Be mine

7 Capítulo 7


(Jade's POV)

Ana e Daniel não se desgrudaram mais desde que desceram. Só quando Daniel soube do ocorrido com a mãe é que eles se separaram.
– Como você tá? — perguntei a ela assim que Daniel nos deixou sozinhas na cozinha.
– Dói, sabe? A Sara era como uma irmã pra mim. — ela disse enquanto procurava algo nos armários — Mas só pelo fato de eu não estar sozinha... ajuda.
Me levantei e dei um abraço nela.
– Eu te amo, tá? — falei enquanto a abraçava ainda mais apertado.
Percebi que ela ficou meio sem reação.
– Eu também, Jade. Te amo muito. — ela disse retribuindo meu abraço inesperado.
– É que tudo que aconteceu em tão pouco tempo me fez perceber que não aproveito a vida como deveria.
– Você tem razão. Eu também não. Com licença.
Então ela subiu as escadas e eu fiquei sozinha de novo.

(Ana's POV)

O que a Jade disse lá embaixo me deixou pensativa. Eu também não estava aproveitando como deveria.

Bati na porta e esperei.

– Ana? Eu acho melhor você voltar depois. — Daniel disse ao abri-la — Ela ainda não tá legal.
– Ah, eu quero falar com a minha mãe, na verdade. — falei dando um sorriso amarelo. Ele assentiu e chamou minha mãe.

– Oi. — ela disse ao sair do quarto e fechar a porta, ficando sozinha comigo no corredor.
– Mãe. — falei meio chorosa e dei um abraço apertado nela — Desculpa, mãe. Eu te amo.
Ela ficou calada e sem reação, do mesmo jeito que eu havia ficado com Jade. Depois de alguns segundos de abraço, ela se afastou e olhou para mim.
– Eu também te amo, filha. Sei que não sou a melhor mãe pra você, mas nunca esqueça que eu te amo tanto quanto a Jade e o Josh.
Então ela me deu outro abraço.
Acho que ela entendeu minha demonstração de carinho inesperada. Apesar dos defeitos, ela continua sendo minha mãe. E mãe é só uma.
– Então, como a tia Miranda tá? — perguntei depois que nos afastamos.
– Ela tá ruim, filha. Eu não sei como ela vai sair dessa. Na verdade, acho que ela só não está pior por causa do Daniel. Imagina se a Sara fosse a única filha dela...
– Mas ela era a única filha.
– Ah, é verdade. Ai, minha filha. Eu não quero nem pensar em algo assim acontecendo com um dos meus filhos. Não poderia imaginar uma vida sem vocês. Não conseguiria ficar longe. — ela disse mais para ela do que para mim. Então eu me dei conta. Com tudo que aconteceu, eu me esqueci completamente do resultado da UCLA que provavelmente tinha saído na hora do almoço.
– Filha, — ela começou depois de eu ter ficado em silêncio — eu sei que não é a melhor hora, mas eu preciso saber. Você e o Daniel... vocês são só amigos?
– Não. — respondi sem rodeios — O Daniel é meu namorado.
Ela não ficou surpresa, apenas apreensiva.
– Há quanto tempo?
– Vai fazer oito meses em janeiro. — respondi novamente sem rodeios.
– Oito meses? Por que você não me contou antes? Seu pai sabe? — ela perguntou magoada.
– Sabe, sim. Ele soube desde o início. Não o culpe, eu que pedi para que ele não lhe contasse.
– Por que, Ana? Eu sou sua mãe.
– Sei disso. É que... bem, você sabe. Você sempre foi distante de mim. Naquela época ainda mais.
– Ana, custava ter me contado?! Oito meses é muito tempo! — ela começou a voltar ao seu estado normal, estado de mãe psicótica.
– Mãe, isso não importa mais. Agora você sabe e eu acabei de pedir desculpa por tudo. Eu quero que a partir de agora nós sejamos mais próximas, mas isso não depende só de mim. Você tem que ser mais compreensiva comigo também.
– Tá, Ana May. Tá certo. Seja feliz com o Daniel, desejo o melhor pra vocês. Agora, com licença. — ela disse meio seca e entrou no quarto de novo. Eu tentei, Deus viu que eu tentei.

Desci para a sala de estar meio emburrada. Como ela consegue ser uma mãe tão maravilhosa para a Jade e o Josh, e ao mesmo tempo ser tão incompreensiva comigo?

