Bataclan
1 Único
Notas iniciais
Mas antes, quero agradecer a Kaay que me aturou até as 03:00 da matina e Betou a fic, obrigada leãozinha! :*
Essa fic eu dedico totalmente a Selene, que ama de paixão esse lindo casal e que me incentivou a escrever e postar. Então carneirinha, essa é sua! ♥
Ps: Eu recomendo que leiam a fic escutando a musica!
http://www.youtube.com/watch?v=0ZgjmE6xdaw
Boa leitura a todos!
Bataclan
Ah... Os anos 20!
Quando falamos na década de 20, a principal referência que temos, são os homens em suas vidas boêmias. O glamour, elegância, luxo e classicismo. Pode ser dito que foi um dos momentos mais deliciosamente inebriantes de toda a História da Humanidade.
Uma década de prosperidade e liberdade, animada pelo som das jazz-bands e pelo charme das melindrosas– mulheres modernas da época, que frequentavam os salões e traduziam em seu comportamento e modo de vestir o espírito da também chamada Era do Jazz.
E foi nessa época que um inusitado amor nasceu, mais precisamente, na cidade de Nova Iorque no ano de 1926. Ele, um jovem italiano, vindo da vitoriana Itália. E havia também o belo e singelo sueco, vindo das mais altas montanhas, em busca da cidade onde os sonhos são feitos, a instigante Nova Iorque.
O sueco estava à procura dos seus sonhos mais fervorosos. O borbulhante sentimento de “frescor”, uma vida nova, algo que ele sabia que jamais poderia encontrar no extremo norte da Europa. Nova Iorque possuía uma magia única e muito especial, fonte de inspiração de músicas, filmes, peças de teatro e tantas outras formas de arte que o loiro soube, no instante em que pisou na selva de cimento, que sua vida apenas começara.
O italiano era filho mais novo de um casal riquíssimo, que possuía inúmeras poses e que agora haviam decidido aproveitar o turbilhão industrial e investir no setor hospitaleiro na América.
Com o tempo cada um seguiu a linha do seu destino.
Um em busca dos prazeres mundanos da vida. Boemia, mulheres e dinheiro, o rei dos reis!
– A cerveja é a prova de que Deus nos ama, e quer que sejamos felizes. – o italiano ditava, em suas noitadas pelos bares da bela cidade.
O loiro percorreu a dura vida das desilusões, o trabalho árduo, seguindo sempre de cabeça em pé. Ele tinha uma grande visão para sua vida desde menino.
– Eu irei conseguir... – o sueco dizia sempre para si, ao olhar as belas atrizes em pôsteres de filmes. – Um dia irei chegar lá, uma estrela tão bela quanto às atrizes de Hollywood.
Ele tinha um sentido extraordinário de esperança. E nenhum fogo poderia destruir o conto de fadas que existia em seu coração.
E finalmente a oportunidade veio. Um velho senhor viu o que muitos não haviam percebido no jovem sueco. A beleza, a graça, a sutileza e acima de tudo a força de vontade.
Thomas Mann era um alemão que sempre estava à procura dos mais belos diamantes. Mas não as pedras em si. Ele procurava os diamantes brutos; as pessoas. E em uma noite fria, próximo ao píer, ele percebeu um jovem diamante bruto, que brilhava e possuía uma voz magnifica, tão bela quanto às vozes das muitas cantoras dos anos loucos. E assim o sueco finalmente teve o seu momento na cidade dos sonhos.
(...)
No coração palpitante da cidade, no cruzamento entre a 42an street, a Broadway e a 7th avenue, onde a cultura americana é levada ao extremo, temos o Bataclan. Ali, onde se costumavam apresentar companhias de dança, era também um bordel e um importante ponto de decisões políticas e lugar para se fazer negócios.
O edifício de tijolo vermelho atraia os mais fervorosos senhores. Onde glamour, elegância, e luxo se encontravam com os prazeres, lindas moças e o exótico. O seu primeiro andar possuía um bar com os melhores drinques, shows e diversão. Já, o segundo e terceiro andar eram reservados não só para os drinques, como também para a busca de prazeres carnais.
Tudo que o dinheiro podia comprar em uma noite.
Mas o que muitos iam para assistir era a exótica Afrodite, a musa das musas, como era conhecida com sua bela e inebriante voz e sua beleza de dar inveja nas mais belas melindrosas.
