Barry Thompson - O Mago Escolhido
1 Barry o Mago - Como tudo comecou
Notas iniciais
Como tudo começou.
— Nasceu, doutor?
Na sala de espera do hospital Miami Care está Harry Thompson, marido de Doris, aguardando o nascimento do seu segundo filho. Com ele está Anne, a filha de número um.
— Calma, Harry, ainda não, mas vai nascer. — Respondeu o médico achando graça da ansiedade de Harry, tão comum aos pais.
Ele caminha de um lado para outro. A filha, sentada no sofá assistindo televisão, olha para o pai que não para um segundo.
— Nasceu, doutor? — Pergunta para outro médico que vai passando.
— Não, Harry, ainda não. Mas vai nascer. — (risos).
Em sua aguçada percepção de criança, a filha se sentia envergonhada de ver o pai perguntar a mesma coisa para cada médico que passava. Este já era o quinto! Ela cruza os braços, levanta-se e pede ao pai para levá-la ao banheiro. Mas aflito, Harry mal consegue ouvir o que a filha diz.
Uma enfermeira, atenta a tudo o que se passa na recepção, oferece-se para conduzir a menina, tomando-a pela mão e pondo-se com ela na direção do corredor principal.
Desconfiada, a menina se solta da enfermeira e avança dois passos à frente da moça, como que dizendo que sabe ir sozinha.
De repente ela sente um calafrio no corpo e vê um homem estranho, encapuzado, passar ao seu lado, então retarda o passo para ficar mais perto da enfermeira. Balança a cabeça e chacoalha o corpo como que expulsando a sensação ruim do seu corpo.
Ao chegar à porta do banheiro, deixa a enfermeira entrar na frente e volta-se com a cabeça para o corredor percebendo que o homem caminha na direção do corredor dos quartos, mas desaparece de repente no nada. O medo toma conta da menina e ela entra correndo.
No interior do banheiro está tudo normal, então ela volta a abrir porta, olha novamente o corredor e confere que o homem estranho não está mais lá. Curiosa, ela quer ir verificar, mas a enfermeira a pega pelo braço e a leva para dentro.
Já de volta à sala de espera, percebe que não há mais ninguém. Pergunta à enfermeira pelo pai, que toma informações com as colegas e descobre que ele havia saído para tomar um café, dizendo para a menina ficar no hall com a “tia Vall”.
— Vem aqui — disse a enfermeira ainda tentando ganhar a confiança da menina —, olha esse joguinho, pega — fala ao mesmo tempo em que entrega o tablet —, senta aí...
Na sala do parto, o homem de capuz observa a mãe se preparando para trazer à luz o filho Barry Thompson. Aquela criatura estava tentando entrar no quarto para sufocar o menino ainda no parto, mas algo o impedia. Todavia, ele sabia que nasceria o escolhido.
Alguns minutos depois, ouve-se um choro forte da criança que se agita na mão do médico. Este, por sua vez, leva-o rapidamente para o colo da mãe, que o abraça com muito carinho e chora ao ver o quão lindo era o menino.
— Podem chamar meu marido? — Pede ela sem tirar os olhos da criança.
Correm para lá e acham somente Anne, que sai correndo para ver o irmãozinho Barry. Era um garoto saudável e grande. Encontram Harry fora do hospital conversando com outros pais. Logo ele chega ao quarto e para em frente à esposa e vê o menino dos seus sonhos bem ali, nos braços dela. Sequer passa pela sua cabeça estar diante de alguém que seria conhecido por muitos como “O Escolhido”.
Anne sorri para a mãe e passa a mão na cabeça do menino. Olha no vidro que dava para o lado de fora, onde os prováveis visitantes poderiam ver a família reunida com o recém-nascido e de novo vê o homem estranho. Lá estava ele, olhando fixamente para a cama onde estava Barry. O cara abaixa a cabeça e vai embora deixando Anne ainda mais assustada e curiosa. Tenta chamar a atenção do pai, mas este está absorto demais com o recém-nascido.
A alegria se faz presente nessa hora. O pai pega o garoto, levanta-o para o céu e chora de alegria. Em seguida, as enfermeiras pegam o menino, levam-no para a higiene e em de seguida devolvem-no para a mãe.
É durante o banho que uma das enfermeiras nota um sinal em seu ombro, algo muito sutil. Ela mostra a marquinha de Barry para a mãe, deixando claro que a marca era mesmo de nascença. Doris então sorri, depois beija delicadamente o local, abençoando o futuro daquele que bem sabia tratar-se de uma criança muito, muito especial.
********
Treze anos depois.
Fort Lauderdale amanhece ensolarada como de costume. A família Thompson se prepara para uma viagem ao Texas. Harry tinha obsessão por histórias de cowboys. Desde a sua infância ele acompanha os filmes de John Wayne e Clint Wistwood. Lia todos os livros que chegassem às livrarias, sem sequer se importar em saber quem era o autor.
— Hummm... Ok. Hum... Certo...
Pega um papel e uma caneta e anota uma das suas cidades favoritas. Ali belas histórias de duelos ocorreram: "Fort Worth, no Texas, está localizada nos condados de Denton, Parker, Tarrant e Wise.
— Humm... Certo... Humm... Ok.
Ele passa para o seu GPS os dados das cidades subsequentes a Fort Worth.
— Laraii... Hummm... Lirará...
— Nossa! Quanta alegria querido — comenta a esposa ao ouvi-lo cantarolar.
Doris Thompson é uma bela mulher, hoje com os seus 40 anos, bem conservada. Usa cabelos anos 50, gosta de vestidos e salto médio. Já o papai Thompson é um magrelo alto, usa óculos redondos em homenagem a John Lennon, gosta de camisas brancas e calça cinza. Ninguém sabe por que, mas o Sr. Thompson, com seus 48 anos, adora tudo que é relacionado com filmes e artes.
— PARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!... C... CARA CHATO! MAANHEEEEEEEÊ...
Harry continua olhando no computador as fotos das cidades que escolheu para as suas férias. Ninguém foi consultado sobre irem para o Texas, nem mesmo a esposa. Doris olha para a filha Anne, a escandalosa, e volta a ver as fotos com o marido, alheia ao grito da filha. Serve um tira-gosto e uma cerveja para ele. Harry em geral não bebe, mas o clima quente e a excitação eram demais para ele.
— MÃEEEEEEEEEEEEEEEEE, POR FAVOR! DÁ UM JEITO NESSS... — Anne grita ainda mais alto para a mãe.
— ME DEVOLVE JAAAAÁ, ANNE... — Barry grita nervoso, com a irmã.
— NÃOOOOOOOOOOO... MÃE... OLHA O QUE BARRY ESTÁ LENDO!
Era uma revista play boy, com várias atrizes nuas nos pôsteres. Ela fica abrindo as páginas e mostrando para a mãe que não tá nem aí com ela.
— Não é do Barry, querida, é do seu pai. — Responde a mãe com displicência e continua olhando as fotos. Desta vez também está pintando as unhas.
— Haaam? Anne olha assustada para os dois que não dão bola para ela.
— Viu, sua tonta? Não falei que a revista não era minha?
— Mas. Mas...
— Não tem mais...
— Filha, devolve para o papai a revista, vem, me dá...
— Tá bom papai. Está aqui a sua revista. Hum!
A campainha toca e era uma entrega para Barry. Anne abre a porta e recebe a caixa do correio. Indignada, ela dá a Barry o suposto presente que traz um pequeno cartão:
Receba com carinho um mimo de férias
para o melhor aluno da Miami School.
Barry abre a caixa e era um lindo e super, mega, hipermoderno videogame. Imediatamente ele monta o som e liga na tevê para testar o presente. Os pais amaram saber que têm um filho super, mega, hiperestudioso. Anne dá risada do presente e diz que foi algum pirado que enviou aquilo.
Barry Tompson é um garoto de 13 anos de idade e adora leitura e música. Ganhou uma superguitarra do papai e desde então toca os rocks da banda Guns e é apaixonado pelo Slash, o guitarrista solo. Um garoto inteligente e tímido, cabelo liso penteado de lado, uma franja circula em sua testa da direita para a esquerda. Adora passar a mão e tirar o cabelo dos olhos.
É dono de uma fala tranquila e gentil, além de ser meio medroso com coisas do outro mundo. Ele tem uma espécie de coceira entre o ombro e o início do pescoço. Diz que é como se passasse muito sangue por ali e sente um tipo de formigamento suave, que alivia quando coça ou massageia. O pai já o levou em diversos especialistas, fizeram exames de todos os tipos e nada foi constatado. Sua saúde é 100% ótima.
Um garoto do bem, saudável e amante de música e games. Gosta de leitura e esportes. Tentou fazer lutas marciais, mas os pais o proibiram desde que ele veio para casa com o olho roxo. Ele tentou explicar que a pessoa que esmurrou o seu olho foi ele mesmo. Na animação do treino, ele errou o soco e o seu braço voltou e pegou a sua cara. Para ele tudo bem, era novo e sabia que quando fosse um pouco mais velho poderia voltar a treinar.
No colégio, Barry era querido por uma gama de rapazes e alguns outros o achavam meio “nerd mala”. Ele não ligava. Pouco paquerava e era um rapaz de poucas falas.
Anne Thompson, uma quase mulher de 17 anos de idade. Um pouco atirada e nervosa. Tem um amor incondicional por Barry e o manifesta cuidando da sua vida, o que deixa o garoto muito irritado. Anne é chegada a umas histórias de bruxarias, e com isso vive colocando medo em Barry desde que ele era pequeno.
A princípio, ele se amedrontava mesmo; mas acabou se acostumando com o tema, e o que antes o botava medo, agora, já mocinho, mais lhe parece história da carochinha. Não preciso dizer que ambos adoram internet, filmes em série como Jogos Vorazes, Harry Potter e outros desse naipe... Estão sempre com fone de ouvido a postos para sumirem do mundo real.
Ela é uma adolescente bonita, está namorando, tem duas amigas de verdade, as demais são mais concorrentes dela do que propriamente amigas. Amava andar de cabelos presos e dormia de meias, sentia muito frio nos pés.
Nasceram em Boston e a saúde da mãe estava debilitada por causa dos invernos provocantes na cidade e foi aconselhado por seu amigo e médico, e por que não dizer colega de trabalho, Sr. Bill Jan, um americano chinês. Pronto! Agora você já sabe a profissão de Harry Thompson.
— Arrumaram as malas, Anne? Barry?
— Eu ainda não mamãe — falou Barry.
— Viu mamãe, ele é assim, chega a última hora, mimimimi... mamãe, daqui e mamãe de lá.
— Cala sua boca, Anne! — Barry não queria ser interrompido o jogo hoje era demais e ele estava ainda na fase um, de tão difícil que era. Barry via ali um tremendo desafio, e como um bom nerd, isso era tudo o que ele queria.
— Não calo, não calo!
— Mãããeee! Ahhh, quem aguenta essa menina? Por isso fica sempre sozinha... o George já desapareceu de casa, hahahahaha — ri e continua com os olhos na tela.
— Fica quieto seu, seu...
— Olha a boca, menina!
— Ele sumiu porque vai para a faculdade em Toronto no Canadá.
— Faculdade? Sei... O coitado quis é sumir até do país.
— Mãe! Eu vou bater nesse moleque...
— Barry, querido — diz a mãe com paciência e distante da briga dos dois — vá arrumar as suas malas, nós sairemos amanhã bem cedinho.
— Às cinco da manhã — completou o papai.
— Hãm? Papai! — Resmungou Anne.
— Filha, vocês dormem na estrada. Não quero pegar trânsito na free way. Quando derem oito horas quero estar bem longe daqui.
— Vamos lá, crianças! — Incentivou a mãe.
Os dois foram, cada um pro seu quarto arrumar o que faltava. Anne já tinha quase tudo pronto. Barry nem tirou a mala do guarda-roupa.
— Very Way... Dont like... UU... UU...
Barry coloca o fone de ouvido e começa a arrumar a mala ouvindo música. Quando termina de arrumar suas duas malas médias, vai tomar banho. Liga o chuveiro e senta no vaso para aliviar a cabeça.
Um nerd, um literário, um solista nato. O banheiro se enche de fumaça e o espelho fica embaçado. Ele se levanta cantando e começa a riscar com o dedo um desenho aleatório. Quando percebe, está desenhando uma estrela com cinco pontas, dentro de um círculo. O vapor de água, com o reflexo de um pote vermelho de shampoo vai alterando o desenho e ele tem a impressão de que o círculo se transforma numa bola viva de fogo.
Faz continência para a estrela, retira o fone de ouvido e entra na banheira. Estica a mão, pega novamente o fone e coloca no ouvido. De repente, um som que nunca tinha ouvido. Tipo uma ópera sinistra. Ele para de se balançar e leva as duas mãos ao fone, tentando entender o porquê de aquela música estar ali. Um grito o tira do seu estado.
— TÁ GOSTANDO DA MÚSICA, BARRYYYYYYYYYY... KKK ... HUAHUAHA... — Grita Anne lá de fora, denunciando que havia trocado o play list do irmão.
Barry não sabe o que é pior, se o grito da irmã ou a música horrível que ela programou no seu aparelho. Deixa de lado o fone e faz uma careta horrenda, ao mesmo tempo em que mostra a língua para Anne, que, estando do outro lado da parede, não vê nada.
Todos deveriam estar na cama para acordarem cedinho. Papai Thompson está aflito para chegar logo ao Texas e poder fotografar, filmar e ouvir as belas histórias do início da civilização americana. O que não agradava nadinha à mamãe, ao Barry e a Anne. Mas eles amavam muito esse papai querido, que Doris costuma chamar de “Papai Sabe-tudo” numa alusão a um filme antigo em branco e preto, em que o papai era o tal da casa. Era amado e querido pela família.
— Papai?
— Oi, mamãe?
— Você leu toda aquela revista?
— Sim. Eu folheei algumas páginas sim. Eram atrizes muito maravilhosas que fizeram grandes sucessos no cinema.
— Hummm... sei... — Ela chega perto do “papai”, e passa o dedo saliente em seu peito enquanto apoia a outra mão na cabeça. Ele tira os óculos e o coloca na cabeceira e coloca o protetor de luz nos olhos. Ela empurra a coberta com o pé e fica alisando o papai nas coxas. — E você sentiu alguma coisa quando olhava aquelas lindas mulheres?
