Before - League of Legends
12 Capítulo onze
– Eu e você. Como nos velhos tempos, certo? – Brandon falou para Ofelia. Eles caminhavam pelo território do Instituto, lado a lado. A feira estava quase no fim e o movimento de pessoas por ali era quase escasso. Pela primeira vez, ele sentia que tinha um tempo para si mesmo em meio a toda aquela confusão. Para si, e para Ofelia.
– Nem tão velhos assim. Pelo menos, para mim. – Ela fechou os olhos para sentir o vento que passava por eles. Amava aquele lugar, apesar de os defeitos que ele pudesse ter. E tinha muitos. Ela queria defender Runeterra como podia, mas podia tão pouco. No final, tudo estaria na mão de Brandon e dos outros. Que tarefa ela desempenhava em toda aquela loucura de Liga?
– Foi como uma eternidade para mim. Mas, por momentos assim, eu quase sinto como se tivesse valido a pena. – Eles se encararam. Era difícil imaginar que o tempo havia passado de forma diferente para ambos. O Brandon que ela deixara em Piltover não era, de maneira nenhuma, o Brandon que via agora. De alguma forma, ele era uma pessoa melhor. Mas não a pessoa ideal. Não para Ofelia.
– Você mudou. – Ela se limitou a dizer, um pouco receosa de falar qualquer coisa a mais, sequer tinha certeza do que pensava exatamente. A garota sentia suas bochechas ficando vermelhas, mas não sabia dizer se era pelo frio que fazia ou se havia outro motivo. Havia?
– Nunca me acusaram disso antes. Mas eu tenho que admitir, construir máquinas de guerra e fazer amizade com assassinos nunca esteve em meus planos. – Eles riram juntos. Brandon costumava dizer que, de vez em quando, até o mais mal-humorado cedia ao chamado “Fato Sivir”. Ela sempre contava as coisas como se fossem verdades, mas as histórias ficavam cada vez mais cômicas e improváveis. Fato Sivir.
Ashe e Marc passavam cada vez mais tempo juntos também, embora não estivessem mais lutando, para o alívio geral de todos. Brandon quase arrancara os cabelos quando a rainha que ele convidou para o Instituto, a fim de lutar uma guerra contra um inimigo mortal, reapareceu de uma caminhada com um olho roxo. Aparentemente, Marc nunca fazia amizade com alguém se não atacasse essa pessoa antes. Estava funcionando, então quem reclamaria com um bárbaro capaz de cortar pessoas com facilidade?
Infelizmente, o tempo não era um aliado que eles podiam conseguir batendo ou cortando algo. Noxus e Demacia estavam cada vez mais próximos de guerrear entre si e o Instituto pouco podia fazer. A última esperança deles era a Liga. Embora a maioria das pessoas desconhecesse, aquela guerra não afetaria apenas as duas cidades-estado que dela participariam. Aquilo podia comprometer todo o território já fragilizado de Runeterra. Brandon costumava dizer que, na melhor das hipóteses, eles teriam uma morte rápida. Na pior, sobreviveriam tempo suficiente para ver a dor e destruição causadas caso a guerra acontecesse, o que ele tentava impedir.
Ele já se acostumara com aquela responsabilidade. Um continente, possivelmente um planeta inteiro, em suas mãos? Ok. Mas isso não o impedia de tentar ser feliz pelo menos um pouco antes de ter que encarar o pior. E faltava pouco para isso, Brandon podia sentir. Mas não era a única coisa que sentia:
– Eu senti a sua falta. De verdade. – Ele disse, completamente sincero, coisa rara para Brandon. Esconder coisas das pessoas próximas a ele tinham se tornado um hábito. Não hoje. – Sempre tínhamos momentos assim, você se lembra?
– Do tipo… Tentando não enlouquecer com a destruição iminente do mundo? – Ela arriscou um palpite, um pouco tensa. Era como se sentia no momento. Era engraçado para ela como seu papel no mundo estava claro. Quase cristalino. Não era um caminho fácil, mas era objetivo. Seu papel com Brandon? Complexo. E essa complexidade afetava muitas outras coisas com o que trazia.
– Tem razão. – Ele percebeu. Podia não saber se estava vivendo aquilo realmente, se era passado, futuro ou presente, mas sabia o que ela queria dizer. A luta mais difícil para eles era interna e o inimigo mais letal não era Lissandra, Kristofer ou qualquer outro. Era a consciência individual que possuíam. No caso dele, a resposta vinha fácil: – Só que, dessa vez estamos fazendo algo genuíno. Estamos trazendo mudanças.
– Eu sei. – Ela falou, passando a mão pelos cabelos que a brisa insistia em deslocar. – Mas, ouça o vento, Bran. Elas são boas ou ruins?
– Por que o vento? – Ele franziu a testa, confuso.
– O vento sempre traz o que precisamos. – Ela o abraçou com força. Sabia o que ele ia perguntar. – Eu sei disso porque ele trouxe você de volta para mim.