E para Thomas, o belo sueco era seu maior tesouro! Um diamante que jamais poderia ser tocado. E assim permaneceu, até o dia em que o destino decidiu ligar as duas pontas soltas que existia nas vidas do belo e famoso sueco, junto ao boêmio italiano.
Era uma noite como muitas outras, o Bataclan estava prestes a apresentar sua mais nova aquisição, e dois jovens entraram empolgados no luxuoso bar.
– Hoje serei um homem apenas de prazeres meu caro Italiano! – disse ao ver as moças lhe darem sorrisos belos e intenções.
– Quando não é um homem que se entrega aos prazeres, grego? – puxou uma das damas para si, aproximando seu rosto a bochecha da jovem e subindo até a orelha. – Será que me daria à honra de sua presença essa noite, mi bela?
– E o senhor deseja apenas a minha companhia? – perguntou tocando na blusa, enfiando os dedos finos, tocando o pescoço até chegar aos lábios em uma carícia provocante.
O italiano riu e a puxou para si, a bela moça os guiou até uma mesa e logo uma loira com belos dotes veio para atender o grego. Durante boa parte da noite, italiano e grego se divertiram.
– Senhores, é com muita alegria e honra que venho a lhes apresentar a mais nova aquisição do Bataclan! – Garnet, a bela anfitriã do bar, apresentou-se em seu mais elegante vestido. – Senhores saquem suas carteiras a apostem, pois nessa noite, além do show com a belíssima Afrodite, trago a vocês o leilão Vouivre!
Uma salva de palmas ressoou por todo salão e aos poucos as mais belas damas foram apresentadas. Muitos assobiavam e pagavam preços exorbitantes por uma noite com as mais belas formas.
Carlo apenas observava e a cada vez que um velho dava um lance, ele soltava um sorriso sínico.
Logo a nova atração foi apresentada, ambos viraram o rosto para ver a mais nova joia. O italiano franziu o cenho ao constatar que havia algo peculiar na joia, mas ao ver, percebeu que possuía certa beleza.
Seus cabelos presos deixavam cair apenas alguns dos fios cor fogo. A pele alva como porcelana lhe dava um toque frágil. Olhou de relance para o loiro que ficou estático ao ver a mais nova joia.
– Senhores, como podem ver, mais uma vez o Bataclan, tem o privilegio de lhes apresentar uma joia única e pura! – houve murmúrios no salão. – Sim meus senhores, tão puro quanto suas belas filhas. Bem, para aqueles que possuem uma... Começaremos o leilão com lance inicial de mil dólares!
Houve cochichos e logo a joia levantou-se e saiu do palco, passando com elegância e frieza entre os leiloeiros. Milo observava com atenção: houve o primeiro lance. O italiano observou bem quando a joia passou perto de si e ele quase caiu da cadeira ao constatar o que era realmente a joia.
Os lances eram dados um atrás do outro e o italiano permaneceu estático ao ver homens dando lances altos por outro homem!
– Mas que merda...
– Cala a boca, Carlo! – gritou o outro pedindo silêncio, atento aos lances.
E quando Garnet estava prestes a anunciar o fim do leilão, o italiano viu o grego levantar de supetão e dar o lance de dez mil dólares.
– Milo, seu merda! Que porra está fazendo? – gritou pasmo. – Dez mil, para a porra de um rabo?
O grego apenas afrouxou o colarinho e ergueu os olhos para o amigo.
– Isso é pessoal, italiano! – disse suando frio.
– Senhores nossa mais pura joia foi vendida ao senhor da mesa cinco! – a anfitriã disse sorrindo.
Tão logo o leilão acabou a anfitriã começou a apresentar sua mais nova atração. Antes que o loiro levantasse da mesa para encontrar com sua mais nova posse, o italiano o agarrou pelo pulso.
– Espero que tenha certeza do que está fazendo, pois esse investimento foi tolice! O pior de todos! – olhou firme ao grego, que apenas deu um sorriso jocoso.
– Meu caro italiano, para você que nunca experimentou um prazer além das curvas de uma mulher, certamente a seu ver, meu investimento é tolice. Mas, se algum dia encontrar um prazer tão fervoroso quanto o que há no colo de uma bela dama, ai entenderá, que talvez, meu investimento não foi um erro abismal quanto pensa. – disse baixo, saindo em direção à anfitriã que o aguardava.
Uma das damas lhe trouxe um drinque e antes que a moça o depositasse a mesa, o italiano o pegou em mãos levando rapidamente aos lábios e virando o líquido quente em sua boca, o sorvendo.
– Grego estúpido! – murmurou mais para si.