– Ana, eu tô cansada. — Jade disse assim que sentei ao seu lado no sofá.
– Quer ir pra casa? — Josh perguntou sentando ao meu lado, me deixando no meio.
– Olha, eu quero. Mas também não quero deixar vocês aqui.
– Já são dez horas e você tem aula amanhã. É melhor ir mesmo. — falei enquanto olhava a hora no celular.
– Então vamos. — Josh disse se levantando — Pai, o senhor vai agora também?
– Vocês podem ir na frente. Eu vou com a mãe de vocês. — ele disse enquanto fazia algo no celular.
– Tá bom, então vamos, meninas.
– Ah, eu não vou. — falei quando eles já estavam se dirigindo à porta — Vou dormir aqui.
– Hum... tem certeza? — Josh me perguntou desconfiado. Todas as vezes que eu dormia lá, eles deixavam por causa da Sara. Bem, agora não tem mais Sara.
– Tenho, sim. Não vou deixar o Daniel sozinho. — respondi sem medo.
– Pai? O senhor vai deixar?
– Quê isso, Josh? A Ana já tem dezesseis anos, ela sabe se cuidar sozinha. E outra: ela já dormiu aqui várias vezes, se ela quisesse fazer alguma coisa, já teria feito. — Jade me defendeu na hora e Josh a olhou feio.
– De certa forma, a Jade tem razão. Se eu quisesse fazer alguma coisa, já teria feito. Acontece que eu não quero fazer nada agora a não ser dormir. — respondi antes que Josh e Jade começassem a se beliscar.
– Então vamos pra casa, você pode fazer isso lá. — Josh consegue ser bem irritante quando quer.
– Eu já disse que não quero deixar Daniel sozinho. Josh, se ponha no lugar dele.
– Tá bom, tá bom. Isso não é comigo mesmo. Então, pai?
– A Ana está certa. — meu pai disse se levantando. Já disse que meu pai é o melhor? — E eu confio nela.
Depois de dizer essa última frase, ele piscou pra mim.
– Agora vão, seus implicantes.
– Implicantes? No plural? — Jade protestou — Eu não disse nada!
– Ah, só vai. — Josh disse empurrando Jade para a porta — Tchau, queridinha do papai.
– Tchau, chatinho. — respondi sem emoção e os dois foram embora — Obrigada, pai.
– Ana, eu confio em você, mas não posso deixar de dizer: tenha juízo. — ele disse se sentando ao meu lado.
– Pai, eu só vou dormir mesmo. Pelo amor do amor. — respondi cansada de tudo aquilo e ouvi Analu rir baixo, só então lembrei que ela ainda estava ali.
– Bem, eu deveria ir para casa também. Esqueci de falar isso pro Josh. — ela enfim se manifestou.
– Ah, ele acabou de sair com o carro. Deve nem ter chegado na esquina ainda. Eu ligo pra ele e ele volta. — falei já pegando o celular.
– Não precisa, Ana. Ele deve estar cansado e isso só vai estressá-lo ainda mais. Eu chamo um Uber.
– Não, querida. Não se preocupe. Eu e Helena vamos já embora. Podemos te deixar em casa. — meu pai disse antes que eu pudesse rebater.
– Ah, tudo bem então.

Ficamos conversando um pouco até que minha mãe desceu e disse que já estava na hora de ir. Quando eu avisei que ficaria lá, ela não gostou muito.
Depois que meus pais e Analu foram embora e os pais de Daniel foram dormir, eu fui até o quarto de Sara de novo. Aquele quarto me trazia lembranças muito boas. Fiquei lá não sei quanto tempo, até que Daniel apareceu.

– Você vai dormir no quarto dela?
– Hum... não sei. Não me sentiria muito confortável, pra falar a verdade. — respondi e só então olhei para ele. Seus olhos estavam inchados e vermelhos. Provavelmente estava chorando de novo — Você tá bem?
– Não. Não estou. Eu tô cansado disso. Essa sensação de aperto no coração que não passa. É tão difícil aceitar que nunca mais vou ver a minha irmã. É muito difícil, Ana.
– Sei disso, você não tá sozinho nessa. Vem, você precisa descansar. Foi um dia horrível. — falei puxando-o para fora do quarto.
– Você vai dormir comigo então?
– Vou.

Fomos para o quarto dele e deitamos na cama. Ficamos ali existindo até o sono chegar. Não havia clima para um carinho sequer. Estava tudo tão pesado... dormimos.