Ele pigarreou... — Eu? Claro, meu amor!... Senti um desejo enorme de assistir novamente a todos aqueles filmes.
Percebendo que sua investida é inútil, ela para de tocar o papai e o cobre novamente.
— Que bom, meu querido, quem sabe eu assisto com você?
Ele dá um pulo e senta na cama.
— Jura? Não acredito! — Ela olha para ele com os olhos arregalados. — Por isso eu te amo, minha querida. Sou o homem mais feliz do oeste americano.
Imediatamente, ele tira a calça de moletom e puxa a sua fêmea para si, e mostra responsabilidade. A noite dos dois segue em meio a gritos e murmúrios que se pode ouvir pelos quatro cantos da casa. Barry e Anne tapam as orelhas para não ouvirem a mãe gritar tanto e o pai “relinchar”, como dizia a tia Matilde.
Finalmente, mais tarde, Anne dorme como um bebê. Barry, ao contrário, está a mil por hora, só pensando no jogo do seu videogame novo. Vira de um lado para outro até que pula da cama e volta para a sala e joga, joga e joga até as 5 da manhã.
Quando todos se levantam, ele corre para a cozinha e rapidamente joga na mesa pão, geleia, canecas, suco de laranja e maçã. Põe a frigideira no fogão e coloca os ovos ao lado, na ponta na pia. A mãe vibra ao ver a atitude do caçula.
— Uauauauau! Harry! Olha seu filho crescendo, meu bem...
O pai fica encantado e mima o filho com beijinho de bom dia. Anne olha para ele desconfiada e solta um “hum” de descrédito.
********
Pegam a estrada e seguem meio felizes e meio sem graça. Feliz mesmo era Harry, o papai cowboy. Os demais queriam fazer dessas férias os momentos felizes dele.
Passam muitas horas de estrada e começa a escurecer, quando o carro começa a falhar. O local não é muito convencional e vão parando até o carro estacionar de vez à beira de um morro. O céu está escuro, quase não se notam as nuvens, nenhuma luz celestial aparece entre as densas nuvens naquela tarde que já parece noite.
Um silêncio ensurdecedor toma conta da cidade de Browsville, morada das histórias terríveis de satanismo e bruxaria, de todo o estado do Texas. Na Montanha dos Ventos, o maior templo fundamentalista católico já construído em todos os tempos, a Igreja Saint Sunday. De baixo, no sopé do morro, nota-se a gigantesca igreja abandonada pela cúpula católica há muitas centenas de anos. Olhando-se de baixo para cima, tinha-se uma visão coberta pela escuridão dos céus. No carro, papai e mamãe olham o mapa para tentar saber a localização em que pararam, mas os meninos sequer prestam atenção a nada, desligados ao máximo. Barry encontra-se numa mistura de alienação e sono.
Uma tremenda tempestade se aproxima ameaçando a conturbada situação dos Thompson. O medo toma conta da família, que está ao pé da montanha e sem recursos para se defenderem de uma possível formação de ciclone.
Papai Harry sai do carro e coloca a mão na cintura. Leva o chapéu para frente, na cabeça, e já se sente num daqueles caos de faroeste em que o mocinho mostra coragem e enfrenta qualquer desafio.
Ele tosse, mexe as pernas e tira as mãos da cintura, levando os polegares até o aro da fivela que prende o grande cinto prateado com uma enorme cara de touro ao centro. Olha para a Igreja Saint Sunday em meio à escuridão da montanha. Vê a luz do que julga ser uma pequena lamparina na janela de uma espécie de torre. Logo acima, avista um vitral azul que está levemente claro pelo reflexo da iluminação saída da pequena janela. Harry observa e coça o nariz.
Ao retornar para o carro, vê ao seu lado direito um grande lago e cuja margem está fincada uma placa de madeira velha, talhada com a palavra “AMARGA”. Lembrou-se que antigamente pessoas eram jogadas naquelas águas para alimentar os demônios moradores das profundezas do inferno. Não se sabe se as vítimas ou os demônios deixaram a água daquele lago amargo. Ninguém conseguia detectar o motivo, isto sim. Especialistas tentaram por anos, até que a igreja católica resolveu banir o direito dos cientistas de continuarem a fazer novos testes.
O medo dos Thompsons não era vão. Escuridão igual só se vira há uns 150 anos, quando fatos demoníacos se desenrolaram na Igreja Saint Sunday. Mamãe Doris abraçava os dois filhos e papai Harry, sem saber o que fazer, caía pouco a pouco da sua pose de cowboy.
CAPÍTULO 1
Há 150 anos, ocorreu a maior perseguição da história da inquisição católica. A Igreja promovia perseguições e ataques de terror contra os protestantes e pessoas que não obedeciam aos seus ditames. Por décadas seguidas foram mortas, dos ditos “círculos de bruxaria”, as pessoas de fé contrária à católica. Ao combater a bruxaria, os padres residentes à Igreja de Saint Sunday usavam, eles próprios, feitiços para obterem poder e glória para suas vidas.
Um pacto fora formado entre os 12 padres residentes e o anjo Azazel, que usou, além da habitual semeadura da ira, dos recursos da riqueza e da vaidade para recrutar os jovens padres que debutavam na carreira sacerdotal, liderados por Cristoff Bloom, um velho padre vendido ao mundo da escuridão do mundano e da luxúria.
Os padres recrutas prendiam dezenas de pessoas, de preferência, jovens, para interrogarem e serem treinados para violar os códigos e regras do Cristianismo. Todos abusavam sexualmente dos meninos e meninas que porventura caíssem em suas mãos. Os que não eram presos, acusados de atitude anticristã, submetiam-se aos prazeres demoníacos que os jovens padres desejassem impor-lhes.
O lago era usado como desova e para sacrifícios aos bruxos e demônios “moradores” na profundeza do lago. O Anjo Azazel permanecia no local e aguardava o cumprimento da profecia que dizia “Do local não produzido fé, sairia o menino por nome BT, que seria o antagonista das mortes. Violaria os direitos da morte. Traria consolação e vida aos presos na “encíclica de Saint Sunday”, e deveria ser torturado e morto enquanto houvesse tempo”.
Lá estava, em meio à escuridão, o Anjo Azazel, ao pé da montanha, à beira do lago, observando o carro quebrado dos Thompsons. E lá em cima, dentro da igreja, em uma das janelas da torre de Saint Sunday, o velho e imortal padre Cristoff Bloom também os observa. O padre Cristoff Bloom tinha feito um pacto com Azazel para não morrer enquanto o servisse na terra. O mundo estava cheio de servos de Azazel, igrejas espalhadas pelo mundo todo estavam sob o controle de escravos travestidos de heróis e bons padres, ele não era o único, embora talvez fosse o único a negociar sua alma em troca da imortalidade.
— “Cristoff Bloom, chegou a hora!” — Pensou alto o padre olhando para o carro da família.
O Anjo Azazel sobrevoa as árvores ao redor do lago e com sua cara de mau e um olhar penetrante odeia o dia chegado. Com três metros de altura, usa um comprido turbante preto e um capuz vermelho. Seu rosto está desfigurado por cicatrizes e sua pele não corre sangue; o tom esverdeado toma conta de todo o seu corpo.
Mas o anjo tem o poder de transformação, e se transforma de repente num homem de seus quarenta anos de idade, com roupa de cowboy e gestos de fazendeiro. E é assim que se aproxima amistosamente do carro.
O carro permanece com os faróis ligados na direção da frente da igreja, por isso os Thompsons não percebem a presença do intruso que se aproxima pela parte de trás. Os meninos estão com os fones e ouvem música, mexem os corpos acompanhando o ritmo que ouvem. Harry tenta em vão fazer o rádio pegar alguma estação. Doris Thompson retira de uma mala refrigerada alguns sanduíches e sucos para a família quando “toc toc”... Algumas batidas no carro assustam o casal, que olha para a parte de trás do veículo.
Harry afunda o pé no freio do carro e a luz vermelha ilumina o rosto do forasteiro. Os meninos nem se mexem, estão verdadeiramente em outro mundo. A mãe se assusta e olha para o pai, que imediatamente trava as portas e tenta em vão ligar o motor. Azazel tem o poder de controlar as máquinas perto dele.
O estranho se aproxima da janela do motorista com um sorriso cordial, pega a ponta do chapéu num sinal de cumprimento a Harry. Com o corpo enrijecido, este se afasta para trás e olha nos olhos do rapaz e fica mais tranquilo ao ver que aparentemente era alguém do bem.
— Senhor? Senhora? — Em seguida olha para trás do carro e cumprimenta os garotos que continuam a dançar de cabeça baixa.
Um silêncio paira no ar neste momento. O que poderia fazer um homem ali naquela hora e naquela escuridão? Harry sabia que se aquela pessoa fosse do mal, já teria dominado a família. Resolve arriscar e abre o vidro do carro.
— Como vai? — Pergunta Harry tentando devolver a simpatia do estranho.
— Pelo visto vocês não são daqui...
— Verdade! — Harry fala com um sorriso amarelo e ainda com medo.
— Eu sempre venho aqui cuidar do lago. Nunca vi uma escuridão dessas na minha vida.
— Poxa! — Responde Harry e olha o relógio; são apenas 3pm. —Nem havia percebido que ainda são três horas.
— Pois então! Hora do lanche e eu aqui, nessa penumbra — falou sorrindo o jovem cowboy.
— Verdade... Verdade... — Concorda Harry ainda buscando estar à vontade com o homem.
— Amor — interpela Doris —, pergunte a ele se existe algum hotel por perto.
— Não madame — responde o cawboy diretamente à mulher —, não existe. Só na cidade de Browsville, há uns 60 km daqui. Vi que tentou ligar o carro e não conseguiu...
Lá de cima, na igreja, o velho padre observa o movimento no carro da família e sabe que Azazel está coordenando a situação. De repente, um enorme corvo pousa sobre o capô do carro emitindo o som de um chamado. Os meninos se rendem, desligam o som e olham para o pássaro. A mãe, assustada, grita e coloca a mão na boca.
— Mãe, é só um pássaro! — Fala indignada a filha Anne, que só então percebe a presença do cavalheiro. Ela olha para ele e sorri meio tímida. Tem a mesma sensação que sentiu no hospital com apenas quatro aninhos de idade, no dia do nascimento de Harry. Quando o mesmo demônio apareceu para ela. Ela se arrepia e disfarça os sentimentos.
Barry olha fixamente para os olhos do cawboy e sente um grande calafrio na espinha. Instintivamente, passa a mão na linda franja em seus cabelos. O visitante o encara com um ódio mortal, mas mantém a simpatia à qual se propusera. Assustado, o garoto vê o rosto do anjo mal transpor o seu corpo, mas fica quieto e abaixa a cabeça. Trêmulo e sem graça, continua a ouvir música aumentando o som, para tentar desviar da visão que tivera.
Azazel nota que Barry havia percebido a sua verdadeira presença e despede-se da família.
— Bem, senhores, eu só posso indicar a igreja no momento. Vou para a cidade e posso pedir ajuda, se quiserem. Agora indico que subam o morro e vão até lá e falem com o padre, é um homem muito generoso. Eles irão ajudá-los.
— Eles? — Pergunta Harry de imediato, pensando se haveria outros padres por lá
— Perdoem-me, quis dizer ele, o padre, poderá ajudá-los. Boa noite!
Afasta-se do carro olhando fixo para Barry, que levanta os olhos, meio temeroso, e novamente vê através do corpo humano o capuz negro do anjo caído. Imediatamente abaixa novamente a cabeça.
— Cara legal né mãe? — Comenta Anne.
— Sim, parece que sim. Nossa! Esqueci-me de oferecer um sanduíche para ele.
— Meninos... Vamos aceitar a sugestão do cowboy? — Pergunta o pai já aliviado pela solução dada pelo homem.
Barry Thompson olha pra o alto do morro e vê uma igreja sombria, obviamente dedicada ao mal. Olha para a torre e de alguma sorte consegue ver, através da janela, o rosto do velho padre. Assustado, ele permanece calado e vira o olhar para os pais. Não queria parecer louco para a família.
Antes de saírem do carro para subir o morro a pé, Harry tenta ligar o carro, que pega imediatamente. Todos comemoram e decidem ir embora do local. Ninguém está confortável ali quando um raio corta o céu de repente e um trovão poderoso explode com sua total força. A família fica temerosa em seguir viagem, então decidem subir para a igreja de carro. Barry olha para a torre e sua pequena janela, a que estava iluminada por um lampião, e nota que o rosto sumira e a luz se apagara.
Iniciam a subida para a igreja e os trovões aumentam. Barry olha para trás e um novo raio corta os céus iluminando toda a região, então ele consegue ver Azazel em pé à beira do lago, com seus três metros de altura e sua enorme capa preta, observando a família indo para a igreja. Num impulso de temor, ele vira, olha assustado para o aparelho de som e aumenta até o último volume, chamando a atenção de todos.
— Barry, meu querido, você vai estourar seus tímpanos!
— Nossa! Barry... Abaixa isso aê! — Fala a irmã irritada.
Barry se perde todo, aumenta e abaixa o som ao mesmo tempo e todos ficam olhando para ele. E não se atreve a olhar para trás novamente. Logo o carro estaciona ao lado da porta enorme da igreja. Aquela clássica arquitetura da Idade Média. Duas enormes tochas iluminava a entrada. Só havia aquela entrada e isso era proposital para a ação dos inquisidores. A porta talhada em madeira nobre e desenhos estranhos à religião; touros, unicórnios, também sereias e demônios. O terreno da entrada era como um grande estacionamento, forrado com pedregulhos cinzentos e pretos. Algumas grandes árvores circundavam as laterais da igreja.
Eles descem do carro, os quatro. Param em frente à igreja e o céu, sempre cortado pelas luzes dos relâmpagos, deixa um momento tenebroso nos corações da família Thompson. Todos com o pescoço levantado olhando para a grandiosa igreja de Saint Sunday. Uma luz corta a imagem entre eles e o monumento do inferno.
