Be mine
20 Capítulo 20
10 de Fevereiro
Terça-feira
A última aula do dia foi inglês. O professor Edwards era um senhor baixinho e barrigudo, mas as aulas dele eram boas. Assim que o sinal tocou, saí da sala para procurar a tal capitã da torcida. Daisy disse que ela estaria pelos corredores e que seria rápido. Assim espero.
Andava pelo corredor do segundo andar procurando por ela. Daisy havia dito que ela tinha os cabelos escuros sempre presos em um rabo de cavalo alto e bem feito, estava sempre com o uniforme, obviamente, e andava com uma prancheta no início do ano. Não seria difícil encontrá-la, Daisy disse, mas eu estava começando a duvidar.
Quando já estava quase desistindo, vi uma menina que correspondia às características dadas por Daisy. Fui até ela e toquei em seu braço.
— Oi, com licença. Você é a capitã das líderes de torcida? — perguntei tímida.
— Sou sim. — ela respondeu simpática. Todos naquela escola eram muito simpáticos, uma vez que você fala com eles.
— Eu gostaria de fazer o teste para entrar no time.
— Gostaria? — ela perguntou surpresa. Analisou-me de cima a baixo e então sorriu — Já fez alguma aula de ballet na vida?
— Não. Eu fiz jazz, dança de rua e...
— Ótimo! — ela disse me interrompendo — Não precisa fazer o teste. Estamos precisando de meninas novas e você é perfeita! — ela disse olhando todo o meu corpo mais uma vez — Apareça no treino amanhã depois da aula lá no campo. Não se atrase, a treinadora odeia isso.
— T-tudo bem. — respondi um pouco atordoada com as informações.
— Até amanhã. — ela disse sorridente e foi embora, sumindo no mar de alunos.
— Até... — fiquei parada no mesmo lugar, ainda confusa em relação ao que tinha acabado de acontecer.
— Ana, o Josh já chegou. — ouvi Jade se aproximar.
— Ah, ok. Você pegou com a Becky o que perdeu na aula de ontem? — perguntei quando começamos a andar para o portão.
— Peguei. Eu não perdi muita coisa não. Foi muito bom ter passado esses dois dias com a Jessie. Eu tava com saudade dela. — ela disse feliz.
— Que bom. — sorri.
— O que você tava falando com a irmã da Becky?
— Hã? — olhei pra ela sem entender.
— A irmã da Becky. Você tava falando com ela, a capitã das cheerios.
— Ela é a irmã da Becky?
— Sim. — Jade deu de ombros — O que você tava falando com ela? Pensei que não se conheciam.
— Era sobre uma aula aí. Nada demais. — menti. Eu não queria falar sobre as "cheerios" pra Jade porque eu ainda não tinha certeza se iria até o final com isso e ela com certeza não me deixaria em paz com esse assunto.
— Pensei que não fossem da mesma sala. — ela me olhou desconfiada.
— E não somos. É que ela é amiga da Daisy e... Ei! Eu não tenho que ficar te explicando. Eu hein. — saí de lá já indo pro estacionamento e Jade me seguiu.
Cinco da tarde de terça-feira
— Mil desculpas por não ter te atendido ontem. — falei assim que Analu atendeu minha chamada no Skype — Eu tava meio ocupada com uns trabalhos, mas agora sou toda sua. E aí? Como foi na escola?
Analu ficou me olhando por uns segundos e então suspirou.
— Foi legal. Eu e a Natália ficamos em salas separadas. — ela disse meio pra baixo — Mas fiquei na mesma sala da Bianca, olha que legal.
— Ah, eu era da sala dela ano passado, lembra? Nem foi tão ruim. Ela é pior fora da aula, eu te garanto. — tentei quebrar a tensão. Eu sabia muito bem que a Analu não aguentava a Bia. No ano anterior, eu fiquei na mesma sala que Sara e Bia. A Analu ficou na outra com a Natália e outros amigos nossos. Eu e Sara costumávamos dizer que tínhamos ficado na sala ruim, mas foi um ano muito bom.
— Bem, tirando o fato de que não tem os irmãos Santini e nem os irmãos Pascarelli, a escola tá normal. A mesma merda. — ela deu de ombros — Acho que a coisa mais interessante é que finalmente substituíram o professor de geografia.
— Sério? Foi só eu sair... E o novo professor é bom?
— Olha, melhor que o anterior, com certeza. Eu ainda não tive aula com ele, mas a Natália teve e foi isso que ela disse.
— Que bom. — forcei um sorriso.
— Você, hm... Você não quer saber nada mais? — ela me olhou sugestiva.
— Hm, acho que não.
