Be mine

25 Capítulo 25


Terça-feira
12:30 pm, hora do almoço

— Agora é oficial. Falta um mês para os primeiros jogos. — Ryan disse preocupado — Não temos muita coisa pronta.
— Temos sim. — Daisy disse — A ornamentação foi planejada. As cheerios estão prontas. O basquete tá pronto. O vôlei tá pronto. A natação tá pronta. A corrida tá pronta. Tá todo mundo pronto. A única coisa que não está cem por cento é o futebol.
— Obrigado, Daisy. — ele sorriu irônico.
— Ryan, você é o quarterback. Você precisa tomar a frente disso e treinar seus parceiros, já que esse treinador não faz merda nenhuma e o diretor também não. — ela disse mais responsável.
— Eu sei, Daisy. Eu sei. — ele suspirou — Eu tentei, mas não deu certo. Eu fui até a casa do treinador Carlson e pedi orientação. Ele me disse que o plano da tática tá com o Peters e que eu tinha que pedir dele. No dia seguinte, lá estava eu pedindo o plano do Peters, mas sabe o que ele disse? "O treinador sou eu. O plano fica comigo". Voltei lá com o Carlson e pedi que ele me explicasse verbalmente pra eu anotar. Eu tentei, Daisy. Mas não deu certo.
— Cassete. — Ben disse — E agora?
— Eu não sei. — Ryan suspirou.
— Eu só queria saber quem foi o filho da mãe que colocou a merda da bomba. — Kasper comentou.
Ryan respirou fundo e ficou hesitante por alguns segundos.
— Eu... Eu conversei com o Jayden há um tempo e nós percebemos alguns detalhes importantes. — ele nos olhou sério — Mas pelo amor de Deus, isso não sai dessa mesa.
Todos nós concordamos e ele continuou.
— Lembram como foram as fases anteriores? Não quero me gabar, mas foi o futebol que ganhou boa parte dos pontos pra nossa escola. — ele disse e Daisy, Ben e Kasper concordaram. Eu apenas continuei prestando atenção — Analisem a McGregor. Os times dela são muito bons, mas vocês viram o desempenho do futebol? Foi fraco. A maior parte dos pontos deles foi com as provas acadêmicas, que é o nosso fraco, na verdade.
— Resume, Ryan. — Ben disse impaciente.
— Tá. É o seguinte: o time de futebol da nossa escola é um dos melhores da cidade. O futebol é a nossa maior vantagem nessa olimpíada. Ele nos dá muitos pontos. — ele disse sério — Os nossos outros times são bons, mas os da McGregor são melhores.
— Tô entendendo onde você quer chegar. — Daisy disse séria — O futebol é a nossa única chance de vencer a McGregor.
— Sim. E então, faltando um pouco mais de um mês para os primeiros jogos, o nosso treinador, que é publicamente declarado como o melhor da cidade, se machuca seriamente e não pode treinar nosso time. — ele finalizou — Estão percebendo o quanto isso é suspeito?
— A McGregor nos sabotou. — Kasper disse boquiaberto — Eles ainda tiveram uma vantagem de tempo, já que os treinos de vocês foram reduzidos.
— Por que a McGregor faria isso? — perguntei confusa — É tão importante assim vencer a olimpíada?
— Ana, aquela escola é particular e é a mais cara de Los Angeles. Sabe quanto é a mensalidade dela? — Daisy perguntou séria e eu neguei — Três mil dólares. Sabe o que são três mil dólares multiplicados pela quantidade de alunos que tem lá? É muito dinheiro, Ana. Enquanto eles mantém esse status de melhor escola de Los Angeles, com tantas vitórias na olimpíada, eles garantem seus alunos lá.
— Sem falar do prêmio em dinheiro. — Kasper disse — A última OCCG arrecadou quase cem mil dólares.
— Uau. — falei surpresa — Eu não sabia que tem um prêmio em dinheiro. A professora Wright não me falou isso.
— Sim, Ana. Tem. — Daisy disse — Todo o valor arrecadado nas vendas de qualquer coisa durante os jogos, como as bandeirinhas, as pulseiras, bandanas, camisas e até mesmo garrafas d'água, vai pro Estado e a escola vencedora recebe.
— Caramba. Essa OCCG é grande coisa mesmo hein. — falei impressionada.
— Sim. — Ryan suspirou — Essa era a nossa chance...
— Ainda é. Vai dar tudo certo. — Daisy o encorajou.
— Galera! — Ben disse — Podemos voltar ao principal? Como a McGregor pode ter colocado uma bomba no armário do professor?
— Algum aluno deles, provavelmente. — Ryan disse — Ele deve ter vindo aqui no horário de aula.
— Não tem câmera lá não? — perguntei inocente.
— Não pode ter câmera no vestiário, Ana. — Daisy disse — É onde os jogadores trocam de roupa.
— Ah é.
— A McGregor tem não sei quantos mil alunos. Nós nunca vamos saber quem foi. — Ryan disse frustrado.

