Beacon Hills Institute
67 O confronto
Jackson vinha em sua direção. Ainda vestia parte do uniforme de Lacrosse, parecia pronto para entrar no jogo, mais precisamente, na parte ofensiva do jogo. Isaac já tinha se arrependido de ter se pronunciado, mas não havia escapatória, pois o capitão do time já estava a sua frente.
Em um golpe forte, Jackson socou o armário ao lado de Isaac, evitando que o jovem lobisomem fugisse naquela direção.
— Eu te fiz uma pergunta, vira-lata!
— Me chama de vira-lata, mas pelo que ouvi...Somos parecidos. Isso também não te faz ser um vira-lata? – Queria ter parecido mais audacioso em sua fala, mas o sussurro de sua voz bem como o fato de não olhar Jackson nos olhos meio que colocaram minguaram a imagem do corajoso Isaac de momentos atrás.
— Hã? Como é que é? Desde quando nós somos parecidos? – Havia um tom de escárnio em sua voz.
Isaac engoliu em seco, levantou o rosto para fitá-lo e dizer.
— Você foi transformado em lobisomem, assim como eu. Também não tem uma alcateia...
— Isso é algo temporário. – Cortou Jackson se afastando um pouco, mas o suficiente para garantir uma sensação de alívio para Lahey – Uma pessoa como eu possui muitas ofertas, sabe? Quem sabe os Hales me recrutem! Por isso digo que não somos tão parecidos assim! Faça-me um favor, se olhe no espelho, sim?
Isaac teve que se conter para não deixar escapar algum comentário sobre a incapacidade do outro adolescente de se transformar em sua forma beta. O que era muito estranho e que provavelmente seria um entrave de ser aceito em outras Alcateias.
— Realmente, temos diferenças, o fato de sua família te apoiar é uma delas...
O outro rapaz franziu o cenho, um rosnado se fez em seus lábios.
— O que quer dizer com isso?
— Que minha família não me apoiou. Fui expulso de casa...Unicamente por ter sido mordido por acidente. Me vi sozinho em um dos momentos mais assustadores de minha vida... Quando fui mordido, você deve saber... Afinal, também fostes mordido. Quando você recebe uma mordida de um Omega, ainda mais quando este também é um recém-transformado, as chances de você se tornar lobisomem é de 30%. Enquanto 70% é a chance de você morrer. Pois bem, fui socorrido. Fiquei em observação em uma ala especial do hospital, sentindo uma dor excruciante, temendo que cada respiração que desse fosse a minha última. E meu pai? Estava bebendo, como sempre. Passei todo o período de transição de humano para Lobisomem, sozinho.
Jackson parecia ter levado um soco com aquela declaração. Meio sem graça disse:
— E-eu...Bem...Paguei para ser mordido. Existem uns caras que oferecem A Mordida, por um alto preço. Paguei e fui mordido. Sim, também fui internado, mas...Meus pais...Eles ficaram ao meu lado. Eles deveriam ter brigado comigo, afinal, roubei o cartão de créditos deles e ...Bem...Eles estavam mais preocupados comigo do que com o dinheiro perdido.
Isaac deu um sorriso triste.
— E você está reclamando deles?
O capitão o encarou rosnando, novamente.
— Eles não são nem meus pais de verdade!
Agora foi a vez de Isaac rosnar.
— E isso importa? Meu pai verdadeiro me abandonou! Fui mordido fazendo o trabalho dele no cemitério, mas isso não o fez se sentir culpado... Nem o fez hesitar quando simplesmente me expulsou de casa. Seus pais podem não compartilhar o mesmo sangue que tens em suas veias, mas parecer ter mais consciência paternal do que muitos pais e mães que estão aí afora.
Jackson se sentou no banco, parecia olhar para os próprios pés, pensativo. Isaac se sentia frustrado, foi essa frustração que o fez levantar a sua voz e se meter com o capitão do seu time. Normalmente evitava o confrontamento direto, talvez estivesse mudando aos poucos o seu modo de ser.
— Você não me conhece, Lahey... Não sabe dos meus sofrimentos e problemas. – Resmungou cabisbaixo.