As imagens da escuridão e da claridade se confundem nessa hora. A menina segura a mão da mãe, que segura a mão de Barry, que pega a mão do pai. Aproximam-se bem devagar da porta de entrada e param. Observam ao redor e de repente um raio risca o céu e cai sobre o carro de Harry. Com o trovão que lhe acompanha, a família se abraça e a menina chora. O carro em fumaça faz com que todos corram para perto da porta da igreja, que se abre imediatamente.
Conforme entram, ouvem o barulho de madeira velha rangendo, sentem o cheiro de mofo e corpos queimados, e as luzes interiores da igreja se acendem. Da porta, os quatro parados, olhando o formato da enorme igreja. Um altar com várias imagens de santos dominam a decoração da suposta casa de Deus. Uma enorme imagem de uma santa negra com um touro no colo chama a atenção dos pais. Cortinas roxas circundam as paredes da igreja, uma das cortinas estava entreaberta e por detrás se via um vitral com desenhos de fetos cercando um anjo negro de capuz vermelho. Tudo aquilo causa um calafrio na família.
Plat plat plat... Ouve-se um som que se aproximava deles. Todos juntos e abraçados olham pra todos os lados com medo. Então aparece um senhor do nada e fica frente a família.
— Senhores! Sejam bem-vindos, espero que não estejam com medo da chuva, aqui estão protegidos, é a casa do Pai — diz o velho padre ao aproximar-se da família com um sorriso afável no rosto.
— O senhor é o padre?
— Cristoff Bloom... Os senhores?
— Harry Thompson e senhora Thompsom. Meus filhos, Barry e Anne.
— Sejam bem-vindos à igreja de Saint Sunday. Pedimos perdão aos senhores, nossas estalagens são muito antigas, mas sintam-se à vontade na casa do Pai.
Barry olha para aquele velho padre desconfiado de tamanha simpatia, mas fica na sua. O padre olha para ele com um olhar de repreensão e austeridade, mas depois, volta a sorrir.
— Com esse temporal vindo em nossa direção, com certeza, vocês terão que passar a noite por aqui. Nem pensem em dizer não! E nem vamos perdem tempo com conversas vazias. Me acompanhem, por favor, senhores. — O padre os leva por um enorme corredor escuro e com uma grande variedade de quartos. — Olhem, aqui pode ficar o casal e neste outro quarto os jovens.
— Muito obrigado padre. Não sabemos como…
— Por favor madame. O cristianismo serve para servir. Qualquer coisa é só tocar a campainha que eu ou o meu ajudante Cravos viremos para atendê-los. (...) Perdoem-me, Cravos deve estar lá fora cuidando do cachorro. Podem ficar à vontade, tomar um banho e descansar. Eu os avisarei quando o jantar estiver servido.
— Padre, não precisa tanto... Nós só queremos aguardar a tempestade passar para seguirmos viagem.
— Com certeza hoje será impossível. Relaxem e aproveitem a estadia, amanhã logo cedo vocês podem partir sem perigo.
— Tem razão, senhor.
Todos caminham para seus quartos e Barry entra no seu com a irmã e os dois colocam a mala no chão sem intenção de desfazê-la.
— Nossa, que lugar sombrio... Eu adoro! — Fala Anne sorrindo enquanto Barry, já meio temeroso, olha para ela com um sorriso amarelado. — Essa cama deve ter uns 150 anos. Imagine quantas pessoas se amaram aqui... .uhuu... Vários casais em suas orgias malignas...
— Cala a boca Anne! — Pede Barry com mais irritação que medo, pressentindo que o que a irmã fala tem lá seu fundamento.
— Hahahahahahaha... Você não gosta da coisa né Barry? — Ela fala empurrando o rosto do irmão com a mão.
O quarto realmente era dos tempos medievais. Armários duros e pequenos. Chão de madeira de lei. O banheiro era recém-construído e tinha bacias roxas com azulejos pretos. As roupas de cama também seguiam o tom maligno de todo o quarto. Anne sente-se à vontade ali, diferentemente de Barry e seus pais.
— Bom, eu vou tomar o meu banho. Depois vai você, Barry — ela diz; cansada de incomodar o irmão.
— Está bem. — Responde olhando o play list.
Ela entra no banheiro e abre a torneira da parede para deixar encher a enorme banheira envelhecida. O calor embaça o vidro e Anne tira a roupa. Quando vai limpar o vidro para se olhar, uma mancha surge e começa a formar um desenho. Ela ignora o fato, e sem prender a isso apaga tudo e ri para si mesma. Liga o som e entra na banheira dançando. Murmura o som da melodia, envolvida com a música, e entra na água bem quente com a intenção de relaxar.
Com os olhos fechados, Anne abre os braços e deixa a água quente dominá-la. Alguns minutos depois, um caracol sai da torneira de encher a banheira, mergulha na água e sobe devagar pelas pernas da jovem, que não percebe. Ela se move para coçar a perna. Nesse movimento, ela sobe os joelhos e percebe, com eles já fora d'água, o pequeno caracol que aponta sobre um deles aproveitando a carona.
Inadvertidamente, o bichinho abre a boca até quase o seu próprio tamanho e começa a devorar Anne; morde a pouca carne que tem no joelho e arranca a pele com seus dentes afiados. Ela vê, mas não crê, pois não sente dor, por causa da gosma verde e anestésica que ele solta no local antes de cada ataque. E nisso o caracol volta a comer mais um pedaço do seu joelho.
Anne tenta gritar e não consegue. Tenta ficar em pé apoiando suas mãos na beira da banheira e sem forças fica à mercê do animal, que come a sua pele e a sua carne subindo pela coxa, a água toda manchada de sangue, ela somente chora em silêncio com os olhos cheios de lágrimas. Anne estica a mão para pegar o caracol e tentar matá-lo, mas não tem forças para retirá-lo de sobre o seu corpo.
Quanto mais come, mais o caracol cresce e mais sua boca fica maior. Num súbito, ele cai sobre um de seus seios e arranca-lhe mamilo. Suga toda a gordura do seio de Anne, que desfalece.
PAM! PAM! PAM! PAM!... Fortes batidas à porta do banheiro de Anne a trazem de volta à consciência. Ela grita e pula da banheira. A água já estava fria. “Meu Deus! — Pensou ela olhando para os lados — Foi um sonho!
Anne, olha o seu corpo perfeito e saudável, assustada, está com o corpo tremendo de frio. Ela se enrola na toalha e responde ao irmão.
— Já estou saindo! — Diz ela enquanto sai da banheira e confirma que em seu corpo tudo está em seu devido lugar.
— Anne, faz mais de meia hora que você está nesse banheiro!
Apavorada, ela se enxuga rapidamente e coloca a camiseta da Disney e uma calça de algodão azul escuro. Calça um par de meias brancas e sai penteando os cabelos e esbarra em Barry.
— Meu pai!... Pensei que ia morar ai dentro — fala Barry passando a mão na franja, já de dentro do banheiro, abrindo as velhas torneiras de água quente e fria.
Ela não responde ao irmão e vai até a cama e ainda penteando os cabelos e assustada.
Barry para em frente ao pequeno espelho do banheiro e vira o corpo para a direita. Nota uma mancha se desenvolvendo bem no ombro e indo de encontro ao seu pescoço. Parecia uma tatuagem. Ele passa a mão no local e logo entra para tomar o seu banho. Coloca o fone de ouvido e cantarola o rock de sua preferência.
Dentro d´água, ele dança e afunda de costas desaparecendo no mergulho. Não percebe que em pé, do lado de fora da banheira, está Azazel olhando séria e fixamente para ele. Com a cabeça submersa e de olhos fechados, ele não percebe nada. Seu fone de ouvido à prova d'água soava a muitos decibéis de altura.
Barry faz borbulhas com a boca enquanto canta embaixo dá água. Quase sem fôlego, ele abre os olhos, e vê aquela criatura horripilante olhando para ele. Sai da banheira num pulo de ginasta americano, medalha de ouro, e jorra água para todo o lado, avança pela fresta da porta e alcança o quarto em que iam dormir.
— Buaaaaaaanhcccccccc... — Ele respira profundamente e engasga... — Crack corckk rocc rco rac coff coff... — Até Azazel se assustou com a performance de Barry e explodiu como fumaça desaparecendo no nada.
Barry então tira o fone de ouvido e acha que o rock está lhe fazendo mal e que sendo o rock a “música do inferno”, para por uns momentos de escutá-lo. Busca no play list a música new age que a irmã havia colocado para irritá-lo. Fica tremendo de medo e frio, coloca a roupa e tenta se acalmar pensando que aquilo tudo não passara de uma miragem.
Vai se acalmando, acalmando, e quando vai saindo do banheiro, encontra um lindo e pequeno caracol que entrou no banheiro sabe-se vindo de onde. Ainda com a respiração ofegante, tenta se distrair com o bichinho e o leva para o quarto. Sua irmã está deitada, lendo. Barry senta-se na ponta da sua cama e com o caracol na mão. Mexe com ele através dos dedos. Para irritar a irmã, que ficou longo tempo no banho, ele coloca o caracol na página do livro que ela está lendo.
— AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH... SOCORROOOO... FILHO DA P... — Ela joga o livro longe e corre para a porta do quarto, de repente aparecem seus pais, apavorados.
— O que foi isso meninos?
— Foi esse viado do Barry — responde Anne visivelmente descontrolada.
— Olha a boca, minha filha! — Repreende a mãe.
— Boca? Olha o que ele me fez — Anne aponta para si mesma, tentando encontrar o bicho em alguma parte da sua roupa.
— Mãe — justifica-se Barry —, eu só coloquei um caracol na página do livro dela e ela fez todo esse escândalo!
— Aquele bicho nojento! — Retruca Anne.
— Bom vamos dormir, amanhã cedo estaremos indo embora — diz Harry com voz imperativa.
Os pais foram para o quarto. Tinham esquecido completamente do jantar. Meia hora depois, o padre bate à porta dos meninos, que não conseguiam dormir.
— Anne, Barry. Vamos jantar? — Chama o padre pelo lado de fora da porta.
— Sim, estou morrendo de fome. E papai e mamãe? — Diz Anne animada para ir comer.
— Eles me disseram que não querem comer, estão muito cansados e preferem dormir — responde o padre.
— É verdade, eles falaram que iam dormir para acordarem cedo — assente a jovem.
— Estavam mortos — acrescenta Barry.
— Falando em cansaço, ouvi gritos, algum problema?
Já com os dois jovens ao seu lado, o padre olha diretamente para Anne, que meio sem graça explica que foi apenas um susto. Depois olha para Barry e sorri. O garoto abaixa a cabeça.
Uma mesa enorme, com oito tábuas, de lado a lado coberta com pequenas toalhas brancas se estende à frente deles. O jantar bem servido os meninos sentam-se ao meio e o padre à ponta da mesa. Frango assado com batatas, saladas de todos os tipos. Sucos e vinhos para beber.
— Fizemos tudo isso de comida porque pensei que todos nós jantaríamos. Mas vamos aproveitar.
— Sim, senhor padre — responde Anne.
— Podem se servir... Opa! Esperem... Cravos! — E o padre bate palmas para chamar o assistente que pela primeira vez aparece.
Um homem horrível, torto, magrelo e esverdeado. Cabelos curtos e olhos grandes. Ele entra e para ao lado do padre e Anne se assusta e Barry engole seco.
— Cravos... Sirva os meninos, por favor.
— Não! Não, obrigado padre. Eu me sirvo — disse Anne com voz de asco.
- Vocês estão assustados por que ele é assim? Uma feição não pouco convencional? Cravos morava nas ruas de Browsville, era um menino de rua, órfão e hostilizado pela comunidade, então eu o peguei para criar e hoje ele não quer sair mais de casa.
Envergonhados Anne e Barry pede para ele servi-los. Naquele momento aumenta a confiança no padre. Os pais dos meninos dormem sem saber que seus filhos estariam na sala de jantar.
Terminaram de comer, o padre chama Barry para conhecer as dependências da igreja. Anne se desculpou e foi para o quarto. O padre Cristoff caminha com Barry pelas dependências principais do clero.
— Barry entre. —Ele abre a porta de uma linda e gigante biblioteca.
— Nossa! Uau!. Que maravilha, padre!
— Sim. Houve muitas conferências neste local. Há mais de 150 anos, muitos estudos foram concluídos aqui e muitas descobertas, também.
Barry caminha com os olhos brilhando, amava livros e histórias. Ele segue a olhar a biblioteca, sempre observado de longe pelo padre. Num momento, ele para ao lado de um grande livro e nele está uma figura em uma das páginas abertas. Ele fica parado, observando como se reconhecesse o que via. O padre sabia o que havia chamado a atenção de Barry. Cruzou os braços e foi chegando mais perto dele.
Como se estivesse hipnotizado, Barry está com os olhos fixos na imagem. Padre Cristoff assenta sua mão no ombro de Barry que se assusta e acorda da hipnose.
— Já viu este símbolo em algum lugar? — Pergunta.
Barry volta a olhar para ele e passa a mão na página.
— Não sei. Parece-me familiar, mas eu não lembro onde possa tê-lo visto. — O padre olha para Cravos e na janela aparece o rosto de Azazel. — Nossa, padre, que calafrio!
— Está frio mesmo, Barry. Venha, vamos conhecer outras relíquias da igreja.
DOIS
Não havia dúvida de que o escolhido seria Barry. Era o momento de resolver de uma vez por todas o que a profecia anunciava.
Ele virá como menino e será guerreiro. A torre que sustenta seu portal dimensional, conhecido por pescoço, é o campo onde a marca, tomando forma e significado completos, revela o tempo da salvação. Ele combaterá o assessor da Besta e ela nunca será. E ao subir ao seu auge a estrela de Davi , o anjo Azazel desaparecerá eternamente.
Barry chama de súbito o padre.
— Padre, agora eu sei de onde eu conheço esse símbolo!
— Verdade, meu filho? Diga-me... — diz o padre fingindo inocência.
Ele abaixa a camiseta até o ombro e mostra uma imagem nublada e ainda não totalmente formada no seu corpo. Uma estrela nasce no ombro de Barry e segue em formação até o seu pescoço. No desenho ainda opaco percebe-se, todavia, quatro já formadas das cinco pontas uma estrela de Davi. Ainda estavam somente riscadas as pontas. Elas deveriam ser preenchidas em sua totalidade, para que o poder, tome conta de Barry.
