrava-se o grupo mais inusitado que Brandon já esperara reunir em sua vida. Ezreal, o explorador pródigo de Piltover, sempre fora seu amigo, embora o gosto aventureiro dele o colocasse em diversas confusões, coisa que Brandon evitava a todo custo. Foi uma das primeiras pessoas que o viu após o seu retorno e também uma das primeiras a saber de algumas coisas que aconteceram na época em que ele estava. Brandon nunca contara a história inteira para ninguém. Nunca contaria. Relembrar já era especialmente doloroso.

Mesmo Ezreal não havia explorado Shurima tantas vezes, portanto, fez-se necessário contratarem uma mercenária nativa, especialista em caçar tesouros. Brandon não confiava muito em Sivir, a soberana da batalha, mas se convencera de que ela era um mal necessário no grupo. A mercenária prometera levá-los até o destino de origem das tais espadas que incriminaram Marc Tryndamere, mas não sem cobrar uma alta quantia por isso.

Como a expedição se tratava justamente de provar a inocência do bárbaro Tryndamere, ele ainda não era exatamente livre mesmo que pudesse andar entre eles, desarmado. Por consequência disso, Katarina os obrigou a aceitar a presença de mais um integrante no grupo, para contê-lo caso ele tentasse alguma coisa, embora Brandon soubesse que ele não tentaria. Quando se falava em alguém que pudesse conter um bárbaro secular imortal, ele pensaria em alguém igualmente durão, mas jamais em Annie.

Annie era a definição de “fofa”, talvez nos próprios dicionários de Runeterra. Uma pequena garotinha doce com o seu ursinho de pelúcia. Quem a visse jamais imaginaria que a sua alcunha fosse “A criança sombria” e nem que aquele simpático ursinho de pelúcia pudesse criar vida e entrar em combustão mais rapidamente do que alguém normal poderia reagir. Além destes e de Brandon, Ofelia também insistira em ir. Ele não sabia bem o motivo, mas ela parecia repentinamente interessada naquilo e não aceitara um “não” quando requisitara partir com eles.

E assim, caracterizados com túnicas vermelhas para evitar as queimaduras que o Sol do grande deserto poderia provocar, aquele grupo se apresentava, sem Doran, que ficara no Instituto criando os aparelhos de Realidade Virtual que seriam utilizados na Liga, embora a expedição fosse ideia dele. Ainda não haviam visto uma pirâmide, ou cidade, ou gota d'água sequer. Sivir e Ezreal não pareciam nem um pouco incomodados com aquilo, embora para Brandon representasse um tédio tão imenso quanto a quantidade de areia que os rodeava, além de um sinal de perigo iminente:

– Então… Você ainda não me falou para que você quer encontrar o sarcófago de onde aquelas espadas vieram. – Ezreal comentou para Brandon, alto o suficiente para que apenas eles dois ouvissem. Seus olhos verdes, a única parte que as túnicas deixavam visíveis, não faziam força para esconder a curiosidade, ele era bisbilhoteiro por natureza, do contrário jamais se tornaria o grande explorador que era.

– Você não perguntou. – Brandon sabia que mesmo que não houvesse ninguém nos sarcófagos, ele teria vestígios para explorar. Era indispensável encontrar algo que pudesse inocentar Marc. Ele queria olhar para qualquer lugar, menos para Ezreal. Não sabia o motivo, mas não queria explicar tudo para ele. Conhecia bem o perigo de dar muitas informações aos “amigos”.

“- Sabe, eu posso te ajudar nisso. – Kristofer comentou, de forma presunçosa, enquanto Brandon tentava reconstruir a própria máquina temporal, quebrada ao atravessar o tecido do tempo. Ainda não conheciam Liza naquela época, pelo que ele lembrava. Moravam juntos em um pequeno quarto alugado na ilha voadora Luqi. As ilhas voadoras eram alternativas para a superpopulação de Valoran. Brandon também não havia desenvolvido a sua cronodisplasia, a doença o afetara apenas na volta ao seu tempo:

– Eu sei que pode. Mas eu a construí, quero ela do jeito que a concebi pela primeira vez. – Kristofer era o único que o havia aceitado naquela época. Tudo em Brandon era estranho aos olhos dos nativos daquele tempo: As roupas, o penteado, o modo de falar, os gestos. Como um cientista, Kristofer ficara encantado com aquela máquina do tempo, ainda que tivesse se quebrado ao realizar uma viagem de duzentos anos:

– Então… Você pretende ir tão logo consertar isso aí? – Kristofer perguntava, enquanto relia os rascunhos do projeto, levemente interessado.