— Tem certeza? — ela levantou uma sobrancelha. Fiquei olhando pra ela meio sem entender, até que a ficha caiu.
— Tá, Analu. Fala logo. O que tem o Daniel? — perguntei com preguiça.
— Ele fez o Enem ano passado, lembra? E você disse que ele não ia passar.
— Eu não disse que ele não ia passar. Eu só disse que ele não tava se esforçando como deveria. Vai, continua.
— Ele passou. Tá fazendo exatamente o que queria: engenharia mecânica.
— Bom pra ele. — dei de ombros — Espero que seja muito feliz.
— A Sara estaria pulando de alegria. — ela comentou — Ela sempre apoiou ele em tudo.
— É, sei disso. Cresci com eles, lembra? — suspirei — Não quero falar sobre isso.
— Tudo bem. — ela disse — Eu... Eu preciso ir. Já são oito da noite aqui. Tenho umas coisas pra ajeitar.
— Ah, tudo bem. A gente se fala amanhã então? — tentei sorrir. O clima tinha ficado estranho.
— Sim. Até amanhã. — ela jogou um beijo no ar e desligou antes que eu pudesse responder. Será que eu fiz algo de errado?
11 de Fevereiro
Quarta-feira
3:30 pm
— Meninas! — a treinadora gritou e as "cheerios" veteranas foram até ela. Ainda preciso me acostumar com esse nome — Temos três meninas novas. Ana, Sophia e Sarah.
Olhei rapidamente para as outras meninas novas, involuntariamente procurando pela minha Sara.
— Temos algumas coisinhas para ensiná-las, mas por enquanto vamos apenas nos aquecer. Quero que dêem quantas voltas puderem ao redor do campo. Vão! — ela apitou e as meninas começaram a correr. Fui logo atrás. Nós ainda não estávamos usando o uniforme porque ele ainda não estava pronto, a treinadora disse, mas eu não me importava muito com isso. Estávamos usando roupas confortáveis e já tava ótimo.
Enquanto corria, ouvi alguém gritar "Vai, Ana!". Olhei para a arquibancada e vi meus amigos lá. Todos eles. Ben, Daisy, Kasper e Ryan. Todos torcendo por mim. Sorri para eles e continuei correndo. Percebi que a capitã olhou para eles também, mas ela não ficou muito feliz com a presença deles ali não.
Consegui dar quatro voltas ao redor do campo, apenas. Eu não tava preparada para correr logo no primeiro dia.
A treinadora só apitou para todas pararem quando a capitã parou.
— Lily! — ela gritou — O que você pensa que está fazendo? Um líder fica à frente do time para guiá-lo. Vou dar um desconto porque é a primeira prática do ano. Vamos, todas aqui!
Aproximei-me da treinadora White, mas minha mente estava em Lily. Agora eu entendi tudo! Lily, a capitã das líderes de torcida, é a ex-namorada do Kasper. Por isso ela não gostou quando viu que eles estavam lá.
— Meninas, o primeiro jogo da competição será em Abril. — ela disse — Temos pouco tempo para preparar as coreografias, então temos que correr, mas isso fica pra sexta-feira. Hoje eu quero que vocês continuem correndo ou então façam outra atividade que gostem. Vão!
A maioria voltou para o campo e continuou correndo, mas Lily, Maya, algumas veteranas e as outras meninas novas ficaram ali, então fiquei também. A treinadora foi sentar em um banco perto da arquibancada e ficou folheando uma revista de esportes.
Lily pegou umas toalhas e distribuiu para as alunas.
— Nós geralmente fazemos yôga, mas se vocês tiverem alguma sugestão de outra atividade interessante, — ela disse — sou toda ouvidos.
— Yôga é ótimo. É bom pro corpo e pra mente. Meu instrutor sempre diz que eles devem estar em sintonia, então não há outra melhor. — Maya disse.
— Você faz yôga fora daqui? — Sophia perguntou.
— Faço. É ótimo. Recomendo.
— Muito bem, meninas. Vamos lá. Coloquem suas toalhas no chão e nós vamos começar. — Lily disse — Maya?
Maya foi até a frente e colocou sua toalha no chão. Acho que ela seria nossa instrutora. E eu estava certa.
— O que achou? — Lily perguntou a mim quando estávamos nos trocando no vestiário.
— Incrível. Adorei. — sorri sincera e ela retribuiu.
— Quando Daisy me contou que você queria entrar pro time, fiquei muito feliz. Ouvi coisas boas de você. — ela disse e eu a olhei curiosa.
— Ouviu? Quem falou de mim pra você?