— Será que alguém nesse instituto sabe o que você realmente sente? – Sussurrou Isaac, mas estava diante de um lobisomem, era obvio que ele tenha ouviu.
— Acha que é fácil assim? Se abrir para os outros? Não sou como o seu grupinho arco-íris de tontos alegres! – Urrou, seus olhos iluminaram com coloração amarelada, com estranhos vislumbres azulados.
— Meus amigos também têm seus problemas e eu mesmo não falei de todos os meus problemas e inseguranças para eles. Mas, sei que eles estarão abertos a me ouvir...Quando eu achar que...Esteja pronto para falar.
— Por que está falando tudo isso para mim, Lahey? Está com pena, é isso? Você não é muito diferente dos meus pais adotivos... – Não havia ameaça em sua voz e sim uma palpável solidão. Algo que Isaac conhecia muito bem. Era no meio destas trevas de isolamento e tristeza que perigosas ideias surgiam. Ideias essas que podiam levar a consequências derradeiras.
— Jackson, você não precisa encarar tudo isso...Sei lá o que você está sofrendo... Sozinho.
— Eu não quero a sua amizade! – Se levantou subitamente do banco e empurrou Isaac para o lado.
— Não precisamos ser amigos para que eu queira te ajudar! – Rebateu Isaac.
Jackson não o respondeu, apenas seguiu pelas fileiras de armários do vestiário, rumo a saída. Isaac soltou um longo suspiro, talvez tivesse feito uma grande besteira, mas não se arrependia de ter pelo menos tentado...
~***~
As lembranças do confronto no vestiário ainda assombravam Isaac. Aquela conversa com Jackson fez surgir diversos questionamentos. O capitão da equipe de Lacrosse parecia ter uma vida perfeita. Era filho adotivo de um rico casal, que além de apoiá-lo durante todo o processo da Mordida, tinham se mudado para Beacon Hills para acompanhar o filho em seu novo estilo de vida sobrenatural. Como Jackson poderia reclamar desta realidade? Além do mais, o que levou a ele a buscar A mordida, sabendo do risco que poderia sofrer caso seu corpo não aceitasse a transformação. Será que tentativa inconsciente de suicídio? E aquele assunto sobre a incapacidade de Jackson de se transformar? Claramente o rapaz era lobisomem! Tinha cheiro de um, além de exibir as outras características, tais como alta capacidades curativas, audição avantajada, resistência...Mas não se capaz de assumir sua forma mais animalesca? Isaac ainda não ouvira falar de alguém que tivesse esse distúrbio. Será alguma doença?
Estava tão absorvo em pensamentos que não percebeu que alguém interpôs em seu caminho. Isaac colidiu de encontro com a pessoa e estava prestes a se desculpar, quando levantou os olhos. Suprimiu um gemido de pavor.
— Vejo que você está bem. – Falou a pessoa.
Como ele não tinha percebido antes? Pelo menos o cheiro acre de álcool já seria uma grande pista para identificá-lo.
— P-pai? – Aquilo deveria ser um sonho, ou melhor, um pesadelo.
— Só passou alguns meses aqui e já esqueceu de mim, é? – Sorriu o homem que tinha barba por fazer e até mesmo alguns dentes faltando. Parecia mais um mendigo do que qualquer outra coisa.
— Eles devem te alimentar direito, hein? Naquele colégio de riquinhos que você está estudando. – Falou isso enquanto escarrava, cuspindo o catarro amarelado perto do tênis de Isaac.
— O que você está fazendo aqui? – Queria ter parecido mais irritado, até mesmo rosnado, mas a presença do pai sempre despertava sentimentos conflitantes nele, como medo e carência.
— O que você acha? Te visitando!
— Você me expulsou de casa...
— Ora, ora, Isaac... Eu não te expulsei. Você sempre interpretou ao pé da letra as coisas... Facilmente fica melindrado, esse tipo de atitude você puxou da vagabunda de sua mãe.
Isaac se recordava do dia que recebeu alta do hospital, quando o serviço social lhe trouxe para casa. Seu pai o recebeu jogando garrafas, algumas delas chegaram o acertar, mas graças as novas habilidades lupinas, os arranhões e cortes se curaram. Contudo, a ferida aberta no seu coração permanece aberta. Também recordava que o senhor Lahey gritava obscenidades além de o chamar de monstro. A assistente social logo o retirou dali, dando início ao processo de transferência em caráter de urgência para Beacon Hills Institute. Aquela foi a última vez que vira o pai.
