Be mine

9 Capítulo 9


(Ana's POV)

Naquela noite, a família inteira se reuniu no escritório do nosso pai pra finalmente conversar a respeito da faculdade do Josh. Meus pais ficaram muito felizes ao saber que ele havia passado. Logo meu pai quis acertar tudo, porque, de acordo com ele, "Josh só tem um mês pra organizar o resto da vida". Dramático, eu sei. Porém Jade interviu e disse que queria ir também. Aí começou. Eu sabia que seria difícil convencê-los, mas não tanto.
Meu irmão é inteligente e já havia preparado todo um discurso e seus argumentos, junto com Jade. Eu me manifestava somente quando meu nome era mencionado, ou seja, pouquíssimas vezes. Debate vai, debate vem. Minha mãe se convenceu. Ela disse que seria bom pra educação da Jade mesmo. Meu pai foi mais difícil, mas depois de conversar bastante com Jade e Josh, e às vezes pedindo minha opinião, ele se convenceu também. Os dois iriam para os EUA.
Depois dos dois comemorarem brevemente, minha mãe questionou por que eu não iria. Aleguei que não queria deixar Daniel sozinho em um momento difícil. Ela não gostou, como sempre. Disse que eu estava desperdiçando uma chance que só aparece uma vez na vida e que eu deveria pensar mais em mim de vez em quando, em vez de pensar sempre nos outros, ainda mais se tratando de um namorado de adolescência, que nem sabemos se vai durar. Meu pai, para minha surpresa, concordou com ela. Ele disse que era bonito da minha parte não querer deixar meu namorado sozinho, mas disse também que eu estava sendo boba por deixar uma oportunidade dessa passar por um motivo tão simplório.
Fiquei pensativa. Será que eu estava sendo boba mesmo? Falei para eles que queria pensar mais um pouco e os quatro concordaram em me dar uma semana.

Agora, dois dias depois, é véspera de Natal e eu ainda não parei para pensar a respeito.

— Bom dia, linda família! — Jade disse ao entrar na cozinha, onde tomávamos café da manhã. Ela está feliz assim desde que os nossos pais concordaram em deixá-la ir com Josh. É muito bom vê-la assim, na verdade.
— Bom dia. — alguns responderam.
— Crianças, vocês já escolheram a roupa que vão usar hoje a noite? — minha mãe perguntou. Ela é do tipo que se preocupa com tudo em datas comemorativas, inclusive com as roupas. Por isso ela sempre organiza as festas em família.
Olhei para Jade, que olhou para Josh.
— Já. — ele disse rapidamente.
— Tem certeza? Eu comprei roupas pra vocês. — ela disse feliz.
— Temos sim, obrigada. — Jade respondeu convincente, mesmo estando mentindo.
— Ah, que pena. — ela disse meio desapontada. Fiquei com pena da minha mãe, mas desde que fiz doze anos, parei de usar as roupas que ela compra pra mim. Não é que ela tenha mau gosto. Longe disso. Ela tem bom gosto até demais. Sempre comprou roupas caras e elegantes pra gente, mas nós não gostamos desse tipo de coisa. Sempre preferimos coisas mais simples, como o nosso pai.
— Vocês têm certeza que não querem nem ver? — ela perguntou esperançosa.
— Ah, podemos dar uma olhada sim. — respondi sorrindo para ela, que retribuiu. Meus irmãos olharam para mim abismados. Eles sabiam no que eu tinha nos metido. Nós não poderíamos dizer que não gostamos porque isso partiria o coração da nossa mãe. E se disséssemos que gostamos, ela morreria tentando nos convencer a usar. Mas eu fiquei com pena dela!
Ignorei os olhares dos meus irmãos e continuei tomando café. Percebi que meu pai nos observava e assim que o olhei, ele soltou uma leve e baixa risada e voltou a ler seu jornal.

Assim que terminamos, nossa mãe nos arrastou para o quarto dela.