Logo, um timbre começou a ecoar pelo salão e as cortinas mostraram uma forma tão graciosa quanto à última joia apresentada. A banda começou a tocar e se pôde ouvir ao encanto mágico, ao som da voz glamorosa, que após poucos se estabelecia no palco.
Apenas uma noite é tudo que temos
Just one night, all I got
Apenas uma noite é tudo que temos
Just one night, all I got
Ouviu o Backing vocal acompanhar o ritmo da musica.
Os holofotes se acenderam e a bela figura desceu em uma cortina de pérolas negras, em um vestido negro de manga longa em tecido translúcido com detalhes e bordados dourados na barra. Os cabelos em grossos cachos dourados soltos até a altura dos ombros, com uma faixa de penas com bordado em pedraria na cabeça. A boca carnuda e rosada, os olhos de uma íris azul claro, como o céu. Límpido! O contorno de seus olhos, em um tom negro como ébano, dava lhe uma aparência exótica e única.
Ao som de jazz ressoando pelo salão, as moças foram ao centro com suas joias expostas. Era como um jogo, os predadores cercando o rebanho ao centro, que maliciosamente convidavam os senhores a uma dança. Um jogo onde a caça, virava a presa.
E a bela musa ao palco, em uma canção, em um timbre melodioso.
Não tenho tempo para você amor
I ain’t got time for you baby
Ou você é meu ou não é
Either you’re mine, or you’re not
Decida-se, queridinho
Make up your mind sweet baby
Aqui e agora é tudo que temos
Right here, right now’s all we got
Mas o italiano mal prestou atenção, pois sua visão estava vidrada na figura que começava a dançar ao palco, com alegria, paixão e glamour. Ouviu um jovem gritar um nome e jogar uma rosa ao palco.
Afrodite!
Um pouco de festa nunca matou ninguém
A little party never killed nobody
Então vamos dançar até cairmos, cairmos (humm)
So we gon’ dance until we drop, drop (hmm)
Um pouco de festa nunca matou ninguém
A little party never killed nobody
Aqui e agora é tudo que temos
Right here, right now’s all we got
Ela pegou a rosa, levou graciosamente as narinas sentindo a fragrância e em seguida beijou as pétalas, brincando com a rosa em mãos enquanto cantava com paixão. Dando piscadelas aos homens em suas mesas.
Eles iam à loucura.
Desceu os degraus um a um com elegância e assim que chegou ao salão girou. Dois homens, dançarinos, seguraram suas mãos e a guiaram ao centro, onde havia um pequeno palco em três camadas.
Caramba
Skip
Pule, parap-pap
Hahaha
A cada risada que ela dava, os velhos, os jovens e os homens da sala vibravam! Assobios, aplausos e risos.
Ilhas, diamantes, viagens ao redor do mundo
Islands, diamonds, trips around the world
Não significam nada se eu não for sua garota
Don’t mean a thing if I ain’t your girl
As moças dançavam acompanhando a música e o seu ritmo. Carlo apenas observava a bela Afrodite. A cada um que tentava chegar perto de si, ela o provocava e em seguida fazia charme. Jogando-o longe.
Sustentando certo ar blasé de superioridade.
Uma festinha nunca matou ninguém
A little party never killed nobod
Então vamos dançar até cairmos, cairmos
So we gon’ dance until we drop, drop
Uma festinha nunca matou ninguém
A little party never killed nobody
Aqui, agora, é tudo o que temos (woo-ooooh, yeah!)
Right here, right now’s all we got (Woo-ooooh, yeah!)
Não soube dizer, se estava mais estonteado pela bela voz, ou se era pela mais rara beleza que já havia visto. Nunca pensou ter visto tal ser, era quase como um sonho efêmero.
Não significa nada se você me der seu coração
It don’t mean a thing if I give you my heart
Se você destruí-lo, não, ah, ah, ah, aoh
If you tear it apart, no, ah, ah, ah, aoh
Não significa nada se não estou em seus olhos
It don’t mean a thing if I ain’t in your eyes
Provavelmente eu não voarei, não, ah, ah, ah, aoh
Probably ain’t gonna fly, no, ah, ah, ah, aoh
Uma Afrodite de Milos.
Só uma noite, é tudo o que temos
Just one night’s all we got
O que você está pensando? Você agita?
What do you think? You rock?
Você está pronto?
Are you ready?
Assim que a música estava próxima de terminar, voltou ao palco e outra música se emendou ao ritmo da primeira. Durante toda a apresentação, Carlo prestou atenção a cada movimento gracioso feito pela musa.
