Bater de Asas

22 22. A Praia


Notas iniciais
O ritual deu certo, porém o tempo esta acabando. Tudo terá sido em vão?

Já tínhamos tudo pronto para partir, antes de vir ao ritual. Então Zack começou a andar e eu apenas segui seu movimentos, já que apenas ele sabia o caminho, não o questionei do tempo que a viagem demoraria, só quero chegar logo ao lugar.

Quando chegamos a uma floresta, resolvemos começar a voar, Zack sempre um pouco à minha frente, porém olhando para trás olhando se eu estava conseguindo o acompanhar. Ele estava voando rápido, acho que por conta da urgência do momento.

Enquanto voávamos, resolvi puxar papo já que viajar em silêncio não me parecia agradável, porém o assunto que eu queria conversar não seria nada bom.

—Zack... você sabe oque aconteceu com seu pai?

Ele para bruscamente no ar, quase trombamos já que eu também estava rápido para conseguir acompanhar ele. Ele continua me encarando no ar, ali na minha frente batendo suas asas para se manter voando.

—Podemos falar sobre isso quando montarmos acampamento?

Ele volta a voar, não sei oque dizer, não sei se ele já sabe só não quer falar sobre. Talvez no fundo ele gostava do pai dele, já que foi quem criou ele, agora ele não tem mais ninguém além de mim...

Voamos em um silêncio constrangedor, acima das nuvens que a cada hora que passava, ficavam mais escuras, mais difícil de ver, então resolvemos parar em uma montanha, com muita mata em cima, assim quando montarmos a fogueira será difícil de alguém achar a gente, mesmo que aqui seja no meio do nada, animais ainda podem nos ver.

— Vamos dormir aqui por hoje, tem apenas mais algumas horas de viagem, porém não quero viajar no completo escuro.

Ele me disse já recolhendo galhos, empilhou e os acendeu com uma pederneira. Enquanto isso eu preparava a comida. Então Zack que até então não queria muito conversar, senta ao meu lado na fogueira.

— Você matou o meu pai não?

Engoli seco, não sei oque dizer, devo só virar e falar que sim, dizer que sinto muito, ou falar que foi por conta do meu novo eu.

— Desculpa Zack... matei ele de uma forma bem horrível, não sabia me controlar, ver você naquelas condições fez algo gritar dentro de mim.

Ele puxou meu queixo delicadamente, suspirei olhando para ele.

— Ele era apenas alguém que me criou, não o considerava pai, e estou orgulhoso de você.

Não sei se fico feliz, não sei se livrei ele desse mal que era a perseguição que o pai dele tinha com ele. Oque me faz pensar se eu conhecer minha família e eles forem como o pai de Zack, ruins.

— Como você matou ele?

Ele me pergunta, seu rosto voltou ao sério de sempre, se ele está confortável em falar sobre isso, por mim tudo bem.

— Eu senti algo queimar em mim, então apenas me atirei nele, me sentia descontrolada, só voltei a ter consciência do que havia ocorrido quando me vi em cima dele, e seu coração jogado ao lado do corpo.

Zack faz uma careta de nojo, dou uma leve risada.

Depois que comemos, apenas nos encostamos em uma árvore perto da fogueira, Zack me abraçou e nos envolveu com suas asas.

A noite ficava cada vez mais fria, o vento batia forte em nós, mesmo estando no meio das árvores, resolvemos ir dormir para conseguir chegar na praia no nascer do sol.

Enquanto dormia tive um sonho ou uma lembrança não sei ao certo. Me via em um lugar lindo, onde as construções eram brancas e douradas, haviam mais da minha raça, vivendo felizes uma vida normal, crianças correndo, sorrisos sendo esboçados de seus rostos. Então escuto uma voz masculina parecida com a de Zack, mas quando me viro para ver, era um garoto loiro como eu, com asas brancas como a minha, ele me dá um beijo. Acordo eufórica, uma lembrança? uma premonição? ou apenas um sonho estranho, mas parecia tão real...

Quando vejo, acordei Zack com meu susto, ele está me olhando espantado, e com a mão no queixo, então reparo que quando acordei e levantei de uma vez, bati minha cabeça em seu queixo.

— Nossa desculpa, eu tive um... sonho.

O dia já está amanhecendo, então ele se levanta e apaga o fogo.

— Com oque sonhou que acordou tão assustada assim?

Como vou contar que estava beijando outro garoto, e que talvez isso seja uma lembrança...

— É... prefiro não comentar.

Ele pega sua mochila e eu a minha, então ele começa a andar.

— Vamos e você vai me falar no meio do caminho, lembra sem esconder nada e sem mentir.

Não lembro de ter lhe feito essa promessa, porém no patamar em que estamos não sei se estamos namorando ou não, então tento mudar de assunto.

— Zack... estamos namorando?

