Batalha por Silvestria

1 Capítulo 1: O Estranho Misterioso


Era uma tarde calma e comum em Zabeor, a cidade fervilhava de gente como todo grande centro, seu cheiro característico das estranhas pedras zabe na qual foi construída mascarava muito bem a urina e as fezes jogadas dos penicos pelas janelas das casas enquanto a umidade e os ventos do litoral traziam um clima quente, porém agradável. Uma jovem de cabelos negros cacheados, pele morena e olhos verdes entra pelos portões da cidade, envolta em tecidos verdes e vermelhos de cores escuras, visivelmente usando vários adereços, carregando uma pequenina carroça com um baú. Não seria mais óbvio que se tratava de uma cigana, uma nômade das Grandes Terras de Silvestria. Viajava sozinha já há dois anos, havia perdido sua família, tal como seus outros companheiros ao tentarem cruzar o vale Etal. Seu nome era Sabrina e feridas da tragédia ainda atormentavam sua alma, o medo a consumia nas noites enquanto ouvia as vozes de seus entes queridos gritando por socorro durante o deslizamento. Definitivamente não eram tempos fáceis para esta garota, mas sustentava um belo sorriso, ainda acreditava, embora não tão fortemente como antes, que o futuro lhe reservava a felicidade.

Os ciganos tem uma grande fama entre a população humana, são pessoas que podem manifestar habilidades um tanto quanto peculiares, sendo Sabrina uma destas. Duas delas são bastante surpreendentes e até mesmo entre os grandes arcanos que são capazes de dobrar a própria realidade a seu favor ainda desconhecem muito das artes que possibilitam ver o passado e o futuro. Estranhamente para alguns ciganos estas são demasiadamente simples e até mesmo banais em certos casos, no entanto a maioria deles se aproveita desta fama, mesmo não tendo estes dons consegue ludibriar aqueles que os buscam em troca de algumas moedas. Das poucas famílias que detém os segredos destas artes nenhuma cobra preços fixos por suas consultas, perguntam quanto a pessoa que o solicitou acha que ele merece. Prática esta bem justa, uma vez que muito difícil enxergar além no tempo o que há de acontecer. Alguns dizem que ver o futuro com exatidão é como tentar parar um touro furioso apenas com suas mãos nuas e que o destino é uma força indomável, selvagem e misteriosa que apenas se revela a sua própria vontade.

A jovem logo dentro da cidade se depara com uma grande multidão, que lhe era algo muito estranho. Já havia passado por vilarejos, no entanto nunca chegara a ver tanta gente em um lugar só. Viver em casas fixas, utilizar moedas e não escambo, fezes sendo jogadas as ruas dos penicos pelas janelas, tudo lhe causava grande estranhamento. Sentia-se muito deslocada do resto das pessoas, a solidão a tomava, sabia que não tinha mais ninguém no mundo, o que restou de sua vida eram seus poucos pertences e suas habilidades. A garota astuta logo se aproveitou de suas habilidades de descobri o passado e desvendar o futuro para se sustentar. Seu nome rapidamente se espalhou pelas bocas da cidade, alguns afirmando ser uma mística poderosa que tem poderes para além da compreensão, outros espalhando que não se tratava de mais do que uma charlatã enganando pobres tolos que acreditam realmente nestas crendices.

Seus vislumbres dos destinos alheios muitas vezes não passavam de coisas cotidianas, visitas chegando, doenças para alguns. Mas o que muito incomodava os que a denegriam era sua precisão incrível quanto ao passado, é desesperador para alguns esperar que uma simples brincadeira de adivinhação se revele um poder sobrenatural real. Isto não a fazia desanimar, já estava mais do que acostumada com esse tipo de situação, às noites em sua cabana anotava os nomes daqueles que não eram bons clientes ou que lhe tentariam algum mal. Apesar disto os negócios iam bem e tinha uma vida confortável.

Mais um dia se erguia, manhã calma, céu azul sem nuvens, mais um dia de negócios comum. O dia se vai entre visitas de curiosos e crentes. Ao fim de tarde durante uma consulta se sente observada, no entanto mantém-se agindo com naturalidade, sabia que estava em local seguro.

— Olá senhora._ Dizia a uma possível cliente, uma mulher de não muito mais do que quarenta anos em vestes que remetiam certa riqueza. _ Estaria interessada em saber o que o futuro lhe reserva?

— Pois bem garotinha._Dizia a senhora em tom de deboche._ Você pode sim me mostrar seus fantásticos poderes e se forem bons eu lhe pagarei.

Irritada com a zombaria, mas sem perder a compostura responde:

— Bem, posso lhe provar que meus dons não são uma farsa. Se me der permissão poderei te dizer coisas de seu passado.

— Vá em frente querida.

— Dê me sua mão.

A garota segura a mão e seus olhos percorrem as linhas, em sua mente imagens se formam sobre o ultimo mês da vida desta mulher. Rapidamente inicia a falar:

—Bem, seu ultimo mês foi um tanto quanto cheio. A senhora parece gostar bastante do açougueiro Mário, e também do Alter, aquele pescador bem alto.

