Notas iniciais
Olá, bem, esse capítulo está bem "chatinho" porque é mesmo uma apresentação de tudo, mas vamos melhorar no próximo capítulo. Espero que gostem.

Se você parar para pensar todos os seres vivos tem certo medo de “deixar o ninho”, medo esse que uma hora ou outra deverá ser encarado. Não se pode proteger sua cria para o resto da vida. As aves são um belo exemplo. Assim que estão preparados os próprios pais os jogam do ninho para poderem aprender a voar por si só. No momento em que Cecília Morns deixou a casa dos pais um terrível pânico percorreu como uma corrente elétrica por seu corpo. Foi, sem duvida, o pior sentimento que sentira em sua vida. Pior, até mesmo, da primeira vez em que ficou bêbada e entrou em desespero porque não sabia se conseguiria fazer xixi sem entrar em contato com o vaso sanitário nojento de um banheiro mais nojento ainda de um bar qualquer da enorme cidade do Rio de Janeiro. Mais desesperador até que o sentimento que sentiu a primeira vez que foi, forçadamente, a aula de balé.

Cecília era um passarinho recém-nascido que estava sendo obrigada a sair do ninho dos pais e aprender a voar sozinha. Com a diferença que ela já tinha seus dezessete anos e não estava sendo empurrada pelos próprios pais. Ela estava fugindo. Não dos pais, nem de algum namorado obcecado, era de um mau real.

- Sua tia estará te esperando no aeroporto assim que descer do avião, filha, não há com o que se preocupar. Tenho certeza que irá amar a Itália! Assim que tudo melhorar, você poderá volta, não é mesmo? – Pamela Morns, abraçava mais uma vez a filha mais nova.

- Ficarei muito bem, mamãe, não se preocupe. Ligarei assim que estiver com tia Giovanna. Mande um beijo ao papai em meu nome. – Cecília deu um beijo na bochecha da mãe e seguiu caminho até o portão de embarque.

O patriarca dos Morns era totalmente contra a partida de Cecília, apesar de ter consciência de que era necessária. A família de Paulo Morns era toda do Brasil, e para ele o lugar certo para Cecília era com sua família no interior de Minas, a família de Pamela já tinha lhes causado problemas demais nesta vida, ele não queria que sua casula fosse ser corrompida pela família estranha de sua esposa.

Assim que colocou os pés para fora do avião Cecília deixou, finalmente, que as lágrimas, que segurou durante todo o percurso rolassem por suas bochechas. Era sua primeira vez na Itália, primeira vez, na verdade, que saia do Brasil e ela estava, completamente sozinha. Esperou por uns instantes por sua mala enquanto tentava recuperar suas forças e colocar um belo sorriso no rosto para encarar sua tia. Todos ao seu redor pareciam encarar a menina de maneira estranha. Com longos cabelos ondulados pretos como carvão e olhos tão escuros quanto de um corvo, pela bronzeada e bochechas perfeitamente desenhadas, Cecília Morns não era o tipo de menina que passava despercebida, mas aquele dia todos a olhavam de maneira diferente. Não era admiração por uma beleza tão diferente e única. Era surpresa. A morena estava se sentindo extremamente desconfortável, por isso, logo apressou seu passo em direção ao enorme salão do aeroporto.

Assim que saiu pelos enormes portões os olhos de Cecília logo encontraram com os verdes de sua tia Giovanna. A tia estava ainda mais bonita que dá ultima vez que a morena a virá, isso deveria ter mais ou menos uns três anos desde a última ida de Giovanna ao Brasil. A mulher era a mais nova de nove irmãos e, a melhor amiga de Pamela, tinha entre seus 32 anos, com longos cabelos negros, como os de Cecília, porém com enormes olhos verdes brilhantes, a pele da tia era branca como papel, que entrava em contraste com seus cabelos, o corpo era pequeno e delicado, totalmente diferente de sua personalidade. Giovanna era como um furacão, por onde quer que passasse fazia uma enorme bagunça.

- Cecília! Cecília! Minha princesinha! – Giovanna correu até a mais nova e logo a prendeu em um abraço apertado, quase impedindo Cecília de respirar.

- Tia Giovanna, como é bom vê-la! Como está? E as gêmeas? Não vieram me buscar também?

