Beast
14 Destrua-me
Notas iniciais
Eren andava de cabeça baixa pelos corredores, quase colado à parede como se pudesse se camuflar a ela, tentando ao máximo não ser notado, mas era completamente inútil. O fato de ser quem era, ou melhor, o que era, atuava como uma placa brilhante e chamativa acima da sua cabeça.
E dessa vez, não tinha Levi ao seu lado. Não tinha uma voz imponente para se concentrar esquecendo de todas as outras.
Ouvia os sussurros maldosos, mas fingia que não. Sabia que estavam com medo por verem o "cão feroz" andar por aí desencoleirado, então fazia o máximo para ignorar, mesmo com a cara de pau alheia atrapalhando.
– Você é louca? Ele matou três homens quando era criança! — Ouviu uma voz irritante na esquina do corredor. Desacelerou os passos respirando fundo e fazendo um grupinho se afastar para o canto da parede quando passou por eles. Não podia se estressar.
" Tch, aquele maldito tinha que levantar até isso naquele julgamento. Quase que a Mikasa pagava o pato". Grunhiu irritado com a lembrança.
– Mas foi pra salvar a Mikasa, não foi? — Ouviu uma voz conhecida retrucando. Christa?
– Que seja, isso não é normal. — O garoto respondeu, fazendo uma coloração avermelhada de irritação tomar o rosto da loirinha.
– Eu no lugar dele tinha feito o mesmo, e não me arrependeria minimamente. — Respondeu Ymir. — Vocês que fazem todo esse drama só por que o garoto vira titã... Grande merda. Eu até pensei que sairia alguma coisa perigosa dali, mas ele continuou o mesmo lesado de sempre.
– Não precisava falar assim também, né? — A menor tentou repreender, mas a risada contida tornava isso impossível.
– Ué? Disse alguma menti... Hey, Eren, estávamos falando de você, chega aqui. — A morena acenou quando o viu ao longe, segurando o braço do garoto que estava com elas e até pensou em sair dali.
Eren não conseguiu segurar o sorrisinho de canto. Ymir era mesmo sádica, o garoto estava suando frio de medo.
– Oe. — Cumprimentou displicente, as esmeraldas voltando-se lentamente para os rostos de cada um.
– Cadê seu dono, totó? — Provocou com um risinho sacana, segurando o outro que tentava se afastar e recebendo um olhar realmente reprovador dessa vez por parte de Christa.
– Sei lá, foi cagar. — Deu de ombros, ouvindo a gargalhada exagerada da garota logo em seguida.
– Uiii, olha ele sabe brincar. — Continuava rindo, e a loirinha apenas balançava a cabeça negativamente. O temperamento de Ymir era um caso perdido. — Só estranhei, vocês estão sempre andando tããoo juntinhos, então achei...
– Estou andando e cagando para o que você acha. — Cortou sem dó nem piedade. Podia até parecer que estavam brigando, mas aquilo era apenas um diálogo comum entre os dois.
– É merda demais para uma conversa só. — Surpreendeu Christa, deixando todos boquiabertos por alguns segundos. — O que é? — Indagou franzindo as sobrancelhas.
– Nada não... — Eren e Ymir responderam juntos. Ver a pequena de traços tão adoráveis falando com um palavreado tão baixo era simplesmente bizarro.
Passaram alguns segundos em silêncio antes de seus ouvidos serem massacrados por um grito.
– EREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEN ~♥ — Um furação de cabelo castanho praticamente se lançou em cima do garoto, pulando em seus ombros e o fazendo agradecer a seus reflexos rápidos por ter conseguido segurar a mulher antes que os dois fossem ao chão.
– Er... Oi, Hanji-san. — Respondeu sentindo que sua audição nunca mais seria a mesma.
– Eu vou ficar responsável por você hoje, querido. — Falou animada, tentando distrair o mais novo do significado por trás daquelas palavras. — Ah, tenho taaanta coisa pra te mostrar no laboratório! — Exclamou, com ar de quem iria começar um falatório, fazendo Ymir, Christa e o garoto que estava com elas e permanecia pálido de nervosismo, se esgueirarem rapidamente, escapando de fininho. — Lembra daquele projeto que eu te falei? Pois então, já adiantei tanto! Preciso te contar cada detalhe do modo de...
– Ele não quer me ver, não é? — Eren cortou simplesmente, olhando o dia ensolarado pela grande janela do corredor.
– Não é assim também... — A cientista mal podia suportar encarar o olhar vazio do garoto.
– E ele pediu pra você ficar de olho em mim. — Falou em um tom vazio e magoado ao mesmo tempo.
– Quem pediu isso foi o Erwin, disse pra não tirar você de vista um segundo. — Falou segurando o braço do garoto e andando lentamente até o laboratório como se estivessem passeando. — Mas por que pensa isso do Levi? — Indagou percebendo que Eren agora estava alguns poucos centímetros mais alto, já que tinha que levantar o olhar para encará-lo de frente. Segurou o riso imaginando o quanto seu amigo baixinho iria odiar ouvir isso.
– Se eu não o decepcionei, talvez o tenha magoado. — Falou olhando para o chão, sendo pego completamente de surpresa quando a Tenente começou a... Rir. — Hanji-san?!
A mulher se curvava em uma gargalhada gostosa, rindo com vontade, como se Eren tivesse lhe contado uma piada das boas.
– Você... Magoar... O Levi? Você Eren? É sério? — Falava respirando fundo tentando se controlar, ainda mais quando viu a expressão ainda mais fechada que o habitual do mais novo. — Eu que te pergunto é como nunca te deixastes magoar pelas grosserias daquele lá. — Respondeu finalmente mais calma.
– Esse é jeito dele. — Deu de ombros simplista. Não tinha problemas com o temperamento do outro, ja que o seu próprio era terrível. Tinha questões muito mais complicadas que essas com o Heichou...
– Sabe Eren, eu quase sugeri ao Erwin que mantivesse vocês dois separados por uns dias. — Falou respirando fundo e logo se apressando quando o outro quis protestar. — Deixe-me terminar, sim? — Nesse ponto já tinha chegado no corredor do laboratório, completamente deserto por motivos óbvios, uma vez que era Hanji Zoe quem trabalhava por ali, e se encontravam em frente a uma das grandes janelas. — Eu soube que vocês iriam ter uma conversa séria. Não sei do que se trata... — Na verdade, sabia e sabia muito bem, mas não podia revelar isso agora. — Mas por ser séria, e pela cara do Levi, imaginei que talvez você não saísse muito bem dela... Ainda estou preocupada com isso na verdade. — Virou-se de frente para o adolescente de olhos verdes, vendo-o perdido na paisagem bucólica que se estendia até a floresta.
Eren segurava com mais força do que o necessário o parapeito de pedra, sentia os nós dos dedos doloridos. Era óbvio que não estava totalmente de bem com o que aconteceu, mas estava milhões de vezes mais preocupado com o que havia feito.
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Sua garganta já doía de tanto gritar, as lembranças passavam pela sua mente como se tivessem derramado um balde cheio delas na sua cabeça, deixando-o cada vez pior. Um enjoo subia pelo seu esôfago a cada imagem que era focada por seus pensamentos. Seu corpo contorcia entre os lençóis desarrumados como se estivesse delirando, e talvez estivesse bem perto disso realmente.
Tremia tanto que seus lábios mal formavam uma frase coerente, seus olhos fora de foco desejavam nada mais ver.
– Vai me responder? — O tom frio e imperativo de Levi o pressionava como um bloco de rocha maciça em cima do seu peito. Sentia-se impelido a obedecer, mas ao mesmo tempo não queria fazê-lo com todas as suas forças.
Sufocou com o próprio choro na garganta. Não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Sentia o chão sumir debaixo de si e a única coisa que o sustentava era aquele lado escuro e sombrio da sua mente. Se olhasse bem para lá podia ver dois olhos verdes e brilhantes o encarando de volta, convidando-o a abandonar essa realidade cruel e embarcar num estado de semiconsciência, onde só havia aquele brilho verde selvagem e desvairado no seu campo de visão.
