Beautiful Mess
6 Capítulo 5 - I'm in Bristol, Babe!
Notas iniciais
Capítulo 5 – I'm in Bristol, Babe!
Dei um pulo e quase caí do sofá pela terceira vez naquela manhã, quando mais um trovão ecoou do lado de fora do apartamento e me fez sentir que o edifício mexeu levemente com a intensidade do fenômeno. Respirei fundo, me ajeitando novamente no sofá, e voltando a prestar atenção no filme que passava: Star Trek Into Darkness.
Acordei duas horas mais cedo que o planejado. Aparentemente a viagem de ontem tinha me deixado tão cansada que eu acabei indo dormir bem cedo, embora pensasse que estava um tanto quanto tarde. E isso me fez despertar às sete da manhã, em um apartamento silencioso e adormecido, e com um guarda roupas inteiro para organizar. Após tomar um banho e realizar minha rotina matinal, me coloquei a realizar o trabalho. Logo depois de terminar, por volta das oito e meia, peguei meu celular, ainda de pijamas, coloquei meus chinelos e fui em direção à pequena, porém aconchegante sala de TV do apartamento.
Fiquei durante algum tempo sentada na sala assistindo qualquer coisa, até que começou a chover e eu senti o ar ficar mais gelado. Assim que achei o filme na TV, voei para o quarto para pegar meu edredom, pronta para passar o resto da manhã ali, admirando o lindo e maravilhoso Chris Pine. Dei uma rápida parada na cozinha e peguei uma tigela com cereal e leite para o café da manhã, pronta para minha sessão nerdice.
O filme já estava quase no final agora, eu já tinha terminado meu café, e estava sentada no sofá morrendo de tédio. Colin não havia dado nenhum sinal de vida, e eu estava sentindo como se morasse sozinha naquele apartamento, tão novo, mas ao mesmo tempo já extremamente aconchegante.
Quando os créditos do filme começaram a rolar tela acima, ouvi a porta do quarto de Colin finalmente se abrir. Alguns passos no corredor, e a porta do banheiro foi fechada. Vinte minutos depois ele estava andando até a sala, com o cabelo totalmente ajeitado, mas ainda nas calças de moletom que ele provavelmente usava de pijama, na camiseta cinza com os escritos Geek Forever, e uma cara de sono que, vou confessar, o deixava fofo.
Ele pareceu não perceber minha presença de primeira, talvez por causa do sono, ou talvez por causa da fome matinal, e apenas seguiu direto para a cozinha, pegando dois ovos, uma frigideira, e se colocando a prepara-los. Depois de ter terminado tudo, se alimentado e colocado as louças na lavadora, ele finalmente caminhou até a sala. Arregalou os olhos, aparentemente surpreso ao me ver lá largada no sofá, mas logo depois sorriu, e se jogou ao meu lado.
– Pensei que você ainda estivesse dormindo. – Ele falou, chegando mais para o meu lado. – À propósito, bom dia! – Ele falou, depositando um beijo demorado em minha bochecha. Alguns arrepios subiram pela minha coluna, e eu me senti subitamente desconfortável com a sensação, apesar de, contraditoriamente, acha-la agradável. Sorri para ele, e dei um beijo em seu rosto também.
– Bom dia. – Respondi, e ele sorriu, voltando a se encostar no sofá. Ofereci uma parte do edredom para ele, que pegou de bom grado e deslizou ainda mais para o meu lado, se aconchegando debaixo das cobertas. – Acredite, eu queria ser igual a você e ter dormido até agora. Mas acordei quando ainda nem eram sete da manhã direito. Provavelmente por toda a adrenalina da mudança e tal.
Ele confirmou com a cabeça.
– Quando mudei para cá foi assim também. Passei a primeira semana aqui madrugando. E consequentemente, ficava largado o dia todo no sofá, e por falta do que fazer acabava indo dormir cedo. O que fazia com que eu acordasse cedo no outro dia. Mais uma vez. – Ele falou, e eu ri.
–Espero que isso não aconteça comigo. Porque sabe, eu gosto muito de dormir. – Falei, e ele me olhou de cima a baixo.
