Before - League of Legends
4 Capítulo três
As crias de aranha continuavam a surgir não importa o que Tryndamere fizesse, e ele fazia muito haviam horas. Embora não pudesse ver, ele sabia que não eram apenas as crias que o cercavam, uma rede de teia na floresta sombria ao seu redor já o deixava sem qualquer escapatória. Além disso o território lhe era desconhecido, em circunstâncias normais qualquer um teria se desesperado ou aceitado mais cedo a morte que viria a qualquer momento. Mas o seu braço que brandia o machado não parava, sua mente não entrava em desespero e quanto à morte… Desafiá-la era a sua especialidade.
Após uma longa viagem, ele concordava que um banquete seria bem-vindo, mas não esperava ser o prato principal. Os rumores diziam que a ilha era governada por fantasmas, mas aquilo era absolutamente real. Mas não eram desafios, apenas obstáculos. E obstáculos protegiam algo ou alguém. Geralmente, tesouros e pessoas importantes.
Certamente quem controlava aquelas aranhas, e ele sentia de alguma forma que alguém, alguma inteligência, as controlava, não esperava alguém tão resistente. Tendo lutado em muitas batalhas ao longo dos dois últimos séculos, conhecera e derrotara diferentes tipos de generais. O passado da Ilha das Sombras não o interessava nem um pouco, nenhum homem em Runeterra era como ele e logo, nenhum homem em Runeterra sabia como detê-lo. Nem o Guerreiro Vermelho dera conta do serviço, na fatídica noite em que ele perdera tudo…
– Argh! – Uma breve distração após intermináveis horas de combate. Tudo o que bastou para que uma das crias de aranha pudesse mordê-lo em um ponto vulnerável. A ferida sumiria facilmente com a fúria que ele havia reunido enquanto lutava, mas as toxinas não. Ele as sentia correndo por seu corpo, travando uma batalha para dominá-lo, uma tipo de batalha diferente do que ele estava habituado, uma que ele não venceria. Suas pernas foram as primeiras a ceder, o machado de batalha deslizou por entre seus dedos dormentes e ele perdeu a consciência enquanto as aranhas o cobriam:
– Quem é esse estranho que luta com tanto ímpeto? – Comentou Elise, a Rainha-Aranha, que observava a luta do topo de uma das árvores. – Levem-no aos altares enquanto decido o que fazer com ele. – Ordenou. Ele não era como os outros humanos que serviam apenas de alimento, tinha algo de diferente. E o modo como o local onde uma de suas criar mordera rapidamente regenerara, aquilo a interessava.
– Oh, mas uma viagem tão longa seria necessária? Podemos decidir bem aqui. – Uma voz fria como o gelo percorreu a clareira coberta por teias, e certamente ressoou por boa parte da Ilha das Sombras. A intrusa vivia ali contra vontade da maioria dos habitantes, mas nenhum deles era capaz de retirar ela ou os seus subordinados na base da força, sendo forçados a ceder.
– Lissandra, essa é a minha presa. Fique longe, ou meus bebês podem ser forçados a afastá-la. – Elise parecia bastante ameaçadora, sua forma humana, trajando preto e vermelho, com quatro patas adjacentes nas costas era tão medonha quanto sua forma de aranha o que fazia com que qualquer um evitasse confronto com ela. Exceto Lissandra, a Bruxa Gélida.
– Pois bem, eu disse que decidiríamos isso aqui. Mas não imaginei que fosse ser dessa forma. – Um lampejo azul surgiu em meio à escuridão congelando uma Elise indefesa ainda em cima das árvores. – Sepulte para sempre, sua tola. Kristofer, leve o corpo do bárbaro para mim. Está na hora de deixar esse mausoléu gigante.
– Sim, senhora. – Respondeu o rapaz que a assistia enquanto puxava um punhal para abrir caminho entre as teias e crias. Um dos seus muitos servos, contudo o mais importante. Proveniente de Zaun, ele era périto em tecmaturgia e uma peça essencial nos planos de Lissandra. Brutamontes existiam aos montes, rapazes geniais estavam em falta. – Então, para onde iremos?
– Para o Instituto, é óbvio. Onde aqueles palhaços amantes de paz testemunharão o ressurgimento dos Observadores e do verdadeiro Gelo. De uma vez por todas.
Piltover
No futuro, Brandon havia visto a Liga em ação por diversas vezes até descobrir que era o seu criador. Liza adorava os campeões da Liga, todos os habitantes de Valoran os adoravam, eles eram carismáticos, valentes e acima de tudo, poderosos. Cada vez que os telões transmitiam disputas entre os invocadores ela obrigatoriamente tinha que parar para assistir, Liza não sairia enquanto o Nexus, a fonte de energia de cada time, fosse destruído por uma das partes arrancando suspiros e delírios do público.
Mas aquilo não parecia com o “futuro”. Estava acontecendo novamente, seu corpo poderia estar em Piltover mas a sua mente divagava pelo tempo. Ele não sabia a ordem dos acontecimentos, mas tinha quase certeza de que era loiro antes de tudo isso. O “Brandon” que ele via ainda era alegre. Invejou aquela memória com ódio de si mesmo, era menos que um espectro viajante que só poderia se limitar a observar:
– Brandon, você está ouvindo? – A realidade fazia o favor de puxá-lo de volta. Era doloroso. Sempre fora. A sensação de ser acordado de um sonho e não poder se lembrar de como acabava a própria vida. Agora, estava sentado em uma pequena sala com Ofelia e Heimerdinger, passara as últimas duas horas explicando cada detalhe da Liga para ambos e cada recordação era revivida em sua mente, o que tornava aquela sensação extremamente desconfortável:
– É claro que eu estou. — “Estou à beira de um surto psicótico, mas sou todo ouvidos, professor”, pensou ironicamente Brandon enquanto respondia ao seu “pai”. Quando seus pais biológicos foram para a Guerra Rúnica de vinte anos atrás, no tempo real, Brandon fora deixado aos cuidados de Heimerdinger até que eles voltassem. A princípio, ele ia para o portão da cidade todos os dias aguardar o retorno dos pais, suas memórias lhe diziam que o seu terceiro aniversário foi “comemorado” no portão da cidade.