– O que quer ouvir, soldado da humanidade? — A voz do garoto agora soava calma, com um toque ácido que Levi logo reconheceu.
– Era com você mesmo que eu queria falar. — Os olhos cinzentos finalmente tomaram coragem para encarar os esmeralda, dando de cara com aquele olhar que denunciava a loucura em cada tom de verde. — Eu tinha uma pergunta para te fazer, mas ela acabou se tornando duas quando percebi a relação entre os acontecimentos. Então vou direto ao assunto: Quando é que está pretendendo fugir?
"Prendeu o braço que tinha o pulso inteiro nas costas do garoto, encostando seu corpo contra a parede a sua frente, e puxou seus cabelos com a mão livre, os olhos do menino tinham um brilho que nunca havia visto antes. Um brilho cruel.
– Maldito... Não importa o quanto aquele idiota goste de você, não vai me impedir de terminar o que eu comecei miserável, ninguém vai! — Falava com tanto ódio que seus ombros tremiam com a voz que mais parecia um rosnado animalesco.
– Do que diabos você está falando? "
Uma risada insana preencheu o cômodo e o moreno sentiu uma veia estalando na própria testa.
– Não vai me impedir, já disse isso. — Retrucou com um ar determinado, comum do garoto, mas ao mesmo tempo com um olhar sádico que em nada lembrava Eren.
– Não vou mesmo. — Respondeu com um ar presunçoso quando viu aquela criatura que Levi tinha sérias dificuldades de enxergar como seu pirralho, refreando seja lá o que fosse dizer e o encarando surpreso. — Eu vou com você.
– Como?
– Não quer matar o Nile? Eu ajudo. — Falou encarando o mais novo com um olhar de quem ajudaria com prazer desde que pudesse ver o maldito em pedaços. — Vai ser difícil invadir o QG sem ajuda.
– Na verdade não. Mas se me encobrisse na saída seria perfeito. — Os olhos insanos se fixavam nos cinzentos com um interesse anormal.
– E como entrar não seria difícil pra você? — O moreno estreitou os olhos estranhando aquilo.
– Eu já te disse que o tem de mais sexy em você são os olhos? — Mudou de assunto repentinamente, o que não causou tanta surpresa ao soldado que já vinha preparado para ouvir de tudo.
– Se não me responder...
– Pode ler esses continhos eróticos doentios a noite toda que comigo não vai funcionar. — Falava descontraído, mas o soldado sabia que era um blefe. Podia ver as mãos trêmulas e o suor frio que lhe escorria pelas têmporas.
Percebendo que era friamente analisado pelo menor, o garoto mordeu o lábio inferior provocativamente, se aproximando o quanto deu.
– Vai ter que me convencer de uma maneira mais... Interessante. — Sua voz fluía docemente pelos lábios macios.
" Pirralho filho de uma..."
Levi tinha que admitir que ter Eren amarrado a uma cama e com aquela cara de arteiro a lhe dizer essas coisas era a visão do mais delicioso do pecados, mas ainda assim, preferiu pensar apenas no atrevimento alheio.
– Se não quer dizer, não vou insistir. — Falou em um tom de desdém, observando um bico de formar nos lábios do mais novo.
– Então eu só quero ver a sua cara de peixe morto daqui a quatro noites. — Falou emburrado, fazendo Levi erguer uma sobrancelha. — Não disse que ia me ajudar? Então seja competente. — Bufou, claramente irritado por ter levado um fora.
O moreno nem mesmo se alterou com o que ouviu, estava mais concentrado no que acabara de perceber. Estava errado em pensar no outro lado de Eren como algo completamente desconhecido e perigoso, estava começando a perceber que alguns aspectos marcantes da personalidade do garoto que pensou terem sumido quando ele voltou da prisão, ainda estavam ali, como a infantilidade gritante que só agora havia se dado conta.
Pensou em outros aspectos da personalidade do garoto e começou a reconhecer vagarosamente aquele ser que permanecia emburrado a sua frente. Haviam muitas coisas (a maioria delas) que não se encaixavam ainda, mas não podia negar que as que correspondiam eram essenciais.
Então o outro Eren também era o Eren original mais ao mesmo tempo uma outra versão do Eren?
Então o que seria aquele estado de loucura onde ele mal conseguia balbuciar alguma palavra? Um meio termo entre as duas personalidades?
Se bem que ele apresentava um comportamento parecido na forma de titã... Será que ele tinha esse problema todo esse tempo, mas só agora havia se manifestado devido ao forte trauma?
" Putamerda, isso vai me enlouquecer!"
– Eu vou te esperar com os equipamentos na entrada do bosque. — Respondeu suspirando pesadamente e se virando de costas.
Seria seguro deixá-lo ali? E quando o seu pirralho voltasse? Sabia que ele deveria estar abalado e não sabia se deveria deixá-lo sozinho.
Olhou para os diários que tinha colocado na mesa de cabeceira.
Talvez tivesse ido longe demais... Era a primeira vez que via seu Eren ficar fora do ar por tanto tempo.
Agora sabia que Eren tentaria fazer a burrada de ir atrás do Comandante da PM, e ao menos poderia impedi-lo antes disso, mas... Como ele reagiria quando o visse outra vez em seu estado normal?
E se... Ele não voltasse?
– Vai me deixar preso aqui? — Ouviu aquela voz mal criada se manifestar outra vez.
– Vou. — Deu de ombros decidindo permanecer ali.
– E se eu dissesse que posso te responder a primeira pergunta? Me soltaria? — Pelo que Levi pode perceber, estar preso era algo agonizante para ele, assim como para o Eren que conhecia. Era perceptível o modo como mexia os pulsos compulsivamente, agoniado com as correntes.
Quando fez a primeira pergunta, o seu objetivo era simplesmente enlouquecer o garoto o suficiente para criar as condições onde ele poderia lhe responder a segunda. Não esperava realmente uma resposta
– Que seja. — Respondeu tirando a chave de dentro do bolso e mirando profundamente os olhos verdes. Saberia se ele estivesse mentindo.
– Então... Tudo começou q-quando eles... Os malditos foram embora depois d... Uhgh! — Um gemido dolorido escapou pela garganta do mais novo que abaixou a cabeça como se tivesse levado uma pancada bem forte.
" Mas o que diabos...?"
– Oe, você... — O moreno se aproximou alguns passos, notando a respiração pesada do outro.
– Ele... Digo, eu... Pegamos uma lâmina e... — Fechava os olhos com força enquanto falava, sua voz saia arrastada como se algo tivesse a impedindo de sair. — Bem fundo... Na... Nuca... Não... EU DISSE NÃO! — Gritou se movendo bruscamente e batendo com tanta força na grade metálica da cama que o homem temeu que ele tivesse sofrido algum tipo de traumatismo.
– Ei! Eren! — Levi correu até o garoto quando ele começou a se debater e rosnar como se estivesse lutando. — Inferno! Acorda pirralho! — Segurou seu rosto, puxando-o na sua direção, encontrando seus olhos verdes completamente opacos, como se seu corpo fosse uma casca vazia. Lágrimas escorriam pela pele amorenada e sua expressão variava entre o ódio e o terror. — EREN! — Balançou seus ombros com força, tentando trazê-lo de volta a realidade.
Nada.
Era sempre assim quando o garoto ficava inconsciente. Levi provava do gosto amargo de uma coisa que pensou que tinha deixado para trás junto com as poucas fraquezas que possuía: A impotência.
Podia bater nele ou o que fosse, mas seus olhos sempre continuavam desfocados, podia gritar, mas sua voz não o alcançava.
Resolveu fazer como da vez em que estavam na sala do Comandante. Levou a mão até seu pescoço e fechou sem dó, ouvindo-o sufocar audivelmente enquanto arranhava seu braço e chutava desesperado.