Ele tropeça em uma pedra e se apoia em uma árvore, acho que minha pergunta o pegou desprevenido.

— Eu é...

Ele passa a mão em seu cabelo puxando para trás.

— Ainda não, mas não se preocupe com isso agora.

Continuamos a andar, o caminho era cheio de pedras e galhos, mas o vento salgado do mar já podia ser sentido ao longe.

— Mas... e se eu morrer, quero morrer com você como meu namorado.

Zack que até então estava andando na minha frente abrindo caminho, para bruscamente, se vira e vem em minha direção. Ele segura meu queixo não com força mas com firmeza me fazendo olhar para seus olhos.

— Você não vai morrer, está entendendo?!

Tinha esquecido como era ver ele com raiva, apesar dele ser uma pessoa determinada, eu também era porém a esperança em mim vem se acabando com o passar das horas.

— Zack... não sei se dá tempo...

Estico meu pescoço lhe mostrando as marcas escuras já chegando em minhas orelhas.

— Droga... você não vai morrer, e não repita mais isso.

Não vou o questionar sobre sua grosseria, sei que ele não quer me perder, porém acho que se essas marcas chegarem ao topo de minha cabeça, não sei oque acontecerá mas penso que será meu fim.

Zack segura minha mão forte, e começa a correr, tento puxar ela mas ele está firme e determinado. Então ele voa, trombando nos galhos das árvores, abrindo caminho de baixo para cima. Galhos quebram em suas costas, fico apavorada com suas ações mas ele apenas continua até sairmos acima das copas.

— Zack! Pelo amor se controle!

Ele continua a voar rápido me ignorando, ao longe era possível ver a praia e seu imenso oceano, e se a ilha dos alados fica no meio do oceano, e vamos de barco... não terei tempo mesmo. Mas do jeito que está o Zack, ele me arrastará oceano adentro mesmo que seja nadando.

— Estamos quase lá...

Não quero tirar as esperanças dele, mas se a ilha for do outro lado do oceano, ou embaixo dele, não sabemos, nem ele sabe, não temos tempo, acho que só quero passar meus últimos momentos na praia com ele.

Aterrissamos na areia, caio de joelhos exalta, andamos por 2 horas e ele ainda me arrasta pelos céus até a praia.

Zack está ao meu lado, sabendo do meu futuro nada próspero lhe faço um pedido.

— Zack lembra da nossa conversa de ontem... eu pensei e acho que eu deveria fazer o pedido logo, então seila é...

Ele para na minha frente nada feliz.

— Quer namorar co...

Ele tampa a minha boca. Arregalo os olhos surpresa com sua ação.

— Eu vou fazer o pedido, e vai ser quando você estiver melhor, vou planejar tudo, e vai ser perfeito como você merece.

Ele me fez sentar na areia em silêncio e saiu andando. Zack é mais esperançoso do que eu imaginava. Sei que ele acredita que eu vou melhorar, ou apenas está se enganando, já que quando eu morrer, ele vai acabar sozinho de novo...

Então olhando o imenso oceano que nunca havia visto em toda a minha vida, sua brisa suave bate em meu rosto, levando todo o medo e o desânimo que eu estava, afundo meus pés nas areia e fico sentada olhando o conjunto de rochas que havia na praia mais ao leste.

Então lembro que Zack estava comigo, olho para os lados e vejo ele entrando na água, me levanto tentando entender oque ele quer.

— Ela está aqui! Venham buscar ela!

Ele grita aos quatro ventos, em uma súplica de pedido de ajuda, mas nada acontece, e ele continua a gritar.

— Ela precisa da ajuda de vocês, por favor venham!

A voz dele começa a falhar, vou até a beira da água mas não entro, já que não sei nadar. Encosto minha mão em seu ombro, ele a retira e vai mais fundo na água até ela chegar em seus joelhos.

— Zack por favor... Você sabe como isso vai acabar e está tudo bem, você fez o seu melhor...

Ele se vira para mim, seus olhos marejados, já começando a mudar para o tom vermelho, o mar batendo nas pontas de suas asas, seu cabelo molhado não sei se da água salgada ou do esforço que ele estava fazendo. Eu vejo como um cenário bonito, porque ele também não o vê?

Ele cai de joelhos, cansado, exausto, sentindo que seus esforços foram em vão, que talvez a pessoa que ele mais amou, se vá hoje. Então parada a alguns metros dele, sinto meu coração despedaçar ao escutar de dentro de seu âmago, um grito de raiva, rancor, angústia, nunca um sentimento havia me feito ter dor física. Lágrimas começam a rolar de meu rosto, Zack um garoto sarcástico e muito seguro de si, agora jogado de joelhos na água tem a ficha caída de que não há mais jeito, não a volta.