– Percebi. Você nem tirou o pijama e se largou na sala com o edredom. Isso é claramente um sinal de quem tem um tesão inexplicável pela cama, e consequentemente pela atividade intitulada “dormir”. – Ele falou, e eu revirei os olhos.
– Olha quem tá falando. Você acordou agora, ainda está de pijama, e, sem ofensas chuchu, mas tá parecendo um zumbi. – Falei, e ele gargalhou, largando a cabeça no meu ombro.
– Eu podia retribuir seu elogio, mas minha mãe me ensinou a ser um cavalheiro, e consequentemente a não ofender as damas. – Ele falou, e foi minha vez de rir. – E eu acho bom você ir se acostumando a essa visão matinal maravilhosa, porque sendo sincero, enquanto eu estou de férias, e nos finais de semana, eu passo metade do dia assim, e só troco de roupas quando vou sair, ou quando alguns dos engraçadinhos que eu chamo de amigos resolvem aparecer sem avisar. Caso contrário, pijama rules.
Concordei com a cabeça, enquanto pegava o controle e começava a mudar de canal, em busca de qualquer outra coisa para assistir, uma vez que o filme havia acabado. Encontrei um canal em que passava O Senhor dos Anéis e as Duas Torres, e deixei ali. Ao que parece, esse ia ser um típico Geek Day. Meus favoritos.
– Espero que você não se importe se eu adquirir esse hábito de ficar de pijamas o dia inteiro também. Eu sempre quis fazer isso. Mas lá em casa, se eu aparecesse pro café da manhã de pijamas, mesmo nas férias, ou nos finais de semana e feriados, minha mãe tinha um chilique e não me deixava comer até eu voltar para o meu quarto, colocar uma roupa apresentável, e voltar para a cozinha para ela aprovar.
Colin me olhou incrédulo.
– Por que é que sua mãe fazia um terrorismo desses com você? Gente, impedir as pessoas de comer é pecado! E tudo por causa de um pijama? Credo. – Ele estremeceu, chacoalhando a cabeça. – Minha mãe nunca ligou. Aposto que eu parecia um mendigo dentro de casa.
Suspirei, virando-me para ele.
– Ah, você conhece minha mãe. Ela é completamente paranoica com organização e boa apresentação. E ela é tão cismada com aparência quanto é com a organização e limpeza da casa. – Falei. – E ela só fazia isso porque, segundo ela, ‘qualquer um pode aparecer aqui em casa para uma visita surpresa, a qualquer hora do dia, então você precisa estar no mínimo apresentável. Nada de pijamas!’.
Revirei os olhos, enquanto imitava minha mãe e fazia Colin rir.
– Esse é um dos motivos pelos quais eu quase não saía do meu quarto nos finais de semana e nas férias. Caso uma visita aparecesse de surpresa, não tinha problema algum eu estar parecendo um mendigo, com as roupas velhas que eu uso de pijama, e com os cabelos todos bagunçados. Eu simplesmente ia estar no meu quarto trancado e ninguém ia me ver. Sempre deu certo. – Ele deu de ombros.
Ficamos jogando conversa fora por uns bons minutos. Depois resolvemos prestar atenção no filme, que já passava da metade. Mesmo assim não me incomodei. Eu simplesmente amo O Senhor dos Anéis.
Depois de assistir ao restante do filme, ao Retorno do Rei, que passou logo em seguida, e ainda ao O Hobbit, Colin finalmente se virou para mim, com cara de cachorro que caiu da mudança. Ergui uma das sobrancelhas, olhando-o com desconfiança.
– Essa cara... O que você quer? – Perguntei, e ele encostou a cabeça no meu ombro mais uma vez, e começou a esfrega-la. O perfume dele entrou pelas minhas narinas e eu juro que entrei em um estado de êxtase, enquanto sentia outro arrepio, dessa vez na barriga. Ignorei as sensações novas e assustadoras demais que se apossavam de mim.