– Se eu não te conhecesse por longas duas semanas, diria que está tentando se livrar de mim. – O jovem Brandon rebateu, dando um leve sorriso. Imaginara quarenta formas diferente de viajar no tempo quando estava em Piltover, e ainda assim estava ancorado naquele lugar, sem qualquer perspectiva:

– Gostaria que ficasse. Posso te ensinar muito mais do que a sua “Universidade de Piltover” ensina. – Ele fez a proposta. E Brandon se lembrava de ter aceitado.”

– …Então eu falei “É melhor abaixar”, e arremessei a minha lâmina como um bumerangue naqueles demacianos nojentos. Hahaha. – Brandon despertou da própria memória no meio da conclusão de uma história que Sivir contava para Marc. Ambos eram guerreiros, era normal que se dessem bem, tinham muito em comum.

Ele tinha certeza de que seus pés haviam virado bolhas ambulantes de tanto caminhar pelas areias fumegantes quando finalmente avistaram as pirâmides. Eram tantas! E de vários tamanhos diferentes, ele não sabia como os exploradores e caçadores de tesouros tinham paciência para conhecer tão intimamente cada uma.

– Ok, novatos, fiquem atentos. Não quero ver vocês descobrindo nenhuma armadilha nova nessas coisas, não vai ficar para a história, acreditem. – Sivir declarou, quando eles chegaram a uma das pirâmides. Ele já havia visto aquela antes, não pessoalmente, mas no desenho que a espada portava em sua face.

– Não seria ótimo se as armadilhas fossem a pior coisa acontecendo disso tudo? – Brandon comentava, um pouco ácido. A longa caminhada, preenchida com algumas lembranças desagradáveis, não havia contribuído para melhorar o seu humor.

– Pessoas não são tão perigosas, elas morrem quando nós as cortamos. – Marc ressaltou, indiferente. Tantos anos matando pessoas haviam feito aquilo com ele, mas Brandon ainda conseguia reconhecer o valor de uma vida:

– Ninguém vai cortar ninguém. Sem mortes hoje, estamos todos entendidos?

– Como quiser, “chefe”. – Ele não pôde deixar de notar a ironia no tom de voz da mercenária, mas preferiu não discutir. Não poderiam entrar em um lugar tão perigoso já com uma fissura no grupo. Respirando fundo e seguido pelo grupo, Brandon adentrou na pirâmide.

A parede do corredor de entrada era marcado por desenhos estranhos no alabastro. Uma espécie de jacaré portando uma lâmina e batalhando contra um… Chacal? Parecia bastante com um. Como aquela batalha havia terminado, os desenhos não indicavam. Se é que havia terminado.

O chão era completamente feito pelo basalto escuro, dando uma certa suavidade atraente ao local, fundido-se por vezes à escuridão que ali fazia. Segundo Sivir, geralmente no chão ficavam os dispositivos que ativavam as armadilhas. Mas aquela era uma pirâmide há muito explorada, era mínima a chance de encontrarem uma armadilha, portanto ele pôde apreciar o piso sem maiores preocupações:

– Esperem! Há algo errado aqui. – Ezreal estava bastante alarmado. Haviam acabado de chegar na grande galeria, a caminho do sarcófago, onde enterraram outrora um grande rei com a sua armadura e suas espadas. Entretanto, a grande galeria realmente estava grande. Parecia com um grande salão e não era composta pelos mesmos elementos que o resto da pirâmide. O chão era de pedra e várias tumbas se espalhavam pelo local, apoiadas nas paredes:

– Deveria ser um corredor estreito! Não está como da última vez que eu vim! – Sivir exclamou exasperada, Ofelia segurou a mão de Brandon, ela estava tremendo e ele não sabia se era de medo ou graças ao frio que lentamente os embrulhava crescendo cada vez mais:

– O que está acontecendo aqui? – Ele apertou ainda mais a mão dela, buscando algum calor.