03:00 pm

— A ornamentação é só uma semana antes dos jogos, querida. — a professora Wright respondeu a pergunta da Maya e então o sinal tocou — Lembrem-se: estudem desde agora. Essa é a grande final!
Arrumei meu material sem pressa e guardei tudo na minha mochila. Eu estava meio apreensiva por ter que ir ao treino na casa da Maya, mas agora não tenho escolha, já que esqueci completamente de falar com a Lily antes.
— Vamos, Ana. A Lily deve estar esperando. — Daisy me chamou e nós saímos da sala juntas, como sempre.
Andamos até a porta da sala dela e ficamos ali conversando enquanto os alunos saíam. Involuntariamente, olhei para a porta da sala do Ryan e fiquei observando os rostos desconhecidos que deixavam a classe calmamente. Daisy falava alguma coisa sobre o assunto de biologia, mas eu realmente não estava prestando atenção. E então ele saiu. Tão lindo ao lado de Ryan, conversando e com aquele sorriso mais lindo do mundo no rosto.
— Nossa, não sabia que você gostava tanto de biologia. — ela disse de repente e eu olhei para ela confusa — Tá sorrindo aí.
— Ah, não. Desculpa. Eu lembrei de uma coisa engraçada. — falei extremamente constrangida. Eu estava sorrindo?
— Conta outra, Ana. Você tava olhando pro Jayden. — ela disse impaciente — Vai lá com ele. Eu espero a Lily.
— Não... — suspirei.
— Por quê? — ela perguntou.
— Ele não...
— Oi, meninas. — Ryan disse de repente, me interrompendo e assustando.
— Oi, Ryan. — Daisy sorriu e eu me virei, bem a tempo de ver quem estava com ele — Oi, Jayden.
— Oi. — ele sorriu pra ela.
Não tive coragem de cumprimentar nenhum dos dois, então apenas sorri um pouco tímida com a situação.
— O que você quer? — Daisy estreitou os olhos para Ryan.
— Credo. — Ryan olhou pra ela indignado — Não posso falar com as minhas amigas?
— Ryan, eu te conheço. — ela levantou uma sobrancelha e ele riu.
— É, eu preciso falar com você. — ele disse e a puxou para longe de nós. Ótimo. Eu e Jayden ficamos sozinhos.
— Então... — comecei, sem graça — Como vai? — disse a primeira coisa que veio à mente.
— Bem. — ele respondeu indiferente. Vários pensamentos surgiram na minha mente, mas a coragem para externá-los sumiu.
— Vai pro treino amanhã? — perguntei mais envergonhada que freira de biquíni. Por que ele conseguia causar esse efeito sobre mim? Por que ele conseguia fazer com que eu me sentisse uma garotinha idiota e ficasse envergonhada com qualquer coisa?!
Ele respondeu minha pergunta afirmando com a cabeça.
— Jayden, eu...
— Oi, gente. — Lily disse sorridente ao passar pela porta ao nosso lado e nos ver.
— Oi, Lily. — respondi sem jeito.
— Vamos? Cadê a Daisy?
— Tá ali com o... — me virei para apontar para o Ryan, mas eles não estavam mais lá. Olhei ao redor e não os encontrei — Ela tava com o Ryan bem ali. Não sei onde foram.
— Que droga. — Lily disse já se afastando de nós — Vou atrás dela, precisamos dessa carona. Fica aí, Ana.
— Tá bom.
— O que você ia dizer? — ele perguntou.
— Não era nada importante. — declarei e ele pareceu não se importar.
— Preciso ir. — ele disse e eu senti meu coração apertar. Não quero que você vá...
— Tudo bem. Nos vemos amanhã. — tentei soar verdadeira, mas minha voz saiu desapontada.
— Sim. Até amanhã. — ele disse se aproximando por um segundo, mas logo recuou e foi embora. Enquanto eu o via se distanciar em direção às escadas, eu ainda podia sentir meu coração bater forte por conta da tentativa de aproximação. E o perfume...