– Eu to morrendo de fome. A gente pode sair pra comer, por favor? – Ele perguntou, ainda com a mesma expressão. – Eu não to nada a fim de cozinhar. E eu sei que tá chovendo pra caralho lá fora, e que apesar de estarmos no verão, graças à chuva, está meio frio. Mas eu realmente não quero por a mão na massa, e eu sei muito bem que você não sabe cozinhar direito.
Olhei para a cara dele, pensando em como ele podia imaginar que eu ia negar um pedido desses. Além de sair do apartamento e finalmente dar uma olhada em Bristol, não teria trabalho nenhum sujando louças, e consequentemente lavando-as. Porque sério, a lavadora não ia dar conta de todas as panelas que usaríamos para fazer uma refeição básica.
– Você não precisava nem perguntar. Assim como você, não to a fim de cozinhar. Além de não saber direito, eu tenho preguiça de lidar com a louça depois. Além disso, ainda não estou pronta para virar dona de casa e tomar conta da cozinha. – Falei, e ele sorriu, levantando-se e caminhando até o corredor, enquanto falava.
– Vou trocar de roupa. Daqui a pouco te encontro aqui para irmos. – Ele parou antes de entrar no quarto e me olhou, enquanto eu pegava o celular na mesinha de canto, e colocava o edredom nos braços, fazendo o mesmo caminho que ele. – Ah, e procura por alguma roupa quente, ok? Se já estamos sentindo um ventinho gelado aqui dentro, lá fora vai estar bem pior.
– Europa, um continente onde, mesmo durante o verão, a gente passa frio. Podia variar um pouco, né? Fazer um solzão, e não ventar nem chover nem um pouco. – Falei, abrindo a porta do meu quarto e entrando, deixando-a aberta enquanto colocava as coisas em cima da cama já arrumada. Colin concordou, entrando no quarto dele, e murmurando um ‘a esperança é a última que morre. Keep the Faith!’, e logo depois fechando a porta. Revirei os olhos rindo, e fechei minha porta, caminhando até o guarda roupas e escolhendo roupas confortáveis e quentinhas. Em alguns minutos eu já estava pronta. Apenas dei uma ajeitada nos cabelos e deixei o quarto, indo para a sala novamente e me sentando no sofá, esperando Colin aparecer. Alguns minutos depois ele deixou o quarto, ajeitando o casaco cinza com os escritos Hogwarts e o brasão da escola estampados. Ergui as sobrancelhas e me levantei, seguindo até ele, que já pegava suas chaves e abria a porta.
– Nunca pensei que você fosse um Geek. – Falei, apontando para o casaco. Ele olhou para a estampa e sorriu.
– Isso mostra o quanto você me desconhece. Cara, ninguém é mais geek do que eu. Eu vivo pra séries de TV e filmes, e tudo o que envolve ficção científica e sobrenatural. – Ele falou, enquanto andávamos os dois para fora do apartamento, e ele fechava a porta. Enquanto ele a trancava, chamei o elevador. Ele logo guardou as chaves no bolso do casaco e se juntou a mim. – Sou um típico nerd.
Olhei para ele sorrindo.
– Acho que vamos ter um pequeno problema com a sua afirmação de que ‘ninguém é mais geek do que você’. Porque, sinto te informar meu amor, mas eu sou tão geek quanto você. E não existe discussão sobre isso. – Falei, e ele arregalou os olhos surpreso.
– Nunca imaginei você gostando desse tipo de coisa. – Ele falou, e eu ri, enquanto o elevador abria e nós entrávamos nele.
– Eu assisti Star Trek hoje de manhã enquanto você estava dormindo. Depois assisti As Duas torres, O Retorno do Rei e O Hobbit com você. Quer mais provas do que essa de que sim, eu sou uma geek assumida? – Perguntei, e ele negou sorrindo.
– Estou começando a perceber que eu estava errado quanto ao pensamento de que já conhecia você. A cada minuto que passamos juntos, sendo civilizados e conversando, eu descubro mais coisas que nunca imaginaria sobre você na minha vida. – Ele falou, e eu sorri.
– Do mesmo jeito que você disse que não te conheço direito, acho que você também não me conhece. Podemos trabalhar isso aos poucos. Já vi que podemos ser amigos. – Falei. Ele concordou.