Um pouco de festa nunca matou ninguém
A little party never killed nobody
Então vamos dançar até cairmos, cairmos (vamos todos)
So we gon’ dance until we drop, drop (let’s do all!)
Um pouco de festa nunca matou ninguém
A little party never killed nobody
Aqui e agora é tudo que temos (woo-ooooh, yeah!)
Right here, right now’s all we got (ooooh)
Quando deu por si o show havia acabado, mas a banda ainda continuava a cantar. Afrodite sorrateiramente despediu-se de seus fãs e sumiu entre as cortinas. Nesse momento o italiano levantou-se da mesa.
E durante todas as noites o italiano dedicava parte do seu tempo à bela formosura de voz angelical.
Não restava duvidas de que estava apaixonado. Para Carlo, Afrodite era mais bela do que as palavras podiam exprimir.
E em todas as noites após o show, Afrodite sentia seu coração acelerado. Mesmo após tantas apresentações, a sensação e adrenalina de subir ao palco e cantar, mostrando seus talentos, o deixava excitado e eufórico. Era como se seu coração fosse explodir a cada vez que terminava um show.
Mas apesar de todo misto de sensações, o que mais esperava para ver era os bilhetes calorosos que andava recebendo de um admirador secreto. Saiu em direção ao camarim e mais uma vez viu as flores acima de penteadeira.
Rosas da mais bela espécie, tão vermelhas quanto o carmesim.
Levou a rosa aos lábios em um beijo cálido, e em seguida a levou até as narinas. Inebriado pelo toque suave da rosa em seu rosto. Imaginava seu futuro pretendente, o mesmo que sempre lhe admirava aos shows, que há três semanas lhe mandava flores, das mais variadas cores.
Joias caras, vestidos e souvenir.
E mais uma vez entre as rosas outro singelo bilhete.
A caligrafia robusta, delineada e encurvada. O cheiro do charuto Dannemann Corona impregnado ao cheiro do suave perfume másculo.
Não tem olhos solares, meu amor; Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor. Vermelha e branca é a rosa adamascada.
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada do que a do ar que minha amante exala. Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando. Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro que qualquer outra à qual eu a comparo.
No fundo apesar de todo o carinho e atenção, Afrodite sabia que jamais poderia viver aquele sonho efêmero.
Afrodite baixou o olhar e frisou os lábios ao ler o único pedido de seu admirador.
Pegou a caixa adornada de pérolas e guardou um dos seus mais preciosos bilhetes. No fundo, apesar de toda a vontade de ver seu admirador, guardou esse desejo para o fundo de seu coração.
“Desejo encontrar-te. Central Park...”
(...)
Carlo estava parado em uma ponte qualquer em um dos variados lagos artificial. Estava ansioso, pois depois de quase três meses de cartas e bilhetes trocados Afrodite finalmente aceitara encontrá-lo.
Estava ansioso e logo passou a andar de um lado para o outro. Após alguns minutos, em que percebeu ser o centro das atenções de um casal de idosos, Carlo decidiu ficar parado.
E quem dera fosse fácil esperar assim. Seus dedos tamborilaram em seus braços, batendo os pés ao chão de pedra da ponte. Já esperava há algum tempo e nem sequer resquício de que ela viria.
Afrodite apreciava seu admirador há algum tempo entre as árvores. Mesmo com insistência de Thomas para não ir ver o tal “Romeu” o sueco ignorou todos os avisos, pulou as barreiras impostas em seu coração e decidiu ver seu amado misterioso.
Seu coração acelerava, sua respiração ficava descompassada. Era interessante e novo ver seu admirador andando de um lado a outro. Afrodite soube que o rapaz na ponte, era seu admirador. Ele usava um paletó, criando uma silhueta bem delineada. Em um estilo conservador, com o chapéu fino que encobria parcialmente seus olhos.
Deu um sorriso matreiro ao vê-lo surtar. A vontade de ir até lá e dizer a verdade, toda verdade... O atiçava, deixando-o fora de rumo. Assim que deu o primeiro passo em direção ao moreno, a voz estridente de Thomas lhe veio em mente como um aviso.
– Se as pessoas souberem que a formosa Afrodite é um homem, meu caro Dite, sua fama não passará de um mero sonho efêmero. – o alemão dissera na noite anterior.
Abaixou os ombros ao se lembrar das palavras frias do alemão. Embora seu coração doesse com aquela informação, sua consciência dizia para ir embora. Afinal, fora divertido ver o tal Romeu...