Brandon abriu a boca. Ela estava com um cheiro diferente, o mesmo que ele sentira um pouco antes de conhecer a rainha Ashe. Por alguma razão, pensar no perfume dela era mais fácil do que falar. Ele podia falar alguma coisa. Ele queria falar alguma coisa, mas não sabia o quê. Durante muito tempo, Ofelia fora a sua única amiga. A única pessoa que aceitava fazer companhia ao gênio incompreendido, o garoto órfão que se inspirava excessivamente na personalidade mais excêntrica da cidade. A garota mais velha era a única luz que ele viu em seu caminho por muito tempo. Agora, ele era a luz do caminho de todos.
– Professor Brandon! – Eles viraram o rosto para onde uma voz gritara. Em parte, Brandon se sentia grato por não ter que falar mais nada. Mas o resto dele, se desanimava ao ver quem era a dona da voz: Katarina. Como a representante de Noxus, uma das maiores potências de Valoran, ela tinha muita influência no Instituto, o que fazia a ideia de desagradá-la de alguma forma ser uma das piores possíveis. E Brandon não era adepto das piores ideias possíveis.
– Acho que você precisa ir, professor. – Falou Ofelia, soltando-o, um pouco contrafeita embora o sorriso em seu rosto fosse incapaz de se desfazer mesmo se ela quisesse. Ela descobriu que não queria.
– Não me chame assim. – Ele implorou. Podia ser chamado de várias coisas, até mesmo do seu mais novo título, dado por Marc: Líder. Contudo, não era mais um professor. Duvidava de que, algum dia, voltasse a ser. Ela apenas fez uma cara de “vou pensar nisso” e saiu, deixando-o sozinho com suas contemplações e uma representante do Instituto à sua espera.
E não uma representante qualquer. Katarina era mais decidida, mais proativa. Uma das únicas, naquele mausoléu que era o Instituto. Quanto mais tempo Brandon gastava ali, mais via o motivo pelo qual eles eram incapazes de parar uma guerra. Katarina o levou, em uma jornada demorada e silenciosa, até uma das edificações que ele não conhecia, e, na verdade, nunca quisera: A torre dos representantes.
A torre era conhecida por abrigar todos os representantes de todas as cidades-estado que haviam aderido ao Instituto, ou seja, basicamente todas de Runeterra. Os aposentos de Katarina tinham simplesmente o dobro do espaço do laboratório que Brandon recebera e ela vivia ali sozinha, enquanto ele precisava dividir espaço com todos.
Contudo, não havia quase nada ali além de alguns móveis e uma grande quantidade de facas espalhadas por todos os lugares. Literalmente, todos os lugares. Ele precisava tomar cuidado para não pisar em nenhuma das muitas que jaziam no chão.
– Então, você precisava falar comigo? – Ele perguntou, um pouco apreensivo.
Ela o olhou, buscou alguns papéis na gaveta mais próxima e os estendeu para ele. Brandon sabia o que era, fez menção de pegar e agradecer, mas ela os tirou de seu alcance antes que ele pudesse:
– Não. Você quem precisava. Por que me pediu isso, em primeiro lugar?
– Eu desconfio de que temos um traidor no Instituto. – Ele simplificou ao máximo. Ficar muito tempo naquele lugar sozinho com ela era… desconfortável. Os papéis que ela tinham na mão, eram listas dos invocadores e representantes do Instituto. Geralmente, ninguém podia pôr as mãos em algo daquele gênero. Geralmente.
– É uma dedução ou tem algo que prove? Pois é uma acusação muito séria. – Ela questionou, um pouco desconfiada. Estava se acostumando com as decisões questionáveis que Brandon tomava, essa era mais uma. Contudo, era a mais radical.
– Um pouco de ambos. – Ele sacudiu os ombros. – Mas há uma simetria histórica nesse lugar que me preocupa, e muito.
– Está com medo de como a rima pode acabar?
– Estou com medo de que eu saiba como e não possa impedir. – Ele estendeu a mão, pedindo os papéis.
– Consegue achar o traidor só olhando isso? – Essa era a parte mais estranha para ela. Ele tinha um lado de grande gênio e etc, mas aquilo era um pouco demais.
Brandon se preparava para responder, quando um gás verde começou a entrar no local. Frestas nas portas, janelas, encanamentos, nada escapava. Katarina olhava para aquilo surpresa, ele conhecia o cheiro mas seu cansado cérebro não se atrevia a lembrar. Não faria diferença. Ele segurou a mão de Katarina, apanhou uma faca próxima com a outra mão e a arrastou para fora do local, chutando a porta para sair e talvez achar segurança no ar puro. Brandon prendia a respiração, não sabia se ela fazia o mesmo.
A próxima descoberta era mais aterradora. Não havia ar puro. Todo o corredor do apartamento de Katarina estava tomado pelo gás verde e, provavelmente, toda a torre já havia sido tomada. Lentamente, ele sentia Katarina se desfazendo em sua mão. Ele olhou para ela, meio cego por todo o gás mas a viu virando um tipo de gosma verde, incapaz até de falar. Seu rosto era uma massa de traços quase irreconhecíveis da representante.
Passos podiam ser ouvidos por toda a torre e ele não tinha certeza de que eram amistosos. Estariam sendo atacados ou finalmente o traidor resolvera agir? Não importava mais. Ele não conseguia ouvir o vento como Ofelia dizia, mas sabia que as notícias eram as piores possíveis. Ele decidiu respirar, aguardando apenas o conforto daquela que deveria ter vindo há muito e agora, ainda que com atraso, era querida: A morte.
Fale com o autor