—Mais que mentira deslavada garota!

—Hum, não é algo que seu marido Arthur iria gostar, principalmente de saber que aquele que ele acredita ser seu primogênito não ser seu filho. Mesmo depois de criado e já vivendo fora de casa isso o causaria problemas, não é mesmo senhora Dália.

A senhora fica paralisada, seu sangue gela, o olhar se petrifica focando a garota. Ela tenta balbuciar algo, mas falha. A garota sorridente continua:

— E sua filha vem lhe visitar semana que vem, está grávida novamente, vai ser um menininho muito bonito. Então, quanto acha que eu mereço.

A mulher estende a mão com um punhado de moedas, tremendo como se estivesse diante de um fantasma. Seu rosto empalidecido não conseguia esboçar nenhuma outra expressão que não fosse de espanto. A garota a sua frente de simples sorriso e roupas estranhas realmente era bem mais do que aparentava. Sabrina sabia que nunca mais a veria, no entanto um sujeito em meio aos outros transeuntes lhe chamava a atenção, aparentemente estava ali o tempo todo a observando. Um homem alto e bem forte, trajando vestes pretas que estavam meio rasgadas e surradas, seu rosto tinha um semblante pesado e sombrio, cabelos longos. A figura se aproximava, seus olhos se tornavam visíveis, completamente vazios e sem vida, algo realmente assustador. O homem em sua caminhada quase arrastada se aproximava de Sabrina e sua voz grave, em um tom quase cadavérico entoa:

— Bem garota, pelo visto você tem um dom não é mesmo?

— Então tinha realmente alguém me observando, a que devo tão estranha atenção?_ Responde a jovem.

— Simples, serei bem direto. Estou em busca de algo que perdi há muito, algo que me foi roubado e é muito importante para mim. Pode encontra-lo?

— Eu posso tentar, mas não posso dar nenhuma certeza. Dê-me sua mão.

A mão do homem se estende, sua pele pálida e carne gélida são rapidamente percebido pelo toque delicado da moça. Em suas linhas formavam uma história sombria. Sua mulher e filhos foram brutalmente mortos há 6 anos por um lobisomem. Após isto sua vida passou a ser uma trilha devotada a caçar criaturas monstruosas. Tristeza e ódio se desenhavam em seu coração. A noite fatídica, o dia em que caçara mortos-vivos, mas não esperava que um deles fosse mais que um simples zumbi sem mente. Ao golpe cruel do guerreiro morto sua alma foi retirada de seu corpo. Sentia todos os seus sentimentos e vontades se esvaírem lentamente enquanto sua pele empalidecia. Era agora só uma casca oca, um eco do homem que um dia fora. Seu único impulso que ainda lhe restava era de recuperar o que perdera. A face da jovem anteriormente serena se fecha rapidamente em um semblante de preocupação e pena. Ela diz:

— Já vi gente com passados terríveis e sofridos, mas de longe o seu a todos os outros supera. Também é certamente o mais perigoso que já vi.

— Não me interessa meu passado, dele eu já sei._Responde rapidamente o homem_ Apenas quero saber onde está o que quero.

—Entendo, seu desespero é tão grande que se arriscaria até mesmo sem saber se eu realmente posso ajuda-lo. Pois bem, vou tentar.

A jovem puxa um saquinho enquanto dele tira várias cartas enquanto puxa de sua tenda um caixote para fazê-lo de mesa e explica:

— Ver o futuro é uma arte complexa, e muito difícil de obter alguma exatidão. Posso tentar fazer algo, no entanto temos chances de obter erros muito grandes. As consequências podem ser terríveis, mas acredito que esteja disposto.

— Sim _ Responde secamente.

Sabrina organiza as cartas em circulo, desenhos variados estavam em cada carta cuidadosamente ali colocada com uma em branco no centro. Olhando fixamente para a carta central as imagens começam a se formar em sua mente e começa a descrever o que via enquanto em estado de transe:

— Vejo uma torre alta e negra, estamos na base eu, você e mais um homem, magro acredito que seja um elfo. pressinto grande perigo vindo da torre. Posso ver melhor a torre, sim é a torre de Zibastreo, aquele lugar é um dos que meu povo sempre evitou. _ Balança rapidamente a cabeça saindo do transe._ Desculpe-me senhor acredito que não tenha conseguido algo verdadeiro.

— Não se preocupe garota._ Falava enquanto entregava um saco de moedas_ Já sou um condenado, para qualquer lugar que eu vá não tenho outra opção nem uma direção certa para ir. Além do que, caso sua previsão esteja certa nos encontraremos novamente de qualquer forma.

