Be mine

2 Capítulo 2


(Ana's POV)

— Jade! Josh! A pizza chegou! — berrei da cozinha alto o suficiente para meus irmãos ouvirem. E os vizinhos também.
Peguei um pedaço de pizza, servi um copo de refrigerante e fui pra sala ver se havia algo de interessante passando na televisão. Assim que me sentei, Jade brotou do chão.
— Pizza de quê? — ela perguntou encarando o grande prato de papelão.
— Calabresa. Josh só gosta dessa. — respondi indiferente.
— É verdade. — disse Josh surgindo do além.
Os dois fizeram exatamente o que eu fiz e se sentaram ao meu lado no sofá. Estava passando um filme realmente interessante, mas eu sabia que Jade não conseguiria ficar calada por muito...
— Sabe o que é engraçado? — tempo.
— O quê? — respondi sorrindo com a minha precisão.
— Nós ficamos sozinhos em casa várias vezes na semana. — ela disse
— E?
— Nós nunca demos uma festa.
— E nem daremos. — falei e Josh assentiu logo em seguida, concordando com meu posicionamento.
— Ah, gente. Vocês nunca viram filmes americanos?
— Onde festas sempre resultam em Polícia e/ou bombeiros na porta de casa, sem falar dos prejuízos materiais? Não, nunca vi. — Josh disse e eu apenas assenti.
— Vocês são muito caretas.
Acho que assistimos o filme por cinco minutos e Jade se pronunciou novamente.
— Queria um cachorro.
Ficamos calados. Concentrados demais para responder.
Mais cinco minutos de filme.
— Ou um gato.
Suspirei. Mais cinco minutos de filme.
— Uma tartaruga deve ser bem legal.
— Pelo amor do amor, Jade, assiste o filme.
— Foi mal. — ela disse — É que esse filme é muito chato. Vou pro meu quarto. Bom filme pra vocês.
Assim que Jade subiu as escadas, eu desliguei a televisão.
— Ana, eu tava assistindo. — Josh protestou.
— Eu sei, mas precisamos conversar.
— Olha, eu tô bem. Não precisa se preocupar. De verdade. O resultado da UCLA sai semana que vem e eu tô confiante.
— Não é sobre isso. Quer dizer, é sobre isso, mas não é exatamente sobre isso.
— Quê?
— Olha, a Jade me deu uma ideia muito interessante. — comecei hesitante — Mas eu não sei se você vai concordar.
Contei a ele minha conversa com Jade sobre ir com ele pros EUA. Falei exatamente tudo. Falei sobre os cinco anos que ele ficaria longe, falei também sobre deixar nossos pais sozinhos, a burocracia, o dinheiro, tudo. Depois de me ouvir, ele apenas deu um leve suspiro e se pronunciou.
— Olha, a ideia não é ruim. Seria bom ter vocês lá, mas em compensação a mãe e o pai... A burocracia não é tão difícil de resolver. Vai ser mais fácil pra Jade que tem dupla cidadania, já que nasceu lá. Mas não vai ser tão difícil assim conseguir um visto de estudo pra você, Ana. Podemos tentar.
Sorri abertamente depois dessa constatação.
— Você acha?
— Sim. E em relação ao dinheiro... você sabe que o pai não economiza quando o assunto é o nosso futuro. Além do mais, eu tô a fim de trabalhar lá. Conseguir um dinheiro extra. Vai ser bom pra mim.
— Imagina que louco. Nós três sozinhos em outro país.
— É, pensando bem, é melhor vocês não irem. Vai que tacam fogo em algum lugar.
Apenas ri feliz demais pra me importar com a provocação.
Ensino médio nos EUA. Seria igual os filmes adolescentes? Será que existe mesmo uma hierarquia nos corredores de uma escola americana? Ah, quantas perguntas.
— Temos que conversar muito com o pai. Ele sabe o que é melhor pra gente. — Josh disse
Apenas concordei. E dando o assunto por encerrado, liguei a TV novamente.