Eles aguardaram por milênios o cumprimento da profecia. A estrela incompleta, faltando apenas uma ponta, no pescoço de Barry, era indício de que estavam sim, diante do escolhido, e por isso tinham que agir imediatamente.
— Foi aqui padre — diz o garoto enquanto aponta para a figura em seu corpo.
— Nossa! Barry, que bonito símbolo. Você sabe quem o fez? Foram seus pais?
— Não foram eles não. Também não é tatoo. Sei lá... Começou a aparecer há 1 ano mais ou menos. Mas me falaram que desde que nasci, ela já estava aqui. Uma forma suave, mas já se via a forma da estrela.
— Muito bom... Muito bom... Venha comigo Barry.
Nessa altura do campeonato, Azazel está excitado. Rosna e voa para todos os lados, sabia que os tempos eram chegados.
O padre leva Barry para um corredor ainda mais longo dos que ele havia conhecido. Caminham por muito tempo até que chegam numa extensa escada de mármore negro, por onde descem sem parar.
Azazel os segue sem ser visto. À frente, Cravos caminha com dificuldade, mancando. Em seguida, o padre Cristoff, que é seguido de perto por Barry Thompson. Ouvem um latido de cachorro muito forte e grosso. De fato assustador por que não dizer? O caminho se torna cada vez mais escuro. De repente dão de cara a uma parede que fecha o caminho sem apresentar saída.
— E agora, padre, vamos voltar? — Perguntou Barry temeroso.
— Um momento, filho, um momento...
Uma luz azulada surge do nada e começa a chicotear, movimentando-se de um lado para outro. Outras luzes, brancas, misturam-se com a azul e formam uma espécie de portal espesso e convidativo, em forma de bolha.
Barry olha para aquilo espantado e ao mesmo tempo impressionado. Acha que é algo da igreja e que, com certeza, seria do bem. O padre pega-o pelo braço e o convida a entrar na porta e seguir um pouco mais à frente. Todos entram porta adentro. Azazel os segue também.
Antes da porta se fechar, outro visitante entra pela porta. Era Anne. Ela os seguia durante todo o tempo. A experiência na banheira a deixara impressionada, por isso decidiu seguir o irmão. Na verdade, para ela tudo parece um grande e interminável sonho.
Azazel não é onipotente e muito menos onisciente, seus poderes são limitados como os de quaisquer anjos, do bem ou do mal.
Pronto! Enfim estavam todos do jeito que Azazel e Padre Cristoff sonharam.
********
A vista se abre para um novo mundo, o mundo de Saint Sunday. Barry fica aterrorizado ao ver dezenas de jovens entre 9 e 14 anos de idade dentro do que parecia ser um ritual seminário macabro.
Ao sopé do altar está Dom Baal, um homem de cabelos longos e vermelhos, barba grande e branca, metido numa espécie de bata preta longa, onde se veem bordados em dourado vários pentagramas, que deveriam ter cinco pontas, mas as dele tinham somente quatro e se espalhavam por toda a veste.
A presença de Barry causa um burburinho na escola. As crianças olham para ele sabendo que ali, diante de todos, está o escolhido. O altar está devidamente decorado com imagens da família de Azazel, o anjo negro.
Uma dezena de anjos cobre a área do altar e pequenas tochas acesas, estampadas com a imagem de Azazel, iluminam a classe. É um fogo que nunca apaga.
Há uma mesa com castiçais de ouro e pedras preciosas. São ao todo 18 cálices que circundam a mesa em homenagem ao sangue derramado na inquisição, liderada por Azazel e o poder romano. Sobre o altar descansam alguns utensílios de magia cerimonial, devidamente arrumados em torno do Baphomet de prata, a imagem sagrada do demônio. Todos ou quase todos aqueles objetos estão representando a fundação firme da terra sobre a qual nos movemos.
O altar colocado para a linha oeste está forrado com um pano preto, sobre ele um espelho de líquido onde o mestre faz suas leituras mágicas ao nível dos olhos. O espelho age como um ponto visual de concentração e age frequentemente como um portal para o astral. Uma varinha de metal de cobre queimado fica apoiada num suporte invisível. O propósito deste bastão é ajudar o enfoque do testamento do celebrante. Velas pretas para simbolizar os poderes da escuridão e vermelhas, para simbolizar o sangue.
Maravilhado, Barry observa o local. Algo lhe fala ao coração naquele momento, ele sente uma força interior anormal. De um garoto tímido e medroso, estava ali um garoto seguro e consciente, que não imaginava o que a vida lhe proporcionaria, mas sabia que algo anormal estava acontecendo.
Mais de 40 jovens se levantam e vão ao encontro de Barry. Um alvoroço se instala no seminário. Todos querem tocar Barry. Esses meninos foram sequestrados, assim como Barry. Estudaram por anos a respeito das profecias e como estudantes eram trabalhados por Dom Baal, que fazia discípulos para o reinado de Azazel.
— Ao todo, são sete taças e o vinho contido nelas é tão-somente a preparação para o fim.
Ao tempo em que fala, Dom Baal fixa o olhar à altura do terceiro olho de Barry, uma antiga técnica para facilitar a penetração das palavras na mente do neófito.
— “Foi o primeiro anjo e derramou sua taça sobre a terra, e veio uma úlcera maligna e pestilenta sobre os homens que tinham a marca da besta e que adoravam sua imagem”.
As palavras, tiradas do Apocalipse bíblico, professam uma das aulas do seminário sobre os finais dos tempos.
— “O segundo anjo derramou sua taça sobre o mar, e este se converteu em sangue como de morto, e morreu todo ser vivente que tinha no mar”. — Ele fala e olha insistentemente para Barry. — "O terceiro anjo derramou sua taça sobre os rios e sobre as fontes das águas, e se converteram em sangue”.
Muito dos que ali estavam, queriam voltar para casa. Não queriam seguir nada nem ninguém, estavam ali porque foram confundidos com o escolhido. Toda criança que nascera na época de profecia eram seguida por Azazel, que os guardava até o dia D chegasse.
— “O quarto anjo derramou sua taça sobre o sol, ao qual lhe foi permitido queimar aos homens com fogo. Os homens foram queimados com o grande calor”.
De longe, Azazel acompanha a movimentação e a admiração que Barry estava causando nos jovens.
— “O quinto anjo derramou sua taça sobre o trono da besta, e seu reino se cobriu de trevas. As pessoas morderam a língua por causa da dor e blasfemaram contra o Deus do céu por suas dores e por suas úlceras, e não se arrependeram de suas obras”.
O mestre Baal vê que sua aula não está surtindo nenhum efeito. A presença do garoto causa burburinho, ao que Dom Baal decide mudar a estratégia.
— Vamos parar por algum tempo, depois retomaremos o tema das 7 pragas — diz ele com voz firme.
Naquele momento os alunos se espalham pela sala e vão ao encontro de Barry.
— Você se chama Barry? — Pergunta com curiosidade incontida um dos jovens.
— Sim, eu me chamo Barry.
— Muito prazer, sou Barry. Barry Thompson — acrescenta o garoto.
— Não é possível! — Responde ele sabendo-se o verdadeiro Barry Thompson.
Ali estão 40 meninos com o nome de Barry Thompson, todos confundidos com o escolhido. E assim ocorreu por longos anos. Muitos dos jovens que passaram por lá com este mesmo nome hoje são padres espalhados pelo mundo com o intuito de seguir e beneficiar Azazel. Outros, porém, não seguiram os ditames das entidades do seminário, e restam-se prisioneiros, em algum lugar de Saint Sunday.
Um dos padres da “cidade dos Barry Thompsons” foi quem indicou a Azazel a possibilidade de examiná-los. Padre Louis indicou o passeio para a família. Disse que teriam apoio de amigos na cidade do Texas Billboard e sabia que deveriam, obrigatoriamente, passar por Browsville, a moradia dos demônios.
O padre pega Barry pelo braço e o leva até presença do mestre Dom Baal que o olha e fica arrepiado. A presença do verdadeiro Barry aniquila a imponência de todos os demônios do inferno. Dom Baal suspende a aula e vai para o seu dormitório. Barry fica com os jovens do seminário.
Azazel, Padre Cristoff, Dom Baal e Cravos reúnem-se na sala roxa.
— Encontramos! — Disse Padre Cristoff mostrando-se aliviado.
— Sim... Encontramos o escolhido — concorda Azazel —, temos que conseguir destruí-lo o mais rápido possível. O fim se aproxima célere. Da história, só a própria história restará.
— Não podemos nos esquecer de que ele é protegido d´Ele — observa Dom Baal provocando a ira do anjo caído.
Azazel, de súbito, desfere um murro forte sobre a mesa.
— Não me importa por quem ele é protegido — grita Azazel —, temos que acabar com ele! O fim está perto, e cada cidade deverá ser transtornada de todos os modos. Vamos proporcionar confusão em todas as cidades.
Atrás da porta está Anne, que ouve toda a conversa. Ela senta no chão e percebe o perigo em que se meteram. Com medo pelo destino do irmão, ela procura encontrá-lo, e corre para se esconder do grupo. Outros sessenta estudantes, divididos entre meninas e meninos, estavam em outro salão com uma mestra. Ela entra na sala na hora do intervalo e se mistura com as meninas.
— Quem é você?
— Sou. S-Sou eu, não se lembra?
— Ah! Sim, eu me lembro... A filha do balconista da lojinha.
— Isso, sou eu mesma.
— Como você se chama?
— Anne e você?
— Mary.
— Tudo bem, Mary?
— Sim, estou bem, Anne. Você me parece agitada...
— Pois é, também acho. Não sei por quê.
— Fica calma! Deve ser por causa do Escolhido, não?
— Escolhido? Como assim? Escolhido para quê?
— Não acredito menina! Em que escola você está?
— Ah... Verdade... o escolhido...
— Ele... O menino das profecias.
Anne fica horrorizada ao perceber que o escolhido pode ser o seu irmão.
— Ele foi encontrado.
— Sim, verdade, parece que sim. Onde eu o encontro?
— Ahahahaha! Você está doida, menina? Olhar para o escolhido... Era só o que faltava! Vem comigo, corre!
Atabalhoada, Mary dispara para fora da sala e espera Anne, que fica olhando assustada para a nova conhecida. Sem opção, ela corre ao encontro de Mary e a acompanha.
— Corre Anne!
Anne corre atrás de Mary. Olha para todos os lados e vê coisas que seu coração não acredita. Elas diminuem os passos para olhar duas jovens com suas varinhas mágicas soltando raios na direção de dois rapazes, que cobrem os corpos com suas capas e desaparecem do meio delas. Anne não resiste e volta até onde as capas foram largadas. Ergue-as do chão e nada! Ela olha para as meninas que não param de rir e correm para fora do prédio. Em seguida, os rapazes aparecem na parte de fora e abraçam as meninas. Tão logo eles se abraçam e os dois montinhos de pano azul-celeste somem do chão e aparecem novamente no corpo dos garotos.
Da porta do prédio, Mary chama Anne, que de boca aberta e olhos esbugalhados fica absorta nesse mundo de sonhos em que está vivendo. Em sua mente, vê Barry e corre novamente em direção a Mary. Na parte de fora, um jardim imenso e o mais florido e decorado que já viu na vida.
Ela fica chocada e para ao lado de Mary, que não entende como a filha do lojista está tão impressionada com algo que elas veem todos os dias.
Boquiaberta ainda, Anne avista um monumento de mais de vinte metros de altura, carregada de uns frutos que ela nunca vira. Centenas de aves coloridas e de diversos tamanhos sobrevoam a imponente árvore. As aves sobem e descem formando no céu um espetáculo admirável. Anne se vê num mundo encantado. Ela entrara por uma porta tenebrosa e saíra por outra, gloriosa.
Para e continua observando a correria dos garotos. Ao lado da bela árvore, uma reunião entre seis garotos que parecem brincar entre si. Ela não entende e vai até o encontro deles. Percebe que estão fazendo mágicas. Um dos garotos abre as duas mãos e mostra para os demais.
Num movimento rotatório, suas mãos se transformam em asas, que logo tomam também seus braços, e o garoto começa a se debater provocando um imenso redemoinho em volta de quem está à volta. O vento que produz é tão forte que os cabelos dos garotos revoam e seus rostos enrugam com a ventania. De repente, o mágico mirim some e sobe às alturas, misturando-se aos pássaros enormes que sobrevoam as árvores.
O mesmo garoto desce em vertical. Traz do alto duas frutas da árvore e as entrega para Anne. Ele olha para ela e sorrir. Os amigos vaiam e riem com o galanteio, Anne enrubesce, mas aceita as frutas.
O garoto se chama Henry Votton, um aprendiz de magia que foi inserido na escola de magia Browsville após a morte prematura dos pais, que fora provocada por Azazel. Ela observa os lindos olhos azuis de Henry, seus cabelos longos e lisos, e um sorriso que ela considerou simplesmente “perfeito”.
Mary se aproxima e puxa Anne pelo braço para longe dos meninos. Anne parecia hipnotizada por Henry, então Mary a alerta.
— Anne, cuidado com esse menino... Não se meta com ele. Ele é o amor de Mezera e ela não é brincadeira, é a filha de Azazel!
— Quem?
— Azazel. Eu nunca o vi e nem o conheço. Mas dizem ser ele é o mentor de tudo por aqui. O “anjo da profecia”.
— Isso aqui está me metendo medo.
— Interessante você não conhecer nada nem ninguém aqui.
— Na verdade. Eh... Eu...
— Tá bom, não precisa me explicar nada. Vem comigo. Eu gostei de você.
Anne resolve seguir Mary. Acabou ficando curiosa. Do lado de um prédio, Mezera esteve vendo o tratamento de Henry por Anne. Puxou sua companheira Melissa para dentro da construção e entrou furiosa.
— Descubra quem é essa piranha que deu em cima do meu Henry! — Disse ela espumando.
— Sim, Mezera. Sim... Pode deixar comigo, eu vou descobrir.
— Vou mostrar pra essa “zinha” o que é se meter com homem de Mezera! —
Fala com vigor e raiva. Melissa a olha com admiração, sorri, bate palminhas, dá pulinhos e sai correndo para descobrir logo quem seria aquela linda menina, branquinha, alta e de boca rosada.