– E bons amigos, pelo visto.
Deixamos o prédio quando já havia parado de chover, e apenas um vento não muito forte, porém bem gelado, soprava pelas ruas de Bristol. Colin disse que iríamos para um restaurante bem perto de casa, e durante o caminho, enquanto conversávamos sobre várias coisas de nerd, dada nossa recente descoberta de que ambos éramos geeks, eu analisava cada ponto da cidade que captava meus olhos. Desde os prédios e casas, até as placas de indicações das ruas.
Chegamos ao restaurante não muito depois, e logo que conseguimos uma mesa fizemos nossos pedidos e finalmente nos alimentamos. Vou confessar que eu já estava quase desmaiando de tanta fome. Sem falar que a comida do lugar era realmente deliciosa e eu fiquei imensamente feliz por Colin ter sugerido que viéssemos almoçar fora. Eu duvido que qualquer um de nós, tanto eu quanto ele, fosse fazer algo tão bom na cozinha.
Depois de terminar o almoço resolvemos ir ao Starbucks que ficava logo ao lado. Como o clima estava friozinho, comprei dois chocolates grandes, um para mim e outro para Colin. Ele ficou me esperando do lado de fora enquanto eu pegava e pagava os pedidos, já que eu insisti para pagar as bebidas, uma vez que ele não havia me deixado pagar o almoço.
Entreguei a bebida a ele, que me agradeceu com um beijo rápido no rosto, reforçando a pose de cavalheiro que ele vinha tendo nos últimos dias, e consequentemente a minha ideia de que eu havia sido uma idiota por todos esses anos, desenvolvendo esse ódio sem cabimento por ele.
Conforme andávamos pelas ruas, ele estendeu o braço para mim, que o peguei de bom grado. Ele me levou para um ‘tour’ bem rápido naquela parte da cidade, apenas para me mostrar os pontos úteis mais próximos de casa, como supermercado, shopping, restaurantes, livrarias e bibliotecas. Ele apontava para todos os locais que achava que seria útil me apresentar e me explicava com entusiasmo tudo sobre o local. Ficamos andando até nossas bebidas acabarem, e depois andamos mais um pouco até uma garoa começar a cair, fazendo com que corrêssemos de volta para o apartamento. Para a nossa sorte, estávamos bem perto do prédio, e acabamos chegando antes da chuva engrossar. Entramos no elevador aos risos, causados por alguma piada nerd e sem noção que o Colin contou. Alguns outros moradores que estavam no elevador junto com a gente se assustaram um pouco. Pedimos desculpas para eles, e tentamos controlar o riso, mas assim que chegamos no nosso andar começamos a gargalhar novamente.
– Amei nossa aventura da hora do almoço. – Falei, enquanto me jogava no sofá, e Colin se sentava ao meu lado. Me endireitei ali, e no mesmo momento em que ele percebeu que eu estava devidamente sentada, pegou uma das almofadas bem fofas que havia ali, colocou-a no meu colo, e deitou a cabeça ali. Não fiz objeção alguma. Na verdade, apreciei a atitude.
– Foi bem divertido. Aquelas velhinhas no elevador e aqueles olhares reprovadores pelas nossas risadas foi o ponto alto. Eu até tentei me segurar, mas é incrível, sempre que não posso rir, eu tenho ataques de riso incontroláveis. – Ele falou, e eu ri mais um pouco, concordando.
– Eu também. Até eu conseguir parar de rir, é uma eternidade. – Falei. Ele riu fraco, e então nós ficamos em silêncio.