– Meu Romeu... – murmurou baixo com os olhos brilhantes.
Assim que saiu por detrás das arvores um vento forte passou. A boina escura que o sueco usava revelou os cachos loiros caindo em cascatas. As folhas levantaram-se em uma dança. Um cisco entrou em um de seus olhos e, desnorteado, abaixou-se para coçar o canto dos olhos. Afrodite sentiu mãos grandes e ásperas lhe tocarem as maçãs da bochecha e repentino ergueu seus olhos fitando o rapaz a sua frente.
Os olhares se encontraram. Tão perto e próximos.
– Um rapaz... ?
– O que esperava? Uma deusa dos lábios rubros como corais? – ergueu-se mantendo o olhar.
– Afrodite? – perguntou estarrecido.
– E quem mais seria... Marilyn Monroe! – sorriu sarcástico.
Carlo engoliu em seco os ver o belo rapaz. Os olhos azuis tão vividos, os lábios carnudos, a pele alva e aveludada. Os fios loiros em contraste perfeito com o rosto tão delicado.
– Puta merda! – murmurou, deslizando seus dedos pelo rosto macio. Ergueu-se e saiu andando, praguejando. – Isso explica porque rejeitara os presentes, as joias, os souvenirs! Deuses, um homem... ?
Afrodite ficou perplexo, arrebatado, olhando para o outro que saia andando em direção as árvores do outro lado da ponte.
Piscou uma vez, duas vezes, na terceira vez escutou um praguejo. Rodopiou e pegou a primeira coisa que viu na frente, jogando ao seu “admirador”.
– Cross-dressing uma ova! – disse exaltado. – Não visto roupas do sexo oposto por prazer e satisfação sexual, seu babaca!
Virou-se para retrucar. Tão logo Carlo sentiu uma dor aguda na cabeça, depois mais algumas dores nos braços, pernas, ombros... O louco do Afrodite estava a lhe tacar pedras!
Caminhou até o loiro o agarrando pelos pulsos e puxando para si. O Sueco se debateu socando os ombros largos.
– Me solta seu idiota! Troglodita, imbecil... – continuou a bater até que sentiu algo quente em suas mãos. – Oh meu deus... Você está sangrando!
– E a culpa seria de quem...?
Carlo abaixou o olhar vendo as duas safiras, brilhantes, que eram as íris do pisciano. Desceu os olhos até os lábios entreabertos e convidativos. As respirações se encontrando. Sua cabeça pulsava pela dor, o sangue pelo ferimento um pouco acima do supercílio escorria por seu semblante. Aproximou um pouco mais o rosto do belo sueco junto ao seu, e em um contato audacioso sugou o lábio superior do outro, em uma simples carícia.
Afrodite espalmou as mãos no peito largo, sentindo borboletas no estômago com o singelo contato. Suas mãos suavam, seus braços tremiam. Uma sensação gostosa, um arrepio percorrendo seu corpo, como uma descarga elétrica.
– Isso é loucura... – arfou, fechando os olhos.
Carlo de brusquidão segurou a nuca do sueco, os lábios se encontraram em um beijo verdadeiro e profundo. As respirações se misturavam. O beijo veio cálido e singelo. Doce. As línguas pedindo passagem, em uma guerra travada.
Um só minuto de beijo e, no entanto, quantos segundos de espanto!
O beijo que tão logo começou, terminou. Os lábios se afastaram em busca de ar. E mais uma vez os olhares conectaram-se. O silêncio se fez presente. E prontamente, a vergonha de um e a surpresa do outro, vieram à tona.
E naquela tarde de outono no Central Park as linhas de dois destinos se uniram, em uma só. Não foi no Bataclan que Carlo passou a amar Afrodite, a beleza e formosura sueca. Fora naquela tarde de outono, naquele simples contato que o amor nascera.
Para ambos.
(...)
E durante semanas o boêmio italiano desaparecera da casa noturna. O sueco ainda continuava a cantar as mais belas melodias, encantando o público com sua beleza e carisma.
Mas por todas as noites, seu olhar vagava em busca do seu requintado admirador. Até que em uma noite durante uma canção melodiosa, Afrodite viu um vulto erguendo-se em uma mesa ao fundo.
E para surpresa de muitos, lágrimas cristalinas e brilhantes desceram no canto dos orbes vividos e intensos.
E ao termino do show, Afrodite correu para seu camarim, no corredor a figura alta e marcante mostrava sua presença.
