Effrem E. Doran era chamado por aqueles que o conheciam de “Mago”. Fora encontrado em uma pilha de sucata quando pequeno e desde então construía as mais diversas coisas usando de tudo o que pudesse dispor. Ele dava amor e carinho para cada criação, tratando-a como única. Talvez fosse o inventor menos convencional e ainda assim um dos mais respeitados de Piltover. Doran não trabalhava para ninguém, exceto para a sua arte e quem visse utilidade em suas criações poderia adquiri-las facilmente. Ele não era um pai ciumento.


Brandon sempre tentara, sem sucesso, convencê-lo a ingressar na Academia de Piltover. Doran agora tinha quinze anos e continuava na beira do lago de Piltover construindo coisas sem responsabilidades com o “mundo real”.


O lago era redondo e bem grande, rodeado pelo parque da cidade, muitas crianças e suas famílias brincavam por ali. Yordles, humanos, todos estavam acostumados com a presença de Doran ali, sempre construindo. Sempre dando vida aos seus objetos.


– Eu ia te visitar hoje, mas disseram que você estava bastante ocupado. Com uma garota. – Doran comentou, sem tirar os olhos do pequeno aparelho que tinha nas mãos, enquanto Brandon se sentava na grama ao seu lado, de frente para o lago, a vista era realmente bonita, o lugar quase conseguia acalmá-lo. Quase.


– Uma garota do Instituto. – Confirmou Brandon, apanhando uma pedra próxima com a mão que não o apoiava. Ela cabia perfeitamente na sua mão, era achatada e lisa. Quanta força seria necessária para fazê-la atravessar o lago?


– Hum… Você não é meio velho demais para isso? Ou ela veio te prender?


– Nenhum dos dois. – Ainda sentado, ele tentou arremessar a pedra, ela quicou duas vezes antes de afundar na água. No lado oposto ele via uma pequena coisa com uma ponta verde e duas asas. Qualquer um confundiria aquilo com uma planta, mas Brandon já tinha ciência do que era. Doran idealizara aquilo haviam meses. – É o seu projeto Sentinela?


– Sim, as imagens das áreas onde eu posicionei podem ser visualizadas aqui. – Mostrou o aparelho que carregava. Era menor do que um controle remoto, mas possuía um visor. De alguma forma ele mapeara toda a área do parque e conseguia ter a visão aérea do mesmo, embora a Sentinela ficasse cravada no chão. – Mas você não veio para ver o pequeno Doran e suas Sentinelas, não é mesmo?


– Na verdade, não. Eu vou precisar da sua ajuda em uma coisa. O velho Heimer e suas Torres H-28G estão meio bravos comigo, então eu pensei que… — Ele pegou outra pedra. Não adiantava se martirizar pelo que fizera. O parque transcorria pelos seus olhos, sua mente lutava para permanecer com Doran embora também quisesse fugir das ações que o envergonhavam.


– É o lance da realidade virtual? – Doran era um dos poucos com quem Brandon falara sobre a viagem no tempo. Gostava bastante no garoto, ele era bem leal e sempre confiava nas pessoas quase tanto quanto em suas próprias criações. Nisso, eles eram quase iguais. Brandon amava suas criações quase como um pai ama os filhos. Ficara feliz e orgulhoso ao descobrir que era o criador da Liga, a guerra que virara jogo e pôde entreter milhões de pessoas. Inclusive Liza.


– Sim, o lance da realidade virtual. – Falou, com os dentes trincados. Mais uma pedra foi arremessada de uma maneira diferente, essa afundou diretamente. – Então, vou ter o Mago do meu lado nessa?


– Estou um pouco interessado nisso, tentei doze protótipos baseados nos modelos que você me mostrou, nenhum deu resultado. Por outro lado, estou fazendo um escudo super-resistente. – O escudo de madeira com um aro metálico jazia abandonado aos pés de Doran. Parecia um pedaço de madeira redondo comum, mas qualquer um que conhecesse as obras dele sabia que a aparência pouco importava embora ocasionalmente ele caprichasse bastante.


– Parece interessante. Uma espada faria um bom par com ele. Seria o kit perfeito de um guerreiro comum. – Ele apanhou uma última pedra aleatoriamente, inconscientemente já sabia como fazê-la atravessar o lago. – Hoje, os exércitos comprarão dezenas desses. Amanhã, somente os museus.


