Batalha por Silvestria

2 Capítulo 2: Uma alma boa


O tempo passava. O elfo ali derrubado não mostrava sinais de que acordaria deixando a cigana apreensiva. Elfos normalmente não dormem muito, já se passavam mais de quatro horas, já deveria ter acordado. Sorte também serem seres bem leves, o que permitiu Sabrina o colocar em uma cama improvisada com tecidos que carregava. Seus trajes eram típicos, uma camisa e calça bem folgada de algodão em mistura de marrom e verde. Estranhamente não utilizava adornos, normalmente muito apreciados pela etnia. Com ele apenas uma bolsa simples de couro. A garota não investigaria o que estava ali dentro, temia ser acusada de furto e até mesmo agredida pelo homem que ajudou. Ciganos tendem a ser receosos quanto a auxiliar pessoas desconhecidas, já foram muito perseguidos e atacados gratuitamente.

Já passava do meio dia, mais de seis horas após encontrar aquele homem, não o abandonaria, mantinha-se fornecendo água cuidadosamente para que não engasgasse. A apreensão de Sabrina crescia. Ali, naquele campo verde, bandidos poderiam os ver muito facilmente. O homem começava a recobrar a consciência e a balbuciar sem muito controle sobre o corpo não conseguia articular palavra alguma que fosse compreensível. Tentava se erguer sem o menor dos sucessos, Sabrina com a mão em seu peito lhe diz:

— Tente não se mexer, você ainda está muito ferido.

O elfo para de tentar se mover, àquela altura conseguia compreender o que lhe era dito. Seu semblante se mantinha neutro todo o tempo, talvez não tivesse forças nem mesmo para controlar os músculos da face. Sabrina puxa uma pequena panela e um punhado de vegetais que colhera no caminho, o ferido que tratava certamente estaria faminto. Acendia uma pequena fogueira e iniciava o preparo de uma sopa. Primeiro alimentava o elfo e em seguida seria sua vez.

A noite cai, ambos se mantiveram ali, o elfo quase imóvel poupando forças para se recuperar. Sabrina em guarda constante de seu protegido. A noite vai passando, as estrelas no firmamento formam um lindo mosaico que só coisas da maior grandiosidade conseguiriam. Sabrina já estava sem forças, o homem ainda deitado tinha novamente sucumbido a exaustão. Os olhos da garota pesavam, o corpo cedia e a inconsciência a atingia antes que o elfo acordasse ou mesmo os tons lilases do céu do início do amanhecer surgissem.

Em um despertar lento vagarosamente as imagens se formam na visão da moça. Não estava mais em seu posto de vigia, estava deitada onde deixara o ferido. Sentado a seu lado ele estava, olhava longe no horizonte, buscava talvez possíveis ameaças. Eram olhos determinados e focados. Sabrina se ergue e diz:

—Volte a se deitar, ainda está muito ferido.

O elfo a olha com estranhamento, não conhecia muito a fundo o idioma dos humanos. Lentamente e meio tremulo pela insegurança em falar arrisca da forma mais simples possível:

— Você cuidou de mim, obrigado.

—Não precisa agradecer, não foi nada, você estava realmente precisando.

Ainda um pouco confuso olha com estranhamento a garota, essas últimas palavras não lhe faziam muito sentido. Pela entonação conseguia abstrair que era a recepção do agradecimento, mas ainda tinha dúvidas se havia mais algo naquelas falas. A garota olha para o lado enquanto ele a encara fixamente. Ela continua:

— Como você se feriu tanto?

— Uma grande fera. Não consegui ver direito. Me arrastou por aí.

— Bem, pelo menos você está bem, é o que conta. Pelo visto você consegue me entender até que bem.

— Não muito bem.

—Isso pode ser um problema. Onde você mora? Você precisa voltar pra lá.