Enquanto ele grita, socando a água, corro até ele, o abraçando o mais forte que posso, tentando o reconfortar, mas quem vai confortar ele depois que eu for? Ele vai seguir sua vida ou vai decair, eu não sei oque pensar.

— Zack vem, vamos sair da água...

Ele se levanta, andamos até a praia, e sentamos na areia, não sei oque dizer.

— Zack promete para mim que depois que eu for, você vai seguir sua vida?

Ele fica em silêncio de cabeça baixa, com seus cabelos caindo em cima dos olhos.

Então ele se levanta, segurando firme o meu pulso tentando me fazer levantar, puxo bruscamente conseguindo me soltar.

— Zack não quero mais tentar... por favor desista...

A aura escura começa a sair de sua pele mesmo não dando para ver os olhos dele por conta do cabeço, sabia que estavam de uma cor rubi.

— Você não vai desistir agora!

Ele volta a segurar meu pulso me puxando bruscamente me fazendo levantar. Arqueio minhas asas em fúria e empurro ele.

— Zack a vida é minha! Eu escolhi desistir dela agora!

Ele vem até mim segurando meus ombros.

— A partir do momento que você escolheu fazer parte da minha vida, não é só você que decide isso!

Aquilo foi como um soco no estômago, faço parte da vida dele, não posso apenas sumir dela. Infelizmente isso não depende apenas de mim.

Tiro as mão do Zack do meu ombro, então ficamos de cabeça baixa, cada um perdido em seus pensamentos, até eu começar a escutar um canto.

— Zack ta escutando isso?

Digo levantando a cabeça, Zack não está mais a minha frente, ele está indo em direção a água, vou atrás dele pensando que ele pode estar pensando em me levar nadando.

— Yasmin não entre na água, você não sabe nadar!

Fico confusa vendo Zack falar sozinho com a água, o canto que eu havia escutado vem da mesma direção.

— Hey volta aqui!

Ele grita se jogando na água atrás de mim? Não, eu estava parada na areia o vendo nadar, então escuto o canto mais atentamente, ele vinha das rochas. Vou correndo até elas e vejo oque eu mais suspeitava, sereias!

Haviam duas, uma dentro da água e a outra que cantava sentada nas rochas apenas se preparando para se jogar na água atrás de sua presa, que estava perdida em uma ilusão que eu estava.

Retirei meus sapatos, peguei minha adaga, e subi nas rochas, indo abaixada, porém o mais rápido que consegui, já que Zack não tinha muito tempo. Quando cheguei a primeira sereia, voei em um impulso proporcionado por minhas asas, segurei seu cabelo, ela grita de uma forma bestial, mas esse grito é cessado por minha lâmina que corta sua garganta, a solto nas rochas quando ela para.

— Pronto Zack você está livre...

Olho para a água, que está mais calma do que eu imaginaria, havia outra sereia, mas a perdi de vista. Mas onde está o Zack?

Então em uma explosão, vejo Zack na parte mais funda da água se jogando para fora, puxando o máximo de ar que ele consegue. Ele está brigando com a outra sereia. Mas que droga! sabia que deveria ter aprendido a nadar antes, mas nunca pensei que seria no oceano!

— Zack saia da água! Pode ter mais delas!

Foi como eu falei, enquanto eles brigavam em meio a água agitada, vejo caldas passando na lâmina da água, inúmeras podiam ser vistas, indo em direção a ele. Ajuntei todas as forças que já estavam quase esgotadas e me preparei para pular na água, mas fui interrompida por uma luz ofuscante cortando o céu.

Asas tão brancas como as minhas batiam acima da água, dois Alados como eu, com arcos em suas mão, lançaram contra as sereias suas flechas. Elas grunhiram e afundaram oceano adentro. A água ficou calma, vejo Zack olhando para cima e vendo oque eu também havia visto.

— Zack!

Chamo por seu nome, ele me vê e nada em minha direção, os alados quando me viram vieram até a minha direção, mas Zack chegou antes me abraçando, ele estava ferido, ferimentos de dentes e lanças.

Os angelicais pousaram nas rochas, e ao verem Zack perto de mim, prepararam suas flechas gritando.

— Infernal!

Me coloquei na frente do Zack com os braços junto de minhas asas esticadas.

— Saia da frente irmã! Ele vai matar você!

Eles estavam errados sobre Zack, ele mataria por mim, mas entendia o lado deles, talvez nunca tenham visto um com uma alada.

Eles abaixaram os arcos e se aproximaram de nós, cautelosos, quando chegaram perto de mim, olharam minhas marcas.

— Veneno de Demônio...

Como vou defender o Zack se foi ele que me envenenou, mas não vou citar isso agora. Então os dois se aproximaram de mim e seus rostos mudaram para uma expressão de surpresa, e mesmo eu nunca tendo falado, eles chamaram pelo meu nome.

—Yasmin?!

Notas finais
Quem são essas pessoas? Porque sabem meu nome?