— Bem, eu sei que geralmente vocês não gostam das coisas que eu compro. — ela disse sem ressentimentos. Abri a boca para falar, mas fui interrompida. — Não adianta dizer o contrário, Ana. Sei que você não gosta e diria isso só pra eu me sentir melhor. Porém desta vez eu comprei algo mais simples. Espero que gostem.
Ela entrou no closet e saiu com um embrulho com o símbolo de uma grife masculina em mãos. Algo mais simples, mas igualmente caro, com certeza.
— Josh. — ela disse entregando a ele. Meu irmão pegou o embrulho e colocou em cima da cama. Assim que abriu, ficamos espantados. Minha mãe havia acertado em cheio. Josh então pegou a calça social preta e mostrou para mim e Jade, meio surpreso.
— Pra quem só usa jeans, tá lindo, Josh. — Jade disse brincando.
Meu irmão então pegou a camisa social preta de mangas longas até o pulso. Muito bonita.
— Nossa, mãe. Gostei muito. Pensei que você tivesse comprado um smoking. — ele disse brincando e minha mãe sorriu.
— Eu queria muito comprar um terno, mas... — meu irmão fez cara feia — eu sabia que você não iria gostar. — ela disse — Eu ia comprar também um sapato social preto pra combinar, mas tenho certeza que você não abriria mão de usar aquele tênis velho e feio.
— Ei, um Converse é um Converse. — ele disse fingindo estar afetado.
— Pois bem, agora as meninas. — ela disse voltando para o closet e depois saindo de lá com outro embrulho de grife, dessa vez feminina — Jade.
Minha irmã pegou o embrulho e colocou em cima da cama, como Josh. Abriu e tirou de lá um vestido simples exatamente como ela gosta.

— Mãe... — Jade começou ainda surpresa, segurando o vestido — É lindo!
Colocou o vestido na frente do corpo e girou, fazendo a saia rodar.
— Você gostou? — minha mãe perguntou contente.
— Eu amei! É lindo demais!
— Verdade, mãe. E é a cara da Jade. — dei minha opinião sincera. Minha mãe olhou para mim e sorriu.
— Agora o seu. — ela disse voltando para o closet e pegando novamente um embrulho de grife. — Eu sei que você não é muito fã de vestidos. Usa uma vez na vida e outra na morte, isso quando gosta muito dele. Por isso, me dei a liberdade de escolher um... "look". Aqui está.
Ela me entregou o embrulho e eu o abri ansiosa.
— Uau! — eu disse maravilhada. Minha mãe havia escolhido uma saia e uma blusa.
— Mãe, elas são lindas! — falei colocando as duas em cima da cama para vê-las juntas.
— Você tem um sapato preto que mais parece uma bota de soldado, mas que insiste em usar, que eu achei que até ficaria bom com elas. — ela disse brincando.
— Ah, mãe. Você sabe que eu amo meus coturnos. E eles realmente vão ficar perfeitos com esse... "look". — falei soltando uma leve risada no final — Obrigada.
— Por nada, querida. Bem, é isso. Estou feliz em saber que vocês gostaram do que eu comprei dessa vez. — ela disse visivelmente satisfeita.

Quando estávamos almoçando, meu celular tocou. Minha mãe não gosta que usemos os celulares na mesa, durante as refeições. Peguei já pronta para recusar a chamada, então vi que era Daniel.
— Com licença, preciso atender. — eu disse já me levantando e saindo da sala de jantar antes que minha mãe pudesse se manifestar.