Levi jamais admitiria, mas era algo perturbador e que não repetiria se pudesse. Podia sentir sua pulsação diminuir aos poucos embaixo dos seus dedos, seus movimentos parando gradativamente, seu corpo ficando inerte, até que por fim, seus olhos começassem a fechar lentamente... Já havia matado outras pessoas assim. Sentia como se estivesse realmente matando o garoto, e esse era seu maior medo. Sua fraqueza.
Afastou a mão do pescoço do outro como se tivesse levado um choque.
Alguns minutos se passaram onde apenas a respiração desesperada do mais novo era ouvida, até os olhos de esmeralda e aço se encontrarem.
– Eren...
– FIQUE LONGE DE MIM!
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– Eren querido, está me ouvindo? — A mão carinhosa da Tenente em seus cabelos fez o garoto sair dos seus devaneios repentinamente, dando um verdadeiro salto que quase o derrubou da cadeira onde estava.
Tudo ainda estava muito fresco na sua cabeça, ainda mais dessa vez em que conseguia se lembrar até mesmo de quando esteve inconsciente, por mais que não estivesse no controle do próprio corpo.
– Er... D-Desculpe Hanji-san, eu... — Tentou se explicar, mas esse era um daqueles momentos em que seu cérebro parecia ter dado pane.
– Não precisa dizer nada. — Sorriu compreensiva, se levantando e tirando a água quente que fervia naquele fogãozinho suspeito em seu laboratório e servindo duas xícaras de café. — Eu só peço que você resolva isso consigo mesmo. Imagino que devem ser muitas coisas ao mesmo tempo, e me preocupo com o que se passa nesse coraçãozinho confuso. — Afagou outra vez os cabelos do mais novo, deixando uma xícara na sua frente e voltando a se sentar.
– Realmente... São realmente muitas coisas ao mesmo tempo. — Respirou fundo tomando um gole de café.
Havia a sua situação com Levi, o sentimento estranho e assustador que sentia por ele, o fato de dele ter um caso com Erwin, por quem também sentia alguma coisa bem estranha e que preferia pensar que era simplesmente uma amizade... Er... Diferente das que já teve. Seu próprio estado mental andava bem bagunçado, chegando a perder várias vezes o controle de si mesmo, tinham aquelas lembranças que iam e voltavam, e não importava quantas vezes as visse, não se sentia menos abalado. Se contar que... Ainda havia aquilo que precisava fazer.
– Sabe que pode contar comigo quando precisar. — Hanji falou tranquila observando o ar agoniado do rapaz. Não deixava transparecer, mas tinha vontade de praticamente interrogá-lo e saber exatamente o que se passava por trás daquelas esmeraldas.
– É só que... — Começou o maior fitando fixamente o líquido escuro dentro da xícara. — N-Nada demais. Antes eu só precisava lidar com o problema dos titãs, e agora, são tantos outros... — Voltou o olhar para as estranhas engenhocas que estava em cima da mesa e que a castanha queria lhe mostrar.
Eram as máquinas que ela e o Heichou haviam projetado em conjunto. Eram como espingardas, porém bem maiores, com vários tipos de trava e funções... E o principal: Disparava vários tiros sem precisar recarregar.
Obviamente aquilo não era para titãs.
– Entendo... Acho que todos estamos um pouco assim ultimamente. — Suspirou a mulher tirando os óculos e coçando os olhos cansados. Agora Eren podia ver melhor as olheiras profundas em seu rosto normalmente tão jovial.
– Hanji-san... Se precisar de alguém eu também estou aqui. — Apoiou a mão no ombro da cientista que deixou o corpo pender para o seu lado. Parecia exausta, mais emocionalmente do que fisicamente.
– Realmente obrigada, Eren. — Suspirou se sentindo um pouco fracassada como adulta. Não seria ela que deveria estar apoiando alguém ali?
Quando ouviu os planos de Erwin pela primeiras vez, soube de imediato que seria difícil, mas não imaginou o quanto. Não que tivesse pena de matar alguém da Policia Militar — Hanji definitivamente não era tão coração mole quanto fazia parecer — mas, quando lembrava das vidas que não mereciam ser perdidas, seu coração pesava.
Haviam crianças e inocentes de ambos os lados. E sentia que se pudesse dar a própria vida para impedir que sofressem injustamente pelos erros dos adultos gananciosos, o faria sem hesitar.
Se encostou no ombro do garoto aproveitando a temperatura mais alta de seu corpo que lhe parecia realmente confortável naquele dia nublado. Sentiu-o apoiar a cabeça na sua e sorriu melancolicamente. Para ela, Eren era uma criança que viu coisas demais para alguém tão novo, e ainda lhe doía não ter conseguido salvá-lo daquele destino.
Sabia que estavam em tempos de guerra e que não havia tempo para lamentar pelas crianças que cresceram ou os inocentes que sofreram injustamente... Só havia tempo para se evitar a derrota e alcançar a vitória, para lutar pelo que acreditavam ser o melhor.
Mas ainda assim, mesmo sendo uma Tenente impiedosa quando necessário, Hanji ainda tinha um coração de mãe que queria adotar e proteger todos ali.
– Eren... Você mataria se lhe fosse ordenado? Mesmo que quem estivesse do outro lado não merecesse isso? — Sussurrou baixinho fitando a arma que ela mesma havia ajudado a projetar e construir.
A arma que Levi deu a ideia de chamar de "metralhadora" por conta do estrago e da bagunça que fazia.
Havia uma adaptação recém terminada onde se podia prendê-la no braço usando as cintas, e adaptar os gatilhos que controlavam os cabos do DMT junto aos da arma.
Lembrou-se de como se sentiu capaz de destruir quem quer que fosse com aquilo em mãos, e de como era uma sensação maravilhosa e assustadora ao mesmo tempo.
– Eu não sei. Não consigo mais sentir piedade das pessoas. — O garoto respirou fundo se sentindo incomodado com aquilo. Era como se algumas de suas emoções tivessem ficado dormentes. — Mas naquele dia... Eu não fui capaz de matar a Annie. Então eu não tenho certeza do que faria.
– Fico feliz em ouvir isso de você. — Comentou sentindo o coração mais leve. O Eren que conhecia era um garoto doce, e temia que a crueldade das pessoas arrancasse isso dele.
– Mas se fossem titãs eu mataria com prazer. — Adicionou naquele tom meio insano e a cientista não conseguiu segurar a risada.
"Por que será que isso não me surpreende..."
Haviam coisas que simplesmente não mudavam.
– Nem me lembre disso... Sabe para quando está marcada a próxima expedição para fora? — Começou em um tom choroso, ficando de pé para expressar sua indignação. — SEM DATA PREVISTA! NEM MÊS, NEM ANO! — Berrou aos quatro ventos, se descabelando e desfazendo o rabo de cavalo já bagunçado.
– Espera aí... VOCÊ DISSE ANO? NEM O ANO? — Eren se levantou também, seu olhar quase tão insano quanto o da cientista.
– E se... E se eu morrer antes de ver um titã de novo?! — Os olhos castanhos quase caiam das órbitas de tão assombrados.
– QUEÊ? EU AINDA NEM MATEI NENHUM!* — Agarrou os ombros da mulher e qualquer um que visse diria que os dois estavam completamente surtados.
E foi exatamente esse o pensamento de Armin quando abriu a porta do laboratório. O loirinho ainda se perguntava francamente como duas pessoas podiam ter a cabeça tão fora do lugar quando o assunto era titãs.
Se não conhecesse o gênio esquentado de Carla Jaeger, diria que Eren era mesmo filho de Hanji.
– Er... Licença. — Falou cuidadosamente, colocando apenas um pé dentro da sala. Afinal os olhares daqueles dois não pareciam confiáveis. — Hanji-san... Er...
– Pode falar, querido. — Incentivou a mulher se recompondo um pouco.
– É que o Comandante me pediu para entregar essa pasta ao Heichou e eu não consigo encontr... — Se calou ao perceber a Tenente fazendo algum sinal estranho enquanto apontava com o queixo para Eren.