Mary contínua correndo e entra num pasto enorme. Anne não entende como um lugar tão grande e lindo está dentro da igreja Saint Sunday. Mary corre pelo campo e a todo instante olha para trás para ver se Anne a está seguindo. Anne corre atrás de Mary e já cansada estica a mão para a outra ir mais devagar, mas esta contínua a correr mais e mais.
No topo do campo, ela para e espera Anne, que chega com a mão no peito e a respiração ofegante. Mary aponta para um galpão enorme a uma distância de 1 km. Anne olha para o galpão e para Mary, que sai correndo novamente. Olha para o céu, balança a cabeça, desacreditada, e sai, novamente, correndo atrás dela.
Chegando próximo ao galpão, Mary se esconde atrás de um grande tronco e chama Anne para ficar atrás dela. Há silêncio e calmaria, mesmo assim ela caminha bem devagar, meio escondida, até chegar numa determinada parte do grande galpão. Anne a segue como se fossem agentes do FBI atrás de mafiosos.
A veterana para na parte dos fundos do galpão e encosta numa madeira com uma grande fresta, por onde as duas colocam seus olhos e observam o entorno. E é assim que Anne vê uma cena incrível.
Dentro do galpão, ela vê dezenas de pessoas negras sentadas em cadeiras assistindo a um filme sobre Azazel. Anne para e olha para Mary, que pede silêncio. Aguarda por alguns instantes até que aparece Frederick, um menino lindo, negro, forte, meigo e vestido como os outros garotos: de bata de algodão grosso cru ou juta, não identifica bem, e chinelos de couro. Anne se assusta achando que foram encontradas.
— Calma, Anne, este é meu namorado Frederick.
— Fred... Muito prazer, eu sou Anne.
— Olha, seja bem-vinda, Anne.
De repente, um barulho de cavalo chegando. Frederick se abaixa e puxa as meninas para outro local. Ficam atrás de outro pequeno galpão, alguns metros dali. Anne observa que ao longe uns vinte garotos e garotas estavam treinando suas habilidades nos esportes. Jogam bola e peteca e disputam salto em vara.
— Meu Deus! Por que só há negros aqui? E por que não estão com os outros?
— O que acontece, Anne, é que a profecia diz que o escolhido, e me parece que já foi encontrado, é branco. Não há interesse da comunidade de Azazel em cuidar de negros.
— E porque eles os mantêm por aqui?
— Isso é importante para a religião do Padre Cristoff.
— Eles querem acabar com o escolhido e manter o máximo de pessoas preparadas para ajudar na ação que ainda não sabemos — Diz Mary.
Frederick e Mary se abraçam e se beijam. Anne olha e fica sem graça, vira o rosto e num relance vê um homem enorme vir em suas direções.
— Mary... Mary... — Mary ouve, mas não larga de beijar Frederick — Mary, por favor, um gorila está vindo pra cá!
— Como? — Fred olha e percebe que o cuidador anda na direção deles. — Meninas, corram! Vão embora agora. Se eles pegarem vocês por aqui, acabarão com vocês!
Elas correm de volta para o campo e Anne para e olha para trás e flagra Frederick saltar, ou melhor, voar mesmo, até o telhado do galpão. O cuidador passa direto para o galpão pequeno sem perceber o movimento dos três. Anne volta a correr e tenta alcançar Mary. Logo que chegam ao campo elas param e sentam num tronco de árvore caído no gramado.
— Ma... Mary... Eu vi Frederick...
— Voar?
— Sim, vo.. vo... voar!
Mary dá risada e explica que ele é um grande mago, Merlym viajara no tempo e o batizara com o dom da magia.
— Quem? Merlym, o mago?
— Sim. Por quê? Você nunca o viu? Em que mundo você vive, Anne?
— Bem... Eu vivo, ou vivia, num mundo onde... Onde sei lá!
— Poucos são os que têm o dom da magia. Eu, por exemplo, não consigo nem levantar uma formiguinha nas minhas magias (ri). Em compensação, eu amo Frederick. Vamos nos casar, sabia?
Anne olha a nova amiga e sorri. Dá um abraço bem forte nela.
Capítulo 3
— Então você é Barry, o “escolhido”? — Pergunta um dos garotos.
— Eu? Escolhido para quê?
— Escolhido para dirigir o nosso time, hahahahahah — entra na conversa Din, um dos mais alegres estudantes do seminário de Browsville.
— Time? Eu?
Din abraça Barry e o tira dos abutres que só queriam saber como ele havia sido capturado. Din o carrega para o lado de fora do colégio. Chegam ao mesmo jardim encantado por onde sua irmã Anne e Mary passou. Ele olha encantado para o local, e as centenas de garotos que ali passeiam. Param para ver os meninos supostamente escolhidos. Ele se sente o pior jovens de todos os tempos. Ainda que fortalecido pelos poderes do “escolhido”, ele permanece tímido e se afoga na timidez dos olhos da enorme turma do jardim.
— CORRAM... É ELE! – Grita dezenas de outros garotos e garotas.
Uma multidão se aproxima de Barry que agora, se sente uma celebridade. Fica olhando e apreciando o momento quando; Din joga a capa do tempo sobre os dois e desaparecem. Din achava que ele não queria continuar sob a pressão dos estudantes. Vão parar na época da inquisição. Barry não pode acreditar no que estava vendo e vivendo. Ele se belisca por três vezes e grita de dor e continua a ver Din à sua frente.
Ao longe, avistam uma caravana de cavaleiros que fazem a guarda de um homem de branco dentro de uma casinha de veludo vermelho e mais dois sacerdotes ao seu lado. Era o papa da inquisição. Eles correm para trás de um arbusto e observam a caravana passar. Um momento indescritível para os dois. Estavam frente a frente com a guarda papal e seu líder.
— Meu pai! É o papa Dom XV e seus piores conselheiros da inquisição.
— “Meu pai” Como viemos parar aqui, Din?
— Através da capa.
— Capa? — Pergunta Barry já com a capa em suas mãos.
— Sim, capa.
— Como assim? Uma capa sobre nós e a gente está aqui, na era da inquisição?
— Pelo visto você não entende nada de magia. Como pode ser o escolhido?
— Você vai me explicar que conversa é essa de escolhido! — Diz Barry com pouca paciência e querendo entender logo o que se passa.
A conversa chama a atenção de dois guardas que imediatamente se aproximam deles. Sem que tivessem percebido, eles estavam conversando muito alto. Os enormes homens bem armados e com armaduras de guerra arrancam a espada da cintura e apontam na direção de Barry e Din. Barry levanta as mãos para o céu e arregala os olhos. Um dos guardas vem ao seu encontro com a espada como se fosse furá-lo. Ele fecha os olhos e grita. Ao levantar as mãos Barry deixa a capa cair em cima deles.
— AHHHHHHHHHHHHH... Socorro! — E abre os olhos pensando já ter ido desta pra melhor. Nesse momento, ele se vê no meio de um monte de jovens. Estava de volta ao seminário. Sem graça, ele dá um sorriso amarelado e vê seu amigo ao seu lado sentado no chão com as bundas cheias de terra e capins.
— Olá para todos — cumprimenta Din.
Eles se levantam rapidamente e Barry cumprimenta a todos que ali estão e os enchem de perguntas. Logo chega Dom Baal e acaba com a festa.
— Barry e Din, acompanhem-me, por favor. — Din olha para Barry e ambos seguem Dom Baal até a sua sala. — Então, Din, você usou a capa do tempo?
— Desculpe-me, senhor Baal, a culpa foi minha — falou Barry tentando defender o amigo.
— Não lhe perguntei nada, senhor Barry. Então, Din, por que usou a capa do tempo?
— Tentei evitar que as pessoas cercassem o escolhido, senhor. Foi muito rápido e eu agi sem pensar.
— Você sabia que os dois poderiam nunca mais voltar. Essa aula ainda não terminou e por sorte e talvez porque Barry estava com você é que voltaram.
— Desculpe-me, senhor!
— Quero todos os seus pertences que reconhecidamente ganhou nos anos de estudo. A capa, a vara, o cálice da juventude e as correntes da noite.
— Por favor, senhor...
— Eu aguardo todo o material em minha sala daqui a duas horas. Agora vou para uma reunião e quando eu voltar, se todas as coisas não estiverem aqui, o senhor será banido da escola — Dom Baal fala e vai saindo para a reunião.
— Melhor obedecer, Din! — Diz Barry preocupado com a advertência.
— Eu acho melhor sim, meu amigo!
Os dois saem novamente para a parte externa da escola e vão para um lugar a sós, precisam conversar. Passam em frente do dormitório das amigas más, Mezera e Melissa. Barry olha para Mezera e fica transtornado, era uma menina linda, porém usava roupas muito loucas, era uma bruxinha sensual. Ele continua caminhando com Din sem parar de olhar para trás.
— Quem é aquele babaca ali? — Questiona Mezera.
— Deve ser algum novato. Nossa! Não vai durar uma semana aqui!
As duas se olham, riem muito e entram para o quarto. Logo à frente, Barry e Din chegam a uma espécie de casebre. Din havia escolhido aquele local para seus treinos de mágicas.
— Nossa, Din, houve uma guerra aqui? — O lugar estava quase todo queimado. Madeiras destruídas e tocos com perfurações de bala de canhão.
— Barry, aqui eu aprendi as minhas mágicas. Foi aqui e sozinho que eu estudei para as provas dos semestres.
— Mas por que tudo isso?
— Quando se é um aprendiz — e eu ainda sou aquele que nunca atirou uma varinha — é normal causar esse tipo de tumulto. Na verdade, essas aulas eu faço sem a autorização de Baal. Todos que aprendem algo aqui o fazem sob a sua supervisão.
— Você é mesmo atrevido, né Din? — Observa rindo o jovem Barry. — Sim, e como sou! — Fala rindo também. — Barry, vem, senta aqui.
Os dois sentam num amontoado de feno e têm uma visão maravilhosa à frente de si; o campo Fly, um verdadeiro sonho para os naturistas. A divisão de flores e árvores se dá como se um arquiteto a tivesse preparado. Animais de muitas espécies caminham por ali. Árvores frutíferas e decorativas se misturam com uma linda montanha ao fundo. Às vezes algumas aves não convencionais passam por ali, e naquele momento Barry avista uma enorme.
— Nossa! O que é aquilo, Din? — Pergunta olhando assustado e apontando para a ave com o dedo. Din olha na mesma direção do seu dedo.
— Ah! Você nunca viu uma dessas, né? É um Brotossauro , uma ave de rapina. Baal as cria, eu não sei por quê. Há muitos animais estranhos por aqui e sabem-se lá como eles existiram e sobrevivem ainda.
— Estranho... Muito estranho... A minha vida virou de ponta cabeça. Eu e minha família só estávamos passando as férias. Na verdade, nem havíamos começado. Agora estou aqui, vendo Brotos... Sei lá, viajando com capa do tempo, sendo chamado de “o escolhido”. Estou muito assustado mesmo, Din.
— Cara, veja bem! — Din tenta acalmar o amigo — Aproveita essas férias que estão muito loucas, nossa! Você é um privilegiado. Cara, opa, Barry... Você entrou num mundo diferente do seu, agora é relaxar. Olha! Eu ainda nem sabia chorar direito quando alguém me comprou dos meus pais. Eles eram muito pobres. Quando me batizaram era pra ser Barry — eles se riem —, então o padre olhou para a minha mãe e sugeriu uma família rica pra cuidar de mim. Fiquei sabendo pela bola de cristal do Frederick. Um dia vou te apresentar o maluco do negão.
— Frederick?
— Sim. Você o conheceu?
— Não, não sei quem é.
— Ele é negro e mora nos galpões dos negros. Cuidado, se te pegarem por lá eles te matam. Não querem brancos como nós misturados a eles. Dizem que a nossa é uma raça inferior e que carregamos o pecado original, o de Caim.
— Que loucura, Din.
— Fique tranquilo. O interesse desse pessoal somos nós. Azazel quer construir um exército. Isso que me falaram.
— Você estava falando que um padre te entregou?
— Sim. Ele sugeriu, e meus pais não podiam me dar nem estudo nem roupas, então acabaram me entregando. E quando cresci, eu já me vi aqui no seminário. Com a maioria foi assim. Você foi uma exceção. Acho que foi protegido.
— Protegido aqui? Sem minha família? Estou preocupado com os meus pais.
— Não sei, oras! De repente algo ou alguém quer você aqui para descobrir coisas... Pode ser, né? Fica tranquilo, não querem seus pais, mas você.
— É, acho que você pode ter razão. Mas logo eu, sou o maior cagão!
— HAHAHAHAHAHAH. Eu era também. Agora ando meio ousadinho. Estou pagando por isso. Putz... Temos que ir... Se eu não devolver os instrumentos para Dom Baal estou morto!
Os dois voltam para o seminário e novamente Barry, ao passar em frente ao quartel-general das meninas, vê de longe Mezera com a amiga. Ela gesticula muito e a amiga ri muito. É uma junção de líder e puxa saco.
********
Frederick lá no galpão dos negros está em seu quarto e retira, de uma caixa secreta na parede, a sua bola de cristal ótica. Ela se parece com uma bola de sabão, desaparece. Quando o seu mentor a deseja, ele assopra na aba da caixinha preta com friso dourado, onde existe um canudo, bem semelhante a uma piteira de cigarros. Conforme assopra, na outra extremidade a bolha aumenta como uma bola de sabão mesmo. Ela sai incolor e com a força da mente do seu mentor, no caso Frederick, ela começa a ficar colorida e vai tomando vida. O pedido sempre é atendido, tanto faz se no passado, presente ou futuro. Às vezes a bolha sente o coração do mentor e alerta para qualquer perigo iminente.
Assim que ativa sua bola e cristal, Frederick recebe uma mensagem a respeito de Anne, mostra Padre Cristoff fazendo um clone de Barry.
O padre precisa voltar para a igreja e segurar os pais de Barry por mais um tempo. Enquanto Barry estivesse vivo, seu clone também viveria. E o perigo que corriam era que Anne não estava na igreja e o padre descobriria e desconfiaria de que ela poderia estar no seminário.
