Be mine

6 Capítulo 6


(Jade's POV)

Fiquei sentada no sofá da sala de estar ao lado de Daniel, esperando alguma notícia. Ana não havia voltado do banheiro, Analu ainda encarava a paisagem do lado de fora e Josh havia subido para o escritório dos pais da Sara.

— A culpa é minha. — Daniel disse de repente e Analu virou para olhá-lo.
— Oi? — ela disse se aproximando.
— A culp...
— Não repita isso. — ela disse enquanto sentava ao lado dele — Nunca mais. Nós já conversamos a respeito. A culpa não é sua, a culpa não é da Ana e a culpa não é dela. O único culpado dessa história toda é o cara que fez aquilo com ela. Somente ele.

Fiquei calada apenas ouvindo o que conversavam.

— Se eu tivesse levado ela pra casa... — ele disse com lágrimas encharcando seu rosto.
— Daniel, isso não é culpa sua!
— É claro que é! — ele se levantou num salto — Todos os dias eu ia com ela pra casa! Todos os dias! No único dia que eu resolvo sair com a minha namorada depois da aula...

Então Daniel entrou no estado em que Ana se encontrava: choro compulsivo. Analu se levantou e o abraçou apertado. Ele soluçava alto, resolvi sair da sala. As lágrimas já estavam se formando em meus olhos.
Fui até a cozinha beber um copo de água. Eu não conseguia imaginar o tamanho da dor de Daniel. Se eu perdesse um dos meus irmãos, eu não sei o que eu faria. Imagina ele... perdeu sua única irmã.

— ...e os exames. Talvez amanhã mesmo nós daremos as respostas para vocês. — ouvi uma voz desconhecida descendo as escadas da sala de estar e presumi que fosse o tal investigador.
— Obrigado, doutor. Acredito que o senhor já esteja com o meu número para contato. — meu pai disse e eu fui até a sala.
— Sim, sim. Não se preocupem. Logo, logo saberemos o que aconteceu exatamente. — O investigador disse enquanto ia em direção à porta.
Josh se apressou para abri-la e só então percebi sua presença.
— Ah, senhor Pascarelli, nós encontraremos o responsável e ele certamente pagará pelo que fez.
— Obrigado. — O pai de Sara respondeu desanimado.
— Com licença. — O investigador disse e saiu.

Percebi que minha mãe e a mãe de Sara não haviam descido com eles. Senti outro aperto em meu coração. A senhora Pascarelli deve estar muito mal.

— Se me dão licença, preciso subir para ficar com minha esposa. Obrigado, Carlos. Você é um grande amigo. — O pai de Sara disse e meu pai apenas assentiu.

Fiquei calada observando Josh ir até Daniel. Eles não se gostam e todos sabem disso. Josh, meio sem jeito, se sentou ao lado de Daniel e apertou seu ombro. Meu pai sentou em uma poltrona e ficou observando o vazio. Analu estava sentada ao lado de Daniel também. Percebi que estava sobrando, juntei o pouquinho de coragem que tinha e subi as escadas. Sei que encontraria a mãe de Sara em um estado deplorável, mas eu, de certa forma, queria me mostrar útil e apoiá-la.

Aproximei-me da porta em que ouvi vozes e assim que bati, elas cessaram. Alguns segundos depois, minha mãe abriu a porta.

— Jade? O que foi? — ela disse baixinho
— Eu queria saber como ela está. Queria dar um abraço nela. — falei tímida
Minha mãe me olhou com ternura e abriu espaço para que eu entrasse. A mãe de Sara estava deitada na cama vendo TV, seus olhos inchados fixos na tela. Segurava uma xícara na mão e o controle remoto na outra. Quem olhasse de longe, pensaria que ela estava apenas vendo um filme triste.

Sentei ao lado dela e fiquei encarando a tela.
— Vou ver como estão lá embaixo, com licença. — minha mãe disse e nos deixou sozinhas no quarto.
Fiquei muito desconfortável naquela situação, mas eu sabia que a senhora P. não queria ficar sozinha.
— Eu... eu preciso de um banho. Pode mudar o canal se quiser, querida. — ela disse se levantando devagar.
Perguntei se ela precisava de ajuda em algo, mas ela negou. Apenas disse que precisava acordar daquele pesadelo.
Não notei quanto tempo fiquei assistindo ao programa que passava na TV, mas percebi que a senhora P. estava no banho com o chuveiro ligado há muito tempo. Fiquei preocupada e fui até a porta.
Bati e chamei por ela, mas não obtive resposta. Bati mais forte e chamei mais alto sem resposta novamente. Corri para fora do quarto para chamar ajuda. O pai de Sara disse que iria ficar com a esposa, mas eu não o encontrei. Desci as escadas para chamar minha mãe e tentei ser o mais discreta possível para Daniel não perceber.

— Mãe? — chamei assim que cheguei à sala de estar, onde todos estavam — Preciso da sua ajuda.
Ela se levantou e veio até mim sem entender. Subimos as escadas e só quando entramos no quarto, contei o que estava me preocupando.
— Ela disse que precisava de um banho. Entrou no banheiro, ligou o chuveiro e já está aí há um bom tempo com ele ligado. Bati na porta e chamei várias vezes, mas ela não responde.
— Meu Deus! Miranda! Miranda! — minha mãe chamou alto enquanto batia na porta.
— Shhhh, mãe! Os outros vão ouvir.
— O que está acontecendo? — o pai de Sara entrou no quarto de repente — Cadê a Miranda?
— Ela está no banheiro já faz um bom tempo e não responde quando chamamos. — minha mãe disse nervosa.
— Miranda! — o senhor P. começou a fazer o que já havíamos feito. Batia na porta e chamava pela esposa. Estávamos todos nervosos, então o pai de Sara resolveu arrombar a porta de vez, já que a senhora P. não respondia. Se afastou e empurrou com força várias vezes, até que o trinco rompeu e nós entramos no banheiro.
A senhora P. estava sentada no chão do banheiro, vestida embaixo do chuveiro e chorava muito.