Giovanna engravidou há mais ou menos quatro anos e para alegria de todos, nem tanto para o pai, eram gêmeas. Duas lindas garotinhas com olhos verdes como os da mãe, mas com cabelos loiros como os do pai. Richard, pai das duas meninas, era americano e um ano após o nascimento delas, ele as deixou voltando para os Estados Unidos, lugar este que, segundo Giovanna, ele nunca deveria ter saído. Bianca e Carmem, era o nome das gêmeas, da última vez que Giovanna foi ao Brasil as gêmeas eram ainda pequenos bebês.

- De forma alguma eu conseguiria viajar com essas duas bagunceiras, por mais que seja apenas uma hora e meia de viagem. Você verá Cecília, elas estão impossíveis, mas muito animadas com sua chegada. Elas não gostam muito de morarmos apenas as três, adoram ver a casa cheia e adoram mais ainda ter mais alguém para infernizar. – a mais velha soltou uma risada nasalada e pegou uma das malas para ajudar a sobrinha.

A viagem até BURCANES fora tranquila, Cecília contou como estavam as coisas no Brasil enquanto Giovanna contava como estavam todos da enorme família Costa. Aparentemente, o parente que morava mais perto era seu primo, Pablo, que morava ali mesmo em BURCANES e dividia um apartamento com seu parceiro, Romulo. Assim que seu primo assumiu sua homossexualidade foi um alvoroço só na família, tanto que em menos de duas horas, Pamela já tinha recebido ligações de todos da família para contar sobre. Mas, hoje, quase dois anos depois, a família já estava acostumada e Romulo já era um membro bem presente da família, todos adoravam o casal, Pablo não poderia ter escolhido melhor. Cecília estava animada para rever o primo, apenas 3 anos mais velho que ela, e para conhecer o tão famoso Romulo que, por acaso, também era brasileiro.

A casa onde Giovanna morava com as gêmeas, era simples, com dois andares, a faixada era toda de tijolinhos marrons, uma enorme porta de madeira ficava no meio, com duas janelas do lado esquerdo e duas ao lado direito. Ao adentrar Cecília foi tomada por um cheiro delicioso de macarrona. Oh, ótimo começo, Itália é igual a massa. A morena já se imaginava voltando para o Brasil com belos e gostosos vinte quilos a mais. A sala era igualmente simples, com um sofá de dois lugares no canto esquerdo da sala, com uma bela televisão logo a frente, um tapete colorido ocupava o espaço entre os dois. Ainda na sala, no lado direito ficava uma mesa com quatro cadeiras, a mesa era forrada com uma toalha branca rendada, o que parecia ser a mão, com quatro pratos e quatro taças, um jarro com um belo ramo de flores se encontrava no centro da mesa dando um ar mais animado a decoração.

- Acho que chegamos na melhor hora, titia. Hora do jantar! – Cecília disse, animada, ela adorava uma boa comida e a italiana estava entre as melhores do mundo.

- Oh, esqueci-me de lhe contar, querida, Romulo é o melhor chefe de cozinha que temos por aqui. Um dia iremos ao restaurante dele, que fica bem no centro do vilarejo, você irá adorar! – a tia disse enquanto pegava do chão alguns brinquedos das gêmeas bagunceiras.

- Oh, primo Pablo e o Romulo estão aqui?

- Sim sim, querida, os obriguei a cuidarem das gêmeas. Estão querendo adotar uma menina no final do ano, disse a eles que treinar com as gêmeas seria a melhor. – Giovanna deu um sorriso maroto, com certeza, ele iria explorar o tanto que pudesse desse instinto paternal do casal.

- Primo Pablo! Primo Pablo! Eu já cheguei! – Cecília gritou, animada, para chamar a atenção de seu primo.

Logo um figura saltitante foi vista saindo de uma porta no final da sala, onde Cecília deduziu ser a cozinha. Pablo era, definitivamente, um homem muito bonito. Tinha olhos pretos e marcantes e bochechas lindamente desenhadas, como as de Cecília, os cabelos estavam um pouco maior desde a ultima vez que a mais nova o viu, mas isso o deixava ainda mais bonito. O primo usava uma calça jeans clara com uma blusa rosa salmão e um arco preto para evitar que alguns fios chatos caíssem sobre seus olhos.

- Oh, querida, mas você está deslumbrante! – Pablo a abraçou forte.

