Be mine

4 Capítulo 4


— O quê? Como assim, Daniel? — perguntei nervosa
— Ela não aparece em casa desde aquela hora que nós estávamos com ela na escola.
— Mas já faz tempo isso. Já ligaram pra ela?
— Sim, já tentamos várias vezes e só cai na caixa postal. Preciso da sua ajuda, amor. — ele disse nervoso. Foi a primeira vez que ele me chamou de amor. Nós não somos do tipo de casal que se chama por apelidos carinhosos. É Ana e Daniel. Às vezes, Dani. Mas é muito raro. Ele deve estar muito nervoso.
— T-tá bom, tá bom. Vamos pro meu quarto. — falei puxando-o pela mão.
Assim que entramos no quarto e fechei a porta, ele desabou.
— A culpa é minha, Ana. — ele disse com lágrimas nos olhos — Eu vou pra casa com ela todos os dias, mas hoje eu quis sair com você. Ela teve que ir de ônibus sozinha. Que coisas horríveis podem ter acontecido com a minha irmã, Ana, e a culpa é toda minha.
— Calma, Dani. Você tá se precipitando. Ela pode estar na casa de alguém e o celular ter descarregado. Relaxa. Vou falar com o pessoal da escola. — falei tentando disfarçar meu nervosismo.
Peguei meu celular e comecei a ligar para todas as pessoas da escola que eu tinha o número. E fui pegando o número de mais algumas. Daniel também ligou para os amigos dele que eram amigos da Sara, ligou para vizinhos, ligou para quem ele conhecia.
Ninguém sabia da Sara.
Comecei a ficar desesperada.
— Ana, ela não tá na casa de ninguém. — ele disse mais nervoso — Cadê a minha irmã?
— Vamos. — falei me levantando
— Aonde?
— Procurá-la. Não vou ficar aqui parada esperando ela brotar do chão. Vamos. — falei saindo e Daniel me seguiu. Depois de avisar meu pai aonde ia, entramos no carro e saímos.

(Jade's POV)

— Josh, tô preocupada.
— Com a Sara?
— Sim, imagina o que pode ter acontecido com ela. Tô muito preocupada.
— Calma, a Ana e o Daniel foram procurar. Eles podem encontrá-la no shopping, no centro, naquela boate pra menores. — ele disse tentando me acalmar — Vai dar tudo certo.
— Espero que sim.
Tentei relaxar enquanto assistia o filme com o Josh. Eram oito horas da noite quando a Ana saiu com o Daniel. Foi ficando cada vez mais tarde e nada. Ana disse para nós não ligarmos para eles, porque precisavam dos celulares livres caso Sara ligasse. Então esperamos notícias, mas elas não vieram. Já estava dando onze horas da noite quando meus pais me mandaram pro quarto. Fiquei deitada em minha cama esperando o sono vir, mas ele não vinha. Resolvi mexer no celular. Olhar as redes sociais. Estava fuçando meu Facebook quando vi que uma amiga da Sara (e da Ana, também) postou uma foto da Sara com os dizeres: "se você tiver visto essa menina, por favor, entre em contato com os números abaixo". Senti calafrios. Se chegou a esse ponto...
Quando eu estava quase adormecendo, ouvi barulho de carro na frente de casa. Eram eles. Olhei no relógio, uma hora da manhã. Saí do meu quarto, mas não desci as escadas. Fiquei atenta à conversa acontecendo no andar de baixo.
— Minha filha, graças a Deus. — minha mãe disse aliviada — E então?
— Nada. — Ana disse — Procuramos em todos os lugares em que ela poderia estar. Ninguém a viu, ninguém sabe. Porra! É sempre isso! Ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe.
— Calma, filha. Vai dar tudo certo. — minha mãe tentou acalmá-la.
— Nós fomos até a delegacia e registramos o desaparecimento dela. Eles disseram que se tiverem qualquer informação, vão ligar pra família do Daniel. Eles estão desesperados. Eu não sei o que fazer. Tô morrendo de dor de cabeça, vou dormir. — ela disse de uma vez e começou a subir as escadas. Saí correndo e entrei no meu quarto. Antes de fechar a porta, pude ouví-la.
— Eu vi, Jade.
Sentei na cama e me peguei pensando em Sara. O que aconteceu com ela?

— Jade, acorda. — ouvi alguém me chamar — Tá na hora. Eu vou te deixar na escola. Vamos.
— O quê? — abri os olhos e reconheci a pessoa que me acordara. Ana. — Que dia hoje?
— Hã? Jade, hoje é terça-feira. Vamos. Eu tenho que sair e vou te deixar na escola antes. São seis e meia. Levanta.
Acabei dormindo na noite anterior. Levantei e fui me arrumar. Percebi que Ana estava com olheiras. Provavelmente não conseguiu dormir.
Após tomar banho e me arrumar, desci as escadas e encontrei minha família inteira tomando café. Juntei-me a eles.
— Bom dia, família. — falei ao me sentar.
— Bom dia. — Josh respondeu de boca cheia — Está um dia lindo, não acha?
Realmente estava um dia lindo, mas quando eu estava prestes a alertá-lo da gafe que acabara de cometer, Ana se pronunciou.
— O dia só vai ficar lindo quando eu encontrar a minha amiga.
— Desculpe. — ele disse se encolhendo
— Você tá pronta, Jade? — ela perguntou
— Sim. Só vou escovar os dentes.
— Então vai logo que eu preciso sair.
Levantei-me e subi as escadas. Fiz tudo que tinha que fazer e desci.
— Estou pronta.
— Ótimo. O Daniel acabou de chegar. Tchau pra vocês. — ela disse se levantando do sofá e abriu a porta.
— Tchau, gente. — falei e saí depois de tê-los escutado responder.
— Aonde vocês vão? — perguntei ao entrar no carro.
— Procurar a Sara. Não vamos esperar a polícia. — Daniel respondeu — Bom dia pra você também, Jade.
— Ah, bom dia. — falei sem graça
— O papai vai sair com a mamãe, então o Josh vai buscar você na escola hoje. — Ana disse
— Tá bom.
Continuamos o percurso até a minha escola em silêncio, apenas ouvindo a música baixa no som do carro.

