Beatrice e Matheus
22 Formatura
Notas iniciais
Manu e Matheus eram um bom casal. Aquele que todos gostam de estar por perto e torcem pela felicidade. Nesse todos eu posso incluir Beatrice, que passou a aceitar mais os dois depois de começar a namorar Caio. Matheus, por outro lado, não engolia muito o casal Caio e Bia, mas não tinha muito o que ele pudesse fazer. Caio e Bia também era um casal amado pelos amigos. Na verdade, eles eram como aqueles casais típicos de filmes americanos, o rei e a rainha do baile.
Mas não estamos em um filme americano, tratamos de uma história bem brasileira, bem nordestina, bem pernambucana e bem recifense.
Não sei se é algo comum entre os adolescentes ou se foi um caso específico, mas depois de um tempo a paixão inicial foi esfriando. Aos poucos Matheus foi se cansando de namorar Manuela.
O primeiro motivo foi a necessidade que Manu tinha de se sentir amada o tempo todo. Matheus não era do tipo de não demonstrar sentimentos, mas se sentia sufocado pela carência dela. Outro deles era a sua implicância com Bia e algumas outras das suas amigas. Ele não suportava era ciúmes e Manu tinha uma certa cota irritante deles. Mas o principal deles e o que mais assustava Matheus era ele perceber que na verdade não amava tanto Manu quanto ele imaginava.
Sempre que pensava em algo do tipo, ele tentava chutar para o fundo da sua mente. Porque, apesar de irritante, o ciúme de Manu tinha um pingo de razão.

Final de ano é uma época maravilhosa. Temos o delicioso verão recifense que, para amantes de calor, como eu (e Matheus), é a melhor estação. Além disso, dá para reclamar dos meses de férias? Sem mencionar que as festas de fim de ano são deliciosas – o Natal é o melhor feriado de todos! Tudo bem, posso declarar um empate entre o Natal e o São João.
Fora isso, acontecem as festas de formatura.
Em 2010, Beatrice, Matheus e seus amigos estavam na oitava série (hoje em dia chamada de nono ano) do ensino fundamental, ou seja, o último ano antes do ensino médio. Apesar de eu não entender muito bem isso, algumas escolas costumam fazer festas de formatura para os concluintes do ensino fundamental. A escola deles era uma dessas.
Manuela não era muito chegada a festas, então decidiu não participar. Ela nem estaria em Recife na data da formatura, de qualquer forma. Combinou de passar o mês de Dezembro no Paraná, com o pai. Caio também não estaria presente, viajaria com a a mãe e as tias para passar o Natal na casa da sua bisavó: nunca se sabe quando vai ser o seu último ano.
Então, dia 17 de dezembro de 2010 aconteceu a formatura de conclusão do ensino fundamental da Escola Tal. As meninas estavam lindas. Bia, que finalmente criou gosto por moda e maquiagem, estava radiante no seu vestido de lantejoulas prateadas (mais conhecido como paetê). Júlia ousava num modelo azul marinho com um decote generoso. Valentina, que sempre foi a mais princesa das três, usava um modelo levemente rodado de cor rosa queimado. Mas não eram só elas: todas as meninas da escola pareciam bem mais bonitas que o habitual uniforme e cara lavada.
Nem Bia nem Mati recusavam uma boa festa e a formatura deles com certeza era uma. Sem Manuela ou Caio por perto, eles quase se sentiam como se tudo tivesse voltado ao normal. Não que fosse anormal os dois namorarem outras pessoas, mas desde então a amizade deles não era a mesma.
Eram mais uma vez parceiros de dança e como sentiam falta de um bom forró ou qualquer outro ritmo mais pernambucano. Manu até dançava, mas nunca ia ser tão boa forrozeira quanto Bia. Gostava mais de música eletrônica ou pop americano. Caio não sabia dançar nada e não gostava de ver Bia dançando com outros caras. Sim, isso era idiota, mas não incomodava Bia. Na verdade, ela quase não ia mais em festas: preferia ficar em casa com Caio, vendo filmes ou algo do tipo.
Beatrice aproveitou aquela noite como nunca antes tinha aproveitado. Talvez porque fosse o momento dela ou talvez porque ela tinha saudade daquilo tudo, mas ela dançou até não aguentar mais. Sentou por um momento na mesa da sua família, que estava vazia, já que eram todos tão festeiros quanto ela. Matheus a acompanhou e eles começaram a conversar, no início sobre coisas bobas, mas acabaram adentrando em assuntos mais sérios, mais sentimentais.