- E você então, primo, Romulo é um homem de sorte, olhe para essa pele! Mais lisa que pêssego! – Cecília elogiou enquanto passava a mão delicadamente pelas mãos macias do primo.

- Cecília, Cecília! Que corpo maravilhoso é este, mocinha! Alguém anda malhando! – o moreno girou a prima e logo lhe tascando um beijo em sua bochecha. – Venha aqui, querida, preciso lhe apresentar o homem mais bonito do Brasil depois do Caio Castro, é lógico!

Cecília soltou uma risada e seguiu o primo até a cozinha. Romulo estava bem a frente do fogão mexendo em uma panela. Ele tinha um cabelo curto e loiro escuro, o corpo era bem escultural, usava uma camiseta verde clara e calça social preta. Assim que ele virou-se para os dois, os olhos de Cecília se esbugalharam. Aquele homem era lindo. Tinha olhos pequenos e verdes, o queixo era bem definido e másculo, o sorriso então. Era tudo perfeito.

- Deus, Pablo! Que homem lindo! Fala sério, vocês são um casal tão maravilhoso que me deprime! – Cecília riu e logo abraçou Romulo, como se também fosse seu primo.

- Não seja bobinha, querida, você sabe muito bem que essa beleza incomum é herança de nossa família. – Pablo lhe deu um leve tapa no braço e logo virou-se para o namorado. – Todos nessa família gostam de receber elogios, Cecília não foge a regra.

Cecília revirou os olhos.

- Então, o que estamos tendo para o jantar? – perguntou Pablo passando os braços ao redor do ombro do namorado.

- Macarrão com um molho de manjericão. Espero que gostem. Não sabia ao certo o que fazer para você, Cecília, mas o Pablo disse que você adora massa, então...

- Ah, Romulo, eu adoro manjericão e massa, não tem como errar!

Cecília estava feliz por estar ali, se sentia a vontade na casa da tia e na presença dos primos, mas ela sabia que no momento em que estivesse já em seu quarto, totalmente sozinha, ela iria chorar. Chorar por estar passando por um momento tão difícil em sua vida, chorar estar longe do conforto de sua família e, principalmente, chorar por medo do que está por vir.

- Bem, então, vamos todos comer. Se puderem me ajudar a levar as coisas para a mesa ficarei agradecido.

Cecília pegou uma tigela de salada enquanto Romulo levava o macarrão e o vinho. Ao chegarem na sala tia Giovanna estava jogada no sofá com a televisão ligada enquanto ela ria de algum programa que passava.

- Vamos jantar, Gio! – Romulo avisou a mulher que logo se levantou e deu um beijo na bochecha de cada um.

Cecília sentou-se ao lado de sua tia e de frente para Pablo, que estava ao lado de Romulo. Todos se serviram e já estavam degustando do maravilhoso macarrão de Romulo quando Cecília percebeu que algo estava faltando.

- Ei, onde estão as gêmeas? – perguntou para Pablo.

- Elas já estão dormindo, querida, estavam muito ansiosas pro sua chegada, mas não conseguiram esperar acordadas. Amanhã pela manhã poderá vê-las.

O resto do jantar foi agradável. Romulo era um ótimo rapaz e parecia realmente gostar de Pablo, o que enchia o coração de Cecília de alegria, seu primo era muito querido, um ótimo amigo e conselheiro, ele merecia o melhor e, pelo o que se podia ver, Romulo era o melhor para Pablo. Assim que terminaram de lavar a última panela, Romulo e Pablo foram embora deixando um convite para que Cecília fosse visita-los assim que pudesse e a menina realmente pretendia retribuir a visita em breve, só precisava se adaptar ao local.

- Então, Cecília, estava esperando que fossem embora para, finalmente lhe perguntar. O que lhe traz aqui? – Giovanna perguntou enquanto conduzia a sobrinha até seu novo quarto.

- Oh titia, ser uma bruxa nem sempre é fácil, isso me trouxe consequências. – Cecília encarou o chão com tristeza nos olhos.

- Desagradáveis, pelo visto, você sabe que sempre fui contra essa coisa dos seus pais de tentarem “esconder” o que nós somos. Sua mãe era uma bruxa maravilhosa até conhecer seu pai ele acabar com tudo. – Giovana disse com certo rancor em sua voz.

