Não posso afirmar que a família de Matheus é igual a qualquer outra porque isso não existe. Por exemplo, algumas famílias contam com animais, outras só com humanos. Algumas famílias são bem pequenininhas, outras, gigantescas. Algumas famílias contam com avós, tios e primos, mas para outros, eles são só parentes. Existem, também, famílias animadas, famílias sérias, famílias divertidas, famílias bagunceiras, famílias festeiras, famílias batalhadoras, famílias relaxadas e até famílias mafiosas. Porém, o componente principal, de uma forma ou de outra, está presente (e se você não sabe qual ele é, eu lamento muito, muito mesmo).

A família de Matheus atendia pelo sobrenome Agno (e eu garanto que não é o nome mais esquisito da história) e era composta de seis integrantes. O pai, Antônio, era formado em economia e trabalhava numa empresa imobiliária de Pernambuco que já tinha pertencido à família de sua mulher, mas tinha sido vendida recentemente devido à morte do fundador, Miguel Peixoto, sogro de Antônio. A mãe se chamava Mônica e era arquiteta e sócia de uma firma de arquitetura e às vezes se arriscava como decoradora de festas, e amava cozinhar. O filho mais velho do casal era Guilherme, 15 anos, cursava o primeiro ano do ensino médio e pensava em ser alguma coisa da área de ciências humanas, desde que pudesse mudar o mundo. Matheus era o filho do meio do casal. Não entrarei em detalhes nesta pequena introdução, vocês ainda conhecerão melhor o menino. A filha mais nova se chamava Isabelle, de sete anos. Ao contrário do que provavelmente parece até aqui, ela não era chata e mimada, só insistente e mandona. O sexto membro da família era a filha mais velha de Antônio, Laís. Fruto de uma namorada do pai na época da faculdade, vivia a quase 800 km de distância, em Fortaleza, mas que ninguém ousasse dizer que ela não era parte daquela família.

Aquele dia era o dia seguinte à festa de São João da casa do tio de Matheus e, contrariando os hábitos, todos os três filhos dormiram até mais tarde. Para crianças de até mais ou menos doze anos o mais tarde é oito e meia. Normalmente adolescentes acordam mais tarde, mas, como Mônica faz questão de seguir uma rotina regrada, eles acordam até, no máximo as nove num dia de preguiça. Tomaram café todos juntos à mesa, coisa que só era possível em fins de semana, e então cada um seguiu com suas atividades.

Matheus estava animado pela sua primeira vez sozinho em casa. Sua mãe iria com Isabelle num encontro de mães e filhas da escola deles que estava previsto para durar toda a tarde. Seu pai levaria Matheus a uma festa na praia num litoral próximo e ficaria por lá até o fim, afinal, não desejava desperdiçar tanto tempo e gasolina indo e vindo. E ele precisava mesmo conversar com o dono da casa, seu amigo de infância.

Maior que sua excitação em ser o dono da casa por uma tarde era a ânsia para descobrir a veracidade do relato de Beatrice.

Ele se ofereceu para retirar a mesa enquanto sua família se arrumava para os compromissos e efetivou sua proposta, rapidamente, para experimentar a excitação dos elétrons do sódio presente no sal de cozinha e sua volta para a camada de origem, exalando energia luminosa.

Apressou-se, pois em sua casa não era permitido usar o fogão na ausência de algum adulto responsável. E bem no momento que jogou um punhado de sal na boca acesa, Mônica flagrou o experimento.

— O que você está fazendo, Mati? – Inquiriu a mãe, cautelosa e carinhosa.

— É Matheus, mãe – respondeu o menino. – Mati era quando eu era criança. E eu “tô” tentando ver o sódio do sal.

A mãe não entendeu e o menino rapidamente explicou-se. Contou-lhe o que a amiga lhe ensinara no dia anterior sobre sódio, moléculas e química. Mônica compreendia a curiosidade do menino, mas o advertiu por estar fazendo bagunça. Orientou o filho a limpar o sal derramado e a deixar a cozinha organizada e pediu para que não fizesse tal experiência até ela saber se era segura. Só que a mãe nunca lembrou dela e, até a atualidade, Matheus nunca repetiu este experimento específico.