Já era tarde demais, já se podia ver a melancolia tomando conta dos olhos esmeralda.
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– FIQUE LONGE DE MIM!
Seu corpo estancou com o grito do garoto, porém o verdadeiro impacto veio bem antes dele. E foi o olhar de puro medo que o mais novo lhe dirigia.
Se aproximou um passo notando o quanto o menino tremia na sua presença, mas não se afastou.
– Eu vou te soltar, sim? — Tentou falar em um tom calmo, como viu Hanji fazer da vez em que foram por a coleira metálica no seu pescoço. Mas acontece que até mesmo o tom calmo de Levi era ameaçador.
Tocou o braço de Eren com delicadeza, sentindo seus músculos trêmulos embaixo da palma da sua mão e abriu o grilhão que prendia seu pulso, vendo como de imediato o garoto se encolheu do lado oposto da cama, ficando de costas para si.
Sem dizer uma palavra, soltou a corrente atrás da cama que prendia sua coleira, apenas observando a reação do outro.
" O 'outro ele' iria me dizer o que tinha acontecido no sétimo dia e foi assim que as coisas acabaram desse jeito... Tch, tem que haver um jeito de descobrir isso sem envolver o garoto."
– Eu não fiz nada... Eu não fiz nada... Eu não fiz nada... Eu juro... Eu não fiz nada... Eu não fiz nada... — O menino murmurava compulsivamente fazendo o moreno sentir como se uma faca lhe atravessasse a garganta.
Precisava fazer algo.
– Eren, pode me ouvir? — Sentou na beirada da cama, tentando ser o menos invasivo possível.
Porém, sua voz parecia não alcançar a criatura trêmula a sua frente.
Precisava fazer algo, mas não tinha ideia do que fazer.
"Droga, não nasci pra isso, não sei lidar com gente nesse estado..."
Por mais que não demonstrasse, sentia-se angustiado.
" - Viu Levi? É só uma questão de jeito. — Sorriu para o Heichou que apenas fechou a cara. – Tente ser paciente com ele da próxima vez, creio que de todas as pessoas, ele obedeceria você. " *²
Não sabia por que lembrou daquelas palavras justo naquele momento, mas podia dizer que a amiga tresloucada tinha sido sua salvação para aquele impasse.
Se aproximou do garoto, sentando-se com as pernas em cima da cama, ficando a um palmo de distância. Devagar, levou a mão aos fios castanhos, tocando com cuidado, fazendo um carinho suave, percebendo como ele se encolheu assustado no inicio, tremendo como um gato de rua assustado, e foi se acalmando aos poucos.
Não tinha muita ideia do que estava fazendo, só tinha feito algo parecido antes uma única vez na vida, quando descobriu as marcas nas costas do garoto, logo quando mudaram para o mesmo quarto. Portanto se sentia satisfeito por, apesar da sua falta de jeito, estar dando certo. Odiava ter Eren fora do seu alcance.
Claro que quando teve a ideia da coleira foi para impedir qualquer ataque tanto dos membros da Tropa a Eren, como dele para qualquer recruta. Poderia tê-lo deixado preso simplesmente... Mas não.
Queria-o ao seu alcance cada hora do dia.
Na medida em que a respiração do garoto se tornava menos nervosa, começou a descer o toque até a sua nuca, primeiro suavemente, depois brincando com os fios mais crescidos do seu cabelo. Tinha que admitir que aquilo era bom de se fazer.
Desceu o corpo, se deitando na cama, aproximando seu tórax das costas do mais novo. Sem pressa. Passou um dos braços cuidadosamente por cima de seu corpo em um abraço ainda meio inseguro. Outra vez sentiu o garoto se encolher, mas se acalmando mais rapidamente dessa vez.
Deslizou lentamente as pontas dos dedos pelo lençol branco até encontrar o outro pulso do adolescente. Subiu seus dedos pela mão do mais novo percebendo que ele mantinha os punhos bem fechados.
Passou o outro braço por baixo do pescoço do garoto, que de tão encolhido parecia menor que si, abrindo o grilhão do outro braço sem movimentos bruscos e jogando-o pra fora da cama, jogando também a chave logo depois, deixando só os dois ali em cima. Encostou a ponta do nariz na pele quente da nuca do mais novo, sentindo-o soltar as mãos vagarosamente.
Sem pensar muito, subiu seus dedos pelo pulso do garoto, tateando as marcas que o grilhão de ferro havia deixado, até alcançar a palma da sua mão, deslizando suas própria ali para dentro, sentindo os dedos dele envolverem os seus devagar, como se tivessem medo de que algo fosse acontecer se o fizesse.
– Sinceramente... — Murmurou Eren baixinho, sua voz ainda frágil. — Eu queria ser capaz de te odiar. — Suspirou trazendo a mão pálida do soldado para perto do rosto.
Contemplava distraidamente as duas mãos juntas. Era a primeira vez que faziam aquilo.
Era interessante analisar os contrastes, com os olhos cor de esmeralda já secos de lágrimas, podia ver melhor a diferença da sua pele queimada do sol e da palidez elegante de Levi. Sua mãos eram levemente menores e mais macias, já que qualquer lesão como calos ou cortes eram curadas rapidamente, mas ainda pareciam mais brutas que as do mais velho.
" São bonitas... Mas não parecem mãos de alguém que mata titãs tão facilmente."
– De todas as pessoas Eren, você é a que eu conheço que tem menos dificuldades para odiar alguém. — "Mais motivos também", pensou, mas não ousou completar.
– Tem razão. — Sussurrou o garoto distraidamente, acompanhando os desenhos das veias azuladas no dorso da mão do soldado, tocando-as levemente com as pontas dos dedos da outra mão. — Mas o que eu sinto por você está além de qualquer força de vontade.
Levi estagnou por alguns segundos depois de ouvir aquilo.
Não se surpreenderia em ouvir isso de quem quer que fosse, mas era inesperado vindo da pessoa mais doentiamente e estupidamente obstinada que conhecia.
– E o que sente por mim? — Sussurrou no ouvido do garoto, sentindo-o segurar sua mão mais forte.
– Não sei se quero saber. — Sussurrou de volta.
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Sentia um certo calor em uma parte do seu coração. Uma chama fraca que parecia ter se extinguido, e voltava a se acender devagarzinho a cada toque mais cuidadoso do mais velho.
Nunca havia sido tratado assim pelo moreno e aquilo lhe assustava um pouco, de certa forma não sabia o que fazer.
Gostava daquele calor, mas... Levi simplesmente o deixava inquieto de uma forma estranha. Não era como quando Erwin o abraçava e sentia seus batimentos cardíacos se acalmando. Sem contar que ainda estava incomodado com a presença do outro. Eren nunca foi de esquecer suas cicatrizes facilmente.
Sentia os dedos frios tocando sua mão de volta, numa carícia até mesmo meiga e quis sorrir com aquilo.
Se fosse outro momento, teria sorrido, se virado e beijado o menor o resto do dia, mas a adrenalina ainda corria pelo sangue e as lágrimas ainda secavam no seu rosto.
Por mais calor que Levi tentasse lhe transmitir, sentia como se uma camada grossa de couro estivesse entre a sua pele e a do soldado.
Era como se... Ele não pudesse alcançá-lo.
Talvez precisasse de algo mais intenso.
Ainda estava apavorado, mas não queria se sentir seguro.
Queria queimar, agonizar em meio as chamas até que aquela dor se diluísse em meio ao desespero.
Sua cabeça doía com tantos pensamentos contraditórios.
Virou-se na direção do outro, mirando de perto aqueles olhos cor de chuva que pareciam mais claros naquela ocasião, por mais que apenas a luz das tochas que iluminavam o quarto subterrâneo refletissem neles.
As sombras escuras daquele lugar pareciam se esgueirar na sua direção, e ao contrário de quando esteve preso, dessa vez Eren desejava verdadeiramente que elas o alcançassem, e acabassem com o que ainda existia de são dentro da sua mente.