Uma lágrima corre pelo rosto do elfo nunca vira tamanha dedicação a ajudar alguém que não conhece. Era costume de seu povo utilizar os meios da natureza, “Caso alguém não vá lhe ajudar a sobreviver, não o ajude.” era um de seus ditos. Não havia como ela ter algum interesse nele, não era belo, estava quase morto há pouco tempo, estava lentamente se recuperando ainda, ela não sabia nada sobre ele. Mas ali diante de alguém que é realmente capaz de atos de bondade explicita e verdadeira. Muitos povos vivem a dureza e frieza de nunca olhar pelo próximo necessitado, até mesmo os mais altruístas tem receios quanto a desconhecidos. Aquela garota estava ali contrariando todos os instintos, toda a lógica.O elfo se erguia e se colocava de joelhos diante de Sabrina e em um grande esforço tanto para lembrar das palavras quanto para engolir o orgulho enraizado na tradição de sua etnia falava:

—Não tenho mais casa. Abandonei. Me ponho a seu serviço por ter cuidado de mim como sua propriedade.

A garota espantada se sente mal. Ele parecia determinado a abdicar de todas as liberdades de sua vida por ela. Não é algo que um espírito livre como o de uma cigana poderia admitir. Em um rápido movimento desfere um tapa na cara do elfo e começa a esbravejar:

— Pare de exagerar, não aja como um idiota. Você não pode simplesmente abdicar de seu dom mais precioso, a liberdade. Sem ela nada somos. Eu não vou aceitar isso.

Bufava fortemente e tentava se acalmar. Isto foi uma afronta grande a suas crenças e ideais. O olhar zangado continuava enquanto prosseguia:

—Qual o seu nome?

—Turael._ Respondia trêmulo_ Qual seu nome?

— Sabrina.

— Sabrina, posso não ser sua propriedade, mas posso te acompanhar?_ Articulava lentamente a frase olhando assustado para garota.

— Pode sim, pelo visto não tem mais para onde ir.

A garota pega a carroça, desta vez teria ajuda. Realmente não esperava que as coisas acontecessem desse jeito, mas pelo visto acabava de obter um novo companheiro. Sua solidão estava apaziguada, embora sentisse ainda um grande buraco no coração. Terrível o destino que lhe tirou tudo, mas não era momento para remoer sentimentos terríveis, o dia era bonito, o céu limpo, as aves do campo cantavam. O mundo parecia respirar felicidade. Turael se vira para Sabrina e a diz:

— Meu povo diz que tem pessoas que nascem com uma alma boa. Você é uma.

A face de Sabrina cora, não se via como uma pessoa boa, mas sabia que fazia mais pelos outro do que as outras pessoas. Sentia que as pessoas precisavam olhar mais pelo próximo, de que parecia que todos queriam que tudo girasse em torno deles. Confusa ela não sabe o que responder, e simplesmente agradece:

—Obrigada.

A viagem segue e a tarde cai novamente enquanto o chão gramado dá lugar a pedra dura e vegetação grosseira do campo rupestre. Eles montam acampamento. Viajar durante o dia era uma opção mais sensata. A noite mesmo que bem iluminada era perigosa para a viagem, era um chão acidentado e de difícil transição. Sentados em frente a fogueira recém feita Sabrina o pergunta:

— Disse que não tinha mais casa, o que aconteceu?

— Saí de lá.

— Tem algum motivo? _ Perguntava receosa.

— Virar adulto, passar pela provação.

— Entendo...

— E você?

— Prefiro não contar, ainda me dói muito.

Ambos se calaram se recolheram e foram dormir. Ambos atormentados pelos problemas um do outro. A mente de Sabrina estava atormentada “Como puderam expulsa-lo? Que tipo de pessoas podem expulsar um membro de sua própria família?” enquanto as preocupações de Turael eram bem mais simples: “O que teria acontecido com a família dela? Será que ela está preocupada comigo?”. Ambos dormiram, a noite era tranquila, mas os ventos traziam um clima mais frio, parecia que o inverno estava por vir.

Caminharam por mais um dia inteiro, o terreno se tornava cada vez mais sinuoso, a carroça trepidava e rangia. Ao horizonte em pleno amanhecer, uma torre negra era possível ser vista ao longe pelos olhos aguçados do elfo. Sabrina entendera que sua previsão era real, eles realmente encontrariam novamente aquele homem que havia perdido a alma e o sentido de viver e entrariam um lugar que seu povo evitava. A torre de Zibastreo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.