— Daisy, professora Wright, Maya... Elas gostam de você. — ela disse e eu demorei um pouquinho pra lembrar que Wright era o sobrenome da professora de literatura.
— Ah, que bom. Também gosto muito delas. — sorri — Delas e dos meninos. Ben, Ryan... e Kasper. — falei o último nome cautelosamente. Eu não sabia que tipo de reação ela teria, mas eu queria ter certeza se ela era mesmo A Lily.
— É, eles são legais. — ela deu de ombros — Mas se eu fosse você, teria cuidado com certas amizades. Nem todos são quem parecem ser.
— Claro. Eu terei. — dei um último sorriso, peguei minha bolsa com minhas roupas e saí de lá.
Meus amigos ainda estavam na arquibancada, esperando por mim.
— Eu não pensei que vocês ficariam aqui até o final. — falei ao me aproximar.
— Queríamos ter certeza que VOCÊ ficaria até o final. — Ben disse.
— Ei! Quando eu me comprometo com algo, eu vou até o fim, ok? — protestei e ele riu.
— Relaxa, tô brincando. Ficamos pra admirar a cena. — ele disse olhando pras poucas meninas que ainda estavam no campo, conversando alguma coisa com a treinadora. Reparei então no que ele estava se referindo. As meninas estavam com roupas curtas e o suor as deixavam coladas no corpo.
— Com o "ficamos", você quis dizer que vocês três ficaram, né? Porque eu fiquei aqui por causa da Lily e da Ana mesmo. — Daisy disse rindo.
— Dois. Vocês dois. — Kasper corrigiu — Não vim pra olhar as garotas.
— Veio pra olhar a Lily, né? Sabemos. — Ryan brincou, mas Kasper não gostou muito. Os outros não disseram nada, então resolvi me intrometer.
— Então? Aonde vão agora? — perguntei pra mudar de assunto.
— Pra casa. — Kasper disse se levantando e saindo dali. Olhei para Ben e indiquei Kasper com o queixo. Ben fez sinal pra eu olhar pra trás e vi que Lily saía do vestiário e ia falar com a treinadora. Eu entendia Kasper perfeitamente.
— Eu vou pra casa também. Mas antes tenho que falar sobre a ornamentação da abertura da OCCG com a professora Wright, então até amanhã. — Daisy disse se levantando.
— Tchau. — respondemos e ela desceu a arquibancada até o campo. Fiquei observando-a se despedir de Lily e atravessar o gramado para o portão.
— Ainda vou ganhar aquela carona? — perguntei a Ben — Meus irmãos já foram.
— Claro! — ele disse — Vamos.
Nós três fomos para o estacionamento, onde eu finalmente vi o carro do Ben. Era uma BMW 320i azul imperial. Um carro e tanto. Eu não sabia que pessoas ricas estudavam em escolas como a Starplace. Se a Sara viesse pra Los Angeles, ela com certeza estudaria em uma escola particular, como a McGregor.
— Olha só, León. — ouvimos alguém falar atrás de nós — A garota nova já tá enturmada, hein? Pena que é com as pessoas erradas.
Era Scott. Ben segurou meu braço e me puxou para que continuássemos andando até o carro.
— Parece que estão te ignorando, Scott. Ei, Daniels, eu não faria isso se fosse você. — León disse num tom de voz que irritaria um monge tibetano.
— Ah, é? Observe. — Ben disse sem parar de andar. Chegamos no carro e Ben pegou a chave. León se aproximou rapidamente e tomou a chave das mãos de Ben num piscar de olhos.
— Ei! Devolve. Agora! — Ben disse indo em direção a Jackson, mas segurei seu braço.
— Ben, calma. — eu falei puxando ele pra perto. Eu sabia que se ele ficasse nervoso, acabaria dando merda. Ryan apenas observava tudo.
— Pra quê você quer isso, Daniels? Você nem sabe dirigir. — Scott disse pegando a chave — E você, princesa? Vai sair com esses dois? Não sabia que você dava conta, mas já que dá... que tal vir comigo? — ele deu um sorriso mais maliciosamente possível e me analisou de cima a baixo.
— Olha como fala, Throbs. — Ben disse irritado — Você não tá no seu bordel.
— Calma, calma, Daniels. Não chamei tua namoradinha de puta. É decisão dela ser ou não. — ele disse olhando pra mim — Mas se quiser, — ele veio mais pra perto — vou adorar ser o primeiro.
Um calafrio percorreu a minha espinha e dei um passo pra trás, apertando ainda mais o braço de Ben.
— Vai se foder, Throbs. — ele disse. León riu.
— Só se a Ana vier comigo. — Scott disse com aquele sorriso malicioso novamente.
— É melhor você ir embora, Throbs. — Ryan disse.
