– Tem certeza de quer que ir para lá? Não tem muita gente que se aventure na Ilha das Sombras hoje em dia, é um lugar muito sombrio… – Confirmou o remador pela quinta vez, embora devesse a vida ao homem sabia que provavelmente a perderia de qualquer jeito com a expedição proposta.


– Um lugar sombrio, hein… Estou procurando por alguém sombrio de qualquer forma. – Retrucou o bárbaro. Seu rosto era rude, uma barba espessa cobria as suas bochechas e seu longo cabelo negro caía por cima dos ombros e do abdome. Aqui e ali haviam pedaços de armadura gastos e um machado desbotado pendia em sua cintura.


Os séculos haviam mudado pouca coisa em Tryndamere, o homem que antigamente se chamara Marc. Enterrara o nome no local mais profundo que pôde encontrar na própria mente, assim como as lembranças de sua antiga vida mas ainda recordava das perdas que tivera e de quem lhe tirara tudo. Um a um, os homens que lhe mostraram o sabor do inferno morreram, levados pela espada ou pelo tempo. Tryndamere não sucumbia a nenhum dos dois, mas o seu nêmesis também não. Tinha esperança de poder pôr um ponto final na história naquele lugar, ouvira falar coisas terríveis da Ilha das Sombras, portanto o Guerreiro Vermelho deveria estar ali.


– Não precisará me esperar. – Falou, na esperança de confortar a língua agitada do jovem remador. O rapaz havia se envolvido em mais dívidas do que poderia pagar para conseguir seu pequeno bote. Felizmente por um acaso do destino os cobradores haviam morrido. Desde então, a dívida que tinha era somente com Tryndamere, ele a pagava agora, embora relutante.


– Mas como você voltará? – Questionou incrédulo. “Doce inocência”, pensou Tryndamere, “Vejo como tantos o enganaram. Os inocentes são sempre os primeiros a morrer…”


– A depender de quem esteja lá, talvez eu não precise voltar… — No horizonte, a sombria floresta dava seus primeiros sinais. Todas as árvores estavam murchas e uma neblina cobria o local inteiro. As lendas diziam que as próprias árvores criavam vida naquele local e que aranhas gigantes rondavam pela floresta em busca de carne fresca. Aquilo jamais assustaria ou intimidaria Tryndamere, aranhas e árvores sempre poderiam ser cortadas afinal…

Piltover


– Eles servem o melhor café da cidade aqui. – Brandon explicou à Ofelia que olhava de soslaio para o grande robô amarelo que bebia em uma das mesas do estabelecimento fazendo muitos ruídos metálicos. – Óleo, em alguns casos. Criação de Zaun, mas nós o estamos melhorando. – Completou. Zaun era uma cidade-estado que competia com Piltover, embora com métodos bem menos aceitáveis. Blitzcrank, o grande golem amarelo a vapor, era uma de suas criações, mas hoje era um ser independente que achara uma espécie de lar em Piltover.


– Certo… Isso não existia quando eu estava aqui. – Observou Ofelia, pedira por um local reservado para conversar com Brandon e isso os levara até ali. Escolheram uma mesa um pouco afastada do golem e do barulho dos demais clientes:


– Brandon! Quanto tempo faz que você não vem nos saudar! Orianna só tem falado de você ultimamente. – Corin Reveck era o dono do Café de Piltover e um tecmaturgo entusiasta. Misturava as próprias criações com o seu negócio e descobrira várias formas de trabalhar com alimentos, fazendo do seu local um dos mais populares de Piltover. Contudo, seu maior orgulho era a própria filha: Orianna Reveck, uma garota doce que adorava as invenções do pai quase tanto quanto adorava dançar.


– Tempo é uma ilusão, Corin. Uma firme e persistente ilusão. – Reveck corou. Brandon segurou o cardápio com um ar desinteressado, quase como se fizesse uma transição entre o plano real e o que quer que acontecesse em sua mente quando parava de falar.


Seus olhos se fixaram em Ofelia. Era tão inteligente quanto ele, embora não percebesse. Hoje, vinha a mando do Instituto de Guerra, uma organização criada para mediar os conflitos no continente de Valoran. Eles tinham bons ideais, mas uma escolha infeliz de nome. “Instituto de Paz” soaria melhor:


– Além disso… — Falou para um Corin atônito. – Vamos deixar a conversa para outro dia. Acho que hoje eu vim a trabalho.