— Alô? — falei ao atender.
— Oi, meu amor.
— Oi. — sorri automaticamente.
— Tudo bem?
— Tudo sim. E aí?
— Nada bem. Tá todo mundo muito triste, com aquela coisa de "primeiro Natal sem ela". — ele disse suspirando — Tá difícil de aguentar.
— Não se preocupe. Daqui a pouco vai tudo voltar ao normal. É difícil se adaptar à ausência da pessoa, mas uma hora passa a fazer sentido. Foi assim quando a vovó se foi.
— E essa dor, passa?
— Passa não. Mentiram pra gente. — respondi sincera.
— Ah, Ana... Tô cansado desse assunto, pra falar a verdade. Liguei pra te desejar um Feliz Natal um pouco antecipado. O pessoal já tá ajeitando os carros e daqui a pouco nós vamos sair pra pegar a estrada. À noite não vou poder te ligar porque minha bateria tá acabando e eu esqueci a droga do carregador aí no Rio, então... Feliz Natal.
— Ah, tudo bem. Feliz Natal, meu amor. — respondi sorrindo, mesmo sabendo que ele não veria — Já tava com saudade de BH?
— Nem tanto, na verdade. Quer dizer, a cidade é ótima, mas eu gosto mesmo é de Juiz de Fora, onde minha avó mora e eu passei a maior parte da minha infância.
— Sei, sei. Passei as férias lá uma vez, lembra? Foi tão legal.
— Ah, lembro. Foi quando a Sara caiu da árvore e quebrou o braço. Foi engraçado até.
— Engraçado? Tá doido? — falei rindo — Ela quebrou o braço.
— Sim, mas quando ela caiu, todo mundo riu, inclusive ela. Ela se levantou e começou a andar, aí a minha prima gritou "Sara, seu braço tá torto!". A Sara olhou pro braço e imediatamente começou a chorar de dor. Ela não percebeu que tinha quebrado. Foi engraçado, Ana. — ele disse rindo.
— Tá bom, foi sim. — concordei rindo também. De repente nos demos conta e paramos de rir.
— Nossa, eu sinto tanta falta dela. — ele disse com a voz um pouco falha.
— Eu também. — falei baixinho encarando meus pés e então ouvi minha mãe me chamar. — Ah, preciso voltar. Saí no meio do almoço pra te atender.
— Com a dona Helena aí? Que menina ousada. — ele disse brincando, me fazendo rir um pouco.
— É, meu bem. Enfim, manda um beijo meu pros seus pais e um Feliz Natal também.
— Pode deixar. Manda pro povo aí também, menos pro Josh e pro seu pai. Pra eles você manda um aperto de mão.
— Quê? Por quê?
— Pro Josh porque eu não gosto dele e pro seu pai porque ele me dá medo. — ele disse brincando, me fazendo rir alto.
— Meu pai é tão legal! Ai ai... ok ok. Tchau, Dani-Dani.
— Tchau, Ana. Te amo.
— Também te amo. — falei sorrindo feito uma pomba lesa.
Desliguei o celular e voltei pra sala de jantar. Felizmente, ninguém fez perguntas e minha mãe apenas fez cara feia, como sempre.

A noite chegou e nós nos arrumamos para ir para a casa do nosso tio Bernardo, irmão do papai. Nós sempre passamos o Natal com a família do papai, porque... bem, a família da mamãe é composta por prepotentes e mimados. A minha avó materna era um amor de pessoa, eu realmente não sei por que meus tios são assim. Minha mãe é a mais nova. Ela e a minha tia Marina são as únicas que não são desse jeito. Por isso, a tia Nina sempre passa o Natal com a gente. Eu gosto muito dela e da minha prima Clara, filha dela.

— Vamos, Ana. Já estão todos lá embaixo. — Josh disse batendo na porta.
— Vamos. — falei ao sair do quarto.