Roçou os lábios cheios no queixo do mais velho, sentindo aquela textura estranhamente lisa para um homem daquela idade, mas tão agradável... Era tão bom que doía.
– Eren? — Aquela voz rouca soou perto da sua orelha, fazendo um arrepio calmo percorrer o corpo que ainda tremia. — O que está fazen... — Não teve chances de continuar já que foi repentinamente interrompido por um beijo do garoto.
O beijo mais lascivo que já tinham trocado todo esse tempo.
Eren sentia aquelas mãos firmes na sua cintura e se impulsionava mais para frente, roçando seu corpo no do outro do jeito que sabia que iria provocá-lo. Se permitiu perder as mãos nos cabelos negros, descendo pela sua nuca lentamente e desejando de todo o coração que houvesse um inferno, tal como dizia a igreja, onde os pecadores pudessem pagar pelo que fazem.
Era doentio, mas o garoto que não sentia as carícias suaves que lhe eram oferecidas pelas mãos calejadas, agora sentia como se sua pele fosse fina como papel com aquelas mãos descendo por baixo da sua camisa e parando na parte inferior das suas costas, puxando-o com firmeza e juntando mais seus quadris.
Sentia como se sua pele estivesse completamente queimada, e cada toque só a machucasse ainda mais... Mas aquele homem o fazia apreciar aquela dor que o desmoronava aos poucos.
Por mais que os toques do mais velho sempre o fizessem esquecer daquilo que mais o perturbava, da marca que maculava sua alma, dessa vez, só sentia cada verdade que dizia a si mesmo gravada a ferro quente na sua consciência. Ainda ouvia aquela voz rouca e autoritária lendo aqueles relatos imundos que eram a prova escrita do quão sujo havia se tornado.
Mas quem disse que isso era um problema? Não queria se sentir melhor.
Estava bem em queimar em meio as chamas.
Virou-se por cima do mais velho, pegando-o completamente de surpresa e começou a atacar seu pescoço, se embriagando com seu cheiro como se a pele pálida fosse cocaína. Desfez os primeiros botões da camisa do mais velho que ainda buscou seus olhos querendo saber o que diabos Eren tinha na cabeça, mas o garoto apenas os fechou.
– Heichou... — Gemeu espalmando as mãos em seu peito e movendo o quadril libidinosamente sobre o colo alheio.
Era proposital. Havia aprendido, mesmo sem querer, a como enlouquecer um homem.
Se tinha algo útil que tinha aprendido ultimamente, fora o ponto fraco do homem de olhos acinzentados. Depois, quando pensou sobre o que viu quando o flagrou com Erwin no corredor, percebeu que só mesmo algo muito... hm... Extraordinário, faria o moreno se permitir aquele tipo de coisa fora de quatro paredes e ainda mais em um local que ele dificilmente classificaria como dentro de seus padrões de limpeza.
Levi parecia ser do tipo especialmente inclinado a perder o controle quando sexualmente provocado.
– Eren, pare já com isso. — Sua voz era séria, mas o tom autoritário não estava lá. Era como se por mais que dissesse, não queria que Eren saísse dali.
Como um gato manhoso, o garoto apenas começou a se inclinar, deitando por cima do corpo do outro com um lentidão de tirar o juízo.
– Me tire daqui então. — Os lábios quase colados aos pálidos do soldado eram um convite à perdição.
Levi não sabia o que tinha na cabeça especificamente quando agarrou o quadril do garoto, deixando-o por baixo agora e atacando seus lábios com toda a sede que sentia daquele corpo. Talvez na cabeça não houvesse nada, mas quanto a todo o resto...
Seus lábios se encontraram tão violentamente quanto os ventos de uma tempestade, havia desejo, dor, culpa, insanidade, fogo... Não era uma mistura benéfica, porém... Ambos pareciam querer exatamente aquilo. Como se quisessem se ferir assim mesmo.
Eren se sentia confuso. Não compreendia como podia gostar tanto de alguma coisa e se sentir mal por isso. E nem queria compreender.
Os lábios do homem queimavam a pele do seu pescoço como ácido, podia sentir a sua carne derretendo dolorosamente sob o seu toque, o que fazia sua garganta fechar. Queria parar, mas estava tão bom, sentir aquela pessoa ali, sentir como se pertencesse a ele... Era doloroso, mas de certa forma insanamente prazeroso.
Seus quadris se encontraram quando o moreno puxou uma de suas pernas para que passasse em volta da sua cintura e Eren teve que morder o lábio com força para que sons vergonhosos não escapassem pela sua garganta.
Sentia-se culpado por gostar daquilo.
Sentia-se culpado por gostar de qualquer coisa que tocasse daquela forma tão quente seu corpo tão sujo e marcado. Como poderia gostar de algo que o fazia sofrer? Que tipo de humano havia se tornado?
"Humano? Eu?" Sufocou uma risadinha seca que queria escapar por seus lábios vermelhos e inchados naquele momento.
Passou as duas pernas em volta da cintura de Levi quando o sentiu subir as mãos por baixo da sua camisa, tocando seu abdômen e descendo até seu baixo ventre, arrepiando-o intensamente. Apertou as pernas em volta do homem levando a mão aos lábios.
Queria que ele o tocasse mais.
E ao mesmo tempo se sentia uma "puta" como Nile tanto dizia.
" – Isso tudo... Ah... Foi você que causou... Sabe disso, não é? – Gemia no ouvido do garoto
– Como e-eu...
– Mal deixou o Erwin esfriar na masmorra... Ah... Hn... E já saiu dando... Para o meu esquadrão... Hnn... Não foi? Ah, sua putinha... – Mordeu com força o pescoço do menor, a ponto de sair sangue.
– N-Não...
– Como não? Aposto... Que estava tentando usar esse seu rabo delicioso para sair daqui... Hmmm... Não é? Admita sua puta... – Estocava com força, puxando os fios castanhos com força com uma das mãos, e arranhando sua pele com a outra.
– Não... E-Eu não...
– O que, Eren? Acha que todo mundo... Iria... Simplesmente te comer? Você provocou isso..."
Não sabia o que tinha feito daquela vez, mas agora tinha plena ciência de que estava provocando Levi sem nenhuma reserva de decência.
Por um momento lembrou-se daquela noite no banheiro, quando soube que estava sendo espionado pelo Comandante. Havia feito aquilo semiconsciente, mas não era tão ingênuo. Sabia que aquele lado escuro da sua mente, era o lado escuro dele mesmo.
Não existia mais ninguém ali, alem de si mesmo.
Não podia culpar ninguém por ter feito o que fez no sétimo dia.
Sentiu aqueles lábios de novo nos seus e se deixou levar. Era como se estivesse hipnotizado por cada movimento do mais velho sobre seu corpo, mergulhando-o em um torpor cruel e delicioso.
Não podia culpar ninguém ali de si mesmo por desejar que o outro destruísse seu corpo com aquelas mãos tão firmes em sua cintura.
– Eren. — Aquela voz o chamou e sentiu todo o corpo responder. — Olhe pra mim.
Abriu os olhos notando com um certo espanto como sua visão estava embaçada. E foi aí que sentiu as mãos do seu superior em seu rosto, tocando-o calmamente. Estava chorando? Nem mesmo havia se dado conta...
– O que há com você? — Seu tom não era autoritário ou frio, mas não chegava a ser algo gentil. Curioso, talvez... Preocupado? Não sabia dizer, Levi sempre lhe parecia tão ilegível...
– Entendi algo agora. — Sussurrou mirando aqueles olhos que pareciam um dia de tempestade.
– E o que foi? — Sinceramente, não estava entendendo as reações de Eren, e isso não lhe trazia um bom pressentimento.
– Nile pode ter tentado... — Tocou diretamente no nome do outro pela primeira vez desde que saiu da prisão. — Mas a única pessoa que pode me destruir, é você. — Completou com um olhar calmo que definitivamente não condizia com a frase.