— Meu bem... — O senhor Pascarelli se aproximou do box e desligou o chuveiro — Você me assustou. Venha cá. — ele disse enquanto levantava a esposa.
Minha mãe pediu que eu pegasse toalhas no closet e assim o fiz. Depois de ajudar minha mãe a cuidar da mãe de Sara, ela me pediu que fosse lá pra baixo ficar com os outros. Desci as escadas pensativa e me dei conta de como a vida é frágil. Sara tinha apenas dezesseis anos.

— Jade, você viu a Ana lá em cima? — Daniel perguntou assim que cheguei na sala.
— Na verdade, não. Eu não a vejo desde que cheguei.
Daniel se levantou e foi até o banheiro, onde Ana havia ido mais cedo, porém duvidei que ela ainda estivesse lá. E não estava mesmo. Então Daniel foi lá para cima também.

(Ana's POV)

Eu estava acabada. Sara era a melhor amiga que alguém poderia ter e... bem, nós nos conhecíamos desde a barriga de nossas mães. Eu não conseguia imaginar a minha vida sem ela. Sara era o "copo meio cheio" do grupo, tinha a solução para qualquer problema e estava SEMPRE sorridente. Não havia tempo ruim com ela. Ah, e ela era louca. Como ela era louca. Completamente louca. Capaz de qualquer coisa para deixar seus amigos felizes. Eu já sinto muito a falta dela. Vê-la deitada naquela maca foi a pior experiência da minha vida.

Eu estava olhando as fotos penduradas pelo quarto da Sara, quando alguém entrou de repente. Era o Dani.

— Ana, você tá aí. Eu tava te procurando. — ele disse com a voz rouca. Se fosse outra situação, eu teria achado bastante sexy.
— Sim. Eu resolvi vir olhar o quarto dela. Olha essa foto. — peguei a foto em que estávamos todos juntos quando crianças. Eu, Sara, Daniel, Josh e Jade. Acredito que eu e Sara tínhamos oito anos, Daniel e Josh tinham dez e Jade tinha seis naquela foto.
— A Sara tinha um carinho enorme por essa aí. — ele disse sorrindo de leve. Meu estômago embrulhou. Temos que falar nela no passado agora. "Sara era", "Sara tinha", "Sara fazia". Isso dói. Ele pegou a foto e sentei na cama. Fiquei observando-o examinar a foto com carinho. Fiquei olhando para ele um bom tempo. Meu coração apertou de repente. Um medo súbito de perdê-lo. Um medo horrível. Uma vontade de abraçá-lo e não soltar mais. O que era isso? Ele se virou para me olhar e nos encaramos por um tempo. Levantei e o abracei apertado. Ele retribuiu com a mesma intensidade, acho que precisava disso. Depois de uns segundos, me afastei e o olhei nos olhos.
— Eu te amo. — falei sem me dar conta. De repente o medo da rejeição me atingiu. Eu o amava mesmo. Não estava mentindo. Toda essa situação me ajudou a enxergar isso. O Daniel está comigo desde sempre. Nós crescemos juntos. Temos uma foto em que ele está me segurando recém-nascida. Agora eu sei que ele é realmente uma das pessoas mais importantes da minha vida e que eu não quero ficar longe dele.
— Eu também te amo, Ana. — ele disse abrindo um sorriso sincero — Eu te amo muito. Desde o dia em que te vi chegando tímida no meu aniversário de dezesseis anos. Desde aquele dia.
Sorri verdadeiramente feliz ao ouvir aquilo.
— Eu pensei que nunca fosse ouvir isso de você. — ele disse ainda sorrindo, mas com um olhar magoado.
— Eu demorei demais pra perceber o quanto te amo. Eu... Eu tenho medo de te perder. — falei envergonhada escondendo o rosto no pescoço dele. Ele apenas riu de leve e puxou meu rosto para que pudesse me olhar nos olhos.
— Você não vai me perder. — então ele me beijou diferente. Acho que era esse negócio novo de amor. O fato de finalmente termos "assumido" o quanto precisamos um do outro. Pensando bem agora, todo esse tempo desperdiçado com um namoro frio. Como pude ser tão boba?
O clima começou a esquentar. Daniel me puxou pela cintura e peguei impulso para que ele pudesse me levantar e me colocar sentada na bancada do quarto da Sara. Estávamos nos beijando meio desesperados, como se o mundo estivesse prestes a acabar e nada mais importasse. Senti sua mão entrando por debaixo da minha blusa e percorrendo a minha cintura e barriga até encontrar a barra do sutiã. Quando vi onde isso estava chegando, rompi o beijo e ele rapidamente recolheu sua mão.

— Desculpa. — ele disse nervoso.
— Não, não. Não se preocupa. Eu só acho que... Nós estamos abalados com tudo que aconteceu e acabamos nos deixando levar. Bem, não é hora nem lugar pra isso. — falei olhando ao redor. Estávamos no quarto da Sara, caramba. Quão desrespeitoso é isso?
— Você tem razão. — ele disse colando nossas testas e então me deu um selinho. O abracei de novo com força. Vou reformular o que disse para Jade há pouco tempo: nosso relacionamento não era dos melhores, mas agora será. Porque agora eu percebi o quanto eu preciso dele e o quanto eu o amo. Só demorei demais pra isso.