Fomos os últimos a chegar na casa do tio Bernardo, ela já estava lotada com os meus tios e primos. Ao entrarmos vimos que a área externa da casa estava toda decorada no estilo natalino. Havia vários bonecos de Papai Noel, renas, homens de neve, duendes, presentinhos em miniatura, essas coisas. Havia mesas unidas formando uma longa mesa com lugares para todos os convidados. Ao lado dela, uma enorme árvore de Natal com inúmeros presentes e cartões. Vários pisca-piscas atravessando o alto, amarrados no telhado da casa e nas pequenas árvores, ficando um pouco acima de nossas cabeças. Estava muito bonito. Eu tinha certeza que tinha dedo da minha mãe naquilo.
Não havia ninguém sentado na grande mesa, acredito que somente nos sentaríamos lá na hora da ceia e ainda eram nove da noite. Depois de cumprimentar alguns tios e primos, fui para dentro da casa. Meu tio não é rico, mas com certeza vive bem. Eu o estava procurando, quando dei de cara com meu primo Rodrigo, filho do tio Bernardo, aquele primo mais velho por quem a gente desenvolve uma quedinha na infância.
— Ana! — ele disse ao me ver — Você tá linda.
— Obrigada. — respondi dando um abraço nele — Que saudade. Quando foi que você voltou?
— Faz algumas semanas. Eu ia pra celebração da vovó, mas tive que resolver umas burocracias aí. Fiquei muito triste que não deu pra ir. — ele disse meio triste. Rodrigo acabou de voltar do intercâmbio que fez na Alemanha. Passou um ano pra lá.
— Ah, sentimos sua falta mesmo. Mas e aí? Como foi lá na Alemanha? — perguntei mais por educação do que por interesse.
— Muito bom! Conheci tanta gente legal, inclusive namorei uma alemã por um tempo, mas não deu certo. Ela era muito controladora. — ele disse meio indiferente.
— Ou era você que saía demais a noite pra beber e às vezes com outras garotas e não dava satisfações? — perguntei levantando uma sobrancelha.
— Você me conhece, priminha. — ele disse com um sorriso cafajeste.
— É, você não tem jeito, Rodrigo. — falei rindo.
— Calma lá, tenho só vinte anos. Talvez algum dia eu tome jeito.
— Assim espero. — falei sorrindo divertida.
— Eu sei que quem tem que perguntar isso é a tia Celeste, mas... e os namoradinhos? — ele disse me cutucando na costela, lugar onde eu tenho mais cócegas.
— Namoradinhos? Ah, é. Você passou um ano fora. — falei me dando conta que estava namorando o Daniel há apenas sete meses — Lembra do Daniel? Você jogou bola com ele no meu aniversário de dez anos.
— Porra, Ana. Só tu pra lembrar disso. Claro que não lembro.
— Aquele que chutou tua canela e tu quis dar um cascudo dele, mas a tia Esther chegou e te brigou. — falei meio nostálgica.
— Ah! Lembro sim! Odiava aquele moleque. Não vai me dizer que...
— Sete meses.
— Caraaaaamba. — ele disse impressionado — Ana, você arranja coisa melhor!
— Coisa melhor? Tipo quem? Alguém como você? — perguntei brincando.
— Não, não. Devo reconhecer que não sou o melhor cara quando se trata de mulheres. — ele disse rindo.
— Aninha! — ouvi uma voz feminina atrás de mim, virei e dei de cara com Clara.
— Clara! — dei um abraço nela — Já faz um tempo né?
— Aham. Uns meses aí. — ela disse sorrindo e então olhou pro Rodrigo — Oi, Rodrigo. Como foi a viagem?
— Ótima. Gostei muito. Bem, vou deixar as garotas conversando sobre seu universo feminino das maquiagens e caras gostosos e vou atrás do meu pai. — ele disse com um sorriso sapeca e se retirou. Rodrigo é mais criança que a Luísa.
— E aí? Tá gostando de Arquitetura? — perguntei realmente interessada. Clara já havia mudado de faculdade duas vezes. Quando ela se formou no ensino médio, com dezoito anos, ela fez o vestibular e entrou pra Direito, que era o que a tia Nina queria que ela fizesse. Ela não curtiu muito, então quando ela fez dezenove, ela fez o vestibular de novo e entrou pra Psicologia. Não curtiu de novo e agora, com vinte e dois, tá cursando Arquitetura.
— Simmmmmmmm. Muuuuuuito. — ela disse empolgada — Já tô há dois anos nessa. Acho que agora é pra valer.
— Ah, que bom. Fico muito feliz por você. — falei com um sorriso sincero.
— Obrigada, Aninha. E você? Alguma ideia do que quer?
— Não tenho ideia nem de como minha vida vai ser em uma semana, imagina em dois anos.
— Como assim?
— Vem cá. — falei pegando a mão dela e a levando pra sala de estar, que estava vazia, felizmente — Olha, eu não sei se os meus irmãos e os meus pais querem que a família saiba ainda, mas enfim... o Josh vai fazer faculdade nos Estados Unidos e a Jade vai pra lá com ele passar uns dois anos, talvez os quatro anos mesmo.
— Sério? Que legal! Isso é ótimo! Por que você não vai? — ela perguntou confusa.
— Porque eu não quero deixar meu namorado aqui sozinho, Clara.
— Quê?! Ana, que besteira! Isso não combina com você. Você é independente de macho. — ela disse surpresa.
Ri um pouco.
— Sei disso. Acontece que... lembra da Sara? — perguntei já aflita por ter que falar sobre aquilo.
— Sim. Aquela tua amiga doida. Adoro ela. Como é que ela tá? — ela disse animada e eu senti uma pontada no meu coração.
— Clara, ela morreu duas semanas atrás. — falei de uma vez. Clara arregalou os olhos e eu encarei um ponto qualquer na sala.
— Ana... m-meus pêsames. — ela disse e eu apenas assenti.
— Bem... o Daniel e a família dele estão abalados. Eu não quero deixá-los sozinhos nessa.
— Aninha, meu amorzinho, posso ser bem sincera contigo agora? — ela perguntou olhando nos meus olhos e eu apenas balancei a cabeça, incentivando-a a falar — Você tá sendo boba. Eu entendo que você se preocupa com o seu namorado porque você o ama e tudo mais. Só que ele não precisa de você pra passar por isso tanto quanto você pensa. Dói muito no começo, mas logo as coisas voltam ao normal e você segue a vida. Perdi meu pai dez anos atrás, lembra? Eu sei como é. Na hora parece o fim do mundo pra você, mas depois essa sensação passa e só fica a saudade. Se você ficar aqui com ele, uma hora ele vai superar a perda da irmã, vai ficar bem, vai começar a faculdade, né? E aí você vai perceber que podia ter ido com seus irmãos e vai se arrepender porque não foi.
— Mas Clara, ele não precisa de acompanhamento psicológico ou sei lá?
— Ana! Ouça o que você tá dizendo! Tá, ele pode até precisar. Mas e aí? O que você tem a ver com isso? Você é psicóloga? Você vai tratar ele? Não vai, Ana. Desculpa ser tão sincera, mas ele não precisa de você. Você pode ir pros EUA sem culpa. — ela disse com as mãos nos meus ombros. Confesso que a parte do "ele não precisa de você" doeu um pouco, mas ela tinha razão. Eu estava sendo boba. — E outra: conhecendo a sua amiga, o que ela diria pra você fazer?
Pensei um pouco e comecei a rir.
— Provavelmente a Sara diria algo como "se tu não for pra esses Estados Unidos, eu vou dar um tapa nessa tua cara".
Clara riu.
— É isso aí, Aninha. Viva a sua vida. Não se preocupe tanto com os outros. Você é muito altruísta e eu respeito e admiro muito isso em você, acontece que nós precisamos ser egoístas de vez em quando. Imagina só: daqui a cinquenta anos, você lá casada com qualquer outro cara que não seja o Daniel, com seus filhos já adultos e seus netos na sua idade atual. Um deles abdica uma chance única por causa de um namorico de adolescência. O que você diria a ele?
— Que ele é um retardado. Você não troca uma oportunidade dessas por uma coisa incerta. — falei me dando conta do quanto eu estava sendo lesa.
— Pois é, bebê. Exatamente.
— Ah! Obrigada! — abracei minha prima — Você devia voltar pra psicologia.
Ela riu um pouco.
— Não, não. Cuidar dos problemas alheios não é pra mim. Tô aqui com você porque você é minha priminha queridinha. — ela disse retribuindo meu abraço.
— Obrigada. De verdade.
— Por nada. Agora vamos voltar lá pra festa porque você tem uns primos mais velhos que são até bonitinhos. — ela disse se levantando e me puxando junto.
— Credo. Tipo quem? O Rodrigo?
— O quê? Nãaao. O Rodrigo é um bebêzão. Tô falando dos seus primos mais velhos que eu.
— Ah, Clara. Eu não falo muito com eles, mas a maioria tem namorada e uns são até casados. — eu disse indiferente e ela fez cara feia.
— Aff.