Como em uma marcha, as tumbas se abriram ao mesmo tempo. Os corpos mumificados que deveriam estar mortos há muito tempo deram o seu primeiro passo cambaleante para fora. Não era apenas ali dentro, tanto o caminho por onde vieram quanto para onde estavam indo estava tomado por aqueles mortos-vivos:

– Estamos cercados. – Marc observava inutilmente. Qualquer um podia ver aquilo. Os números eram desfavoráveis enquanto as múmias avançavam lentamente na direção do grupo:

– Se afastem, eu vou queimá-los. – Annie declarou, já abrindo a mão que não segurava o urso para preparar uma de suas bolas de fogo:

– Não!! – Sivir segurou pulso da garota com força em seu ato desesperado. Brandon não imaginava que ela poderia perder tanto a compostura. – Não está sentindo esse cheiro? Isso é formol.

Brandon não era especialista em química, mas pôde compreender. O formol era usado para conservar os cadáveres, e, infelizmente, era facilmente inflamável. Na melhor das hipóteses, Annie mataria todos que estavam ali, o que não servia de muito consolo já que enfrentavam pessoas mortas:

– Ok, podem parar. – Uma voz falou e imediatamente os mortos-vivos cessaram a sua marcha uniforme onde estavam, como estátuas. Aquilo pegou todo o grupo de surpresa, mas ninguém estava mais espantado do que Brandon. Seu suor escorreu frio pelo rosto, a cronodisplasia podia deixá-lo louco, incoerente, podia fazê-lo perder a noção da realidade, mas aquilo era muito real. Jurara que nunca ia esquecer aquela voz:

– Kristofer? – Brandon pretendia murmurar, mas a sua voz havia se alterado. Estava preenchida de raiva e dor. De trás das múmias que bloqueavam a passagem para o sarcófago, Kristofer surgiu. Ele caminhava graciosamente, tomando o cuidado de não sujar sua manta ornamentada com aqueles cadáveres. Um a um, ele examinou o grupo até pousar os olhos em Brandon. Seus lábios finos encontraram uma sugestão de riso contido quando o viu:

– Quem é ele? Brandon? – Ezreal perguntou, o frio crescia cada vez mais no local. A tensão era insuportável. Brandon apertava a mão de Ofelia com tanta força que nem percebia que a machucava:

– Como você veio parar aqui? O que você quer? Responda, seu assassino! – Brandon gritou para a expressão inalterada de Kristofer que estava parado, meramente encarando-o:

– Tem certeza de que o assassino sou eu? – Ele sorriu. Tudo aquilo parecia uma grande piada, uma peça na qual ele não conseguia ficar sério. Brandon era tão engraçado em sua inocência, brincar com ele era sempre divertido.

– Você matou a minha mulher! – Ele urrou, ensandecido.

– Brandon. – Apesar do espanto, Ofelia tentava contê-lo. Enquanto os outros assistiam sem esboçar qualquer movimento, tentando entender a cena. Contudo, a voz dela foi sobreposta por outra que também o chamava. Uma voz tão fria como aquele salão.

– Liza? – Ele olhou para trás. Era ela. A mulher com quem fora casado no futuro. A mulher que ele mais amou na vida e que viu morrer. Não podia ser.

– Liza… Liss…andra. – Marc balbuciou, também incrédulo. Conhecera aquela mulher, quando ainda era um garotinho, como uma adulta, em uma guerra de duzentos anos atrás. Ela, além de estar com um aspecto humano, parecia mais jovem. – Foi você!

– O que isso significa? – Brandon não entendia. Estava catatônico, incapaz de fazer qualquer coisa. Kristofer não pertencia aquele tempo e Liza nem deveria estar viva. Por que eles pareciam trabalhar juntos? Como Marc a conhecia?

– Vamos ter que dar um jeito de sair daqui. – Ezreal sussurrou para uma Sivir alarmada, que assentiu.

