Beatrice e Matheus
17 Entrega
Notas iniciais
Manuela não era muito dada às pessoas. Tinha amigos e era até bastante conhecida por onde passava, mas não se entregava emocionalmente a ninguém. Não falava muito e quando conversava, a prosa ou era boba e alegre ou séria e profunda. Não arriscava-se em amizades online — o pai não lhe permitia conversar com estranhos na internet.
Por não confiar muito em pessoas, refugiou-se no mundo literário. Lia vorazmente, devorando livros robustos em pouquíssimos dias. Investia a mesada em séries de três ou mais volumes e era uma frequentadora assídua de bibliotecas. Um tempinho depois, passou a ler clássicos brasileiros e alguns estrangeiros. Deu uma passada rápida pela poesia, mas não criou raízes. Preferia a fluidez de um romance.
Apesar de ler ser um vício delicioso, era muito solitário, uma vez que não conhecia ninguém que compartilhasse do prazer pelas palavras.
Ao mudar-se para Recife, Manu decidiu mudar. Queria um relacionamento. Queria poder dizer “poxa, essa pessoa é minha amiga, e eu posso confiar nela plenamente”. Talvez a filha do namorado da mãe dela fosse essa pessoa, talvez não. Nunca teve vontade de fazer de Beatrice uma irmã, mas esperava algo a mais do que o recebido.
Existia uma barreira no relacionamento de Manu e Bia da qual nenhuma das duas conhecia a origem. Nas primeiras semanas, elas tentaram. Beatrice levava Manuela para conhecer a cidade ou para festejar com os amigos. Conversavam sobre as bobagens comuns a adolescentes: Bia contava as fofocas da escola e a explicava quem era quem. Tudo educadamente, com um pequeno distanciamento que nenhuma das duas sabia explicar.
Manu voltou ao lugar comum de conhecer muita gente, mas não se aproximar de ninguém, que tanto detestava. Sentia-se frustrada, decepcionada. Queria tanto mudar, mas era tão difícil! Tinha a impressão de abrir a boca só para falar de como era a vida na sua cidade natal ou comentar sobre coisas das quais gostava, como literatura clássica e animação — variando entre o “cult metida” e o “infantil boba”— e todo mundo detestava.
Então aquele menino Matheus mostrou o quão fofo ele era. Incluía Manu nas conversas e estava sempre tentando fazê-la se sentir confortável. Falava com ela sobre sua vida antes da mudança e fingia interesse pelos livros chatos que ele não leria nem se pedissem para a escola. Na verdade, era uma vantagem para Mati: tinha Bia para ajudá-lo em matemática e ciências e Manu em literatura e artes.
Manuela levou alguns meses para perceber, mas finalmente ela estava despida. Entregue à amizade, o que ela sempre quis. Matheus conseguiu tirar camadas de amargura que Manu tinha de si mesma (assim como tinha feito com Beatrice). Essa é a beleza da amizade: ela nos cerca de uma forma que nós nem percebemos. Um dia nos conhecemos, no outro somos irmãos. Não é lindo?
Não foi difícil para Manu se ver apaixonada por Mati pouco depois disso. Ela não tinha ninguém e de repente estava aberta a um sentimento que nunca experimentara. E Manu se jogou de cabeça.
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