Beatrice e Matheus

24 Seguindo o coração


Notas iniciais
Eu nunca pensei que isso fosse acontecer comigo e nem que isso fosse real. Mas eu me senti muito triste escrevendo esse capítulo, me senti mal. Eu espero que vocês gostem, apesar de ser um capítulo mais tristinho.

O confronto de Bia e Mati depois do beijo não foi nada esquisito. Ainda no final de dezembro, na confraternização de fim de ano no prédio de Isadora Constantino, poucos dias depois da formatura. Participaram da brincadeira de amigo secreto. Bia sorteou Matheus e Matheus sorteou Bia.

Bia sorriu quando pegou o papelzinho escrito Matheus. Sabia desde o primeiro momento o que compraria para ele: um jogo de tabuleiro, uma nova versão do jogo War, o preferido dele. Ou talvez o de Scotland Yard, o preferido dela. Eram presentes caros para amigo secreto, mas era Matheus. E ela decidiu não dar presentes de aniversário para ele por causa disso. Era uma forma de dizer que nada mudou entre eles. Matheus ficou um pouco sem graça por tirar Bia, mas não tinha nada a fazer. Deu a ela um cartão presente da livraria por não saber qual dos sete livros sobre os quais ela vem falando desde o começo de dezembro ela gostaria de ganhar.

Na hora da troca de presentes seus amigos gritavam que era “marmelada” e Bia não conseguia não ver graça da situação, mas Mati estava sem jeito. De qualquer forma, foi um bom quebra-gelo. Apesar de ter sido a primeira vez que se falaram desde o beijo, não tinha mais nada de diferente entre eles.

Só o fato de que Mati não conseguia parar de pensar em Bia. O tempo todo ele desejava nunca ter namorado Manuela, pensando em como seria namorar Bia. Se arrependia por achar que não tinha maturidade quando veio a oportunidade de ter um relacionamento com ela a um nivel diferente do de “apenas amigos”. Se achava maduro o suficiente agora.

Mas Matheus não tinha nem 15 anos ainda. A história aqui se repete. Da mesma forma que ele se considerava velho demais para brincar com bombinhas na festa de São João, ele pensava ter idade suficiente para seguir num relacionamento sério. Da primeira vez, bastou Bia aparecer para ele ficar encantado com os fogos. Da segunda, Bia mudou também a sua concepção de maturidade, mas isso vem mais tarde.

De qualquer forma, Matheus estava decidido a terminar com Manuela. E assim o fez pouco depois da virada do ano e pouco antes do seu aniversário, depois de ela voltar para Recife. Afinal, ele não terminaria com ela pelo telefone. Tomou muito cuidado com suas palavras. Não queria assustá-la com o “precisamos conversar” e nem ser insensível indo direto ao ponto. Então, decidiu contar uma história.

— Eu já te contei como foi que eu e Bia nos conhecemos? – perguntou, com pequenos temeliques no corpo devidos ao nervosismo.

Manu respondeu que não, perguntando-se aonde ele queria ir com essa conversa. Não tinha um pressentimento bom sobre isso.

— Foi na casa do meu tio. Era festa de São Jõao e eu estava brincando sozinho quando minha mãe decidiu me apresentá-la. É muito estranho pensar que já vai fazer cinco anos. – Ele tagarelava, quase imitando Beatrice.

Manu, já um pouco impaciente cruzou as pernas no banco onde estavam sentados, no prédio onde morava.

— A gente virou amigo logo de cara, todo dia a gente conversava no MSN. Ela foi estudar lá na escola e a gente foi ficando cada vez mais próximos. Eu era afim dela esse tempo todo. Até quando eu dei um beijo nela na festa de Júlia. Foi o primeiro, tanto meu quanto dela.

“E aí depois você apareceu. Bia morria de ciúmes de você, acho que ela ainda tem um pouco. E eu não gostava, porque você fazia ela se sentir mal. Mas foi só até eu te conhecer e perceber que por trás disso tudo você é uma menina ótima que só precisava de uma chance de fazer amigos.”

Manu deu um sorriso bem fraco ao dizer isso e apertou a mão de Mati. A cada palavra que ele dizia seu desconforto aumentava. Talvez no fundo ela soubesse onde Matheus queria chegar.

— Quando eu me apaixonei por você eu me senti culpado. Bia tinha muito medo de ser substituída por você e eu era o melhor amigo dela. Eu não podia fazer isso com ela. Mas eu dei ouvidos ao meu coração e é por isso que a gente está junto agora.

Matheus respirou fundo antes de dizer a última parte. Estava suando um pouco e decidiu olhar para Manu, ser o mais justo com ela possível.

— Eu gosto de você, muito, Manu. E eu tenho que seguir meu coração mais uma vez. A gente não pode mais namorar. Eu te amei, sim, Manu e ainda amo, mas não da forma que eu deveria. Eu beijei Bia na formatura e apesar de querer dizer que foi sem querer, eu não posso porque não foi. Eu acho que ainda sinto alguma coisa forte por ela porque desde aquele dia eu não paro de pensar nela. Me desculpe, por favor. Eu só não acho certo continuar contigo e te enganar dizendo que eu me sinto de um jeito que não é verdade. A gente precisa terminar.

Manu não tinha como reagir. Não iria fazer um escândalo ou dizer que estava tudo bem. Ela tinha sentido isso algumas vezes, a distância de Matheus. A sombra do pensamento de que ele era próximo demais de Beatrice. Um ciúme que ela pensava ser bobo e sem cabimento.

— Eu preciso ficar sozinha – foi só o que ela disse enquanto andava cabisbaixa em direção ao elevador.

Matheus respeitou o espaço dela e foi embora para sua casa, dois quarteirões de distância. Levemente aliviado por ter feito o que era certo, mas triste por magoar uma pessoa tão boa.

Manuela subiu os 12 andares até o seu apartamento lutando contra as lágrimas. Só conseguia sentir vazio e tristeza. Mas não queria demonstrar isso para a sua família no momento. Não para a sua mãe, que trabalhava em casa naquele dia, nem para o seu padrasto, que estava de férias. E, principalmente para o que se chama de irmã postiça: não tinha nenhuma condição de lidar com Bia naquele momento.

Notas finais
E só pra avisar: se acostumem porque outros tão tristes quanto (ou mais ainda) estão por vir. Amo vocês