Bastidores
1 Luz câmera e emoções
[NARRADO POR LEE DONG WOOK]
A luz do set era branca demais. Gelada. Como se fosse feita para lavar emoções. Tudo ali era bonito, mas vazio — como um apartamento decorado para fotos, onde ninguém de verdade mora. O diretor gritava algo do outro lado, mas minha mente filtrava o som como faz com alarme de carro em plena madrugada. Eu estava ali, mas não estava ali.
— Wook-ssi, maquiagem! — avisou a assistente, correndo com um pincel e um sorriso falso.
Sentei na cadeira. A moça não devia ter mais de vinte e cinco anos, os olhos atentos ao delineado do meu olho esquerdo, mas o olhar... distante. Como o meu.
— Tá calor, né? — ela comentou.
Assenti. Nem calor fazia.
Do outro lado do set, Gong Yoo chegava. Com o figurino impecável, sorriso no rosto, a postura que dizia "eu aguento". Os fãs gritavam do lado de fora do predio, segurando placas, corações, luzinhas. Um som abafado que parecia vir de um mundo paralelo. E talvez fosse.
Ele me viu, ergueu a mão em um gesto automático. Sorri de volta, também automático. Tudo era automático ali.
Mente que nem sente. Era o lema não-oficial dos bastidores. Fingir que tudo tá bem é parte do contrato. Fingir que ainda há algo vibrando por dentro, mesmo quando tudo virou ruído branco.
No camarim, Gong Yoo sentou ao meu lado. Estávamos cercados de espelhos, mas nenhum mostrava a verdade.
— Dormiu? — ele perguntou, os olhos semicerrados, cansados.
— Só o suficiente pra lembrar que preferia não ter acordado.
— Entendo.
Era só isso. Não perguntávamos o que havia de errado. Porque sabíamos. Porque era igual. O mesmo peso. A mesma rotina de emoções engavetadas.
A coordenadora de figurino entrou apressada.
— Vocês dois são os próximos. Cena 47. Preciso de energia, carisma, química. Tá bom? Vamos brilhar!
"Vamos brilhar." Era quase ofensivo.
[NARRADO POR GONG YOO]
A diferença entre estar feliz e parecer feliz é uma linha tão tênue que, com tempo suficiente, você esquece como era a sensação original. Eu ria, fazia piadas, tirava selfies com fãs que tremiam de emoção. E me sentia... nada. Nem triste. Nem feliz. Só... vazio.
No set, cada vez que o diretor gritava “ação”, eu virava um personagem. No fundo, todos ali éramos. Até nos bastidores. Especialmente nos bastidores.
DongWook estava quieto. Sempre está, mas hoje mais do que o normal. Ele tem esse jeito de observar tudo, mas nunca se deixar observar. Tem dias que penso que ele se apaga aos poucos só pra ver se alguém nota.
— Quando tudo isso acabar, o que sobra? — ele perguntou, encostado na parede de fundo, onde os figurantes esperavam.
— Um tapinha nas costas, talvez. Um prêmio inútil. Um vazio maior do que o anterior.
— E ainda assim, a gente volta no dia seguinte.
Ele sorriu. Um sorriso dolorido.
A coordenadora gritou de novo.
— Vamos, vamos! Cena de emoção agora. Os dois têm que parecer que se amam!
Parecer.
A ironia era gritante. A cena pedia um choro real, um abraço com sentimento. Mas nenhum de nós sentia mais nada.
[NARRADO POR LEE DONG WOOK]
Gravamos. A câmera se moveu em nosso redor como um voyeur mudo. Nos abraçamos. Choramos. As lágrimas eram falsas, mas o cansaço não. A dor nos olhos não era só por causa do colírio.
Depois da cena, houve aplausos técnicos.
— Lindo! Intenso! — elogiou o diretor. — Pareciam dois amantes à beira da ruína! Verdadeiro, verdadeiro!
Não era verdadeiro. Era só... treino.
Caminhei de volta para o camarim. Um corredor cheio de figurantes rindo, outros estressados no celular. Era como um zoológico emocional: cada um preso na sua jaula de papelão. E, lá fora, os fãs gritavam.
[NARRADO POR UMA FÃ No ESTUDIO]
— Ele sorriu pra mim! Tenho certeza!
— Você viu o Lee Dong Wook? Meu Deus, ele é mais bonito ao vivo!
Eu os escutava ao passar, escondido atrás dos óculos escuros. Eles estavam radiantes. Como se um olhar deles curasse todas as dores do mundo. E, ironicamente, nós fãs é que estávamos doentes por dentro.
Da janela observei as meninas se reunindo, ainda rindo, ainda vibrando.
— Estamos vivas por eles
[NO CAMARIM, MAIS TARDE]
[Narrado por Gong yoo]
DongWook se sentou no sofá e tirou os sapatos. Apertou as têmporas com força. Eu sentei ao lado.
— Por que a gente ainda faz isso? — ele murmurou.
— Porque é a única coisa que sabemos fazer sem quebrar totalmente.
Ficamos ali. A mente desligada. O corpo no piloto automático. Lá fora, outra fã gritava nosso nome com paixão. E aqui dentro, o silêncio era ensurdecedor.
— Sabe o que eu queria? — perguntei.
— Fala.
— Sentir de novo. Sentir alguma coisa real. Vontade de viver. Vontade de amar. Qualquer coisa que não fosse essa simulação constante.
Wook me olhou com aquele olhar sem luz, mas sincero.
— Talvez, um dia. Mas por enquanto… a gente mente que nem sente.
Ele se levantou, ajeitou a gola do figurino e caminhou de volta para o set.
E eu fiquei ali, olhando meu reflexo, tentando lembrar o último dia em que fui só... humano.
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