A bolha emite sons de criação e dela salta um pequeno ovo cor de lilás e cai no chão forrado com feno. Frederick pega o ovo e o coloca em uma redoma quente por alguns minutos. O ovo choca e em seguida o bico da ave piá quebra o ovo e a ave Bela sai preparada para a missão. Piás, são aves tão pequenas que ao nascerem, mal podem ser vistas voando ou entrando em algum lugar. À semelhança dos camaleões, elas possuem um efeito mimético; suas penas mudam de cor conforme o ambiente ou a necessidade. Essa pequena a ave é conhecida por todos, nas guerras espirituais. Recebeu o nome de Bela, por que; além de eficaz, ela é vaidosa, vive se limpando e ajeitando as suas lindas penas.
Imediatamente Frederick adiciona o chip na pena de Bela. Ela odeia quando isso acontece, estava toda linda, mas sabe que é uma missão importante. Ela voa indignada e com o semblante sofrível, não suporta nada em suas belas penas. Tenta ir o mais rápido possível, para poder retirar do corpo a impureza misturada em sua beleza.
O interessante é que cada ave dessas tem uma missão somente, depois elas partem para o mundo das maravilhas e por lá encontra um companheiro e se unem para procriar e ter os seus filhotes, que não nascem no local onde vivem, ou seja, não nascem em seus ninhos, mas sim nas bolas de cristais, onde recebem sua missão. Os pais só conhecem seus filhos quando estes cumprem sua empreitada, como está preste a ocorrer com Bela, que está ansiosa para realizar sua tarefa e rumar para o seu país de maravilhas para conhecer seus pais e seu futuro companheiro.
A pequena beldade segue o caminho atrás de Mary e Anne. Seu voo é ágil e gracioso. Sobe alto e mergulha num rasante preciso e veloz. Por muitas vezes corre pelo chão, mantendo uma velocidade invejável. Ligeira, ela sai do chão para o voo e deste para a corrida sem esforço algum. Não há ave no mundo com a mesma capacidade.
Bela chega à escola e vai direto ao dormitório das meninas. Para na parte de fora e observa se há algum perigo. Abaixa a cabecinha e passa pela porta da frente e voa para debaixo da mesa, onde são colocados livros e objetos de estudo. Olha por todos os lados. É hora de almoço, quase ninguém está circulando. Ela sobe na janela e vê a garotada caminhando para o refeitório, centenas de jovens, meninos e meninas, falando muito e alto. Muitas risadas. Ela dá um piu e mergulha no corredor onde está o quarto de Mary, onde Anne está escondida. De tempos em tempos Mary vai buscar comida, água e pão ou uma fruta para Anne.
A porta se abre e Bela piá e se esconde; é Mary que está indo para o refeitório, meio atrasada. Bela fica feliz em ver Mary e se lança no meio do corredor para mostrar-se a ela. A jovem está com a cabeça levantada e não vê a coitadinha e quase pisa em sua cabeça. Bela desvia, mas ela acaba pisando em seu rabo. O pior é que bem nesse momento ela para a fim de chamar Anne. Bela, presa pelo rabo, grita piando e tenta se desvencilhar do sapatão de Mary. Anne coloca a cabeça fora do quarto.
— Oi, Mary — responde Anne levantando a voz; ao fundo se ouve o piuuuuu piuuuuu da avezinha.
— Eu me esqueci de perguntar se você quer carne ou frango — grita ainda de fora do quarto, e Bela ainda piuuuuu, piuuuuu...
A ouvir a palavra frango, Bela se debate como uma louca. Fica com a cabeça vermelha e só se acalma quando Anne responde.
— Eu não como carne, Mary!
Aliviada, Bela, que já estava se imaginando assada numa churrasqueira, enxuga com a asinha o suor que pinga em sua face.
— O que é isso no seu pé? — Pergunta Anne já quase saindo do quarto para se aproximar de Mary.
Mary olha e vê a coitada da Bela quase amassada.
— Uauauauahhhh! É a Bela, Anne!
— Bela?
— Sim, Bela. Espera aí, não sai do quarto!
— Claro que não vou sair — exclama Anne lembrando-se de que não pode ser vista.
Mary pega Bela com cuidado e a beija pedindo perdão. Bela sorri e aceita o pedido. Ela entra no quarto e senta na cama com Bela na mão e pede para Anne puxar a cadeira. Logo Bela pede para Mary acionar o chip que carrega.
— Mary, meu amor... Você deve estar com Anne nesse momento. O cristal me disse que o Padre Cristoff está voltando para a igreja, por causa dos pais de Anne e Barry. Eles criaram um clone do Barry para enganar aos pais. Meu medo é o de ele não encontrar Anne na igreja e desconfiar que ela está entre nós. Corra Anne. Melhor você voltar para a igreja até as coisas se acalmarem. Depois você volta para ajudar ao seu irmão. Nós o ajudaremos daqui. Ah! Esqueci... Te amo, Mary.
Mary chora ao ouvir a mensagem do seu amor. Olha para Anne, que olha para Bela, que faz o maior esforço para sair da mão de Mary, que a aperta muito sem perceber.
— Ooops! Desculpa-me, Bela! — Mary vai até a janela e solta a pequena ave ao céu aberto. Ela voa bem alto, pela primeira vez na vida. Seu instinto a leva de volta para o lar. Sabe que viverá para sempre ao lado dos pais e de um lindo companheiro. Dos ovos botados nos ninhos, somente os dos machos ficam na cidade e nascem por lá, à espera das suas fêmeas.
— E agora, Mary?
— Agora, Anne, vamos lá... Você precisa voltar urgente!
— Sim, eu vou voltar!
— Venha, vamos aproveitar que é hora do almoço e que todo mundo está nos refeitórios. Com certeza o velho padre só vai voltar depois da comida... Eu conheço o esfomeado!
Elas se levantam e Anne deixa tudo no quarto de Mary e caminha para o lugar conhecido por “Portal do Mundo”. Não dá meia hora e as duas chegam ao portal. Anne fica em pé, ereta, à frente da parede, e a luz começa a se movimentar, abrindo aos poucos a porta para as masmorras da igreja Saint Sunday.
— Vou sentir saudades, Mary. Vem comigo! Vamos aproveitar e você foge e vem morar com a gente — fala Anne enquanto chora e abraça a amiga.
Mas o seminário está numa dimensão diferente daquela em que mundo em Anne vive, de modo que Mary não pode passar pelo portal sem que sua verdadeira idade se revele. Ela até tenta, mas é em vão. Quando dá o primeiro passo para a parte da igreja e aproxima o seu corpo, sua carne se desintegra e aparecem somente os ossos do seu esqueleto, o que deixa bem claro para ela que morrerá se ousar atravessar. Anne coloca a mão na boca e faz um gesto impetuoso que empurra a amiga de volta antes que o pior aconteça.
— Eu também sentirei saudade — fala Mary se recuperando do susto —, mas vou te esperar e vamos salvar o seu irmão.
A porta se fecha e Mary também chora. Então volta correndo para o quarto. Anne consegue passar pela porta e constata que está mesmo dentro da igreja. Corre para o seu quarto e aguarda os pais acordarem. Tudo aconteceu em alguns minutos na vida real. O tempo é diferenciado entre as duas realidades. Dias, meses e anos no seminário são apenas segundos, minutos e horas no mundo real.
Mary volta correndo e segue para o refeitório e é flagrada.
— Ei, menina! O que você está fazendo aqui? — Gritou o Padre Cristoff.
Ela breca com tudo e quase bate no peito do padre. Fica apavorada. Poucos faziam aquele caminho, que era proibido.
— Senhor... Não sei... Estou perdida há horas. Penso que sou sonâmbula, estou me tratando, às vezes me pego lá fora na mata perdida.
Ele olha seriamente para ela e mantém o olhar assim por alguns instantes, tentando encontrar algum sinal de verdade na fala da menina. Mas sua mente não consegue a concentração necessária, devido às circunstâncias em que ele próprio se encontra. Assim, depois de alguns instantes, relaxa e volta a falar.
— Então trate de tratar disso logo antes que machuque alguém. Falou e pegou o braço do clone de Barry puxando para frente.
Mary solta o ar e coloca a mão na boca para não gritar ao ver Barry de mentira. Estava tremendo, morrendo de medo de estragar tudo. Mas parece que o padre entrou na dela. Ela vira o rosto e vê o padre caminhando com o clone em direção à porta do mundo.
Quatro
— Bom dia, meu amor — Falou Doris ao marido, que espreguiça e responde.
— Lindo dia pra você, minha princesa!
— Será que as crianças acordaram?
— Nunca acordaram cedo, só faltava isso acontecer logo aqui, nesse cemitério antigo.
— Vai tomar banho?
— Sim. E você?
— Também — Fala Doris rindo, com ar de malícia.
Os dois pombinhos apaixonados vão juntos para o banho. Ele cantarolando músicas de cowboys e ela esfregando as suas costas, gritando “iarruuuuuu”...
O padre acaba de abrir a porta do quarto de Barry e Anne. Observa a menina nos lençóis. Vê a cabeça e os pés de Anne descobertos. Olha nos olhos de Barry e ambos balançam a cabeça e Barry vai para a cama.
Padre Cristoff, então, vai para a sala do café e a mesa já está posta. Cravos havia voltado mais cedo para deixar como se nada tivesse acontecido. Anne abre um dos olhos e se assusta ao ver a fidelidade com que os traços do irmão haviam sido levados para o clone. Ela aperta o lençol com a mão e fecha os olhos, quando o falso Barry fala com ela.
— Anne, acorda! Vamos tomar café...
Ela fica extasiada. Tremendo, aperta os olhos com ainda mais força, não quer olhar para a cara do impostor. Logo reflete e entende que também tem que fingir, por amor ao seu verdadeiro irmão.
— Oi, Barry, bom dia! — Fala ela se controlando. Levanta e senta na cama e com grande fingimento sorri para ele.
— Adoro te ver assim, maninha.
— É mesmo Barryzinho? — Fala com ódio irônico nos olhos.
— Vamos ver papai e mamãe?
— Sim, vamos ver papai e mami.
Os dois se levantam e vão até a porta do quarto dos pais.
— Iupiiiiiiii! — Grita animada a mãe, que tem o marido em cima dela. — Monta, meu cowboy... Arre égua...
— Hãm? De novo? — Fala Anne enquanto coloca as mãos no ouvido para não ouvir a mãe transar com o pai. — Que noooooojo! — Ela fala e vai para a sala do café.
Uma mesa enorme e com todas as guloseimas possíveis estão à espera da família. Os irmãos se sentam e começam a comer. Depois de um tempo, os pais se juntam a eles.
— Bom diaaaa... — Fala a mãe toda pomposa. Anne não levanta a cabeça. Não queria ver a cara da mãe que havia acabado de transar com o pai.
— Bom dia, meus amores — Fala também o pai.
Barry sorri para os dois, passando manteiga no pão. Anne levanta os olhos para ele. Fulmina o bandido com olhos e pensamento, depois olha para o clone, em seguida para a mãe. Pronto... Foi o suficiente para correr para vomitar no banheiro. Todos olham para ela e a mãe corre atrás dela.
— Mãe... Me deixa! É só um mal súbito, eu já volto para a mesa.
A mãe atende ao pedido da filha e volta para o salão. Logo Anne retorna e todos comem sem muita conversa. Os pais de Barry se levantam e agradecem ao padre pela farta refeição.
— Padre Cristoff! Não sei como agradecer por tamanha hospitalidade. Gostaríamos que nos visitassem na Flórida um dia.
— Nada a agradecer, meus caros visitantes, a fatalidade os trouxe até nós. E não poderia agir de outra forma. Já agradeço ao convite.
— E leva o seu assistente também.
— Obrigado — disse Cravos com certa dificuldade no falar.
— Bem... Temos que ir, né, crianças?
Todos silenciam na sala do café. Um olha para o outro, assustados. Harry Thompson dá um sorriso e leva os braços mostrando o caminho para os filhos buscarem as malas.
— Bom... Ééé... O que vocês acham de ficarem mais uns dias por aqui, senhor e senhora Thompson? — Convida o padre.
O silêncio volta a dominar. Todos se entreolham, os pais dos meninos pensam que os jovens rebeldes estavam loucos para saírem de lá e sumirem o mais breve possível e não os querem contrariar.
— É, pai... O que o senhor e a mamãe acham da a gente ficar mais uns dias? — Fala o suposto Barry surpreendendo aos pais. — O carro ainda está quebrado, lembra? O senhor pode aproveitar e consertá-lo aqui mesmo, se o padre permitir.
O padre assente coma cabeça sem falar nada. Harry e Doris não acreditam no que ouvem da própria boca do filho.
— Você pode repetir isso, meu filho? — Disse o pai.
— Vamos ficar mais um pouco por aqui... Estou achando maneiro. Tantas coisas belas do passado. A história está aqui. Um povo sem história é um povo sem futuro.
— Hãm? — Rosna a mãe.
— Também acho que sim, papai. Mais um pouquinho... Que tal? — Anne aproveita a deixa do irmão para reforçar o que ela mesma queria fazer, ficar para poder fazer algo pelo verdadeiro irmão.
Os pais não acreditam no que ouvem. Nem o padre, que olha para Anne e sorri, gostando da aprovação da jovem.
— Poxa! Obrigado, Anne, por nos querer tão bem — observa ele sem suspeitar de que a jovem está ciente do que se passa.
— Nhauna nchhunahsiiallaksujajs... — Ela murmura — O que foi filhota? — Pergunta o pai.
— Nada papai. Estou adorando ficar aqui. É realmente maneiraço!
Os pais se entreolham e riem um para o outro. Harry levanta o ombro em sinal de também não estar entendido nada.
— Bom, não tenho nada pra fazer mesmo nos próximos 29 dias, por que não?
Todos riem e concordam em ficar mais algum tempo na igreja de Saint Sunday.
********
Após o almoço, na escola dos seminaristas, todos vão caminhar pelos parques, campos e locais de jogos e diversão. Uma águia de uns 4 metros sobrevoa o local chamando a atenção de todos.