- Papai só queria o melhor para nós, titia. A questão é: não posso mais ficar no Brasil por um tempo. – a mais nova encarou a tia por uns segundos e tentou passar pelo olhar que não queria mais falar sobre isso.

A bruxaria estava no sangue dos Costas desde que o mundo é mundo. Os conhecimentos eram passados de pai pra filho e assim os costumes, as comemorações e, principalmente, a magia ia passando para todos da família, mas não tinha sido assim com Cecília, assim que seu irmão mais velho, Marco, veio ao mundo seus pais voltaram para o Brasil na intenção de nunca revelar a origem da família, mas nada saiu como previsto. Marco passou a desenvolver seus dons muito cedo. Marco Morns tinha o incrível dom de controlar o fogo. Os pais perceberam que não poderiam ir contra isso no primeiro incêndio que Marco causou após uma discussão com um colega. Aparentemente do nada, uma mesa pegou fogo no refeitório. Então, os pais de Cecília mudaram de estratégia. Eles contaram desde o começo para os outros filhos, mas lutaram contra isso com todas as forças e estava dando certo. Até Cecília.

- Muito bem, querida, conversamos sobre isso mais tarde. Deve estar cansada, vou lhe levar até seu quarto.

Giovanna guiou a sobrinha até o segundo quarto a direita e abriu a porta. O quarto era pequeno, mas bem aconchegante, no meio do quarto tinha um cama de casal com uma colcha rosa cobrindo o colchão, logo na frente da cama havia uma televisão pequena, logo ao lado direito uma escrivaninha com um computador e alguns livros, já no lado esquerdo da cama tinha uma porta de vidro que levava para uma pequena sacada de madeira.

- Oh, titia, é lindo, muito obrigada mesmo. – Cecília abraçou a tia e lhe lascou um beijo na bochecha.

- Por nada, querida, estamos muito felizes de recebe-la aqui, quero que saiba bem disso. Tenha uma boa noite.

Assim que Giovanna fechou a porta do quarto, Cecília se jogou na cama e encarou o teto por longos segundos. Tinha sido um longo e cansativo dia, mas tudo tinha saído como o esperado, sem maiores problemas.

- É, agora já era, Cecília, você está completamente sozinha.

Mas, na verdade, Cecília Morns tinha mais pessoas ao seu lado que conseguia imaginar.

Cecília sentia algo lambando seu braço direito. Assim que abriu seus olhos a menina viu enormes olhos castanhos a encarando e logo um focinho estava tomando conta de todo seu campo de visão.

- Ok, não fui informada de sua existência, ser fofo, mas estou adorando! – Cecília cochichou pra o cachorro em sua frente e logo se levantou num impulso.

Ali na sua frente estava o labrador mais lindo que já vira na vida. O pelo era caramelo e os olhos de castanho escuro, o cachorro parecia estar sorrindo para a morena, ele tinha um brinquedo entre os dentes e pulava para todo lado do quarto.

- Petúnia, aqui está você sua cadela malvada! – uma vozinha estridente tomou conta do quarto.

Logo duas pessoinhas com cabelos loiros como ouro entraram saltitantes no quarto. As gêmeas estavam lindas. Uma delas tinha o cabelo mais curto na altura do queixo enquanto a outra tinha o cabelo mais longo. Tinham lindos olhos verdes como os de Giovanna e as bochechas rosadinhas.

- Prima Cecília! – disseram, animadas, e antes que Cecília pudesse responder as gêmeas tinha saltado na cama e os bracinhos estavam em volta do pescoço da morena.

- Olá, meninas, como vocês estão lindas! – Cecília disse com a voz meio abafada pelos cabelos loiros que lhe impediam de ver qualquer coisa.

- Ora, meninas, vocês vão matar a prima Cecília antes mesmo que ela tome o café da manhã! – Giovanna disse enquanto entrava no quarto com um avental florido.

- Bom dia, titia. – Cecília disse sorridente enquanto ajudava as meninas a descerem da cama.

- Bom dia, querida, vim aqui lhe chamar para tomar café da manhã e avisar que logo após vamos nos arrumar e vamos cuidar de sua matricula no colégio da cidade e vamos dar umas voltas para você conhecer melhor a vizinhança.

- Sim, titia, vai ser um prazer, vamos todas descer então?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.