– Brandon! – Ofelia gritara aquilo incontáveis vezes no mesmo dia. Ele já reconhecia sem erro seus tons de voz, diferente da última vez em que se falaram, ela estava feliz.


– Ela é bonitinha. – Comentou Doran com um sorriso, observando a figura que se aproximava acenando empolgada.


– Liza também era. – Deu por si suspirando enquanto levantava. Vinha tempestade por aí, em breve as famílias sairiam do seu lazer para procurar abrigo contra a água. Para alguns dos infantes, a alegria do dia acabava quando as chuvas começavam. A sua chuva viera, de forma diferente, mas ela sempre viria. – Mas os dias de juventude nunca duram para sempre. Pegue suas coisas, vamos passear no Instituto por um tempo. – Arremessou a pedra. Ela deu cinco pulos dessa vez, mas afundou como as outras arrancando um lamento seu. Outrora fora um gênio, hoje era a casca de um. Deus o ajudasse se a vida de alguém dependesse dos seus cálculos. E só ele sabia como dependia.

A viagem era longa e o meio de transporte que possuíam não era nada convencional: Uma carroça. Ela era puxada por um animal que Brandon desconhecia e pôs-se a observá-lo por algum tempo até que o batizou de “Bruxinha”. Ofelia sabia que o grande monstro multiocular de capuz era conhecido como “Wraith” mas decidira não estragar a empolgação de Brandon.


Conversaram sobre os projetos de construção da Academia Yordle de Ciência e Progresso que Heimerdinger alimentava com fervor no tempo em que eram estudantes e sobre as montanhas Ironspike enquanto atravessavam por elas, era o único jeito de fazer a transição de Piltover para o resto de Valoran. Séculos atrás, essas montanhas fizeram parte de Freljord quando eram tomadas por gelo. Hoje em dia, não havia mais gelo lá, porém ninguém fazia muita menção de explorá-la. Sua única função atualmente era separar o norte do sul em Valoran.


– E também tem as aves de gelo. – Comentou Doran, distraído com sua Sentinela.


– Que aves de gelo? – Ofelia perguntou, curiosa.


– As mães sempre contam essa história para os garotos do parque que querem escalar as montanhas. Dizem que aves feitas de gelo tem seus ninhos nessas montanhas.


– Isso é bobagem. – Ela retrucou. – Nenhum explorador jamais viu uma ave de gelo, não é mesmo, Bran?


– Eu já vi uma ave de gelo na Liga. Será que é a mesma? – Ele respondeu de forma sonhadora e até desinteressada e aquilo pôs um fim ao assunto. O tema era delicado, ainda que ele o conduzisse levianamente. Curiosamente, ela começou a refletir sobre galinhas de gelo, como seriam os seus ovos?


“Vou enlouquecer como esses dois”, pensou, entre divertida e contrariada.


Passaram dois dias cruzando as montanhas sendo conduzidos pelo Wraith. Pegaram um atalho por fora da estrada para evitar o Pântano Urrante, que tinha a fama de conter mortos-vivos. Alguns saqueadores tentaram detê-los mas não eram páreos para o Wraith que, soltando bolas de energia negra, se mostrava muito útil.


– Aqui estamos. – Ela anunciou, sorridente, quando após três dias e meio de viagem, chegaram ao Instituto da Guerra. O núcleo do Instituto era basicamente um templo. Completamente simétrico e sustentado por colunas de gesso, o Instituto era belo de se ver por fora.


– Como eu previa, aqui está você. – Sussurrou uma voz por trás do grupo, todos se viraram mas Brandon foi o primeiro a exclamar:


– Zilean! – Ele reconhecia o velho barbudo embora nunca o tivesse visto pessoalmente. Mas exatamente como descreviam, ele usava um manto verde e carregava um grande relógio nas suas costas. Talvez o único homem que o entendesse no mundo.


– Sim, meu rapaz. Sei que você tem muito para me contar, mas primeiro, venha conhecer os outros. Esteja certo de que querem muito conhecê-lo, todos ouviram falar muito bem de você. – Teve que falar, dando um olhar significativo para Ofelia, que corou imediatamente. Seu olhar pousou brevemente em Doran antes de desviar. Lamentava pela próxima perda do rapaz.


– Na verdade, antes de mais nada, você tem algo para nós comermos. Eu estou…


– Faminto. – Ele completou com um breve sorriso. – Sim, eu também vejo o futuro.