Ao contrário do que possa parecer, era um silêncio confortável. Não conseguindo segurar meu impulso, comecei a passar as mãos pelos cabelos dele, lisos e bem arrumados. Vou confessar que minhas mãos estava coçando para fazer aquilo já havia algum tempo. Mais precisamente desde nossos dois últimos dias no hotel, quando realmente começamos a nos considerar amigos. Ele se ajeitou um pouco mais no meu colo, e deixou que eu passasse as mãos livremente por seus cabelos, coisa que eu fiz feliz da vida, porque eu gostei mais da atividade do que eu havia imaginado. Em alguns minutos, a respiração de Colin ficou pesada, e eu soube que ele havia dormido. Continuei passando as mãos pelos cabelos dele, com um sorriso bobo no rosto, enquanto pensava no quão rápido nós havíamos evoluído. Para duas pessoas que se odiavam, nós estávamos nos dando muito bem. Havíamos evoluído. Evoluído até demais.
Enquanto passava as mãos pelo cabelo de Colin e analisava sua expressão adormecida e tranquila, um pensamento tomou conta de minha mente, e eu me senti assustada ao constatar o quão certa eu poderia estar sobre ele. Todas aquelas novas sensações que tomavam conta do meu corpo quando Colin me abraçava, ou sequer encostava em mim. O riso bobo que aparecia nos meus lábios quando ele dizia ou fazia algo que eu considerava fofo... Tentei afastar o pensamento de que eu estava desenvolvendo algo que ia muito além da amizade por ele, e me obriguei a não pensar mais nisso, mesmo que fosse muito difícil, pelo fato de estar com a cabeça dele no meu colo, e os cabelos dele entre meus dedos, enquanto analisava a expressão dele, e cada traço, com muito interesse.
Eu me recusava a pensar em algo do gênero. Não que eu houvesse problemas com isso. Pelo contrário. Colin é um cara bonito. Muito bonito na verdade. As garotas viviam nos pés dele quando estudávamos juntos, e todas as minhas amigas babavam por ele e não entendiam como é que eu odiava ele. Até mesmo a Mari teve uma ‘fase Colin’ na vida, e eu, mesmo que me deixe constrangida admitir, achava ele bonito desde que éramos crianças, apesar de não ir muito com a cara dele.
Meu celular vibrou no braço do sofá, me arrancando dos pensamentos indesejados que tomavam conta de minha mente. Olhei rapidamente no visor, encarando uma das melhores fotos que eu e Mari havíamos tirado na vida, em que estávamos lado a lado fazendo caretas e sendo as melhores amigas mais esquisitas que alguém já viu. Sorri, lendo o nome dela logo acima da foto, e deslizando o dedo pela tela para atender.
– Boa tarde flor do dia! – Ela falou, e eu ergui as sobrancelhas, rindo com o comentário estranho que seguiu seu boa tarde.
– Hey... – Falei, animada – Espero que você saiba que seu comentário não fez muito sentido.
– Eu sei. Eu ia falar ‘bom dia, flor do dia’, mas já está de tarde. E boa tarde, flor da tarde não ia ficar muito bom. Então optei por misturar os dois períodos do dia. E pode admitir, ficou muito bom, porque eu sou um mito.
Revirei os olhos, rindo, mas ao me lembrar de que alguém tirava um cochilo no meu colo, tentei conter as risadas, para não balançar muito o corpo e não acordá-lo.
– Claro parabatai. Você é a pessoa mais mito que eu já conheci na vida. – Falei, usando o apelido carinhoso que usávamos uma com a outra, retirado da série de livros que mais amávamos na vida, Os Instrumentos Mortais, e ela riu – Algum motivo especial para a sua ligação?
– Na verdade não. Só acordei sozinha em casa de novo, já que minha mãe foi trabalhar muito cedo e meu pai volta de viagem só amanhã, e resolvi ir até sua casa. Até que lembrei que você já tinha se mandado pra Bristol, e fiquei com saudades, e me senti um pouco triste e depressiva. Então andei até sua casa, sua mãe me deixou entrar, e eu estou desde então trancada no seu quarto, jogada na sua cama e agonizando de saudades. – Ela falou, e eu fiquei por alguns minutos em silêncio, tentando visualizar a cena que acabava de ser descrita, e entrando em choque, porque a Mariana simplesmente não era assim. Ela percebeu meu silêncio, e desatou a rir. Safada. – To zoando com a sua linda carinha. Tava em casa sozinha pelos motivos que falei já, e tava passando maratona de Hannibal. Mas agora que entrou no intervalo e vão exibir outra série qualquer que eu não acompanho, até voltarem com a maratona, eu resolvi te ligar. Pra passar o tempo, sabe? Saber como andam as coisas, se você tá aproveitando seu primeiro dia direito...
