Baththub
1 bathtub
O véu imaginário parece ser removido levemente, dissipando o transe e fazendo meu corpo despertar imediatamente no toque da água gelada que o cobre. Meu corpo se arrepia por inteiro no momento em que me encosto na cerâmica fria da banheira e eu penso que devo estar há muito mais tempo do que deveria dentro dela. Olho ao redor e não vejo meu relógio – eu sempre o tiro quando meus pés pisam dentro de casa – muito menos meu celular. Meu coração bate mais lentamente enquanto meus olhos percorrem o banheiro e o veem descansando em cima da pia. É típico de um dia cansativo: entrar em casa deixando um rastro de roupas até o banheiro, encher a banheira enquanto verifico a caixa postal do celular e finalmente entrar.
Mas hoje, talvez, meu cérebro tenha apertado a tecla pausa e esquecido de mim. Ou eu sou um avatar em um jogo de simulação de vida real pausado enquanto o jogador que me controla faz alguma coisa em seu mundo. De qualquer modo, a espuma há muito se esvaiu, deixando uma cor leitosa e opaca na água, permitindo que eu veja um reflexo quase etéreo das minhas pernas sob ela. A frieza com que a água toca minha pele parece fazer meu cérebro permaneça em transe. Eu não sinto a menor vontade de levantar, muito embora minhas costas doam pela má posição e o resto do meu corpo implore por uma cama. Do lado da banheira, há uma janela em que posso ter uma boa vista da cidade: o céu escuro, a cidade iluminada, os carros passando. Não sei que horas são, mas sei que já é tarde.
Se antes meu cérebro parecia ter apenas se desligado, agora tudo parece estar voltando ao normal. Como um computador que reinicia, meus pensamentos entram em ordem e uma imagem vem à minha cabeça, tão forte como um soco. Os cabelos negros bagunçados, os olhos que parecem quase dourados à luz do sol e um nariz fino e arrebitado que lhe dá um ar presunçoso. Essas imagens me dão um vazio, como se meus órgãos tivessem sido removidos e só tivesse sobrado a carcaça de ossos que sustentam meu corpo. Um riso ecoa na minha mente e eu balanço a cabeça. Não é real, é apenas meu cérebro idiota.
Tentando fazer com que a imagem suma, submerjo na água fria da banheira. Imediatamente minha mente clareia e eu volto ao normal. Suspiro e levanto, a água pingando dos meus cabelos pelo meu corpo arrepiado. Meu cérebro parece subitamente acordado, a realidade parece mais palpável, mas mesmo assim, o sentimento vazio permanece.
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