(Jade's POV)

– Eu não aguento mais! Eu preciso saber se vou poder ir ou não. — desabafei para Josh
– Jade, seja compreensiva. As atuais circunstâncias não são favoráveis. A Ana nem sabe que eu passei ainda. Ela não tá com cabeça pra isso.
– Sei disso, sei disso. É só que... É insensível demais da minha parte achar que a Sara morreu, mas vida que segue?
– Jade! Pelo amor de Deus.
– Ah, eu gostava muito da Sara, não sei por que falei isso. Desconsidera.
– Olha, não dá nem pra conversar com o papai. Ele tá ajudando o senhor P.
– Eu quero muito ir. Muito mesmo.
– Calma, vai dar tudo certo.
– Bom dia, meus filhos. — meu pai disse assim que entrou na cozinha — O que é que vai dar certo?
– O ensino médio. A Jade acha que vai ser muito difícil. — Josh improvisou muito rápido.
– Minha filha, não se preocupe com isso agora. Você ainda vai pro nono ano.
– É, vocês têm razão. Estou me preocupando a toa. — concordei e resolvi me concentrar no prato de ovos mexidos a minha frente.
Meu pai se sentou ao meu lado e começou a ler seu jornal matinal. Perguntei se ele não tomaria café, mas ele disse que teria que tomar no trabalho por causa de uma reunião.
Depois do nosso breve encontro familiar, meu pai saiu para trabalhar e Josh resolveu me dar uma carona. Eu queria muito poder ir para a escola de bicicleta, mas o Rio de Janeiro não é muito seguro para ciclistas.
– Será que em Los Angeles eu vou poder ir de bike pros lugares? — perguntei empolgada assim que entramos no carro.
– Acho que os moradores de lá não têm taaanto problema com segurança. De qualquer forma, eu não vou deixar você ir sozinha.
– Ai, Josh. Ok.
Todo o trajeto para a escola foi tranquilo, eu já havia esquecido de todos os problemas. A vida parecia normal, até que chegamos na escola e a primeira coisa que vimos no portão foi uma coroa de flores com uma foto da Sara. Vários alunos estavam ali, alguns ajoelhados, outros apenas observando a foto, outros deixavam flores e homenagens e alguns poucos alunos rezavam. Josh parou do outro lado da rua e me desejou boa sorte. No começo eu não entendi o motivo, mas assim que coloquei os pés dentro da escola, eu entendi.
– Ei, você! Você é irmã da Ana, a melhor amiga da Sara, né? — uma garota perguntou se aproximando rapidamente.
– Sim, eu sou. — respondi apreensiva.
– Você sabe o que aconteceu com a Sara? Qual foi a causa da morte?
– Ah, ninguém aqui sabe?
– Não, apenas recebemos a notícia da morte, mas não como aconteceu.
– Bem, acho que é a família que vai comunicar a escola. Isso se eles quiserem falar alguma coisa. — respondi o mais educadamente possível.
– Mas você sabe o que aconteceu?
– Hm, sei.
– Me conta, por favor. Eu era amiga dela!
– Quem é você?
– Bia. — assim que ela respondeu, liguei todos os pontos. Ela não era amiga da Sara coisa nenhuma. Por muito tempo eu ouvi a Ana e a Sara falarem horrores sobre uma Bia. O quão falsa e manipuladora ela é e tudo mais.
– Bem, já que você era amiga dela, você conhece a família, então pergunte a eles. — respondi secamente e me afastei.
Oportunista essa garota hein. Ia já manipular o que eu dissesse e a escola toda ia ouvir que Sara se suicidou porque se achava gorda.

Dentro da sala, eu sofri uma espécie de interrogatório. Ana, Daniel e Analu não haviam ido pra escola, por isso eu era o alvo de todas as perguntas. Alguns professores faziam perguntas discretas como a data do velório e tudo mais. Já os alunos sempre perguntavam como ela morreu. Aquilo já estava me tirando do sério.
Resolvi alegar a eles que eu estava de luto e que aquele assunto me incomodava. Deu certo.
Eu já estava entretida com as histórias de vida do meu professor, quando a secretária da escola bateu na porta.
– Com licença, professor? Jade Santini. — ela disse encarando a turma. Levantei a mão e ela disse que era para eu pegar minhas coisas e acompanhá-la.
Fui levada até a sala da psicóloga e fiquei preocupada. Os alunos só são levados até lá quando recebem alguma notícia ruim.
– Oi, querida. — minha mãe disse e só então percebi que ela estava ali.
– Aconteceu alguma coisa? Digo, mais alguma coisa? — perguntei a ela.
– Os resultados dos exames saíram e o corpo da Sara foi liberado. O velório será agora e imaginei que você quisesse ir. — ela disse e a psicóloga concordou.
– Ah, sim. Eu quero ir mesmo.
– Então está tudo certo aqui. — a psicóloga disse e minha mãe se levantou.
– Vamos, filha.