Quarta-feira
12:30 pm

— Sei disso, Kasper. — Daisy revirou os olhos — Não precisa me falar toda vez.
— Desculpa aí. — ele disse rindo.
Estávamos almoçando e eu procurava não olhar na direção da mesa dos atletas. O treino de terça-feira foi normal e Maya não me tratou mal, ainda bem. Ben estava conversando baixo com Ryan e Kasper e Daisy discutiam como sempre. Fiquei olhando meu prato pensativa até que olhei na direção da mesa do poder absoluto. Ele não estava lá. Olhei ao redor e vi uma cena que não me agradou nenhum pouco. Ele estava na mesa das cheerios, sentado ao lado de Maya, que ria abertamente de qualquer coisa enquanto enroscava o braço no dele. Uma raiva inexplicável ferveu meu sangue. Fiquei olhando os dois juntos na mesa e tudo que eu conseguia pensar era em como a Maya Littleton era uma vaca sem igual. Pera aí, Ana Santini. Maya Littleton é uma vaca? Não, não é. Jayden McKee não é seu. Ele pode sentar com quem quiser.
A raiva passou e no lugar dela veio a tristeza. Desviei meu olhar de volta ao prato e senti meu olhos marejarem. Pera aí, Ana Santini. Você não vai chorar, vai? O que tá acontecendo?
Involuntariamente, olhei para eles de novo. Eu só tinha reparado nela. Eu não tinha notado em como ele parecia contrariado, como se tivesse sido forçado a estar ali. Um certo alívio tomou conta de mim, mas senti que meus olhos ainda estavam molhados. E então ele me olhou. Aqueles lindos olhos claros encontraram os meus. Talvez ele tenha percebido minha tristeza, já que ele franzia levemente o cenho, em sinal de confusão. Olhei para Maya e então de volta para ele. A sua expressão deixou de ser confusa e ele pareceu entender, pois logo desenroscou o braço do dela e voltou a atenção à bandeja. Fiz o mesmo.

Quando voltávamos para nossas salas, Ben me puxou para ficarmos um pouco longe do grupo.
— Tá tudo bem? — ele perguntou — Tá meio triste.
— Ah, não é nada. — tentei sorrir — Lembrei do Brasil e fiquei com saudade.
Ele me abraçou apertado e me deu um beijo na testa antes de se afastar.
— Você não tá sozinha. Lembra disso. — ele disse e me puxou de volta pro grupo.

03:30 pm

— Gente, estamos aqui basicamente para cumprir tabela. — Lily disse assim que a treinadora se afastou para conversar com o Peters, novo treinador do futebol — Nossa performance tá perfeita e nós já ensaiamos tanto.
— Verdade. — Maya concordou e eu senti um enjoo subir. Para com isso, Ana.
— Ah, eu acho que todo ensaio é bem-vindo. — Sophia disse e boa parte das meninas concordou.
— Bom, de qualquer forma, somos obrigadas, então... — Lily suspirou e nós ensaiamos mais uma vez.
Ao terminarmos a performance, percebi que o treinador Peters nos observava atento, enquanto o time de futebol ficava sem assistência. Aquele homem me dava arrepios, e não era no bom sentido.

— Tchau, Ana. Bom passeio. — Lily disse assim que saímos da quadra. Olhei para ela sem entender de imediato, mas assim que meus olhos encontraram Ryan e seu amigo de cabelos claros, lembrei da ida ao Joey's toda quarta-feira depois do treino.
— Ah... Obrigada. — sorri e ela foi pro estacionamento.
— Ana! — ouvi Ryan me chamar e me virei na hora — A Daisy e o Kasper estão no Ben. Eu vou lá agora, quer ir?
Olhei para Jayden esperando que ele fizesse alguma objeção, mas tudo que ele fez foi oferecer uma carona para nós.
— Sério? Seria ótimo, J. — (lê-se "Jay") Ryan disse aliviado.
— Táxis estão cada vez mais caros. — ele deu de ombros.
Não consegui conter minha decepção e olhei para o chão. Assenti levemente e peguei meu celular para avisar Josh.