– Acha mesmo que eu estou aqui para isso? — Levi não sabia como reagir, em parte havia ficado bravo por ser mal interpretado, mas por outro lado, era uma declaração realmente intensa... Com uma carga emocional que não estava esperando. Sentia algo estranho remexendo em seu peito por ouvir aquilo.
Nunca havia sido a única pessoa a ir tão fundo no coração de ninguém.
– Não me importo. — Respirou fundo. — Não me importo que tenha algo com o Erwin-san, ou que queria respostas de mim que não posso dar, nem que esteja me manipulando para que te obedeça como quiser. Não me importo que me use da forma que você quiser, ou que me machuque... Nada importa desde que ainda esteja aqui.
No começo, sentiu o punho formigando para ensinar umas verdade àquele pirralho. O que diabos ele vinha pensando? Que estava apenas brincando consigo esse tempo todo?
"Tch, eu tenho mais o que fazer do que me meter em algo sobre o que eu não estou sério. O que ele pensa que sou? Um abusador de menores? E o que foi aquilo sobre o Erwin?!"
Mas ouvir aquela última frase o desarmou completamente.
" Nada importa desde que ainda esteja aqui"
O tom como foi dita, a voz carente, os olhar necessitado e aquele sentimento de "preciso de você" que parecia fluir da sua expressão corporal e o atraía com um magnetismo insano. Nunca havia visto Eren parecer tão entregue e nunca teve tanta necessidade de protegê-lo como agora.
Sem comentar mais nada, apenas puxou o garoto para seus braços em um abraço forte, deixando sua cabeça apoiada em seu peito e suas pernas entrelaçadas confortavelmente. Segurava-o com posse, como se o mundo o puxasse de seus braços. Talvez Erwin não estivesse completamente errado em dizer que estava ficando muito mole com Eren, mas não era como se pudesse evitar. Sempre que o via quebrado daquela forma, sentia que tinha que consertá-lo devidamente.
Sem contar que apreciava aquela dependência que o garoto estava desenvolvendo por si.
E sim, isso não era nada bonito de se admitir, mas gostava.
Queria que Eren sentisse sua falta, que sofresse com a sua ausência, precisasse de si desesperadamente... Pois Levi notava que ele mesmo já precisava do garoto.
Eram sentimentos conflituosos e nada apreciáveis para um poema, mas era algo que já estava enraizado há tanto tempo entre os dois, e só agora se manifestava, que não tinha como fugir ou evitar.
– Não vou a lugar algum. — Sussurrou apoiando o queixo em cima da cabeça do mais novo, sentindo seus fios macios fazerem cócegas no seu pescoço. — E você não precisa se machucar para me ter aqui.
– Heichou...
– Quieto. — Respirou longamente. Sabia que era demais esperar que Eren o entendesse, teria que falar sobre si mesmo alguma hora. — Não quero seu mal pirralho, de jeito nenhum. Na verdade é o contrário disso... Tch. Eu estou do seu lado, e vou lutar do seu lado. Só entenda isso. Não tenho nenhuma pretensão de te matar, ou pode apostar que não estaríamos assim agora.
Não saiu exatamente como pensou, mas... Era uma quantidade satisfatória de informação para o garoto por hoje.
Parecendo respirar um pouco mais calmamente, Eren se aninhou mais nos braços do mais velho, sendo prontamente acolhido naquele abraço possessivo e aconchegante.
Talvez... Devesse escolher confiar.
– Heichou... — Sussurrou baixinho, escondendo o rosto no pescoço do outro.
– Hm...?
– Ainda... Quer ouvir aquela história?
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Sentia uma mistura de sentimentos, mas o que sobressaia sobre todas era a raiva de si mesmo. Fazia muito tempo desde a ultima vez em que tinha sentido algo assim, e sinceramente, não estava nenhum pouco satisfeito em relembrar.
Lembrava-se de cada palavra dita pelo garoto e ainda sentia um breve choque percorrer o seu corpo.
Retirou mais uma garrafa de whisky do armário e serviu uma dose. Já sentia a cabeça bem pesada, mas não queria parar. Era um pouco de autopunição somada a uma grande vontade de esquecer por alguns momentos.
Se perguntava se talvez não fosse sua culpa.
Julgava o garoto inocente demais, até mesmo lerdo para alguns assuntos, e talvez por isso nunca imaginaria uma atitude assim vinda dele. Estava genuinamente surpreso, e de certa forma intimidado por que... Havia acabado de perceber que não conhecia nada daquele que julgava conhecer até do avesso.
E lembrar daquela confissão o deixava novamente irritado, não com o garoto, mas com sua própria falta de atitude. Havia ficado quase que completamente sem reação, indo embora simplesmente quando o mais novo pediu para ficar sozinho.
Não deveria te-lo deixado.
Mas o que faria se ficasse?
O condenaria pelo que fez? ... De modo algum!
Diria que agiu bem? Como poderia dizer isso diante das piores lembranças da vida já nada fácil daquele garoto?
Estava provando mais uma vez do gosto amargo da impotência diante de alguma situação envolvendo alguém importante, e isso o irritava ainda mais.
Nem viu quando acabou a dose, e já estava se servindo outra. Isso não acabaria bem para o seu estômago.
– Droga Eren... — Resmungou agoniado, passando as mãos pelos cabelos negros e desalinhados. Seu rosto não demonstrava muito, mas seus olhos... Eram como um mar de prata em uma tempestade.
Não sabia o que fazer.
Não queria pensar que não havia nada que pudesse ser feito. Sempre havia! Não desistiria simplesmente.
Não era ingênuo também. Sabia que sua falta de resposta havia abalado o garoto, e podia imaginar o que se passava pela sua cabeça agora. O que só o deixava ainda mais inquieto. Seria muito mais difícil se aproximar novamente do pirralho agora.
" Mas a única pessoa que pode me destruir, é você."
O canto do seu lábio subiu levemente recordando daquelas palavras.
Pirralho idiota.
Se Levi estava quebrando a cabeça nesse momento por algo que fez — ou deixou de fazer — era por que justamente buscava o contrário. Queria consertá-lo. Não se importava se sua alma estivesse maculada, daria um jeito de trazê-la de volta ao que era. E o moreno era alguém que podia dizer que alcançava tudo o que queria.
Mesmos e fosse um futuro com brilhantes olhos verdes tumultuosos como a selva.
Estava decidido. Guardaria esse segredo junto com o garoto e lutaria por ele se preciso.
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Já faziam algumas horas desde que Levi havia saído do quarto no porão e Eren ainda sentia o toque das suas mãos na pele. Olhou para as unhas quebradas e sujas de sangue e depois para os pulsos cobertos de arranhões profundos e que já começavam a cicatrizar.
Mas sempre que um ou dois fechavam, o garoto os abria novamente.
Jogou a cabeça para trás, apoiando-a na parede fria de pedra e sentindo os pulsos arderem e uma espécie de formigamento se espalhar pelo seu corpo. Aos poucos, seus músculos relaxavam e sua respiração se regularizava, parando com os soluços.
Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
"PARE JÁ COM ESSA IDIO..."
– Calado. — Seu tom de voz foi tão gélido que não percebeu nenhuma objeção àquela ordem.
Abaixou a cabeça outra vez, sentindo uma dor se espalhar pelo seu crânio e abriu os olhos mais uma vez, vendo nada além de seus braços mutilados manchando a calça branca, já que a lamparina em cima da mesinha estava perto do fim.
Não queria se mover. Estava largado no chão frio e seu corpo começava a tremer um pouco. A cama a poucos passos nunca pareceu tão tentadora, mas a sua força de vontade parecia ter sido reduzida a zero.
Levou uma das mãos ao pulso, sentindo a própria carne embaixo de seus dedos uma vez que já tinha arrancado quase toda a pele com as próprias unhas.
Aquilo ardia, e ardia terrivelmente, mas aliviava. Mesmo que só um pouquinho.
O garoto se contorceu agoniado, deitando de lado no chão enquanto enterrava as unhas no próprio braço mais uma vez. Deixando a unha entrar na carne, para só então puxar de uma vez, fazendo uma onda de dor se espalhar por todo o corpo e alguns pingos do líquido vermelho caírem no chão.