— O que você quer? – Perguntou mais enfático.
— Conversar. Será que não podemos?
Isaac queria dizer não, mas preferiu dar uma última chance ao seu pai. Talvez ele quisesse dinheiro, algo que o adolescente não tinha. Todas as suas despesas eram pagas pelo instituto, ademais recebia uma bolsa de auxílio da alcateia Hale, mas preferia não informar esses fatos para o ganancioso pai.
— Eu não tenho muito tempo. Vou me encontrar com meus amigos, seja rápido.
— Amigos? – Uma risada esganiçada foi emitida pelo Lahey mais velho – Talvez A Mordida tenha feito milagres mesmo. Alguém quer ser seu amigo? Curou essa sua doença de ser patético? Só me falta dizer que curou a sua gayzisse, isso sim seria interessante!
— O que você quer? – Rosnou.
— Ser lobisomem fez crescer bolas? Agora está todo corajoso?
Isaac soltou um suspiro, realmente era uma perda de tempo continuar aquela conversa.
— Ok! Ok! Eu vou ser rápido! Preciso de sua ajuda filho, você é único que posso pedir isso... – Havia um tom de desespero na voz de seu progenitor, isso fez Isaac hesitar.
— Venha... – O pai apontou para um beco próximo aonde estavam – Eu vou dizer tudo, mas...Não em público, vai que os tiras escutem.
Isso sim deixou Isaac apreensivo. Seu pai só não se metia em muita encrenca pelos esforços de Isaac, afinal, o adolescente fazia todas obrigações do velho bêbado no cemitério, impedindo que este perdesse o emprego e logo ficasse sem dinheiro para as suas bebidas. Sem Isaac por perto...Como será que Lahey sênior estava sobrevivendo?
— Estou duro. – Revelou, algo que não surpreendeu Isaac.
— E o seu emprego?
— Aquele emprego era uma porcaria mesmo! Eu não devia me humilhar cuidando dos mortos! – Reclamou retirando um cantil metálico do bolso e bebendo – Resolvi abrir meu próprio negócio, ser empreendedor, sabe?
— Sei... – Falou sem acreditar muito na capacidade do pai em administrar qualquer negócio.
— E é aí que você entra.
Isaac franziu o cenho.
— Como assim?
— Olha, você sabe o quão A Mordida é valiosa? Tipo, em nossa cidadezinha e nas cidades vizinhas existem pessoas dispostas a pagar para serem Mordidas! E não é baixa quantia!
— Valiosa? Eu quase morri quando fui Mordido, ou você esqueceu?
O Lahey mais velho apenas riu.
— Você sempre foi muito fraco...Qualquer coisinha, chorava. Cheio de ai ai Tá doendo! Não me toque! Se fosse o seu irmão, ele sim aguentava a dor. Se ele tivesse sido Mordido, teria se tornado um lobisomem formidável!
— Camden está morto, pai.
O rosto do homem ficou vermelho. Fúria, Isaac sabia identificá-la com facilidade.
— E eu sei muito bem disso! Lembro muito bem que o meu melhor filho se foi deste mundo como um herói americano!
Isaac lutou para engolir o choro. Já devia estar acostumado com aquelas palavras duras, mesmo assim, doíam ouvi-las.
— Pai...O que você deseja de mim? – Inqueriu com um semblante derrotado.
— Quero morda uns caras para mim.
— Morder?
— Sim, garoto idiota! Morder!
— Em troca de dinheiro?
— Obvio! Ficaríamos ricos! – Riu o outro enquanto bebia mais um gole de seu cantil.
— Nenhum lobisomem deve distribuir mordidas, sem antes passar a requisição para o conselho dos representantes das alcateias de lobisomens. Além disso, o lobisomem que deseja dar a Mordida, deve ele mesmo pertencer a uma alcateia e eu não pertenço a nenhuma. – Explicou tentando manter a calma. Então, era esse o motivo da “visita” do seu pai. Queria usá-lo novamente. Hector Lahey não o via como seu filho e sim como um instrumento útil a ser utilizado quando precisasse. Seus sentimentos, desejos e sonhos não importavam para Hector. Afinal, um instrumento é apenas um objeto e não um ser pensante.