— Senão o quê? Vai me bater? — ele riu.
— Algum problema, meninos? — O professor de biologia disse ao chegar no estacionamento.
— Nada, professor. — Scott sorriu — Benjamin deixou a chave do carro cair e eu estava juntando pra ele.
— Mentiroso. — falei involuntariamente e ele me olhou.
— O quê disse, princesa? — ele disse fingindo não entender. Apenas apertei ainda mais o braço de Ben, provavelmente ele ficaria muito vermelho depois disso.
— As últimas atividades já acabaram por hoje. — o professor Nelson disse — Vão pra casa.
— Sim, senhor. — Scott sorriu e o professor foi embora em seu carro. Droga. — Onde estávamos?
— Na parte em que você me devolve a chave e vai cuidar da sua vida. — Ben disse já irritado.
— Scott, vamos nos atrasar. Deixa eles aí. — León disse olhando o relógio e Scott fez o mesmo.
— Merda. Toma, Daniels. — ele jogou a chave embaixo do carro — Faça bom proveito.
Os dois riram e se dirigiram a um carro ali perto, até que Scott parou e voltou.
— Quase ia esquecendo. — ele colocou a mão no bolso e então jogou algo em mim — É melhor prevenir.
Os dois riram ainda mais e foram embora. Olhei pro chão e vi que era uma camisinha. Que patético.
— Agora sabe do que eu tava falando, né. — Ben disse suspirando — Como vamos pegar essa chave?! O filho da mãe jogou bem no meio! Não dá pra alcançar.
— Dá sim. — Ryan disse se abaixando — Só um pouco e... pronto. Tá aqui.
Ele balançou as chaves na frente de Ben, que pegou com raiva e destravou o carro.
Eu ia para o banco de trás, mas Ryan fez sinal para eu ir na frente, então entrei e sentei ao lado de Ben.
— Que babaca. Odeio aquele cara. — ele bufou — Por que vocês não se reúnem pra pegar ele? É tão simples. Um time inteiro contra um cara só.
— Ele fornece umas coisinhas pro time, então eles não vão querer. E outra: ninguém se mete com ele desde aquele incidente. Lembra? — Ryan deu de ombros.
— Foda-se. — Ben disse visivelmente puto, enquanto manobrava o carro.
— Se acalma aí. Não aconteceu nada demais. — Ryan disse batendo no ombro do amigo.
— Mas pode acontecer. Viu o jeito que ele olhou pra Ana?
Olhei pra Ben imediatamente.
— Como assim "pode acontecer"? Você tá dizendo que ele pode querer fazer alguma coisa comigo?
— Não sei, quem sabe? Não duvido de nada vindo de Scott Throbs. — ele disse — Mas não se preocupa. Eu e Ryan vamos esperar teus treinos toda vez.
— O quê? — Ryan olhou pro amigo incrédulo — Ficar na escola até depois das quatro da tarde? Eu não bati na minha mãe ainda.
— A escolha é sua. Se quiser carona, vai ter que ficar. — Ben não se importou com o protesto do amigo, mas eu sim.
— Ben, não precisa. Tenho certeza que meu irmão pode dar um jeito lá na faculdade.
— Ah, isso aí eu duvido. — Ryan disse — Ele estuda na UCLA, né? Eles são meio severos lá.
— Ana, a gente vai ficar. — Ben olhou pra mim e Ryan bufou — Ryan, você não tá pensando direito. Você vai assistir ao treino da Maya Littleton toda quarta-feira.
— E sexta-feira também. — completei — Pera aí. Você gosta da Maya? — olhei para Ryan no banco de trás e ele rapidamente ficou vermelho.
— Não é bem gostar... Eu só acho ela bonita. — ele tentou parecer indiferente.
— Ah, claro! Vamos, Ryan. Vai ser legal. — Ben insistiu.
— Certo, certo. Vou ficar. Mas pela Ana, não pela Maya.
— Aham. — Ben disse rindo.
— Não sabia que seu nome é Benjamin. — falei aleatoriamente.
— O quê? Você achou que Ben é um nome? — ele me olhou surpreso.
— Não. Quer dizer, sei lá... — dei de ombros — Só não sabia que era Benjamin. Gosto desse nome.
— Você gosta? — ele me olhou mais surpreso — Não acho feio, mas... sei lá.
— Acho muito bonito. — olhei pra ele também e sorri. Vi que suas bochechas estavam rosadas, e ele sorriu também. Ryan limpou a garganta, chamando nossa atenção.
— O sinal abriu, — ele disse pausadamente — Benjamin.
Ben mostrou o dedo e nós três rimos.
Fale com o autor