Bastarda
5 Aquele do Inverno
Há onze meses eu encontrara Valkíria. Há onze meses eu a visitava diariamente. Ela crescia e aprendia tão rapidamente que chegava a ser assustador. No início, ela mal conseguia tocar meu joelho, mas agora já tinha metade da minha altura. E eu não era uma criança baixa.
Heike jamais perguntou o que eu ia fazer na floresta, nem demonstrou qualquer interesse sobre o assunto. Conforme os dias viravam noite, Valkíria crescia e alimentá-la tornava-se mais difícil. Principalmente em dias chuvosos como aquele. O tipo de dia em que acordamos e pensamos: algo está errado.
Valkíria as vezes me perguntava sobre o sol, a lua e a chuva. E eu explicava, pacientemente, todas as vezes, prometendo que ela sairia da caverna e os veria, tão logo suas asas nascessem.
As folhas caíram e flores murcharam. Logo, o inverno chegou. A neve ainda não começara a cair e há duas semanas eu juntava o máximo possível de comida para Valkíria. Eu trançara uma rede, como Greta me ensinara, e colocara tudo lá: peixes, pedaços de carne de ovelhas, cervos, furões... E então, prendi na lagoa interna, de forma que a maior parte ficasse submersa, mantendo tudo conservador com o frio d'água.
Valkíria já conseguia aquecer a comida. Nada de soprar fogo ou qualquer coisa assim, mas já seria o suficiente para nos mantermos durante o inverno.
Naquele dia em especial eu levara dois cobertores para ela e me certificara de fazer uma fogueira alta. Não queria que ela passasse frio. Estávamos transformando a caverna em um lar, eu e ela. Havia cobertores, travesseiris, redes e lanças. Arrumamos um buraco para funcionar como uma porta e o cobrimos com um denso emaranhado de cipós e folhas. Eu trabalhara duro ali.
– Eu volto amanhã pela manhã, Val. Heike disse que deve nevar até o fim da semana, e quero conseguir mais peixes, apenas por garantia.
"Gostaria de conhecer essa Heike."
– Você vai. — Menti. — Um dia. Até amanhã, bebê.
Apertei meu casaco assim que saí da caverna. O vento cortava minha pele e chicoteava meus cabelos contra o meu rosto.
Pensei em Aires. Nos falamos poucas vezes depois que ele me fez o melhor machado que poderia existir. Parei de ir à forja, mas o encontrava todos os dias quando ia entregar o jantar par Greta. Nunca dizíamos nada. Apenas nos encaravamos, em silêncio, enquanto Greta me agradecia.
Nunca fiquei tão aliviada de chega em casa. Heike fizera sopa e o fogo já estava aceso. Por um segundo, me senti culpada por não estar ali para ajudá-la.
– Alistair fez uma convocação, vai ser hoje a noite. — Ela interrompeu meus pensamentos.
Arqueei minha sobrancelha. Convocações não eram comuns. Elas aconteciam apenas quando havia um grande anúncio ou um problema realmente sério. Todos deveriam ir ao Salão Principal, que era basicamente uma enorme construção rochosa, esculpida com degraus grandes o suficiente para se sentar.
Heike me forçou a trançar o cabelo antes de ir. Nos sentamos no primeiro degrau graças às nossas condições de velha e criança. Os outros habitantes chegavam em pequenos grupos. Acho que chamavam de família.
Quando Alistair caminhou até o centro do palco, feito de rocha e ornamentado com filamentos de prata e safiras, todos ficaram quietos. Apenas um bebê inconveniente chorava ao fundo. Sua barba, sempre chamativa, recebera uma vã tentativa de parecer arrumada, coberta com pequenas tranças.
– Povo de Seiryn. — Sua voz era grave e alta. Emanava poder a cada sílaba. O bebê se calou. — Como todos sabem, minha esposa faleceu há três anos.
Eu me lembrava dela. Era bonita. Tinha olhos verdes, a pele pálida e cabelos negros como as asas de um corvo. Rowena. Apesar da saúde frágil, todos pareciam gostar dela.
– Embora acredite que nenhum de nós tenha superado sua partida, quero anunciar que me casarei novamente.
Senti todos segurarem a respiração. Quem quer que fosse sua nova esposa, ela nos governaria também. Seu caráter refletiria em todos nós.
– Acredito que todos vocês a conheçam, mas quero apresentá-la oficialmente. Essa é minha futura esposa, Greta.
NÃO.
Não. Não. Não. Não. Não.
Não pode ser.
Qualquer uma, mas não minha tia.
Ela subiu ao lado de Alistair, sorrindo assustada. Em seu colo, Siv ria enquanto Beck, Aiene e Aires se posicionavam ao seu lado.
Aires. Por isso ele estava tão estranho. Ele sabia disso. Ele não seria mais considerado um órfão. Ele seria filho de Alistair, agora. O único filho.
A constatação foi como um tapa na cara. Aires, um dia, seria nosso líder.
Minhas pernas se moveram sozinhas. Ouvi alguém gritar atrás de mim, mas os anos de corridas na floresta me tornaram rápida. Muito rápida.
Corri até meus passos se confundirem, minhas pernas tremerem e meus pulmões chiarem. Corri de Heike, de Greta, de Alistair e de Aires. Corri dos meus medos e dos meus problemas.
Os galhos cortavam meu rosto enquanto eu pulava as pedras, os troncos. Sem nunca parar de correr. O ar queimava em meus pulmões, saindo no ritmo errado, por minha boca semi aberta.
Eu precisava fugir. Estava sozinha no meio da praia. O mar parecia furioso, indo e voltando com força, sem se importar com os peixes, tubarões e corais. Sem se importar com nada além dele mesmo. Algo gelado tocou minha cabeça e, ao olhar para cima, eu os vi. Os primeiros flocos de neve da estação. Tão bonitos, mas tão tristes.
Heike diz que não há dois flocos de neve iguais no mundo. Eles caem juntos, em grupo, mas estão sós. Cada um, sozinho com o gelo que carrega dentro de si, apenas para derreter na areia ou na copa das árvores. Tão bonitos, mas tão frios, tão sozinhos, tão tristes.
Eu ainda não podia parar de correr.
Quando percebi, estava com meus braços ao redor de Valkíria, que fazia aquele adorável ronronar. Ela lambeu minhas lágrimas, uma a uma. Não pensei no quanto isso era nojento. Apenas no quanto eu estava contente em tê-la. Talvez, em algum lugar, existissem dois flocos de neve iguais, afinal.
Não voltei para casa naquela noite. Dormi ao lado do meu dragão, que me manteve aquecida enquanto uma nevasca começava lá fora.
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