Dom Baal sai e observa a ave sobrevoar o seu milenar colégio. Ela solta sons altos e fortes, passa o olhar profundo pelas pessoas de todo o condado. Barry corre para fora com Din para ver a imensa ave de rapina. Ficam com medo e percebem que todos estão bem à vontade com a presença da águia, observando e sorrindo com sua presença ali. O belo pássaro sobe de forma vertical e vem de encontro aos campos, passando numa velocidade incomum. Dom Baal olha para cima com um sorriso cínico, sabendo que a rapina viera buscar alguns dos estudantes que foram considerados traidores pelo parlamento dos anjos negros de Zebulon.
A ave voa na direção dos galpões. Todos olham e aguardam a decisão da águia. Ela desce violentamente e some das vistas dos alunos por alguns segundos. De repente ela torna a subir trazendo um garoto pelas garras. Todos vibram e gritam a favor da ave. O menino se debate e todos pressentem sua agonia, mas não conseguem identificar quem é a presa.
A ave sobrevoa novamente o local administrado por Dom Baal e faz um voo rasante, e então é que se vê Frederick, em vão, gritando e lutando para se safar da predadora, que volta a subir e segue para o Ninho da Mãe Águia, lugar onde os jovens sequestrados são atirados para servirem de alimento para os filhotes.
O casal de aves já tinha terminado a construção do mais novo ninho e já estavam se preparando para o acasalamento. Sabiam, por instinto, que em breve os escolhidos seriam devorados pelos enormes filhotes da grande rapina. Sobrevoar o Ninho com a presa era, para as águias, uma espécie de ritual obrigatório.
No solo, a maioria aplaude. Mary coloca a mão no rosto e grita o nome do amado. Um amigo a puxa para longe, para que não descubram sua ligação com Frederick. Caso isso ocorresse, Mary seria banida em definitivo da escola e cairia no mundo de Hades, onde os corpos dos cristãos e indesejados eram jogados. Bem ao centro do colégio está o caminho para o buraco negro. Jogados ali, os jovens não tinham mais nenhuma chance de voltarem a conviver com os humanos. Lá no fundo do vale de Hades, em poucos anos uma pessoa se torna zumbi.
Mary se controla a pedido do amigo e entra para o quarto. Pensa em Anne, a nova amiga querida e confiável, e deseja que ela encontre uma maneira de manter-se em segurança.
A águia segue para seu destino, o Vale do Boal, um vale onde as maiores aves de rapina, monstros e dinossauros vivem além das fronteiras do mundo. Na verdade, os dinossauros e as grandes aves não desapareceram como o mundo da ciência acredita; eles foram separados por Azazel e seus anjos e foram levados para o Vale do Boal.
Frederick observa o vale e fica impressionado com a quantidade de animais ferozes e aves jurássicas. A águia era muito respeitada no vale. Dezenas de aves enormes voam em volta de Frederick, que grita e arregala os olhos. Esbraveja contra as que tentam chegar mais próximo dele, tenta chutá-las e esmurrá-las. Elas não se atrevem a roubar da monarca águia o jantar dos seus futuros filhotes. Lá segue ela, a águia-real. Sua supremacia domina toda a região. Entre uivos e rosnados, o vale se sobressai por sua beleza inigualável. Do alto, Frederick avista lindas e gigantescas cachoeiras, árvores milenares que quase ultrapassam as nuvens com suas copas frondosas e muitas outras maravilhas. Gorilas e macacos pulam nos galhos das árvores, Dinossauros colhem suas folhas e outros atacam as “vaquetoras”, uma mistura de vaca com cavalo, cada qual com mais de seis metros de altura. Ursos imensos pescam merlins às margens de grandes lagoas salgadas. É com esses agulhões que eles se saciam e dão de comer aos seus filhotes.
Vale do Boal não é um lugar para humanos. É a morada dos anjos-maus, que preservaram o local com sua beleza ímpar, paz natural, para poderem passar as suas férias ao lado das fêmeas que escolhem para acasalar ou dar-lhes prazer.
Os anjos negros roubam lindas sereias e as levam para o vale. Por lá, a bela metade mulher, metade peixe, acaba se transmutando em anjos-fêmeas. Suas caldas são reprimidas pela magia do local e asas saem das suas belas costas em tons femininos, dando assim um visual agradável aos olhos dos anjos-maus.
Ao retornarem das batalhas contra o bem, quando normalmente sofrem perdas e dores, voam para o Vale do Boal e se confortam com as suas Sirenas. Há milhares de anos esse local se preserva da mão humana e da mão dos anjos bons, que não ousam causar destruição ao local sagrado de Azazel.
Os anjos bons sabem que em breve tudo acaba e as coisas voltam ao normal, como na Criação. A paciência dos santos é o que predomina nos corações dos bons de belos anjos.
Uma enorme águia-macho chega ao encontro da viajante e a acompanha até o ninho já construído para a fêmea. Como um batedor, ele voa à frente dela e de Frederick. O casal paira no ar balançando as asas como um helicóptero, e a fêmea vêm descendo devagar, com a presa nas garras, e a joga no ninho cheio com penas do companheiro. A queda é segura e confortável para Frederick, que cai no macio amontoado de penas brancas da águia-macho.
O jovem se levanta e limpa a bunda, tira pedaços das penas do corpo e dos cabelos encaracolados, da língua e das mãos. O ninho é grande como uma montanha. Os gravetos são, na verdade, troncos de madeira. Frederick pensa em como um filhote pode vir a morar ali sem machucar o traseiro. Tenta uma escalada para poder chegar ao topo do ninho e observar dali se há alguma maneira de escapar. As madeiras trançadas ajudam Frederick a subir.
O ninho está bem localizado, numa rocha que faz parte de uma montanha, incrustado num paredão íngreme como que dentro de uma caverna úmida. Meia hora depois Frederick consegue encontrar um buraco nas madeiras e pode ver o chão, de fato é o de uma caverna. Ele se enrola todo e tenta passar pela fresta. Meio corpo passa. Seu tronco e sua cabeça. O quadril emperra... Ele se esforça como uma minhoca, mas não consegue se desencaixar. Enquanto enverga o corpo, estica também a cabeça, como a de uma tartaruga quando sai do casco, e vê um velho em pé, do lado de dentro da caverna, olhando espantado para ele. Um velho de uns 500 anos, amassado, enrugado, esfarelado, cabelos como a neve, barba até o peito, cabelos longos e pés descalços.
— Ei! Socoooooorro! — Grita Frederick para o velho, que não se mexe do lugar.
— Seja bem-vindo meu jovem — disse o ancião.
— Bem-vindo? Tá maluco, velho? Pode me tirar daqui?
— Não dá.
— Como assim “não dá”?... Dá cá a sua mão e me puxa...
— Estamos sendo observados pelo macho. Você não o vê, mas ele nos vê.
— Como assim “observados”? Yeh?
— Yeh!
— Por que não comeram você?
— Não caí bem na barriga do filhote. Esse aí que você viu... O grandão. Ele me cuspiu e ficou mal por uns três dias, tentou me comer as três vezes e me cuspiu as três vezes. Então estou aqui, vivo — fala e dá uma gargalhada longa. — Agora você eu já não sei... Queimadinho assim, hummm... Deve ser uma delícia!
— Que é isso, velho, tá maluco? Me tira logo daqui, por favor, não quero ser comido por uma ave.
— Meu jovem, melhor ser comido por uma águia, elas te pegam no bico e jogam você dê uma só vez para a barriga. Você não vai ser triturado. Agora... Se um desses dinossauros te pegar, adeus carne moída, hahahahahahahah.
— Eu heim! Tá maluco, velho! Ninguém vai me comer não, vou dar um jeito — ele se esforça para sair e "tum", seu corpo despenca no chão da caverna aos pés do velhote.
— Muito bem, garoto.
— Dá sua mão!
O velho o ajuda se levantar.
— Estou aqui há muitos e muitos anos.
— Percebe-se.
— Pois então, vem aqui, me segue!
Frederick seguiu o velho de quem nem sabia ainda o nome. Ele caminhou para dentro da caverna e na outra ponta lá estava outra abertura... Lá embaixo, um imenso oceano a ser conquistado.
— Estou por muitos anos aguardando alguém chegar com a águia. Pareceu que nunca mais viriam. Eu já estava me esquecendo de como se fala a nossa língua.
Frederick fica pasmo de ver o tamanho do lindo oceano. Pensa numa forma de descer e se arriscar numa navegação imprudente para voltar ao mundo dos mundos.
— Nem pense nisso meu jovem — observou o velho adivinhando-lhe as intenções.
— Pensar no quê, velho?
— Em tentar sair do vale pelo mar.
— Por que não?
— Porque não.
— Alguém já tentou?
— Sim.
— Quem?
— Eu.
— Você? E por que não conseguiu? E como voltou vivo?
— Eu fui até o alto-mar numa barqueta que construí. Eu era muito jovem, cheio de vigor físico e esperança tola. Enfrentei muitas tempestades enviadas por Azazel. Superei ondas enviadas por Njord a mando de Odin. Venci baleias e tubarões até que...
— Até que?
— O barco virou e eu tentei nadar e nadar e nadar. Uma orca me pegou e me engoliu.
— Uma orca te engoliu e você está vivo?
— Sim, não está me vendo? Ela me engoliu e navegou pela costa do Vale para caçar focas. Eu queimei o estômago dela e ela me vomitou na beira da praia. Eu saí todo sujo de algas e camarões, entres outras merdas.
Frederick se apoia na parede da caverna e coloca a outra mão na cintura e fica observando o mar, pensando em como escapar daquela prisão.
*********
CAPÍTULO 5
Na igreja de Saint Sunday.
O dia passa e na verdade pouco se tem a fazer, Barry o clone ficou ouvindo música e navegando na internet, o casal Thompson nunca fizeram tanto amor na vida, Anne desce o morro caminhando e vai até a lagoa dos demônios.
Caminha em volta do lago observada por Azazel que a olha de forma fixa e odiosa, mas não se atreve a mexer com ela. O seu interesse não estava na família de Barry e sim no próprio Barry. Ela senta na beira do lago e pensa no bruxo Henry do seminário, aquele menino chamou a sua atenção. Algo especial ela sentiu por ele. Uma atração adolescente avassaladora. A paixão adolescente vem de forma cortante, eles ficam noivos com 12 anos de idade, fala em viver o resto da vida, o toque nas mãos excita.
A presença do amado faz falta, a doutrina amorosa é ser seu para sempre e estar ao seu lado eternamente. Na noite vem o sonho, no sonho vem o beijo, no beijo vem o amor, no amor vem os desejos, nos desejos vem o arrepio, no arrepio vem a esperança, na esperança vem Henry no coração de Anne. Logo ela para e repensa o seu pensamento; Barry é o foco. A vida do irmão está em perigo, e por que não dizer a humanidade.
Alguém se aproxima dela.
- Bom dia, linda menina. — Era o Cowboy que eles haviam conhecido na noite em que o carro parou na frente da igreja. Azazel travestido de cowboy.
- Olá. É o senhor?
- Por favor, senhor não. Ainda sou novo. (sorriu). — Está sozinha cadê o seu irmão. — Ele queria saber se ela estava desconfiada de alguma coisa. Porém Anne era muito esperta e não deixou transparecer nenhum duvida.
- Ele está bem, está como sempre, ouvindo música e navegando na internet.
- Que bom. Que bom. Olha. Eu consegui um bom mecânico para o seu pai.
- Acho que não precisaremos, obrigada. Nós ficaremos uns dias por aqui. O padre já conseguiu um. Meus pais estão lá com ele agora.
- Ok. Ok. Menina. Tenha um lindo dia. Manda um abraço para o seu pai, eu sei que ele ama cowboys...(risos).
- Hahahaha. Pode deixar, eu falo sim. — Opa Anne ficou esperta. Como aquele homem sabe que o seu pai adora cowboys. Eles nunca comentaram isso com ele. Naquela noite, a conversa foi rápida e o assunto foi apenas o carro e a noitada na igreja. Ele fica observando o cowboy caminhar, e em vez de botas de cowboy ele tinha patas e seu caminhar era como de um búfalo. Anne entendeu de quem se tratava e voltou correndo para a igreja.
- Ela está aqui, padre.
- Oi querida Anne. Estávamos preocupados com você.
- Tô bem, padre. Eu estava no lago. Ah papai o cowboy veio falar comigo e mandou lembranças. — Nessa hora o padre olha para ela com um sorriso sarcástico.
- E seu irmão?
- Tá no quarto.
- Anne o padre vai ter que fazer uma pequena viagem para a capital, mas é rápido, uns dois dias e, ele estará de volta. Quer saber se ficaremos bem. — Disse a mãe. — O seu pai está sugerindo para que saciemos daqui e fossemos para um hotel na estrada.
-NÃO. NÃO ISSO NÃO. — Falou Anne.
- Como filha? — Retrucou a mãe. E o padre olhou assustado com a reação dela.
- Me desculpa. Nossa! Pareço louca, né? — Pensou rapidamente, sabia que poderia estragar tudo se o padre desconfiasse de que ela desconfiava de algo. — Mamãe é que eu me sinto seguro aqui com o padre. A casa de Deus, o padre. Lá na estrada eu não me sentiria bem. Por favor. — O padre se envaide e chega perto da menina e a abraça. Ela olha para a mão do padre com raiva e ânsia.
- Entendi menina Anne. Então! Está, decidido, vocês ficam. Eu prometo se der eu volto antes de dois dias.
- Padre o senhor pode ficar o tempo que precisar, nós ficaremos bem aqui, meu irmão está feliz em qualquer quarto (risos).
- Não fale assim do seu irmão Anne.
- Brincadeirinha papai.
- Ok. Está bem, então, vou pegar as minhas coisas e logo estarei na estrada. Fiquem com o pai e bem.
- Bye padre. Não se intimide com os cowboys na estrada. É só gritar e estarei a postos com o meu alazão... Uipiiii..
Anne olha a cena ridícula do pai e abaixa a cabeça de vergonha. O padre fica sem graça ao ver tanta idiotice e a mãe olha o marido com admiração e afaga o seu rosto.