– Claro. Porque você só lembra de mim quando suas séries de TV entram no comercial, ou quando acabam as maratonas. Muito bem, Mariana. Quero ver se você vai gostar quando eu começar a te trocar pelas minhas fanfics Malec. – Falei, e ela riu.
– Idiota. Eu ia te ligar de qualquer jeito, estivesse Hannibal no comercial barra pausa ou não. – Ela falou e eu pude imaginar o sorriso no rosto dela, uma vez que ele estava presente na voz também. – Você tá atoa em casa? Porque se você estiver, o que eu imagino que esteja, dado seu histórico de vida social, acho que você deveria pegar o computador e ligar o Skype, pra aproveitar que eu estou concentrada apenas em falar com você, e não em assistir Hannibal e falar com você. – Ela falou. Suspirei.
– Eu com certeza iria correndo pegar o computador pra gente poder conversar decentemente, mas infelizmente não dá. – Falei. Ela bufou.
– E por que é que não dá, Hallicia? Se você me falar que é porque tá tendo maratona de Star Trek na TV de novo, eu vou ficar muito brava com você. Você assiste esse negocio toda vez que passa. Falar com a sua parabatai é muito mais importante. – Ela falou e eu sorri, embora soubesse que ela não podia ver.
– Ta falando aquela que me dispensa toda vez que tem maratona de House, ou de Grimm, ou de Hannibal, ou de qualquer outra série que você acompanhe na vida. – Eu falei, rindo. – Voltando a sua pergunta barra bronca, não, não é porque tá tendo maratona de Star Trek que eu não vou pegar o computador pra falar com você. É que no momento eu estou incapacitada de levantar do sofá e me locomover até o quarto. Estou sendo feita de travesseiro.
Ela ficou em silêncio por uns bons cinco minutos, e eu cheguei a pensar que a linha havia caído.
– Mari?
– O Colin tá dormindo no seu colo? Ou tem outra pessoa aí? – Ela perguntou, um pouco rápido demais. Revirei os olhos.
– Eu por acaso conheço alguma outra pessoa aqui em Bristol pra ter outra pessoa aqui?
– Ah, vai saber né. Você pode não conhecer, mas o Colin com certeza tem amigos. – Ela falou.
– Mesmo que algum amigo dele estivesse aqui, eu não ia deixar um desconhecido deitar no meu colo e tirar uma soneca. – Falei.
– Então isso foi um sim para a minha pergunta. O Colin tá dormindo no seu colo. – Ela fez uma pausa, e depois praticamente me deixou surda com um berro que me fez afastar o celular do ouvido. – Como é que isso aconteceu? Eu pensei que toda aquela história de ‘estamos nos dando melhor’ fosse pura furada. Cara, você e o Colin se dando bem, sendo uns frufrus um com o outro, e ainda chegando ao ponto de autorizar sonecas no colo alheio? Só consigo acreditar vendo. Me diz que você não está passando a mão livre no cabelo dele como se não houvesse amanhã. – Ela falou, em um fôlego só.
– Err...
– EU SABIA QUE ISSO IA ACONTECER. MEU DEUS O DIA FINALMENTE CHEGOU. Por favor, não fiquem noivos antes de eu colocar os pés em Bristol. Quero estar presente quando ele pedir sua mão, pra poder filmar tudo, mandar para todos os familiares e amigos, e ainda colocar no youtube com o título de “I HATE LOVE YOU – UM PEDIDO DE CASAMENTO MEMORÁVEL”. E sem comentar que, eu tenho que estar aí quando isso acontecer porque é óbvio que sua madrinha sou eu, e madrinhas precisar estar presentes desde o começo. – Ela falou, e eu não consegui controlar a gargalhada, embora soubesse que minhas bochechas estavam corando.
