Be Free
10 Capítulo 10
'Oh, half of my heart's got a grip on the situation. Half of my heart takes time...'' Como é bom acordar ao som de um bela voz e de um belo cantor. Sim, sou uma das milhares fãs de John Mayer. Digamos que ele tem seu charme. Confesso que quando era pequena, dizia a minha mãe que casaria com ele e teria três filhos. Coisas de adolescentes. Paixonites platônicas pelos seus ídolos. Me levanto e vou até o banheiro, lá eu tomo um relaxante banho. Volto para o quarto enrolada na toalha e fico encarando as roupas do meu armário. Calças skinny, saias balonês ou lisas, blusas básicas, de manga comprida, de estampas ou lisas. Que roupa ir hoje? Penso, analiso , visualizo as possíveis combinações. Pronto! Roupa escolhida. Calça skinny de lavagem escura, blusa de manga comprida na cor verde-oliva. Nos pés um oxford preto. Bolsa uma básica também na cor preta, sem penduricalhos. Maquiagem leve, cabelos soltos naturalmente. Passo o meu perfume de sempre e estou pronta.
Na cozinha vejo minha mãe cantarolando totalmente feliz. Pelo jeito essa cantoria tem a ver com o motivo da última cantoria – digo a mim mesma mentalmente. Me sento na cadeira e me sirvo de suco de laranja. Pego uma pequena porção de panquecas com muito mel.
- Ai que susto menina! — disse minha mãe com a mão no coração – Nem te vi chegar aqui.
- Percebi isso. — disse levando um pedaço da panqueca até a boca – E pela sua alegria toda, digamos que o motivo é o mesmo, não é? — ela assente sorrindo – Sabia. Tá amando mesmo né mãe? — pergunto e ela assente novamente – Que bom, mãe. Fico feliz pela senhora. Você merece. — falei sorrindo
O resto do café da manhã foi assim. Conversas, minha mãe suspirando cade vez que falava o nome ''Stu'' e eu só ria da expressão e sorriso de uma típica boba apaixonada totalmente incurável. Olhando no relógio, vejo que tenho que ir logo, antes que perco a carona de Ash. Me despeço de minha mãe e saiu.
Ao chegar lá, espero sentada no sofá da sala, enquanto Ash dava os últimos retoques para irmos para a escola. Olho ao redor e para em um determinado local. No canto, perto da TV de plasma dela, vej algo novo ali. Diferente. Me levanto e vou até lá. Abaixo e vejo o que é. Um saquinho plástico. Olhando de perto e atentamente arregalo os olhos pasma com a descoberta. O que aquilo estava fazendo ali? Na casa de Ash? — me pergunto em mente.
- Vamos, estou pronta. — disse ela parada olhando o celular.
Me viro para ela, ainda com aquela merda na mão. Ela olha para mim e paralisa. Ela olha para o saquinho em minha mão e depois para mim. Abriu a boca algumas vezes. Achei de na primeira ela diria logo a verdade. Mas na segunda, na terceira, na quarta e por aí vai, percebi que ela arranjava tempo para inventar uma desculpa esfarrapada. O que aumentou ainda mais minha raiva.
- Kathy... — começou a falar
- Anda se drogando Ash? — perguntei direta. Ela abaixou o olhar e eu percebi que a resposta seria sim. Aquilo me fez mal, fiquei decepcionada com ela. — Por que? Só me diz isso. Você sabe que isso mata. Por que tá fazendo isso contigo? — ela não olhava para mim – Isso tem a ver com aqueles dois, não tem? — perguntei e não obtive resposta. Ela ficou muda. Não emitiu nenhuma palavra ou som – — Precisa dizer nada. Eu já sei a resposta. — joguei aquela porcaria no chão mesmo e saí dali em direção a porta
- Ei, espera Kathy. — gritou Ash para mim
Durante o caminho até a escola, não dizemos nenhuma palavra naquele carro. Era eu, Ash e o silêncio esmagador naquele carro. Já no estacionamento, desço sem dizer nada a ela também.
- Baby! — grita Sam para Ash. Logo atrás dele vem bem que tinha uma expressão normal, mas quando seu olhar encontrou o meu, ele mudou – Oi, Kathy! — falou a mim
Não respondi e saí dali. Estava com raiva, ódio, indignada. Mas o sentimento que mais prevalecia era a decepção. Me sentei no meu lugar de costume. O horário dos alunos entrarem em sala de aula tocou. Olhei para a cadeira ao lado da minha. Ash sentava ali. Merda! — pensei. Olhei para a porta da sala e vi Stev, na mesma hora o chamei para se sentar ali. No começo ele hesitou, dizendo que aquele era o lugar da Ashley. Insisti tanto que ele acabou cedendo no final. Os alunos foram entrando. Na porta, vi Ash parar e olhar em minha direção. Ao ver que seu lugar estava ocupado, ela abaixou a cabeça triste. Sam percebeu isso e colocou seu braço em cima dos ombros dela, a fim de confortá-la. Bem estava logo atrás e ao me ver ali, sentada com Stev, ele fechou a cara. Passou reto por mim sem dizer um simples ''oi'' ou ''bom dia''. Confesso que aquilo me incomodou um pouco, mas deixei de lado. Preferi ignorar.