Acompanhei os dois até o carro do Jayden em silêncio. Chegando lá, fui logo para a porta de trás, mas Ryan, com aquela mania irritante, me mandou ir no banco da frente. Sentei ao lado de Jayden um tanto tímida e logo saímos do estacionamento da escola.
Os dois conversavam e eu me mantinha alheia a eles. Olhava a rua como se fosse a coisa mais interessante do mundo e tentava não interagir. Como isso chegou a esse ponto? O que aconteceu? O clima tinha ficado tão estranho entre nós e isso era fato, mas a culpa era minha? Não, não era. Não sei por que aquilo doeu tanto nele. Se distanciar de mim ao me ouvir falar sobre amizade só provava uma coisa: ele não gostava de mim. Ele só queria estender o que aconteceu naquela na festa e adicionar mais uma pra lista dele. Eu sou tão idiota assim?
Ouvi meu celular tocar e logo o peguei para atender a ligação do meu irmão.
— Oi, Josh. — falei ao deslizar o slide e colocar o celular no ouvido.
— Ana, foi mal, mas eu preciso que você venha pra casa agora. — ele disse — Eu tô com um probleminha aqui e a Jade tá na casa da Becky.
— Ela vive na casa dos outros né. — revirei os olhos — É muito importante?
— Olha, uma ajudinha não seria ruim. — meu irmão disse meio ofegante, como quem carrega um peso muito grande.
— Tá bom, tá bom. — respondi derrotada — Vou pra casa.
Desliguei o celular e percebi que os dois não estavam mais conversando.
— Cara, isso é muito legal. — Ryan disse alguns segundos depois — Você falando português.
— Valeu. — sorri tímida ao lembrar do que Jayden havia dito no sábado passado — Ér... Ryan, eu não vou poder ficar.
— Ah, não? Por quê?
— Meu irmão precisa de ajuda com uma coisa. — respondi já pegando meu celular para falar com o Ben.
— Bom, tudo bem. O J. pode te deixar em casa depois de me deixar, né? — ele disse olhando para o amigo, mas eu logo me intrometi.
— Não precisa. Sei que o Ben pode me deixar. — tentei livrar Jayden daquela situação horrível que seria ficar em minha companhia.
— Acho que ele não vai gostar muito de sair de casa só pra te deixar. Sendo que você nem vai poder ficar um pouco lá. — Ryan disse.
— Eu te deixo, Ana. Não tem problema. — Jayden se manifestou tranquilo — Na verdade, é até caminho pra minha casa.
— Hm, então t-tá bem. — falei surpresa com a atitude dele. E quanto ao Ryan... ele consegue ser inconveniente sem saber.

Quando chegamos na casa do Ben, Ryan se despediu rapidamente e saiu do carro. Logo nós estávamos seguindo o caminho para a minha casa. Os primeiros minutos foram de total silêncio, mas não demorou muito para alguém falar alguma coisa.
— Nós não temos nada. — ele disse e eu fiquei sem entender.
— Hm? — olhei para ele.
— Eu e a Maya. — ele explicou.
— E por que você tá me dizendo isso? — perguntei. Eu sabia muito bem o porquê, mas queria ouvir dele.
— É que... — ele começou — Pensei que você pudesse pensar isso depois do almoço.
— Hm. — foi tudo que consegui dizer e voltei minha atenção para aquela rua incrivelmente interessante — Você não me deve satisfações, Jayden. — falei depois de alguns segundos — Não precisa explicar nada.
— Eu sei que não. — ele disse apreensivo — Eu só não quero que você faça conclusões erradas.
Não respondi nada e continuei olhando a rua.
— Ela é só uma amiga. — ele disse depois de quase um minuto de silêncio — Assim como eu sou pra você.
Olhei para ele na hora. Jayden continuava dirigindo o carro tranquilo como se tivesse acabado de elogiar o tempo.