Como as coisas tinham acabado daquela maneira?
" Ele sabe sobre mim agora... O quão imundo eu sou..."
Estava fazendo aquilo continuamente nas ultimas horas. Sua mente vagava entre o que viu e ouviu agora e no passado.
Levou a mão novamente ao braço.
" Por que diabos eu fui..."
Enterrou as unhas.
" Ele deve me odiar agora... Como não odiaria? Pelo jeito que saiu não sei se olha pra mim de novo. Na verdade... Eu não teria coragem de encará-lo novamente."
Puxou a mão com força, sentindo a carne acumular debaixo das unhas.
A dor percorreu seu corpo, aliviando.
Por mais irônico que pareça, quando aqueles pensamentos vinham a mente, a dor era seu único anestésico, porque sabia que merecia cada espasmo de dor que fluía do seu braço para o resto do seu corpo.
" E... Eu sinto o cheiro dele em mim. Eu queria mais... Mais dele. O quão baixo eu consigo ser?"
Sentia-se culpado. Não deveria tocar o Heichou com aquelas mãos tão sujas, mas era mais forte que ele. Muito mais. Só depois que sua consciência lhe atormentava. E ainda assim sabia que não iria conseguir se manter longe.
Era um maldito de uma puta oferecida e o Heichou havia visto isso de primeira mão hoje.
" Ele deve me achar um imbecil promiscuo nesse momento..." Respirou fundo. Tinha chorado tanto que sua cabeça estava dolorida. " Mas... Eu não consigo me importar. Acho que... Não me importaria se me tornar seu escravo ou seu brinquedo."
Uma lágrima teimosa desceu pela sua bochecha.
Estava tão confuso. Tudo parecia nublado e embaralhado na sua cabeça.
Seu corpo relaxou contra o piso gelado. Sentia sua bochecha sendo amassada contra a pedra.
" É doloroso. Mas acho que gosto de como isso dói... Que sentimento é esse?"
Estava tão emocionalmente exausto que dormiu ali mesmo.
Não teve sonho nenhum dessa vez e agradeceu sinceramente por isso. Não iria suportar mais um pesadelo naquela hora, sentia que seria capaz de morrer se tivesse ainda mais coisas na cabeça e no coração. Estava transbordando.
E por não ter sonhado nada, soube que foi real quando sentiu uma par de braços quentes a sua volta.
De inicio não reagiu, apenas se deixou ser movido, como se fosse uma boneca de pano inanimada.
Alguém limpou seus pulsos, enfaixando-os cuidadosamente (ja deveriam estar quase curados àquela altura), limpou também seu rosto e seu peito, trocando suas roupas e o colocando na cama, cobrindo-o com um cobertor grosso e quentinho.
Por algum motivo, Eren não se moveu. Sentia-se calmo perto daquela pessoa, e seus braços eram um cálido alento para o seu coração machucado.
Antes de ir embora, ele afastou os fios castanhos da sua testa, deixando um demorado e carinhoso beijo na sua testa.
– Obrigado por ter sido forte todo esse tempo, Eren. — Suas mãos fizeram um último afago nos cabelos rebeldes. — Espero que tenha bons sonhos... — Sussurrou gentilmente o Comandante Erwin antes de se retirar.
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Nem se deu o trabalho de bater na porta, sabia que estava trancada, afinal, Levi conhecia melhor do que ninguém a mania deveras inconveniente que a Tenente Zoe tinha de arrombar fechaduras, então tinha certeza que além de trancada, havia algum móvel bloqueando a porta do outro lado.
Bateu na porta educadamente.
Nada.
Bateu com um pouco mais de ímpeto.
Nada.
" Tenho certeza que nos vamos ficar velhos juntos e ele ainda vai ter seus momentos infantis".
Suspirou cansadamente batendo mais uma vez.
Estava de bom humor essa manhã, tudo bem que não acordou ao lado do garoto, mas havia percebido o gesto de cuidado para consigo.
– Vai se foder Hanji! — Ouviu uma voz bem mal humorada lá de dentro.
– Sou eu Levi. — Respondeu se encostando a porta.
– Vai se foder também. — Retrucou ainda parecendo irritado.
Uma ideia maldosa passou pela cabeça do loiro que pigarreou, afinando o tom de voz.
– Heichou... Abre a porta. Eu quero te ver. — A imitação da voz de Eren ainda estava longe de ser perfeita, mas o Comandante tinha um certo talento para essas coisas.
E o efeito foi exatamente o desejado.
– ERWIN SEU FILHO DA PUTA!
A porta abriu com um estrondo e o maior quase não conseguiu desviar do chute que veio na direção do seu rosto, tendo que bloquear com o braço. Com certeza nasceria um hematoma ali.
– Bom dia pra você também. — Devolveu com um sorriso cínico, vendo a ira borbulhar nos olhos cinzentos.
Desviou por pouco de mais dois socos que teriam feito um belo estrago, até que o moreno teve que parar um segundo para se recuperar da tontura. Momento que Erwin aproveitou para imobilizar rapidamente o menor e entrar com ele dentro do quarto, trancando a porta atrás de si.
– Desgraçado! — O soldado se debatia com força, mas nada com que o Comandante já não estivesse habituado. Nunca tinham tido um relacionamento fácil afinal.
– Ei Levi... — Sussurrou calmamente no ouvido do outro. — Você está bem? — Deixou um breve beijo atrás da sua orelha.
– Me. Solte. — O moreno rosnou, mas era perceptível que a sua raiva tinha diminuído.
– Eu estou preocupado. — Apertou mais os braços em volta do menor, sentindo-o parar de resistir. Passou o olhar vendo algumas garrafas de bebida arrumadas em um canto do quarto (até bêbado o outro era organizado). Era compreensível o motivo de Hanji tê-lo procurando avisando que Levi estava de folga por hoje. E se o próprio Heichou tinha concordado, estava realmente mal.
– Como ele está? — Perguntou baixo, se deixando apoiar no peitoral largo do maior.
– Fingindo que está bem. — Respondeu apoiando o queixo nos cabelos escuros. — Não acho seguro deixá-lo sozinho, então pedi a Hanji e Armin que se revezassem de olho nele. — Falou lembrando de quando o encontrou ensanguentado no chão da cela. Não queria ver aquela cena novamente.
– Aconteceu algo? — Indagou se soltando dos braços do loiro e se encostando a porta do lavabo. Sua pele estava anormalmente pálida e as olheiras mais fundas e escuras que o normal, isso sem contar os lábios rachados, pelo visto a ressaca havia sido cruel.
– Eu que te pergunto. Mas vocês dois parecem ter feito um pacto de silêncio sobre o assunto. — Falou sentando na cama desarrumada, mas logo se levantando quando viu o outro correr para o vaso pondo o que não tinha no estômago pra fora.
Estava realmente preocupado, já havia visto Levi beber quantidades impressionantes e estar bem no dia seguinte. Dessa vez ele realmente havia se excedido, o que não era comum da sua personalidade.
Toda essa situação, desde a missão para a captura da Titã fêmea em Sina, a prisão de Erwin, de Eren e tudo o que vinha acontecendo... Essa pressão estava deixando todos os envolvidos insanos pouco a pouco. E por mais resistente que o Heichou fosse, não era imune a isso, ainda mais quando era um dos que estavam no centro de tudo.
– Quer que eu te faça um chá? — O Comandante indagou afastando os fios negros do rosto do companheiro.
– Não. — Respondeu o outro parecendo ainda mais enjoado só de pensar em chá, indo lavar e o rosto e escovar os dentes.
– Quer água? — Voltou a indagar, vendo a jarra no canto do quarto e já se encaminhando pra lá ao não receber nenhuma negativa.