O resto das primeiras aulas passaram normais. Sem nada de impactante ou interessante. Matérias que eu já havia estudado. No refeitório, eu preferi me sentar em uma mesa sozinha. Stev até me chamou para se sentar com ele, mas disse que precisava desse momento só eu. Me sentei na mesa mais afastada daquele local. Peguei um livro qualquer e comecei a minha leitura. Percebi que havia uma movimentação na minha frente. Ignorei a pessoa que não respeitou aquele meu momento e continuei a ler.
Eu iria perguntar o que faz aqui sozinha, mas como já sei a resposta, prefiro fazer outra. O que fazia com Stev? — perguntou o dono da voz mais sensual possível
Ignorei Ben e sua presença inconveniente.
- Me ignorar não irá me fazer sair daqui, Katherine. — disse ele pegando meu livro e o fechando
Ergui meu olhar para ele e o encarei. Peguei meu livro de volta, abri na página de antes e continuei a ler. Por cima, percebo que ele se levantara. Aleluia, ele resolveu se tocar e ir embora — disse a mim mesma. Mas para o meu azar, eu estava errada. Ele deu a volta na mesa e parou ao meu lado. Pude sentir o calor emanar de seu corpo. Ok, aquilo não era bom, ou melhor, era, mas... Af. Notei que ele estava perto demais até.
- É feio e falta de educação deixar alguém falando sozinho sabia? — perguntou sussurrando em meu ouvido
Aquele ato dele me ocasionou um tormento de arrepios pelo corpo todo. Tentei disfarçar e me levantei dali. Mas antes de ir embora, me virei para ele.
- É, só que você não é uma pessoa e sim um animal. Passar bem. — sorri falsadamente e fui embora
Andei pelos corredores pouco iluminado que dava para a biblioteca. Lá dentro já, vejo que estava vazio. Só com a mocinha que trabalhava lá, mas como era uma senhora de idade, e com a audição um pouco gasta. Diria que a biblioteca estava vazia.
Passando pelas cabines, fui puxada fortemente pelo braço para dentro de uma. Olho para o idiota que fez aquilo e minha raiva só aumenta.
- O que acha que está fazendo, Benjamim? — perguntei com um tom bravo
Ben fechava a porta com a chave. Confesso que eu me perguntei o porque daquilo. O empurrei da frente da porta e tentei abri-la, mas em vão.
- Acho meio difícil abrir sem as chaves. E se você quer tanto sair, terá que pegá-la em um lugar que eu aposto que futuramente irá amar e gostar de por a mão. — disse ele com malícia
Nem precisei me virar para ver onde ele pusera a chave. Só pelo seu tom eu já sabia aonde. Me virei para ele e com a mão na cintura o encarei.
- Tem como abrir a porta? Quero sair. Temos aula e já já o sinal bate. — disse impaciente
Ele deu de ombros e se sentou. Colocou os pés em cima da mesa e simplesmente continuou ali. Filho da mãe. Peguei uma cadeira, e me sentei nela. A coloquei um pouco afastada da dele.
- Por que brigou com a Ash? Ela tá mal. — disse ele quebrando o silêncio que reinava naquela cabine
Olhei para ele.
- Tenho certeza que sabe o motivo. — disse seca
- É, pior que sei. — disse olhando para o chão
- Não entendo. Aquilo mata sabia? Mata aos poucos. E vocês nem percebem isso. Ou percebem e fingem não perceber. — pausei ao vê-lo revirar os olhos — É horrível ver uma pessoa que você gosta e ama se auto destruir e você não poder fazer nada. Pior é quando você pode fazer, mas não consegue.
- Sem sermões, por favor. — disse ele
- Pessoas como você me fazem perder o pouco de esperança que me resta nas pessoas. Tem tudo para viver e preferem perder isso aos poucos, em câmera lenta.
- Pessoas como eu, gosta de viver. — disse com desdém
Ri sarcasticamente.
- Então, eu prefiro ser taxada como aquela que não gosta de viver do que usar isso. Nunca usarei. — disse
Ele me encarou, se levantou e me puxou pelos pulsos com força contra seu corpo. Colocou a mão na minha cintura e me jogou contra a parede da cabine. Antes que eu pudesse perguntar o que ele pretendia fazer, ele me beijou. Um beijo que me fez sentir o desejo dele e principalmente o meu. Sua língua quente na minha me causava sensações diversas. Boas por sinal. Suas mãos ágeis percorrendo todo o meu corpo. Eu pensava em parar aquele beijo, mas não queria. Percebendo que precisávamos de ar, ele cessou. Ainda com o rosto perto do meu, com sua testa colada a minha, pude sentir sua respiração falha contra meu rosto.
- Só para você saber, você usou aquilo que disse que nunca usaria. Foi passivamente, mas usou. — sorriu ao me encarar e foi em direção a porta abrindo-a e me deixando sozinha naquela cabine totalmente atordoada das ideias
O filho da mãe me beijou. O filho da mãe se drogou minutos antes de me beijar. Por isso esse gosto amargo, diferente em minha boca. - disse a mim mesma. Estava com raiva, ódio de mim, dele. Estava até com vontade de repetir aquele beijo. Me odeio por pensar nisso.
Notas finais
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