— Você não é só um amigo, Jayden. — eu disse séria — Ninguém pode ser "só" um amigo. Amigos são...
— Ah, bom, eu tenho certeza de que o Benjamin não pode ser só um amigo. — ele disse irônico me interrompendo — Mas eu posso, né.
— O que você tá dizendo? — olhei para ele e vi que sua expressão era uma mistura de tristeza e determinação, se é que isso era possível.
— Vi vocês juntos no almoço. Vi o jeito que ele te trata. — ele disse baixinho.
— Ele é meu amigo, Jayden. Nada mais. — respondi tentando não mostrar que estava desconfortável com aquela conversa.
— Fala isso pra ele, então. — ele disse irritado.
Pera aí. Ele estava com ciúmes?
— Fala aquilo pra Littleton, então. — usei a frase dele — Pra ela, vocês não são só amigos.
Ele riu fraco e olhou para baixo, negando com a cabeça.
— Você não entende, né Ana? — ele disse voltando a olhar a rua.
— Então me explica, porque eu não entendo mesmo. — falei irritada também e ele me olhou sem expressão — O que aconteceu? Num dia você diz que gosta muito de mim e no outro você finge que eu nunca existi. Qual é a sua, McKee? O que você quer de mim?
— Eu não sei. — ele disse sincero, porém sem me olhar — Mas eu sei o que eu não quero. E eu definitivamente não quero a sua amizade, Santini.
Olhei magoada para ele e só então percebi que estávamos parados no sinal vermelho.
— Bom, se é assim, — falei destrancando e abrindo a porta — já que você não quer, você não terá. — quando me levantei para sair, ele me puxou e eu caí sentada de volta no banco.
— Não foi isso que eu quis dizer, Ana. — ele disse triste — Eu gosto de você. Eu não quero que seja assim. A culpa foi minha, eu fui um idiota e estraguei tudo o que eu tinha planejado. É que... quando você disse que gosta de ter a minha amizade, eu percebi que é isso que eu sou pra você: um amigo. E eu não quero ser seu amigo, Ana. Eu... Eu não sei. Me desculpa.
— Eu tenho que ir. — eu disse soltando meu braço da mão dele e tentei sair do carro de novo, mas ele me impediu mais uma vez.
— Você não vai descer aqui. Vou te deixar em casa. — ele disse sério.
— Não precisa. — falei mais séria ainda e tentei soltar meu braço.
— Ana, para com isso. — ele levantou o tom de voz — Não seja tão orgulhosa. É perigoso você andar por aí sozinha.
— E desde quando você se importa? — olhei nos olhos dele e pude sentir uma tristeza profunda emanando deles.
Ele retribuiu meu olhar e respirou fundo.
— Desde sempre. — ele disse baixinho, quase inaudivelmente — Deixa eu te deixar em casa, Ana.
Foi minha vez de respirar fundo e então fechei a porta do carro. Jayden pareceu aliviado ao me ver colocar de volta o cinto de segurança. O resto do caminho até meu prédio foi em um silêncio completo, sem mesmo música no som do carro. Aquilo não me incomodou.

Na hora de sair do carro depois de chegar ao meu destino, nem eu e nem ele dissemos uma palavra. Uma breve troca de olhares e mais nada.

Assim que abri a porta do apartamento, meu irmão apareceu.
— Ana! Você chegou! Graças ao universo! — ele disse aliviado.
— E então? Qual é o problema? — perguntei curiosa.
— O problema tá dormindo no meu quarto. — ele disse divertido — Preciso da sua ajuda para limpar isso aqui.
Ele fez sinal para irmos para a cozinha. Assim que botei meus pés no cômodo, meu queixo caiu. A cozinha estava uma bagunça! Tinha comida espalhada no chão e algumas poças de água também.
— Josh, o que aconteceu aqui? — perguntei abismada.
— O problema aconteceu. — ele suspirou.
— Que problema é esse, afinal?
— Vai olhar no meu quarto. — ele disse e eu obedeci. Fui caminhando curiosa até a porta do meu irmão e abri bem devagar. Coloquei a cabeça para dentro e olhei. Lá estava ele, o problema. Dormindo tranquilo como se o mundo fosse dele. Abri mais a porta para entrar e ela rangeu, fazendo-o acordar. Assim que Harley me viu, ele saiu correndo na minha direção e começou a pular feito louco na minha frente, mas sem latir nenhuma vez.
— Oi, garoto. — sorri e o peguei no colo — Quem é um bom garoto? Sim, é você. Agora me diga: por que você tá aqui?
Ele abanava o rabinho com empolgação e respirava alto.
— Os monitores começaram a vigiar mais o corredor do Mike. Um dia ele quase foi pego, então achou melhor achar um lugar para o Harley ficar. Tive que faltar as aulas da tarde pra poder trazer ele pra cá sem ninguém ver. O Mike tava muito nervoso, Ana, você tinha que ver. — meu irmão riu — Ah e nós somos só temporários, viu? Não se acostuma. Acho que ele vai pra casa dos pais do Mike na semana que vem. — meu irmão me respondeu se aproximando para também fazer carinho no pequeno cachorrinho no meu colo.
— Como é que esse nenê fez aquela bagunça? — perguntei a Josh.
— Bem, não temos ração e ele precisava comer, então eu tive que improvisar. Eu tentei fazer alguma coisa, mas aí ele veio todo doido e derrubou tudo.
— Ai, Josh. Seria muito melhor se você tivesse saído pra comprar ração. Agora a gente vai ter que limpar tudo.
— É, vamos. — ele suspirou e eu coloquei o Harley no chão. O cachorrinho saiu correndo pelo apartamento e entrou direto na cozinha.
— Imagina quando a Jade vier pra casa...