Não sei se eu já contei o quão incrível eu acho a amizade entre Bia e Mati. Talvez vocês tenham percebido isso nesses vinte e poucos capítulos. Eles tinham uma conexão provavelmente explicável pela psicologia, mas desconhecida para uma pessoa como eu. Era por isso que Mati se sentia tão confortável contando seus problemas para Bia.
Não que uma pessoa como Mati tivesse grandes problemas. Parte de uma boa família, cheia de amor e com estabilidade financeira. Contava com amigos maravilhosos. Era cercado de carinho por todos os cantos. Mas problemas são problemas e ninguém sabe o tamanho da aflição do outro. E isso não quer dizer que a pessoa é ingrata pela sua vida, mas sim que tem uma pequena, ou não tão pequena assim, coisa que a incomoda.
Mati queria conversar sobre Manuela.
— Ela iria detestar me ver dançando contigo a noite inteira — confessou. — Com qualquer menina, na verdade.
Bia inclinou-se para Mati a fim de fazê-lo ouvir melhor, com a mão esquerda sobre o ombro esquerdo dele.
— A gente devia ir lá fora — comentou. — Não dá para ouvir nada com essa “zoada” toda.
Então ela pegou escondido uma garrafa de champanhe que estava pela metade e duas taças e escondeu dentro do blazer dele. Deram uma daquelas trocas de olhares engraçadas, onde Matheus parecia perguntar “você está louca?” e Bia parecia responder “cala a boca e vem!” e saíram do salão.
Passaram por um lugar onde vários casais estavam se beijando e Bia se preocupou um pouco em ser vista indo naquela direção com Mati, mas logo ignorou. O amigo precisava dela e não seriam alguns boatos que a impediriam de dar ouvidos a ele naquele momento. Sentaram-se numa mureta na parte de trás da casa de festas, no estacionamento onde ficavam os carros dos fornecedores.
Bia serviu uma taça de champanhe para cada um antes de encorajar Mati a continuar com a conversa. Ele estava contando a ela o quão irritante era a necessidade de Manu receber atenção quando Bia cuspiu o primeiro gole da champanhe. Riram juntos quando Bia disse que era a primeira coisa alcoólica que bebia na vida.
— Você já bebeu antes? — perguntou para Matheus.
— Claro!
— Como assim o Matheus todo certinho é na verdade um cachaceiro? – brincou.
— Haha. Guilherme me dá algumas coisas de vez em quando. Desde que eu não fique bêbado...
Bia brincou um pouco mais com essa informação antes de voltarem ao assunto Manuela. E enquanto Mati se abria para ela, ele percebia o quão enrascado estava. Ele percebia o motivo pelo qual ele não podia mais namorar Manu: ele ainda era apaixonado por Bia.
A conversa foi chegando ao final enquanto ele terminava de reclamar sobre Manuela. Bia não tinha puxado a falta de habilidade em aconselhar que Clarisse tinha. Apesar de não estar realmente dando conselhos, ela sempre acabava ajudando.
— Mati, você ama Manu? — perguntou.
— Como assim? – Matheus assustou-se. Ele não tinha mencionado por um minuto a suspeita de não amar Manuela da forma que deveria.
— Quero dizer que você passou o tempo todo falando sobre coisas que são irritantes, mas que a gente consegue perdoar quando está apaixonado. Você tem certeza que a ama?
— Não. Eu não sei.
Bia abraçou o amigo. Ela não sabia exatamente o que dizer. Queria de alguma forma passar para ele sabedoria para lidar com a situação, só pelo abraço. Quem dera todos os problemas do mundo fossem resolvidos com um abraço...
— Bia, e você? — Perguntou Mati ainda abraçado a ela — Ama Caio?
Bia surpreendeu-se com a pergunta, que não tinha uma resposta. Desvencilhou-se do abraço para pensar por um segundo. Nunca se questionou sobre isso. Ela e Caio não eram o tipo de casal que fica de frescurinha por aí, como se definiam. Não tinha isso de eu te amo o tempo todo, nada de cartinhas ou SMS’s ou tweets fofos, nem se chamavam por apelidos “carinhosos”.
— Eu acho que sim — respondeu depois de um tempo. — Mas é um tipo de amor diferente de outros casais por aí. Com certeza um tipo de amor diferente do seu.
Bia bebeu o último gole de champanhe e decidiu que tinham de voltar para o salão. Mati agradeceu por Bia estar lá com ele, mas ele não estava nada agradecido. Ele se arrependia por ter dado chance a uma ideia idiota que seu coração teve. Queria nunca ter sequer olhado para Manu.
Principalmente naquele último momento, quando ele mudou de direção, beijando os lábios de Beatrice no lugar de sua testa.
Fale com o autor