Arrumou os travesseiros de forma mais confortável possível, acomodando-os melhor quando Levi se deitou, parecendo sentir a pior enxaqueca de sua vida. Aproveitava quando o menor estava mal para mimá-lo bastante, já que quando estava melhor o moreno sempre rejeitava seus cuidados, reclamando do seu jeito "grudento". Entregou-lhe o copo de água, vendo-o beber devagar, sua garganta deveria estar bem dolorida também.
– Erwin, você... Já fez algo que realmente não queria ter feito, mas que não se arrepende? — Perguntou de repente, quebrando o silêncio que havia se instalado por uns breves segundos.
– Várias vezes. — Disse ainda meio surpreso por ele ter sido o primeiro a tocar no assunto.
– Com as próprias mãos? — Os olhos cinzentos lhe lançaram um olhar oblíquo que o loiro não soube decifrar.
– Não. — Refletiu sobre a própria resposta, na verdade, sempre estava manipulando outros para seus objetivos.
– Eu fui longe demais na conversa com o garoto, mas não me arrependo disso. — Tomou mais um gole de água. — Eu o entendo, e por isso vou esperar que ele mesmo fale quando se sentir pronto para isso. Há certas verdades que jamais deveriam ser reveladas.
Os olhos azuis estavam fixos nas íris de aço puro e firme. Seja lá o que Eren lhe disse, Levi não repetiria nem sob tortura. Iria proteger o segredo do garoto.
E Erwin só conhecia um segredo que desencadearia essa reação.
– O sétimo dia não está registrado no diário por que Eren não deixou, não é? — Questionou encarando o outro intensamente, mas se o moreno já era normalmente inexpressivo, tornava-se uma verdadeira parede em branco quando queria parecer inexpressivo. Era inútil tentar.
– Eu confirmei o que lhe disse sobre a outra personalidade. Ele realmente tinha um plano de fuga. — Mudou de assunto de modo tão imparcial que o Comandante não conseguia deduzia uma resposta para a pergunta anterior, porém, sua intuição o dizia que sabia exatamente qual era.
– Conseguiu reverter a situação? — Perguntou sentando mais perto do menor, colocando suas pernas em seu colo.
– Ele quer se vingar de Nile a todo custo, e nada iria impedi-lo. Então eu disse que iria com ele, afinal, temos esse objetivo em comum. — Respondeu terminando de tomar sua água.
– Esperto... Realmente esperto. — O loiro sorriu brevemente. — Isso explica o comportamento estranho dele quando o encontrei ontem a noite na cozinha, ele estava tentando desviar minha atenção. O que mais vocês combinaram?
Os olhos cinzentos até então cansados e sonolentos se abriram repentinamente.
– O que você disse?
– O que vocês...
– Não! Não isso. Como assim ele tentou desviar sua atenção? — Se sentou ereto, sua mente parecia finalmente ter acordado.
Os olhos azuis se abriram surpresos logo em seguida, compreendendo o significado da reação do outro.
– Levi, você não está dizendo que... — Pasmo. Não havia palavra melhor para definir o estado do Comandante naquele momento.
– Aquele pirralho passou a perna em nós dois!
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Eren e Mikasa andavam calmamente pelo bosque que havia aos fundos do castelo. Atravessaram toda a área que tinha ajudado a capinar e agora andavam por entre as árvores, distraídos com os desenhos que a luz da lua formava quando atravessava os espaços entre as folhas.
O garoto queria sair para "tomar um ar", mas Hanji havia deixado bem claro a Armin e Mikasa que não o deixassem sozinho, e por ter mais chances de alcançá-lo numa corrida, a morena o acompanhou, e vinha estranhando até agora o fato de Eren não ter feito nenhum escândalo com isso.
– Posso te perguntar uma coisa? — Os olhos verdes pareciam inseguros sobre o que iam dizer, coisa rara.
– Você sabe que sim. — A garota parou mirando aquele olhar que parecia brilhar com a luz do luar.
– Quando eu dormia no porão, e você aparecia por lá... Você estava voltando lá de baixo não é? Do subterrâneo onde ela está. — Falou percebendo um tremor passar pelo corpo da irmã.
– Há q-quanto tempo você... — Estava completamente enrolada. Haviam coisas sobre si mesma que se pudesse escolher, jamais viriam a tona, e o fato de não ter conseguido apagar por completo os sentimentos que tinha por um certa loira era a principal delas. Por sua sorte, havia sido apenas Eren que percebeu. O que era deveras estranho.
– Não importa, só me escute. — Segurou os ombros da asiática energicamente, fazendo-a olhar para si. — Se um dia ela acordar apenas esqueça, entendeu? Pegue a mão dela e vão embora, fujam para o mais longe possível e se resolvam por lá. Essa não é sua guerra Mikasa, nem sua nem dela. Não precisam sofrer por...
– Agora sou eu que pergunto se você enlouqueceu Eren! — A morena se exaltou como raras vezes fazia. — Esqueceu o que ela fez? Quantos companheiros ela matou? E o que ela fez com você? Memória fraca é uma coisa que eu sei que você não tem! — Agora realmente gritou, sentia os olhos ardendo. Precisava colocar aquilo pra fora. — Se ela acordar, eu vou prendê-la e matá-la de preciso. É isso que vai acontecer!
– Não vou ouvir isso de quem ficou aliviada quando soube ela não morreu. — Ditou sério, atingindo a garota com mais força do que faria com um soco.
O barulho alto do tapa ecoou pela floresta.
– Eu... Não... — Para quem visse de fora Mikasa pareceria brava, mas Eren sabia que só estava frustrada.
Era a primeira vez que entendia de fato a irmã.
Havia passado pelo mesmo. Tinha mentido para si mesmo, fingindo que não sentia por julgar seus sentimentos sujos e errados, mas se tinha uma coisa que havia aprendido com isso, era que sentimentos que partem direto do coração estão acima de qualquer conceito de certo e errado.
– Eu não esqueci o que ela fez, de jeito nenhum. Foi na minha frente que ela matou a Petra, o Gunter, o Eld e o Aruo. Não pretendo perdoá-la por isso. Nunca. — Seu tom era sério e frio. — Mas eu também me lembro que você sorria do lado dela. E olha que é difícil arrancar um riso seu, nunca pensei que a nariguda mal humorada seria capaz. — Falou limpando o canto da boca que sangrava levemente. Até um simples tapa de Mikasa fazia estrago.
– Por que está fazendo isso? — A garota indagou voltando gradativamente a sua calma habitual, se arrependendo de ter perdido o controle quando viu o ferimento no lábio do irmão. — Eren... — Ergueu a mão para tocar o seu rosto, se surpreendendo quando sentiu a mão quente dele em cima da sua.
– Por que quando eu morrer, você vai precisar de outra pessoa que tire seu juízo. — Riu de leve com o modo como encontrou de dizer.
– Que conversa é essa de morte? — A asiática se alarmou. Os olhos verdes começaram a brilhar assustadoramente, um brilho denso e perturbador. — Eren...
O garoto respirou fundo, soltando uma forte lufada de vapor, sentindo seus músculos queimarem.
– Eren, o que merda você tem na cabeça agora... — Já estava se preparando para ouvir mais uma ideia completamente absurda que só podia ter saído daquela cabecinha perturbada.
– Desculpe por isso Mikasa.
Foi rápido demais para os dois processarem.
O braço de Eren avançou em uma velocidade anormal, acertando com força o maxilar da garota que caiu desacordada no chão.
O garoto respirava pesadamente, mantendo o controle do próprio corpo por um fio.
Andou até o arbusto que estava atrás dela esse tempo todo, tirando de lá seus DMTs e a capa da Tropa que, por ser verde, camuflava o equipamento de metal.
Ergueu a irmã nos braços com um certo esforço (ela era realmente pesada para si), colocando-a cuidadosamente em um galho baixo e a cobrindo com a sua capa.
Arrumou o próprio equipamento rapidamente e voltou a se aproximar da garota encostando suas testas por um breve momento, sentindo o cheiro do seu cabelo escuro que já começava a ficar longo de novo, antes de partir.
O diabo o esperava, e tinha um presentinho para entregar a ele.
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