– Significa que o nosso mundo de gelo está próximo, meu amor. Feche os olhos e deixe o frio lhe levar. – Ela falou. Brandon quase se sentiu impelido a obedecer, morrer naquele momento seria tão mais fácil. Marc não fora enviado para matar, mas sim para deixar pistas que os levassem até ali, apenas para morrer. Mas, por que?

– Você consegue quebrar aquela parede? É o ponto mais frágil que vamos encontrar aqui. – Sivir falou extremamente baixo para Marc, apontando uma das paredes, que também estava cercada de mortos-vivos, como todos os lados e saídas.

– No braço? – Ele se espantou. Não lutava desarmado havia tanto tempo.

– É.

– Posso tentar.

– AGORA! – Ezreal gritou, segurando Ofelia para protegê-la enquanto Marc investia na direção das paredes socando qualquer coisa que estivesse no caminho, embora as múmias o retardassem:

– Então, vocês querem que seja doloroso. – Kristofer suspirou, embora o seu semblante fosse de felicidade. – Vou mostrar o mesmo desespero que te mostrei dois anos atrás, quando te deixei doente, Brandon. Você vai desejar ter morrido quando sabotei a sua máquina do tempo.

– Você não vai machucar nenhum deles.

– Déjà vu. – Ele falou. Viveram uma cena semelhante antes, daquela vez Liza supostamente morrera em meio aos esforços de Brandon para salvá-la:
– Não se preocupe. Dessa vez, eu vou me certificar de que te matei de verdade. – Ele afirmou, enquanto ouvia um estrondo à sua esquerda. Marc havia destruído a parede com os próprios punhos, que agora estavam ensaguentados e em carne viva:

– Vamos! – Ezreal gritou, enquanto os mortos-vivos restantes avançavam no grupo sob os olhares de Lissandra e Kristofer. Ofelia pulou para fora da pirâmide, onde Marc aguardava. Annie seria a próxima, mas a passagem aberta pelo bárbaro foi coberta por gelo, deixando Brandon, Ezreal, Sivir e Annie presos na pirâmide:

– Eu devolvo o que você me disse, Brandon. Não se preocupe, eu me certifiquei de que seus amiguinhos lá fora também morram. – Kristofer afirmou, divertido como nunca.

Do lado de fora, Marc e Ofelia se viam diante de um ser grotesco. Sua pele era azul, e o seu rosto quase completamente coberto por uma juba roxa, deixando à mostra apenas o grotesco nariz, os feios dentes e os olhos azuis como o próprio gelo. Em sua mão de três dedos, um gigantesco pilar de gelo. Marc conhecia aquele tipo de criatura de sua terra natal, Freljord. Era um Troll:

– Carne fresca. – Falou Trundle, o Rei dos Trolls, e servo de Lissandra, a Bruxa Gélida, babando sob a perspectiva de poder espancar aqueles dois humanos. Marc rugiu, mesmo desarmado derrotaria aquele Troll e voltaria para as pirâmides a fim de ajudar o grupo.

Brandon tentava trocar golpes com Kristofer, o que era muito difícil. O próprio Kristofer o ensinara a lutar e ele não fazia isso havia algum tempo, por outro lado, Kristofer estava em seu auge:

– Por que você veio para essa época? – Brandon perguntou, ofegante, ao ser derrubado pelo ex-mentor enquanto os amigos enfrentavam Lissandra e seu exército de múmias.

– Haha. Estúpido como sempre, não? Eu sou dessa época, Brandon. Você realmente achou que era o único capaz de viajar no tempo?

– Zaun. Você é Zaunita. – Ele concluiu, sabia que Kristofer não era de Piltover, logo, o outro lugar onde cientistas surgiam era Zaun. Especialmente cientistas malvados. Lhe ocorreu que nunca perguntara de onde Kristofer era, durante o tempo em que viveram juntos.

– Sim, sou discípulo do Arauto das Máquinas, Viktor. Engraçado, não é? Dois cientistas se encontrando em uma época futura. Um deles sendo um completo ingênuo. O outro, um visionário. Com quem você acha que a mestra Lissandra quereria ser associar?

– Então, qual era o meu papel nisso tudo? – Perguntou, desolado.

– O de sacrifício. – Kristofer falou, enquanto tirava uma espada de dentro da manta. Tudo acabava ali.