Com o coração palpitante e estomago em chamas, o loiro caminhou até a porta do camarim, com os olhos erguidos em um contato direto.
– Esplendido como sempre! – dissera percorrendo os olhos por todo o figurino que o loiro usava.
– Agradeço pelo elogio... – gracejou, dando um sorriso ladino.
Ao fechar a porta atrás de si, os braços fortes lhe envolveram sua cintura. O cheiro másculo impregnava suas narinas, o deixando zonzo.
– Como pode tal criatura ter tamanha beleza? – murmurou ao pé do ouvido, mordiscando.
– Tal criatura? – saiu dos braços viris erguendo um olhar embravecido ao moreno.
– Certamente é bom que o mundo conheça apenas a obra bela e não as suas origens nem as condições em que foi gerada...
– É como todos os outros! – exaltou, com repudio, afastando-se do moreno, dando passos para trás.
– Não posso fugir do laço de teu semblante, onde a beleza delicada encerra a jovialidade mais pura desta terra, causando em mim um êxtase delirante!
– Veem apenas a beleza. Uma sublime beleza. Nunca veem a mim. E quer saber, não sou uma mulher para me tratar com cortejo!
– Sei que não é uma mulher, vejo isso. Mas nos teus mais doces lábios ficaram os meus mais livres pecados, Afrodite. – sussurrou, andando a passos lentos. – Você seria meu, você seria meu amor esta noite?
– É apenas uma paixão passageira. O Beijo, nada mais foi que um erro de ambas as partes... – disse sôfrego ao ver as mãos ríspidas e grossas a lhe tocar a cintura. Subindo, contornando seu corpo de maneira lenta e vagarosa até suas costas.
– Quero beijar estes seus lábios sabor tutti frutti, tão doce como mel. – disse, tocando com os dedos os lábios róseos.
Afrodite fechou os olhos, se entregando ao mar de sensações. Carlo espalmou as mãos nas bochechas alvas, e com um dos dedos fez uma leve carícia. Lentamente deu um beijo estalado nos lábios do sueco.
E por mais que o vitoriano Italiano negasse, as palavras de seu amigo ecoavam por sua mente. A mais pura verdade, repetidas vezes.
Experimentar um prazer além das curvas de uma mulher, para Carlo aquilo estava sendo uma tremenda loucura. Uma loucura cuja qual não havia mais volta. Ele soube no momento em que viu o sueco dançando.
Para Afrodite, seu admirador nada mais via em si do que o reflexo temporal da beleza eterna. Ele, o sueco, sabia que sempre seria perseguido pelo italiano de tal modo irresistível.
E ao reabrir os olhos, deparou-se com aquele semblante, o olhar frio e petrificante. A boca fina, com aquele sorriso matreiro de canto. O sueco arfou, nunca havia se apaixonado com o coração palpitante. Mas estar ali, sendo tocado, acariciado, beijado. Recostando-se, com os braços caídos, transbordando de emoção, tremendo repetidamente, segredou a formulação tradicional do desejo — impossível, absurda, abjeta, idiota, mas sagrada, e mesmo neste caso honrada.
– Um pouco de festa nunca matou ninguém. – sorriu, cantarolando em um timbre rouco.
O belo sueco nada podia fazer apenas se entregar. E se entregou em uma louca e fervorosa paixão. Assim como o italiano também se entregou aquela paixão tórrida, louca e sublime.
Durante dois anos Afrodite e Carlo ficaram juntos em um relacionamento amoroso. O sueco amava o italiano, e o canceriano amava ao sueco. Alguns dizem que para Carlo, Afrodite era nada mais que uma paixão de uma imagem lucida. Naquela época dos anos loucos, a bela Afrodite fez um tremendo sucesso com sua voz de diva.
No ano de 1929 houve o abalado do mundo, a queda da economia nos Estados Unidos. E assim, o luxuoso Bataclan fechara as portas devido a inúmeros motivos.
Dizem que um ano antes de seu fechamento, a formosa Afrodite parara de cantar. E em um dos seus últimos shows, sua voz fora tão estridente e dolorosa, quanto um choro amargurado.
Muito dizem que apesar da paixão fervorosa entre o italiano e o sueco, eles se separaram antes da depressão. Outros dizem que não, que esse amor louco e platônico continuou vivo por muitos e muitos anos.
FIM
Notas finais
Detalhes básicos: Marilyn Monroe nasceu em 1926, dois anos depois dos pombinhos apaixonados se conhecerem.
Até a próxima, byee...Beijinhos!
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