– Vai se foder. – Falei, e ela gargalhou alto. Depois das risadas cessarem, voltei a me manifestar. – Mas sério, preciso falar sobre umas coisas envolvendo o tópico Hallie e Colin com você. Ando meio confusa com toda a mudança que aconteceu entre a gente. – Falei.
– Totalmente compreensível. Vocês passaram de um ódio épico pra um amor muito mais épico e viraram best Fucking Friends forever em um passe de mágica. Vou admitir que estou um pouco enciumada, mas ok, desconsidera. – Ela falou – Voltando ao assunto importante, me chama no Skype assim que você se vir livre dele. Ou então espera até eu chegar semana que vem, e a gente sai, só eu e você, para falar sobre isso. – Ela concluiu, e eu concordei.
– Vou esperar você chegar. Falar sobre esse tipo de coisa aqui em casa tem seus... Riscos. – Falei, e ela concordou.
– Riscos conhecidos como Colin. E como McDanner. – Ela falou, e eu concordei. Senti Colin se mexer no meu colo, e percebi que ele estava acordando. Voltei a atenção para o telefone e me apressei a encerrar a conversa com Mari.
– O belo adormecido tá acordando. Vou precisar desligar. Te ligo de novo assim que der. Ou te chamo no whatsapp. – Falei, e ela concordou com um murmúrio.
– OK, ok. Eu ia desligar de qualquer jeito, vai começar o round two com Hannibal. – Ela falou – Se cuida, ok? E pelo amor de Deus, vê se não faz nenhuma besteira antes de eu chegar aí e a gente conversar direito sobre os seus probleminhas épicos. Entendido?
– Entendido, chefa. – Falei, e Mari riu. Nós nos despedimos e eu finalmente desliguei o telefone.
Voltei a passar as mãos nos cabelos de Colin, e ele aos poucos despertou. Ele esfregou os olhos, ainda sonolento, e virou o rosto em minha direção, fazendo com que eu tirasse as mãos de seu cabelo em um lamento. Ele riu, percebendo minha reação, e eu rezei para que não estivesse, em hipótese alguma, ficando vermelha.
– Acabei de descobrir que a forma mais fácil de me fazer ficar inconsciente por tempo indeterminado é fazer carinho no meu cabelo. Tirei um cochilo tão bom que estou me sentindo renovado. – Ele falou, e eu apenas sorri, colocando as mãos de volta nos cabelos dele e passando-as sobre a espécie de franja que caía em uma pequena parte da testa dele. – Por quanto tempo eu dormi?
– Mais ou menos meia hora. Não mais que isso. – Falei. – Você tava parecendo um anjinho. Fiquei morrendo de dó de te acordar.
Ele sorriu.
– Fico feliz que não tenha acordado, porque o meu sono tava muito bom, mesmo. – Ele falou, e eu continuei minha atividade, sorrindo um pouco mais.
Ficamos assim por mais cinco minutos, e então o celular de Colin tocou. Ele atendeu ainda deitado no meu colo, e eu não ousei tirar as mãos daquele cabelo divino por sequer um minuto. Ele falou com o que eu imagino que seja um colega da faculdade de forma rápida e animada. Logo depois de desligar o telefone, se sentou feliz da vida, me olhando. Olhei feio para ele, demonstrando que não estava nem um pouco feliz de ele ter interrompido o meu carinho constante no cabelo dele. Fiquei com vergonha na mesma hora em que ele sorriu bobo para a minha careta.
– Uns amigos da faculdade chamaram a gente pra jantar em um restaurante japonês que abriu aqui perto durante as férias. Ta a fim de ir? – Ele perguntou, animado. Olhei para ele meio em dúvida.
– Chamaram você pra jantar, você quis dizer. – Falei, me sentindo desconfortável. – Não sei Cols, acho que vou ficar em casa. Não conheço seus amigos, e vocês não se veem desde o começo das férias. Precisam colocar o papo em dia e tudo mais, e aposto que ter a companhia de uma única garota que eles nem conhecem não está nos planos deles. Pode ir tranquilo, vou ficar bem aqui.
Ele negou com a cabeça antes mesmo de eu terminar a frase.