(Ana's POV)

– E então, pai? O que diz aí? — Daniel perguntou impaciente enquanto o pai dele lia o resultado bem devagar.
– Ah, graças a Deus. — ele disse aliviado — A Sara não sofreu nenhum tipo de abuso.
E aqui ainda diz que foi uma morte rápida.
– E o que aconteceu exatamente? — Daniel externou meu pensamento.
– Aqui no resultado da autópsia diz que a causa foi uma hemorragia cerebral causada por um trauma, ou seja, ela levou uma pancada muito forte na cabeça e desmaiou na hora. Então, definitivamente, ela não sentiu dor.
A mãe de Sara começou a chorar.
– Ao menos isso. — ela disse inconformada.
– Se eu tivesse levado ela pra casa...
– Não se culpe, Daniel! Eu já disse pra você parar com isso. — o pai se manifestou novamente.
– Senhora P., seu celular tá tocando. — falei timidamente.
Ela olhou para mim meio atordoada e então pegou o celular e atendeu a ligação. Retirou-se da sala para falar mais a vontade, acredito.
– Bem, já no relatório policial, resumidamente, a conclusão é que ela reagiu a um assalto e por isso foi atacada. Levaram a mochila dela. O relógio e os brincos também. Perto dali tem uma câmera de segurança e eles conseguiram ter acesso às imagens. A Sara aparece caminhando pela calçada com a mochila nas costas ainda, mas ela tá sendo seguida por um cara estranho. Alguns minutos depois, o cara aparece fazendo o caminho de volta e dessa vez com a mochila dela em mãos. Eles já conseguiram identificar o cara e já estão fazendo as buscas. Bem, é isso. Ah, que dor, meu Deus...
– Pai, eu juro por Deus, quando eles pegarem o cara, eu irei até a delegacia em que ele estiver e darei uma surra no filho da puta. Ele tirou a minha irmã de mim, a minha irmãzinha... — Daniel desabafou com lágrimas se formando nos olhos.
– Calma, meu amor. Esses pensamentos só vão piorar tudo. — falei apertando seu braço de leve.
– A Ana tem razão, meu filho. Não pense nisso por enquanto. Vamos nos preocupar com o mais importante.
– O velório, no caso. — a senhora P. disse retornando ao ambiente.
– Exatamente.
– A funerária acabou de me ligar e disse que o corpo já está pronto. Podemos ir já. — ela disse profundamente magoada no seu tom de voz. Aquilo estava me matando. Não sei por quanto tempo vou aguentar.

Não fomos os primeiros a chegar no local do velório. Minha mãe, Jade e Josh já estavam lá, mas somente eles.

– E aí, dormiu bem? — Josh perguntou depois de me abraçar.
– Josh, esse não é o clima pras suas brincadeirinhas.
– Brincadeirinhas? Eu tô realmente interessado em saber se você dormiu bem. — ele disse sério.
– Ah, desculpa. Eu não tô nenhum pouco bem. Sim, até que dormi uma noite inteira sem interrupções. Mas sonhei com coisas ruins. — respondi triste — Só me abraça, por favor.

Ficamos quase o tempo inteiro abraçados. Várias pessoas da família da Sara vieram. A maioria por parte de mãe, já que o pai é do interior de Minas Gerais. Todos da nossa turma vieram. Muita gente da escola, na verdade. A Sara era uma pessoa muito querida e fazia amigos com facilidade. Algumas pessoas falaram palavras bonitas sobre ela.

O enterro foi a pior parte. Daniel se manteve firme todo o tempo, porém, na hora de baixar o caixão, ele desabou. Chorava feito uma criança e questionava a misericórdia de Deus, perguntando como Ele podia permitir que algo tão cruel acontecesse com uma menina tão boa. Acho que era a primeira vez que ele chorava a morte da irmã na frente dos pais, que não aguentaram ver o filho daquele jeito e choraram muito também.

E assim, no fim de tarde de uma quarta-feira, minha melhor amiga foi para debaixo da terra, de onde ela nunca mais sairá.