Ficamos lá na festa juntas o tempo todo. Clara é, sem dúvida, minha prima favorita. Ela age como uma irmã mais velha na minha vida. Sempre me dando conselhos e me ajudando em diversas situações. Gosto dela demais.
Quando deu meia-noite, fomos todos para a área externa, para a ceia. Nós não temos amigo oculto, sempre achamos muito chato.
Foi um Natal muito bom. Eu gosto muito da minha família.

— Ana, eu fiz isso pra você. Feliz Natal. — Luísa disse me entregando um envelope, depois me deu um beijo na bochecha e foi sentar com seus pais. No envelope, com caligrafia infantil, estava escrito "de: Lulu, para: Ana" com vários corações pequenininhos em volta. Abri e tirei uma folha dobrada várias vezes de dentro. Desdobrei o papel e vi que se tratava de um desenho. Eram duas garotinhas de mãos dadas, uma delas era um pouco maior que a outra. As duas estavam dentro de um coração enorme. Mais uma vez com caligrafia infantil, lia-se "essa é você e essa é eu", com setinhas apontando cada menininha. Achei fofo demais. Olhei para ela, que olhava para mim ansiosa, sorri e sibilei um "adorei". Ela sorriu e voltou a atenção para seu prato de comida.

— Ela não fez um desse pra mim e sou eu que sempre brinco com ela. — Jade disse afetada.
Apenas ri um pouco.