– Nada disso. Eu falei pra eles que não vou sem você. E além do mais, eles pediram pra eu te levar. Apesar de eu não ter ficado feliz com a notícia de você vir morar aqui no começo, e ter reclamado praticamente por todos os minutos da minha vida para eles, eles ainda assim ficaram curiosos pra ver quem é a menina que tem todo o meu ódio. – Ele falou, e riu, se corrigindo. – Na verdade, a menina que tinha todo o meu ódio. Porque vou confessar pra você: Todo aquele ódio que eu sentia por você é apenas uma lembrança negra no fundo do meu cérebro.
Ri da última fala, e concordei.
– Só pra te deixar tranquilo e ser legal, todo o ódio que eu sentia por você também evaporou. –Falei e ele continuou sorrindo, enquanto aguardava uma resposta. – Voltando ao assunto principal, eu realmente não acho que devo ir. Não conheço eles, vou me sentir deslocada.
Ele fez uma cara de cachorro sem dono, como a de hoje de manhã. Tentei não prestar atenção naquela cara, o que foi uma missão praticamente impossível, uma vez que ele ficava muito fofo fazendo bico, e além de tudo eu realmente estava tentada a aceitar, porque eu amo comida japonesa, e aquela cara só me influenciava de forma errada.
– Por favor Hallie! Eles são muito legais! Um pouco loucos talvez, mas ainda sim bem legais. E tenho certeza de que eles vão adorar você. E de que você vai gostar deles também. – Ele falou. Eu o olhei ainda em dúvida, e ele chegou mais perto de mim, sem desfazer aquela cara. Sem vergonha. – Vamos, por favor! Não vai ser a mesma coisa se você ficar aqui em casa. Você não conhece nada ainda, é seu primeiro dia na cidade, e na primeira vez que eu saio eu te deixo sozinha aqui? Isso ia me deixar com um peso gigante na consciência.
Revirei os olhos.
– Se eu falar que vou, você vai desfazer essa cara de cachorro sem dono, e vai parar de me encher o saco? – Perguntei, e ele deu de ombros.
– Isso depende, você vai? – Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha e dando um risinho diabólico.
– Meu Deus Colin, você não existe! – Falei, rindo – Eu vou, sim! Só me dá um tempo pra trocar de roupa e me arrumar. – Falei, me levantando e andando em direção ao corredor. Ele veio logo atrás de mim. – E antes que comecem as discussões: Vou tomar banho antes de sairmos, e eu não quero nem saber, eu vou primeiro.
Ele revirou os olhos, mas não discutiu comigo.
– Mulheres e suas manias de se arrumar toda. – Ele falou. – Só tenta não demorar muito, ok? Nós vamos sair lá pras sete e meia. Ainda são quatro horas, então temos tempo. Mas eu sei como vocês mulheres são demoradas pra se arrumar, então...
Bufei, e confirmei com um murmúrio enquanto ia até meu guarda roupas e pegava as roupas que usaria hoje à noite, caminhando até a porta novamente, onde Colin estava encostado.
– Espero que a comida seja realmente boa lá. Estou indo exclusivamente pelo sushi. – Falei, e ele riu. – Se eu não gostar, você vai ter que me recompensar de algum jeito.
Ele riu, me dando passagem para fora do quarto.
– Se você não gostar, eu deixo você fazer carinho no meu cabelo até eu dormir hoje, depois que a gente voltar. – Ele falou, e eu me animei com a ideia, já pensando em desculpas perfeitas para criticar a comida, mesmo que ela fosse boa. – E se você gostar, eu também vou deixar você fazer isso.
Sorri para ele.
– Proposta tentadora a sua. Acho que vou adorar ir jantar hoje, pra falar a verdade. – Falei, e ele riu.
– Vai logo, antes que você fique atrasada. – Ele falou, e eu sorri para ele, que sorriu de volta, e logo depois comecei a caminhar em direção ao banheiro no final do corredor, com um sorriso bobo no rosto.
Para meu primeiro dia em Bristol, até que tudo estava correndo bem. Na verdade, estava tudo correndo maravilhosamente bem.
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