– Brandon, você deve saber que Demacia e Noxus estão muito, muito próximos de começar outra Guerra Rúnica… – Ofelia começou, após fazerem seus pedidos e serem deixados sozinhos por Corin. Demacia e Noxus eram cidades-estado rivais, e seu poderio militar de vinte anos atrás teria devastado todo o continente de Valoran não fosse a intervenção mágica dos invocadores do Instituto de Guerra. Com as armas de hoje, todos sabiam que o dano que uma guerra causaria não só à Valoran mas em toda a Runeterra seria inimaginável.


Contudo, alguns anos atrás, antes mesmo da criação do Instituto, quando Brandon e Ofelia ainda estudavam juntos foram incumbidos de debater a respeito da Guerra Rúnica. Brandon propusera apaixonadamente diversas teorias e soluções. O próprio Heimerdinger ficara estupefato na época. Ela esperava que ele fosse capaz de viabilizar alguma delas hoje em dia.


– Próximos… Sim. – Ele lembrava. Aquele acontecimento estava quase tão arraigado quanto uma memória racial. – Mas mais importante do que isso… Zilean ainda está no Instituto, não é?


– Sim, ele está. Por qu…? – Confirmou, confusa com a pergunta. Zilean era o Guardião do Tempo, um homem imortal cuja consciência divagava pelo tempo eventualmente. Concordara em se juntar aos Invocadores do Instituto na esperança de encontrar uma cura para a sua…


– Cronodisplasia. Uma doença mística que afeta aqueles que já viajaram no tempo. Como Zilean. E eu. – Após as últimas palavras, seus lábios formaram um sorriso infantil que pedia desculpas. Ela estava tentando arduamente assimilar aquela afirmação tão repentina:


– Eu não sabia… Quando isso…? – Indagou, ainda perplexa.


– Para mim, faz vinte anos desde que eu construí a minha máquina do tempo. Passei dezoito anos no futuro e os últimos dois me readaptando, sinceramente eu não queria voltar. – Por momentos, seu olhar se tornou divertido, tomado por recordações. Agora ela percebia como a cronodisplasia o afetava, ainda que de forma diferente o tempo também havia mudado Brandon. – Mas… Não sobrou nada lá para mim. – Ele pigarreou antes de continuar, sua voz a seguir estava carregada de tristeza e mais do que nunca ele aparentou a idade que realmente tinha. – O que eu faço, as coisas que eu construo, o que eu sou, são vislumbres de mim, pequenas transições. Não posso mudar o tempo, nem meu “destino”. Mas eu posso fazer o que o Instituto quer.


– E o que você fará? Bran… Você pode fazer essa guerra iminente parar? – Ofelia se sentia um pouco assustada e ansiosa. Viera para aquilo, tinha grandes esperanças, mas aquela confiança dele era demais, como se já soubesse o que ia acontecer. A propósito, ele sabia. Zilean também agia assim, embora não possuísse o intelecto de Brandon, ambos eram sonhadores, mas agora ela sabia o que imaginava como sendo sonhos na verdade eram memórias dolorosas do passado e do futuro.


Brandon enfiou uma das mãos no bolso, entre uma infinidade de traquitanas portáteis que o preenchia ele retirou um pedaço de papel descuidadamente dobrado e entregou para ela. Ofelia desfez dobra por dobra, apesar de parecer maltratado, o papel jazia perfeitamente conservado assim que totalmente aberto:


– Tecnologia de duzentos anos no futuro. – Ele comentou, sob o olhar inseguro dela. – O conteúdo dele é ainda mais interessante.

– “A Liga” – Leu no topo. Haviam desenhos e pequenas anotações que ela não se preocupou em ler. Uma grande arena de batalha, três rotas ligadas por uma selva que cobria boa parte da arena e protegidas por suas respectivas torres de batalha, bastante resistentes a ataques. Cinco guerreiros de cada lado, cada lado tentando conquistar a base inimiga. – Brandon, o que significa isso?


– Se “A Liga” não soou bem agora, você pode chamar também de “solução”.


Fazia sentido. Uma guerra em menor escala, diminuiria consideravelmente as vítimas do campo de batalha além de preservar a estabilidade do continente dando ao mesmo tempo a resolução dos conflitos entre as cidades-estado. Contudo…


– Mas que pessoa normal lutaria em algo assim? É-É impossível. – Pestanejou insegura.


– Nenhuma pessoa normal. – Ele teve que concordar. – Apenas lendas. – Garantiu, enquanto Corin trazia os cafés, tinham muito o que conversar.