— Quanta merda você falou, garoto! – Cuspiu, desta vez acertou o tênis do jovem lobisomem – Você vai morder e ponto final. Nada de mandar pedido para conselhos ou sei lá que bosta vocês monstros criaram para fingirem serem civilizados.
— Eu não vou morder ninguém.
— Lógico que vai, eu não estou pedindo...Estou mandando!
— Não tenho que seguir suas ordens. – Rosnou Isaac, seus olhos brilharam e isso fez com que Hector recuasse. Medo. Era isso que seu rosto expressava. Isaac se sentiu culpado por provocar pavor no outro. Não queria ser visto como um monstro, isso só daria suporte ao preconceito do pai.
— Como disse antes, estou ocupado...Volte para casa e tente iniciar um outro negócio. – Falou isso se virando, pronto para se retirar o beco. Lágrimas começaram a rolar de sua face. Devia ser mesmo um masoquista...Por que dava chances para alguém que simplesmente não o amava? Por que tinha esperanças? Já não estava feliz com sua situação atual...Tinha amigos e um namorado. Eles sim o amavam! Não precisava suplicar por migalhas de amor por alguém que nunca lhe daria nada.
— Você é mesmo um bastardo!
Isaac iria ignorá-lo, mas uma corda foi lançada em seu pescoço. Uma corda não deveria ser um problema para um lobisomem, mas aquela era diferente. Isaac sentiu seu corpo enfraquecer. O contato com as fibras ardia. Sentiu dificuldade de respirar. Não demorou para o adolescente cair de joelhas no sujo beco, mãos no pescoço tentando se desvencilhar da corda.
— Achou mesmo que iria aqui despreparado? Achou que eu era burro bastante para não estudar um pouco sobre vocês lobisomens? Gastei os meus últimos centavos nessa corda feita de wolfbane! Gostou?
Isaac não respondeu, ainda mais porque Hector apertou o nó do laço. Comprimindo ainda mais a corda ao redor do pescoço do garoto.
— Eu investi dinheiro nesse negócio. Tenho clientes já esperando pela a Mordida, pagaram até adiantado! Acha mesmo que voltarei de mãos abanando?
O adolescente rosnou.
— Pode rosnar o quanto quiser. Quando chegarmos em casa irei colocá-lo no freezer de novo!
Aquilo fez os olhos de Isaac arregalarem.
— Ohh! Você se lembra do freezer, não é mesmo? Quando você me decepcionava, algo que era bem recorrente, eu te colocava lá...Naquele freezer sujo e esquecido, na garagem. Te trancava lá até que aprendesse a me obedecer. Parece que terei que te treinar novamente! Agora que você é meio Lobo, deve ser como treinar um cachorro, não é mesmo?
Isaac se debateu, tentando escapar, mas o seu pai lhe deu um chute forte no estomago, fazendo que o menor caísse no chão.
— Pare de resistir. Não vê? Você é fraco, sempre foi! Além disso, eu sou seu pai, você deve me obedecer! Entendeu?
“Não! Não posso desistir! Não agora que finalmente consegui me sentir...Feliz!” Pensou em desespero.
Hector começou arrastá-lo, mas seus movimentos foram interrompidos por um rosnado. Não fora Isaac que tinha emitido. Uma sobra pairava sobre ambos.
— Mas...O que...
Algo descia pela parede de tijolos.
Tinha coloração verde.
Tinha escamas.
Tinha uma longa cauda que serpenteava, de modo sinistro.
Sibilava como uma serpente.
“O kanima!” Exclamou Isaac em pensamento vendo a criatura descer e se posicionar ao seu lado. Pode ver os olhos amarelados com a pupila negra fendida, tal como a de um réptil. O Kanima o encarou por alguns segundos, para depois rosnar para Hector.
— Mas que merda é essa?
A resposta para aquela pergunta foi o feroz ataque.
Fale com o autor