O homem se erguia e o sol se punha, enquanto andava lentamente na direção oposta. E a jovem se recolhia a sua cabana. Em seus sonhos a torre não saía de sua mente. Acordava ao meio da noite com o coração acelerado, sentia perigo se aproximando rapidamente recolhe o que lhe restava e mantém aquela tenda levantada. Pega sua carroça e sai em plena noite para fora da cidade, ao olhar para trás vê um foco de fogo de onde partira. Sua tenda estava em chamas, já presumia que algum de seus clientes insatisfeitos gostaria que seus segredos morressem com eles.

A vidente corria pelo campo sem saber a direção em que ia mergulhando na escuridão, abraçando toda a incerteza que esta fuga a traria em troca de uma chance de sobrevivência. Seu coração disparado, mente confusa, o medo se aflora em sua alma, temia o que estava atrás dela, mas não sobrevivera até aqui para que fosse morta sem lutar. Já segura e distante, a cidade já não mais podia ser vista, sabia que rumava na direção norte por uma pequena estrada, mas não com exatidão. O nascer do sol mostrava que estaria tudo bem, armou seu acampamento e exausta desmaia de sono.

O sol se ergue ao topo do céu, é meio dia. Sabrina acorda, sente-se meio tonta, triste e solitária. Não fosse sua fome não levantaria. Abria sua bolsa, dela tirava um pedaço de pão e um de queijo, comia tranquilamente. Pronta para seguir viagem e tentar recomeçar em outro lugar esperando que a sorte lhe sorrisse. Mas seu sossego estaria condenado a se perder novamente. Por de trás dos arbustos salta um homem para perto dela, trajava trapos que encobriam totalmente o corpo, segurava uma capa e fedia como um animal. Sua voz esganiçada gritava:

— Dê-me logo tudo que tem de valor!

A figura acerta o braço da garota em pose ameaçadora. Ela para por um segundo em um tom ameaçador esbraveja:

— Você não sabe a quem está perturbando.

Ele se rapidamente salta novamente em direção a garota que sussurra palavras incompreensíveis. O ladrão imediatamente para, seu sangue gela, o dia vira noite, a garota que estava em sua frente havia se tornado um grande muro de carne pútrida, nele milhares de rostos de pessoas mortas devoravam a carne daqueles que conhecera e gritavam por seu nome em ódio e desespero. O homem foge correndo e chorando da visão que tivera. Sabrina suspira aliviada, mas ainda com fortes dores no braço, a ilusão que criara realmente funcionou contra o bandido. Mais um grande percalço em seu caminho, enrolava trapos em seu ferimento onde havia passado unguento cicatrizador.

Mais um dia de viagem arrastado sem saber onde a estrada daria, à noite chega e olhando para o céu estrelado vê um risco luminoso no céu. Uma estrela cadente, um fenômeno um tanto quanto raro. Segundo a crença uma pessoa que vê uma estrela cadente tem seu desejo atendido. Sabrina repete para si mesma enquanto uma lágrima corre seu rosto:

— Gostaria de ter uma família e amigos novamente.

Seu desejo era simples, algo para o qual não damos tanto valor muitas vezes. Há aqueles que a todo custo querem se livrar de seus familiares, ou que não dão valor a seus amigos, se prendendo ao próprio egoísmo. Por mais que Sabrina tivesse tido problemas com seus amigos e familiares no passado ela os amava realmente. Uma garota que tudo perdeu de uma só vez e ao mesmo tempo uma mulher admirável por persistir mesmo diante do que faria muitos se entregarem ao suicídio. Agora podia repousar um pouco, se recuperar das feridas do corpo enquanto tenta estancar as da alma que sempre voltam a se abrir.

Um dos motivos pelos quais Sabrina preferia não andar muito pela cidade era para evitar ver famílias andando juntas. Sempre lhe voltavam lembranças dos bons tempos com seus pais, irmãos, tios e primos. Tempos felizes que nunca voltariam. Perdidos debaixo de uma avalanche de barro e pedregulhos que eram ao mesmo tempo seus carrascos sua cova. Estas visões assombravam-na todas as noites, às vezes rezava para que os deuses tivessem piedade e fizessem-na esquecer, mas sempre retrocedia. Se esquecesse deles quem carregaria suas histórias? Quem se lembraria de seus nomes? Quem manteria viva a tradição de sua família?

A garota novamente acorda, preparando-se para mais um dia de solidão e lembranças sombrias. Ainda bem que nem sempre estamos preparados para tudo que o dia tem por vir e hoje seria o dia em que até mesmo Sabrina seria surpreendia. Via a sua frente um homem alto magro como o de sua visão, cabelos escuros pele branca claramente um elfo, estava inconsciente e ferido. Ainda não sabia ao certo quem era. Se ele estava em seu futuro, seria melhor cuidar dele. Também não abandonaria alguém que necessitasse, era uma pessoa boa. Tratou de seus ferimentos e colocou-o encostado em uma pequena árvore, ali esperava que ele acordasse.

Notas finais
Zabeor: Principal cidade dos Humanos em Silvestria Pedra Zabe: Pedra cujo cheiro similar a plástico queimado Silvestria: Grande Terra cuja principal característica são suas extensas florestas tropicais.