Na manhã do dia seguinte, uma linda manhã de domingo, fui acordada por uma criança extremamente sorridente me cutucando.
— Acorda, Ana. Você vai se atrasar. — ela disse
— Que horas são? — perguntei tentando alcançar meu celular no criado-mudo.
— Sete e meia. — minha prima de nove anos respondeu.
— Sete e meia?! Tenho que me arrumar. — levantei da cama num pulo direto pro banheiro. Fiz minha higiene matinal (infelizmente não deu tempo de tomar banho) e me vesti.
Desci as escadas correndo com minha prima logo atrás e cheguei à sala. Como previsto, estavam todos me esperando para irmos à igreja. Meus pais, meus tios e meus irmãos.
— Faz cinco anos hoje que a sua avó se foi. — minha mãe disse — Você devia mostrar um pouco mais de consideração.
— O que eu fiz de errado? São sete e quarenta, nosso horário normal de saída. — respondi
— Mas eu sei que você acordou tarde. Se não fosse pela Luísa, você ainda estaria dormindo e nós teríamos nos atrasados.
— Mas não nos atrasamos. Na verdade, se continuarmos discutindo é que vamos nos atrasar. — falei indo em direção à porta, logo sendo seguida por Luísa e depois pelos outros.
Minha relação com minha mãe nunca foi ótima, mas também não foi assim sempre. Nós começamos a nos desentender quando eu mostrei aversão às coisas que ela queria que eu fizesse e interesse pelas que ela tinha aversão. Como por exemplo, ela queria que eu fizesse aulas de ballet, mas em vez disso, fiz aulas de dança de rua, jazz, e várias outras. Ela não curtiu muito a ideia. Nunca compareceu às minhas apresentações. Não sou de guardar rancor, mas também não esqueço assim tão fácil.
— Ana, como era a vovó? — Luísa me pegou de surpresa com a sua pergunta. Mas ela estava certa em perguntar, afinal, quando a vovó se foi, ela tinha apenas quatro anos.
— Ela era a pessoa mais doce da face da Terra. Mesmo tendo seis netos, nunca deixava que nenhum se sentisse menos amado ou coisa parecida. Tratava igualmente a todos. Sinto muita saudade dela.
— Você acha que ela teria gostado de mim?
— Como assim "teria gostado"? Ela te amava! Você era a caçulinha.
— Não, eu quis dizer... você acha que ela ainda gostaria de mim agora?
— Com toda a certeza do mundo. — respondi convicta do que estava dizendo e recebi um sorriso sincero em troca.
Fomos à igreja e assistimos a celebração. Depois, como de costume, saímos para tomar café todos juntos. Meus pais, irmãos, meus tios e primos. Todos reunidos em memória da vovó, mãe do meu pai.
Já no restaurante onde ficaríamos, sentei ao lado de Josh e aproveitei a oportunidade para conversar com ele.
— Obrigada por ter ido. — falei sincera — O papai teria ficado muito triste se você tivesse se recusado a ir, de novo.
— Eu era imaturo, Ana. — ele disse olhando para o playground ali perto, onde nossos primos brincavam... e Jade. — Mas agora eu irei todos os anos. Pela vovó.
— Pela vovó. — repeti também olhando nossos primos... e Jade — Lembra quando nós viemos aqui pela primeira vez?
Ele negou com a cabeça.
— Sério? Foi um dia que eu nunca vou esquecer. Marcou muito.
— O que aconteceu? — ele perguntou.
— Eu nunca te contei essa história?
Ele negou novamente.
— Bem, eu tinha oito anos e estava brincando naquele playground. Quando eu fui descer no escorregador, meu tênis travou a descida e eu caí. Arranhei meu joelho todinho nessas pedrinhas que deveriam amortecer a queda. A mamãe estava olhando a Jade e não me viu cair, mas a vovó viu. Ela veio correndo me juntar. Chorei muito. Um misto de vergonha e dor, mas com certeza era mais vergonha. Mostrei meu joelho ralado pra vovó e falei que faltavam pedaços dele. Ela sorriu com ternura e disse "na vida muitas coisas te deixarão em pedacinhos, mas quando você se juntar de volta, verá que eles são sempre temporários e servem apenas pra te deixar mais forte. Esse ralado é um exemplo disso. Aposto que assim que lavarmos, você estará pronta pra outra queda". Nossa, como eu sinto saudade dela. Mas é por causa disso que eu consigo contornar qualquer problema. Eu sempre lembro do que ela disse.
— "Eles são sempre temporários". — Josh repetiu
— É... — concordei observando Jade empurrar Luísa no balanço — A vida passa muito rápido, Josh. Temos que aproveitar cada segundo.
— Você tem razão. Vamos comer como se não houvesse amanhã. — ele disse mordendo sua maçã. Apenas ri de sua atitude e tomamos todos um bom café da manhã em família, compartilhando lembranças de momentos e sábias palavras da vovó. Pude sentí-la conosco. Ela estava ali.

Notas finais
Desculpem a demora. Prometo não demorar tanto nas próximas atualizações :*