Aquela manhã correu normalmente. Assisti às aulas, fiz as atividades, exatamente como uma terça-feira comum. Quando Josh chegou para me buscar, ele estava muito sorridente. Aconteceu alguma coisa muito boa. Espero que tenham encontrado a Sara.
— Olá, irmãzinha. — ele disse assim que entrei no carro.
— Oi. O que aconteceu? — perguntei curiosa com a sua felicidade — Encontraram a Sara?
O sorriso em seu rosto desapareceu.
— Hum, não. Não encontraram ainda. Droga, eu tinha esquecido dela. A Ana nem vai poder compartilhar da nossa felicidade.
— Nossa? Eu ainda estou por fora.
— Jade, que dia é hoje?
— Terça-feira?
— Não, dia do mês.
— Dia sete de dezembro?
— E o que ia acontecer dia sete? — ele perguntou levantando uma sobrancelha.
— Ai meu pai! O resultado da UCLA! — exclamei nervosa
— Sim, mas não precisa gritar. Quer dizer, não agora. Bem, eu olhei o resultado e... — uma leve pausa dramática — Eu passei! Nós vamos pros Estados Unidos!
Não aguentei de tanta felicidade e gritei. Finalmente a certeza de que precisávamos para conversar com nosso pai. Não pude acreditar. Josh passara na seleção.
— Parabéns, Josh! Você merece isso. — eu disse enquanto o abraçava meio sem jeito por estarmos dentro do carro.
— Obrigado. Eu tô muito feliz. Queria poder compartilhar isso com a Ana também, mas acho que não vai ser possível enquanto ela não encontrar a Sara.
— É verdade. — concordei um pouco aflita.
Fomos para casa esperar notícias da Ana. Ela demorou, mas não tanto quanto a noite anterior. Quando Ana chegou em casa, Daniel não entrou com ela. Na verdade, ele nem a esperou sair do carro direito e já foi arrancando. Muito estranho isso. Minha mãe mandou eu esperar no meu quarto, entretanto resisti mais uma vez. Ana não gostou.
— Jade, sobe. — ela disse sem paciência e com uma cara péssima. Cara de quem ia chorar a qualquer momento. — E vê se não fica ouvindo da escada.
— Não vou, eu quero saber. — insisti
— Sobe. — ela repetiu
— Não. Fala logo.
— Sobe agora! — meu pai disse — Você tá sendo infantil.
Subi as escadas contrariada. Não entrei no meu quarto, mas fechei a porta com força para que pensassem que eu havia. Não demorou muito para que Josh brotasse do chão e mandasse eu entrar de verdade e que o nosso pai havia dito que se eu saísse, ficaria de castigo. Bufei sozinha.

(Ana's POV)

— A Jade já tá no quarto. Pode falar. — Josh disse assim que desceu as escadas.
Fiz sinal para que eles sentassem e assim o fizeram.
— Hã... Eu não sei como começar. — falei apesar do nó em minha garganta — Ontem nós fomos até a delegacia, isso vocês sabem. Hoje de manhã nós voltamos lá porque o delegado ligou. Ele conversou com a gente e disse que... as nossas descrições batiam com uma moça que foi encontrada perto do mercado... morta.
Não aguentei e deixei que as lágrimas rolassem.
— Como ela estava sem os documentos, eles precisam que nós identifiquemos o corpo. Eu tenho que ir lá com o Daniel agora. Vim aqui só pra conversar com vocês e aliviar esse peso.
— Filha... — minha mãe disse com pesar.
— Eu tô tão assustada. — desabei de uma vez — Tô com tanto medo de chegar lá e ser a minha amiga. Morta.
Comecei a chorar compulsivamente. Meu pai se levantou e me deu um abraço reconfortante que me fez sentir melhor. Mas não o suficiente.
— Ana, você tá com pensamento negativo. Pode não ser a Sara. — Josh disse tentando amenizar a situação.
— Seria... coincidência demais. — tentei falar — Uma menina que sumiu ontem, encontrada morta hoje, sob as mesmas circunstâncias da Sara e com as mesmas características. É coincidência demais.
Josh me lançou um olhar de pena e se levantou.
— Você não vai sozinha. — ele disse — Não vou te deixar sozinha nessa.
— Eu não vou sozinha. O Daniel vai estar lá.
— Ana, o Daniel vai estar tão abalado quanto você. Eu vou com vocês.
Achei que seria melhor que Josh fosse mesmo. Que Deus nos livre, mas se for a Sara, nós não vamos ter condições de dirigir. Depois de ter me recomposto, liguei para Daniel e ele veio nos buscar.

Durante todo o trajeto até o Instituto Médico Legal, ficamos em silêncio. Meu coração batia cada vez mais forte. Daniel também não estava bem. Embora eu ainda tivesse esperança de que não fosse a Sara, a razão falava mais alto. Seria coincidência demais.

Ao chegarmos no prédio, falamos com uma recepcionista que disse que teríamos que esperar pelo delegado. Ele demorou. E muito. Acho que esperamos quase uma hora, quando enfim ele chegou.
— Daniel, Ana, me acompanhem, por favor. — ele disse e encarei Josh. Com um aceno de cabeça, entendi que ele nos esperaria do lado de fora.
Seguimos o delegado até uma sala e entramos.