Battement
3 Capítulo 3 - Admiradora da Lua
Notas iniciais
Luzes foram ligadas, revelando uma sala de estar. Havia mesas com chás recém feitos e um pequeno caderno com uma pena ao seu lado esquerdo. A bela moça com olhos cor de céu iniciou a peça.
“Esta é uma história verdadeira, que a minha mãe irá nos contar daqui a pouco. Eu e minha família moramos em Génova. Meu pai é um homem alto, que gosta de fumar charutos, e é um famoso detetive nas regiões. Já a mamãe também é alta e gosta de tocar piano.”
Ela sentou-se no chão e uma bela melodia invadiu a sala de teatro. A mãe na qual ela havia acabado de citar, estava tocando algo em seu lindo piano de cauda.
– Essa valsa quem tocava era a sua tia Pettie, no cravo. – A mãe diz e a moça a olha, pensativa. – Pois o cravo é mais antigo que o piano e também é um instrumento musical com cordas e teclado. E foi nesse instrumento que sua tia-avó tocava “O coração de Lili”.
A garota levantou-se e se sentou ao lado de sua mãe.
– Poderia me contar a história da tia Pattie? – Perguntou cuidadosa.
A mais velha direciona as mãos ao peito e fecha os olhos.
– Pattie era uma moça bonita e muito romântica, que adorava escrever seu diário com uma pena de ganso e de escrever poesias, e no cravo ia compondo as valsinhas. Até que um dia chegou à cidade um jovem médico, recém-formado que veio visitar a família. Chamava-se Dr. Paixão.
– Dr. Paixão? – Perguntou-lhe a mais nova.
– Era o nome dele. Um moço de traços fortes e bela cabeleira. Morava perto da casa de sua tia e assim Pettie o via todas as tardes... Até que foram apresentados e foi então que despertou o sentimento. Apenas se tocaram e ficaram vidrados de amor.
– Vidrados? – A palavra parecia estranha para a mais nova.
– É, vidrados. Até hoje eu fico pensando como uma coisa dessas nasce assim do nada... – A mãe olhou pra cima, sonhadora. A mais nova cutucou-lhe o braço e ela pigarreou e voltou a falar. – O jovem médico apresentou-se à família. Pediu a mão de tia Pettie em casamento, mas avisou:
– Não sou rico, mas tenho promessa de um bom emprego e já trabalho no hospital. – Disse um terceiro personagem que eu não havia notado estar ali.
– A família recusou o pretendente porque era mestiço, com um belo futuro, mas mestiço. Era preconceito. – Disse-lhe a mãe. – Aquela minha família achou que era uma afronta, o mestiço pobre pretender a Pettie. O moço estava magoado, revoltado e de repente resolveu fugir. Escreveu para ela um bilhete e foi para estação. Ela o encontra e os dois se abraçam pela primeira e última vez, mas tão apaixonadamente, tão apaixonadamente... – A mais velha suspirou, como se estivesse vivenciando o momento. – Ela voltou pra casa silenciosa e sem reclamar continuou a sua vida aparentemente normal, como se estivesse vazia. Está me entendendo?
– Estou. – Disse-lhe a moça.
– Comia pouco, falava pouco, não tocou mais no cravo, e continuava a escrever, mas sem vontade. Toda à noite antes de dormir apertava uma toalha molhada ao corpo para apressar a morte. Quando ficou tuberculosa, pareceu enfim mais tranqüila. Os pais procuraram o moço, mas a família se mudou pra cidade grande, e como encontrá-lo? – Completou a mais velha.
– Então ela morreu? – Perguntou a mais nova, hesitante.
– Exatamente 6 meses depois que ele foi embora. – Completou ela. – Seu último pedido foi:
“Toquem a vasinha “O coração de Lili” e encham o travesseiro do caixão com minhas poesias.”
– Ela morreu em pleno inverno. – Disse a mais velha com as mãos juntas ao peito. – Não havia flores em nenhum jardim para enfeitar o caixão. Pois nesse instante chegou à casa um buquê trazido por um mensageiro e sem cartão e quando correram ao portão, o mensageiro tinha desaparecido. – Disse a mãe. – O mensageiro era um anjo.
– Um anjo? – Indagou a mais nova. – Mas mamãe...
Não houve resposta. A voz da doce moça foi abafada pela canção que sua mãe tocava em seu piano. Por um momento, ela fechou os olhos e pensou que talvez isso fosse verdade. Talvez fossem anjos. Talvez fossem Pattie e Dr. Paixão. Bobagem. Ela caminhou e entrou em outra sala, onde havia duas pessoas. Uma garota e um homem. A garota tirou seu diário das pernas e levantou-se, alegremente.
–Tem história para nos contar? – Perguntou à moça.
Ela balançou a cabeça negativamente.
– Hoje não temos nada interessante. – Disse acariciando suas lindas asas brancas.“
O escuro tomou conta do palco e a platéia aplaudiu, satisfeita. A peça havia sido curta, pensei. Levantei-me e sai da sala, junto com todos os outros presentes. Andei em direção a um restaurante perto do teatro e me sentei em uma das mesas. Fiz meu pedido e enquanto esperava, olhava a lua por uma janela entreaberta.
– Está linda, não é? – Uma voz doce e feminina tirou-me de meus devaneios. – A lua.
– Ah, sim. – Respondi hesitante. – Adorável.
Virei o rosto para observar quem quer que fosse a pessoa ao meu lado e fiquei surpresa com o feito. A moça com olhos cor de céu fitava a lua carinhosamente.
– Perdão, não é a moça da peça agora a pouco? – Perguntei com a testa franzida. Mas que diabos ela estaria fazendo sentada na minha mesa?
– Ah, sim. – Ela disse direcionando seu rosto para mim. – Desculpe a indelicadeza, sei que não se deve ser tão ousada com um desconhecido, mas sua mesa é a melhor para um admirador da lua. – Sorriu envergonhada. Minhas mãos começaram a soar e meus lábios pareciam ter vida própria. Mesmo que involuntariamente, sorri.
– Não se preocupe. – As palavras simplesmente saltaram da minha boca. – Qual seria o seu nome?
Ela deu um largo sorriso e olhou pra baixo.
– Eu? – Começou ela. — Eu sou quem você quiser. Posso ser Clarice, Cecília, Mariah ou Sophie. Sou apenas uma personalidade vagante, um paradoxo ambulante. – Então, levantou-se e saiu porta a fora. Era como Emma. Deslizava dos meus braços e caminhava para longe, e tudo que eu podia fazer era fitar o seu andar. Meu jantar havia chegado e eu balancei um pouco minha cabeça para tentar esquecer o que havia acontecido. Terminei o mesmo e fui à procura de um táxi.
Joguei minha bolsa no sofá e caminhei em direção ao banheiro. Suspirei cansada. Tinha sido um longo dia. Prendi meus cabelos e andei até banheiro. Deixei as gotas geladas caírem sobre meu corpo e fechei meus olhos sentindo meus braços se arrepiarem. Terminei meu banho e vesti qualquer coisa que estava em minha gaveta. Deitei e apaguei as luzes. Deixei a escuridão me levar e logo eu não estava mais em meu quarto e sim, em uma sala escura.
O problema era que eu não sabia se estava sonhando ou não.
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