Os anos passaram e Heimerdinger começou a passar uma parte do tempo ao lado de Brandon, ambos sempre observando o horizonte, esperando por pessoas que nunca viriam. Aos cinco anos, ele cansou de esperar e construiu seu primeiro Tridiminiumobulador, com a ajuda de Heimerdinger. Aos quinze, foi aceito como o aluno mais novo a ingressar na Universidade de Piltover. Aos dezoito, criou a sua máquina do tempo. Foi a primeira vez que ele guardou um segredo do yordle mas a partir daí os segredos se tornaram costume entre eles.
O que para Heimerdinger foram algumas horas de distância, representou uma vida para Brandon. Conhecera pessoas, se apegara demais, por tempo demais. Mas aquele homem cujo intelecto rivalizava ou até superava o dele, não tivera piedade em remover vidas para obter o que desejava. Assim como as potências de Valoran não se importavam em perder milhões de vidas para adquirir territórios, recursos, ou simplesmente resolver desavenças.
Brandon já era mais velho que o próprio Heimer, não precisava mais de um pai. Não precisava mais de ninguém para lhe mostrar a direção. Os que sabiam de sua viagem através do tempo nada podiam fazer ou dizer, não o entendiam, as palavras certas nunca viriam dessas pessoas. Elas eram apenas parte do cenário que constituía a linha do tempo, pequenos agregados que seguiriam suas funções para depois morrer, sem ciência de que esses papéis exercidos eram infinitesimais no fim das contas. Ele também fazia parte desse ciclo.
– Bem, espero que você entenda o que esse… Hum… — Heimerdinger pensava mais rápido do que qualquer um e falava igualmente rápido. Todos estavam acostumados a saber imediatamente o que ele pensava, mas mais do que nunca ele hesitava nas próprias palavras. — …“Projeto”, significa.
– Significa o fim das próximas guerras em Valoran. A longo prazo? Paz mundial. Pensei que fôssemos a cidade do progresso.
– Você está sugerindo algo que nunca foi testado, com inúmeras variáveis. Essa tecnologia de realidade virtual pode causar danos inimagináveis se usada incorretamente.
– Inimagináveis não. Aposto como você já imaginou todos eles. – Ele se deu conta de que odiava aquele tom de voz presunçoso. “O grande gênio” Heimerdinger. O fundador da Academia de Piltover, o yordle que salvara a cidade dezenas de vezes.
– O que você quer dizer com isso, Brandon? – O tom de voz dele subiu uma oitava. Ofelia queria estar em qualquer lugar menos ali, as coisas entre os dois aparentemente não iam bem e ela não pretendia testemunhar em primeira mão uma discussão "familiar" entre eles:
– Ora, um gênio como você não sabe o que eu quero dizer? – A tecnologia de Realidade Virtual se baseava nos moldes da sua própria máquina do tempo, que causara sua cronodisplasia e prejudicara boa parte da sua mente. Ele sabia que havia corrigido a maioria dos erros em seus rascunhos, mas Heimerdinger não acreditaria nisso tão facilmente.
– Brandon… — Ofelia advertiu, relutante em olhar para qualquer um dos dois.
– Você está com medo de perder a coroa para mim. Seria uma vergonha, não é, “pai”? Uma grande invenção saindo de Piltover mas não pertencendo ao Jayce ou ao grande Heimerdinger.
– Não acredito que você está articulando coisas desse tipo. E não vou permitir que você leve isso em frente, não importa o que você viu daqui a dois séculos. Eu estou vendo o agora e digo que…
– Eu não estou pedindo a sua permissão, nem a sua ajuda. Eu não preciso de você!
– Brandon! – Ela exclamou mas era tarde demais. A expressão do yordle dizia tudo. Ela já havia visto Heimerdinger bravo, cansado, alegre, contemplativo, mas pela primeira vez o via profundamente magoado.
– Faça o que quiser. Mas se você partir… — Ele saltou da sua cadeira na direção da porta. – Saiba que não precisa mais voltar. – E partiu deixando um silêncio constrangedor no local. Ofelia olhou para Brandon com censura e partiu atrás do Yordle.
Ele suspirou. Não sabia se era definitivo, mas Piltover sempre fora seu lar, se não pudesse voltar, para onde iria? Por que fizera aquilo? Mas o orgulho não o deixaria voltar atrás, envelhecera, mas amadurecera? Era seu destino perder tudo o que amava? Se aquilo era amor, ele não queria mais ser amar ou ser amado.
– Professor Heimer, me desculpe, eu… — Ela começou.
– Não é culpa sua. Tudo se deve a uma velha desavença entre pai e filho. – Ele a olhou direto nos olhos, escrutinando-a. – Cuide dele. A Liga vai ser boa para o mundo, eu sei disso. Mas… Ele terá tantos inimigos por isso. Serei eu egoísta por querer poupá-lo disso?
– Não somos mais crianças, professor. Sabemos como o mundo é, e nunca escolhemos mudar para melhor. Até agora. Apesar do jeitão atual, eu quero ficar do lado dele do começo ao fim.
– Mas o que vocês poderão fazer quando as coisas saírem do controle, minha querida?
– Bom, “se a Liga não soar bem, vamos chamar de solução”. Porque é isso que nós, de Piltover, fazemos.
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