Beatrice e Matheus
31 Abraço
Notas iniciais
Normalmente o tempo parece passar mais rápido quando algo bom acontece. Para Matheus, no entanto, julho levou uma eternidade para acabar. Talvez a presença de Bia fosse a razão.
Matheus não achava que passaria o último mês antes do intercâmbio com sua melhor amiga, porque lembra de sua mãe ter dito que queria férias em família. Felizmente para ele, a própria Mônica convidou não só Bia, mas também Olívia e Theo.
— Eles já são parte da família — Mônica explicou quando Isabelle perguntou porque não poderia levar uma amiga da escola para passar as férias com eles.
Olívia e Theo não puderam ir nas férias, pois fariam uma viagem em família, a primeira internacional deles. Dora e Leo, no entanto, ficaram desde o São João.
Mati e Bia sempre estavam em grupo. Na escola, eles eram muito amigos entre si, mas também tinham os outros do grupinho de mais ou menos dez pessoas. Quando estavam em uma situação familiar, seja com a família Agno ou com os Matoso, eles também andavam em bando. Olívia e Guilherme quase sempre estavam com ele. Às vezes Theo ou Belle, ou os dois, também. As férias de julho de 2011 não foram diferentes. Guilherme não passou as férias inteiras lá, então o grupinho formado foi, na maior parte do tempo, Bia, Mati, Dora e Leo, às vezes com a presença de Belle.
Os irmãos se chamavam Leopoldo e Doralice, nomes meio estranhos e antigos que eram disfarçados por apelidos mais normais. Bia se identificava com isso, apesar de eu, particularmente, não achar nenhum dos três nomes esquisitos.
Passavam o dia conversando ou jogando algum jogo de tabuleiro. Quando estava quente, eles iam para a piscina, que era o lugar preferido de Bia. Mesmo quando estava frio ou era noite, ela amava. A piscina ficava nos fundos da casa e tinha sua privacidade protegida por uma cerca de arbustos. Era tranquilo e reservado, onde os adolescentes viviam no próprio mundinho.
Dora e Leo eram, de longe, os primos preferidos de Mati. Eram um pouco mais velhos: Dora tinha dezoito anos e Leo, dezessete. Eram vizinhos de Mati durante sua infância, mas se mudaram para Minas Gerais uns anos antes de Mati e Bia se conhecerem. Apesar da distância, a amizade se manteve, nas férias, nos feriados, nas datas comemorativas e na internet. Bia os conhecia de ouvir falar, mas era a primeira vez que os via e ela os amou.
Belle estava com 12 anos, a um passo da adolescência. Aquela idade na qual você ainda é essencialmente criança, mas flerta com a vida adulta. E apesar de seus pais fazerem o máximo possível para não apressar essa saída da infância nos filhos, Isabelle vive numa sociedade que faz com que as crianças se apressem o máximo possível para entrar na adolescência. Por isso, ela convivia bem com os primos e irmãos mais velhos sem ser vista como a pirralha chata, mas também não perdia oportunidades de brincar e se divertir com as primas mais novas: ela ainda amava brincar de Barbie, mas fazia isso no sigilo e só com as primas.
Num domingo ensolarado quente demais para julho em Gravatá, os cinco jovens passaram a tarde na presença apenas dos avós. Os pais de Mati levaram os pais de Dora e Leo para o aeroporto, em Recife, e Guilherme foi junto, pois suas férias do estágio tinham acabado. Como estava quente, eles escolheram passar o dia na piscina. Foi tão agradável que, para o horror de vovó Maria, eles atrasaram o almoço para as 16h.
Depois de um dia na piscina e de almoçar o cozido com pirão de vovó Maria, eles decidiram ver o filme que Leo tinha passado dois dias tentando baixar devido a internet péssima. A temperatura tinha caído bastante desde que o sol se pôs, e o almoço pesado somado ao cansaço da piscina pediam uma atividade mais tranquila. Bia não tinha tanto interesse no filme, mas assistiu mesmo assim, porque sabia que dormiria no início. Matheus queria assistir esse filme desde o lançamento, mas acabou não indo ao cinema por falta de companhia. Dora já tinha visto o filme e gostou o suficiente para assistir mais uma vez. Isabelle queria ver pela socialização, não tinha paciência para filmes, principalmente de super herói.
Bia arrastou um colchão do quarto dos adolescentes — no qual ainda estavam dormindo — e pôs na frente do sofá para assistir deitada. Matheus, obviamente, deitou do lado dela. Dora não abriu mão do espaço do sofá bem na frente da TV. Belle sentou na poltrona do tio Luisinho, que ela ama, mas o tio nunca deixa ela, e nem ninguém, sentar lá. Leo ficou jogado no outro lado do sofá, só queria ver o filme, não importava onde. Os avós ficaram conversando na cozinha enquanto tomavam o cafezinho de todo dia.
Num movimento natural, aos primeiros cinco minutos de filme, Bia deitou sua cabeça no ombro de Mati. A partir desse momento, ele não conseguia mais prestar atenção em nada. Suava frio e tinha uma sensação de vácuo na barriga. Levou uns cinco minutos para voltar a si e reagir ao gesto. Passou a mão pelos ombros de Bia e a abraçou. Foi nesse momento que ela percebeu que estava deitada no colo de Mati. Ela também suou frio. Ela travou e seu primeiro instinto foi se desvencilhar do abraço. Entretanto, não o fez. Ficou ali, absorvendo um pouco mais do seu calor e cobriu os dois com uma colcha para espantar o frio trazido pela tarde quente.
Mais alguns minutos se passaram e Bia não resistiu ao cansaço, e nem à mão de Matheus lhe fazendo um cafuné, e cochilou. Sua consciência ia e voltava e ela sempre se surpreendia quando acordava no abraço de Mati. Às vezes, não conseguia resistir a um sorriso de canto de boca.
Mati, por sua vez, não conseguia não se conscientizar com a presença de Bia. Todo aquele calor que ela irradiava no dia-a-dia, sendo o mais aconchegante raio de sol, agora o tocava, numa condução que se aprofundava cada vez mais na sua pele. Matheus inspirava seu ar quente, que descia em convecção e seguia resfriando o estômago.
E esse calor não era abrasador, como seria tocar no sol. Não era desconfortável. Continuava aconchegante. E seguia aconchegante por todo o tempo em que se tocavam.
A mão massageando a cabeça de Bia foi natural para ele. E, por mais que detestasse passar muito tempo fazendo cafuné nas pessoas, dessa vez ele não se incomodou. E, frequentemente, olhava para ela e a encontrava dormindo, uma expressão serena, mas não tão bonita. Ninguém é bonito dormindo, nem mesmo Bia. Mas, ainda assim, seu rosto adormecido impressionava a Mati.
Às vezes, quando ela acordava de um breve cochilo, seus olhares se encontravam. Ele rapidamente virava o olhar e, corado, fingia que prestava atenção ao filme. Não tinha tempo de perceber os sorrisos de Bia.
Na segunda metade do filme, Bia despertou completamente. Àquela altura, não fazia mais sentido nenhum prestar atenção na trama. Passou os últimos minutos com os pensamentos acelerados, indecisa, questionadora, agitada e imaginativa.
Tudo isso por causa de um abraço. Isso só por causa de um abraço.
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