Logo o padre corre para o portal dos mundos e volta para o seminário, estava aflito, queria acabar logo com tudo e resolver o problema de Azazel e manter o seu poder e sua eternidade. Nem disfarça e vai falar com o irmão e diz que iria até a cidade, pois tinha conhecido uma pessoa e que se tornou sua amiga. Queria mostrar a cidade para ela e a convidou para dormir fora. Barry clone nem se importou e balançou a cabeça concordando em ficar só. A dificuldade agora seria como não preocupar os pais. Quando vê na internet o rodeio da pequena Browsville. Era um rodeio diferenciado. Ficaria 24 horas de animação e após as 24 h. os que ficassem firmes participariam de um sorteio, um belo cavalo do zorro, herói dos anos 50,60. Ela correu para informar o pai, que ao ouvir zorro gritou o seu iupiiiiiii e logo se interessou em ir ao rodeio.
- Doris meu amor?
- Papai. E os meninos?
- Mamãe, aqui não tem meninos e sim pessoas adultas e responsáveis. Leva o papai nessa, vai? Ele ama tanto, olha a carinha dele. — Ele faz beicinhos e abaixa os olhinhos. A mãe sorri.
- Você acha mesmo, Anne?
- Não só acho como apoio 100% o papai se divertir, afinal, ele veio para o Texas pôr que? Agora Anne tinha que fugir imediatamente. Sabia que o padre e os demais articulariam a morte do irmão. Ela aguarda o momento certo. pai pronto, Barry clone zumbi, então a menina Anne, corre para o portal.
********
No seminário.
- Muito bem senhor Din. Tem certeza de que não falta mais nada?
- Não senhor Dom Baal, não falta mais nada.
- Está muito bem. Vamos analisar o seu caso de rebeldia e voltamos a conversar. Por enquanto suas aulas de magia estão suspensas.
Din sai da sala de Dom Baal arrasado. Mas é um jovem atrevido e destemido, corre para buscar Barry e saem para assistir a aula de longe. Ele tem um binóculo de alcance com som molecular ou seja ouve tudo o que acontece há 1000 ms de distância. Chegam ao local da aula. O jardim da magia.
- Pronto Barry. Senta ai. Deixa-me ver o que vem ai de novidades.
Barry senta e fica observando a sua volta, observa Din no binóculo. E logo que começa a aula Din tira do bolso da jaqueta uma pequena Tv e entrega a Barry, assim ele poderia assistir a mesma coisa que Din.
Dom Baal, reúne, os seus mais de 80 alunos entre meninos e meninas é a aula do "SER" a maior aula do poder da magia. Era quase final do ano e o colégio sempre apresenta a magia do ano. Trás sempre alguns visitantes para demostrações, algumas mágicas eram ensinadas aos alunos, porém outras, jamais eram passadas a novatos.
Dom Baal inicia a aula transformando cinco dos garotos em anjos dourados. Uma espécie de anjo falso e mentiroso para enganar a humanidade. Baal coloca os cinco garotos, lado a lado e levanta as mãos para o alto e com sua forca mental e palavras chaves "Terra mi cantaz gloriantas" ele inicia a transformação. Aos pouco os garotos vão se sentindo fracos e se contorcendo e seus corpos vão se agigantando, seus braços vão ganhando contornos de halterofilistas, seus tórax vão ficando negros e volumosos, os cabelos loiros e lisos, as coxas vão ficando torneadas e a cada segundo os tons de dourados vai se espalhando em todo o corpo. Os cabelos loiros brilham como a luz. Os olhos de todos ficam azulados e a galera vibra ao lado de tamanha transformarão. Gritos e aplausos tomam conta do jardim da magia. Os cinco componentes estavam lá, em pé, fortes e viris. Lindos como verdadeiros anjos. As meninas gemem de amor por cada um deles. Gritam seus nomes como se fossem cantores de rock and roll.
Mezera estava lá e só olhava para o Henry. De bracos cruzados ela nem notou os anjos. Batia o pé direito no chão e sua meta era ele. O mago Henry. Dom Baal continua com as demonstrações e ensinamentos das mais poderosas mágicas do universo sobrenatural.
- Domas e Petter venham aqui. — Dom Baal os convida.
Ele pega os garotos de 15 anos e 16 anos e os coloca virado de frente para a multidão de estudantes que ainda estavam em êxtase por causa dos anjos. Baal se ajoelha e enfia a cabeça dentro da terra como uma avestruz, os meninos morrem de rir, e já que o Dom não estava vendo eles tiravam sarro dele. Uns faziam gestos obscenos em direção a bunda do professor, outros mostravam o dedo do meio, e alguns balançavam a cabeça num delicioso não. De cabeça enfiada na terra Dom Baal levanta os pés e as pernas para cima, e dobra os joelhos e na sola do sapato de mago dele, aparecem dois enormes olhos, que olha para todos que ali estavam. Todos gritam e pulam para trás de medo. Esses mesmos olhos vira para os dois garotos, Domas e Petter e um jato de fumaça sai poderosamente em cima dos dois e os cobre por inteiro. Os demais começam a tossir e abanar as mãos para afugentar a densa fumaça. Dom Baal sai do buraco e fica em pé e suga com a sua boca a fumaça que ainda estava no ar. De repente todos veem os meninos de cabelos brancos, barbas brancas, pele enrugadas, costas envergadas e mãos trêmulas. Os dois garotos aparentavam mais de 120 anos de idade. Os gritos foram assustadores, muito correram dali para dentro dos dormitórios, os amigos dos dois, tremeram e dois deles vomitaram. Dom Baal olhava para todos e repreendeu com voz severa e em alto e bom som.
- Imbecis são vocês, medrosos, falta de caráter e cruelmente dispensáveis de toda obra de Azazel. Não acredito que no meio de tantas pessoas eu não encontro um de coragem.
Ele manda chamar os que fugiram e pede demonstrações de magia para os alunos ali presentes. Então chega as irmãs Duendes, elas aparecem do nada, no centro de onde estavam os anjos dourados, os meninos de 120 anos de idade, as gêmeas grudadas têm duas cabeças e um só corpo. Quatro braços, quatro pernas , quatro tetas, quatro olhos, quatro orelhas, quatro narizes e uma boca enorme. Elas são meio taradinhas e ficam de olho nos meninos que estavam na frente da fila. Elas piscam 4 vezes de uma vez, mostram as quatro língua de uma vez para outro jovem, e os coitados colocam as mãos na boca de nojo, e os amigos batem nas costas deles e riem. As Duendes se preparam para a apresentação, aguardam a ordem de Dom. Autorizadas elas abrem a enorme boca e os olhos nos meninos, que viram o rosto de forma irônica, uma bola de fogo saí da boca das meninas em série, como boliches as bolas vem uma atrás da outra, que rolam em frente a todos que ali estavam, e uma correria se forma por todo o local. Bola bate por todos os lados e em todas as pessoas, e um frisson se faz e Dom sorri vendo a performance das siamesas. Terminada a abertura e da demonstração das meninas, o ambiente se acalma.
- Cara elas são demais..hahahahahah..Fogo puro. Hahahahhauahauhua.
Elas começam a girarem as cabeças como uma hélice de helicóptero e círculos de fogo sai em giro como papa ventos, uma série de redemoinhos de fogo sobrevoam as cabeças da meninada.
De longe Din e Barry assistem as performances dos magos e bruxas do quartel de Dom Baal. Impressionado Barry se levanta e vai até o local, como que possuído. Ele chega no pedaço e um silêncio toma conta do local. As Duendes param de cuspir fogo, os meninos e meninas que corriam de cabeça baixa, param e olham para Barry. Um clima indizível no local e Dom Baal olha para a chegada triunfal de Barry, ele fica calado e com um olhar de satisfação. Sabia que Barry iria se manifestar, era tudo que o anjo Azazel precisava para poder agir. Até o momento somente evidências a respeito do Escolhido, porém, se ele se manifestar e demonstrar o seu poder, a ordem seria dada aos 4 ventos da face da terra, então Dom Baal saí de cena e toma uma distância razoável para observar o que Barry faria.
********
Anne aparece e fica da janela observando o irmão indo para a cova dos leões. Ela fica desesperada, sabia que qualquer atitude de Barry, o seu fim poderia chegar. Aflita ela tenta se manifestar com gestos e chora, a cada segundo Barry está mais próximo da sua morte. Mesmo que ele tenha recebido poder, e se manifestar grandes magias, sua inexperiência seria fatal, os mestres ali presente, com o reforço de Baal e Azazel já estava ali como um fantasma, ninguém o via, mas conseguiam sentir a pressão da presencia maligna dele.
Barry para a frente de todos e todos aguardando o pior nas mãos de Barry. Ele suspira bem fundo, fecha os olhos e abra os braços, Todos colocam as mãos na cabeça, as siamesas se abaixam no chão e começam a tossir uma fumaça negra; COF COF COF...Barry se prepara para agir quando Din pula em suas pernas e grita o seu nome. Eles caem no chão e se embolam na terra, irando Dom Baal.
Ouve-se ÓOOOOOOOOOOOO. Barry olha para o amigo como quem tivesse acabado de acordar e Din o abraça disfarçadamente e fala ao seu ouvido: — Você não pode? Não pode entendeu? — Barry concorda com a cabeça e olha para todo mundo com rosto assustado e Dom Baal vai até ele e o levanta do chão. Resolve não contra atacar nem Din nem Barry.
- Ok. Pessoal. Por hoje é só. — Fala Dom Baal.
Ninguém fala nada, começam a despertar, olham para Barry e vão para seus dormitórios. Tudo fica vazio e somente Barry e Din ficam no local.
- Venha meu amigo.
- Din. E E Eu não sei o que deu em mim?
- Calma, não tem problema, deu tudo certo.
De longe a sua irmã com as mãos na boca aliviada corre para o quarto de Mary que estava doente e de cama por causa de Frederick.
- Precisamos encontrá-lo Anne. — Fala Mary chorosa e deita no ombro de Anne.
- Eu sei minha amiga. Eu sei. Temos que descobrir onde encontrá-lo.
- Espera? Eu tive uma ideia.
- Ideia? Mary vamos com calma, e vamos tomar cuidado. Se a gente for descoberta, é pior para Frederick e meu irmão.
- Sim eu sei. Jamais prejudicaria nenhum dos dois. A ideia é a seguinte.
Ela cochicha para Anne a sua ideia. Ela segue o básico e o que deveria ser feito para tentar encontrar Frederick.
- Vem comigo. — Ela sarou logo que teve a ideia. A esperança tomou o seu coração de tal forma, que não podia esperar nem mais um minuto.
- Aonde, nós vamos?
- Primeiro. Vamos aproveitar que tá todo mundo louco por aqui e em seus quartos. Dom Baal deve estar em conferência, como sempre faz e ninguém vê a cara dele.
Elas saem e seguem em direção aos galpões dos negros magos e seus estudantes. No caminho elas trombam com seres de outro mundo. Perto do galpão, Anne e Mary encontram o fantasminha andarilho. É um fantasminha tipo camarada de mais ou menos 1 metro de altura, um anão talvez, sem corpo, ele trafega com o seu jeito clássico de todos os fantasmas de desenhos animados. Um lençol branco somente e sem rosto, somente os dois olhos e nariz e logo abaixo a boca. Aquele lençol flutua baixo e fica resmungando enquanto segue seu caminho, como que falando com outros fantasmas, que não como ele, estão mesmo de fantasma, ou seja, ninguém enxerga somente o fantasminha. Ele passa em frente delas, e murmura mimimimumu mamam monmon e acena para as duas e segue seu caminho, elas param e esperam ele passar e Anne apavorada dá um xau para ele e o acompanha passando em sua frente. Mary a toma pelas mãos e a arrasta para seguir em frente.
Logo mais a frente alguns negros estão com dois cavalos no laco e retirando-os de um belo pasto com um pequeno lago onde peixes coloridos e voadores não nadam, mas voam por cima das águas do lago colorido da cor do arco-íris. Anne olha aquilo e nota que ali no lago está a ponta do arco-iris e elimina o belo lago e ao lado norte desse lago estava muito potes de ouro reluzentes ao extremo. Os negros com os dois cavalos riam e conversavam e ela notou que eles falavam com os cavalos que por sua vez também riam e muito. Ela olhou e viu que aqueles cavalos na verdade não eram somente cavalos, mas metade cavalo e a parte do tronco para cima eram humanos, ela pegou e apertou a mão de Mary que a olhou e sorriu. Ela parou e viu a cara dos cavalos, eram lindo e seus cabelos não eram soltos como o nosso, mas como a de um desenho, grudado na cabeça de cor dourada.
Ao lado dos potes cheio de ouro, passavam prá lá e prá cá, vários Duendes com roupas verdes e botas pretas, com chapéu de ponta, cantarolavam como um coral e traziam outros potes de ouro e apresentavam ao arco iris. Mary pega Anne e seguem caminho para o galpão onde Frederick morava. Passaram por uma enorme árvore e sua copa frondosa e imponente chamará a atenção de Anne.
- Nossa! Uauau! Mary você já conhecia todas essas coisas?
- Sim Anne. Agora eu estou fazendo esse caminho para não sermos pegas. Aquele dia, fomos pelo caminho mais curto e rápido, agora pode ser perigoso seguir por lá.
Anne para novamente e olha para cima e entre as copas das lindas árvores e com dezenas de cobras coloridas e voadoras circundam por lá. Elas sobrevoam os galhos das árvores como macacos pulando de um lado para outro. — Incrível. — Sussurra Anne. — Incrível.
As cobras brilham como vaga-lumes, seus corpos iluminam toda a parte interna da copa cheia de frutos e uma cobra bem maior do que as outras, ela estava enrolada no tronco principal da árvore com um enorme fruto na boca. Ela desloca metade do seu corpo e vem em direção de Anne que fica apavorada e abraça Mary que a segura e diz para ela se acalmar.
A cobra fica cara a cara com Anne que encolhe o corpo para trás, a cobra olha para ela fixamente, se movimentando de um lado para outro e sorrindo lhe oferece o fruto. Anne sorri meio que sem graça e ainda temerosa, olha para Mary que balança a cabeça num sinal negativo; "Não pegue o fruto", Anne então olha com nojo da serpente de uns oito ms e diz "não". A serpente se enfurece e faz um som temeroso com o seu rabo "Crararararararararar" E finaliza com outro som pela sua boca; "Grrrrrrrrrrarrrarararrr" E se encolhe de volta a posição que se encontrava.
Mary puxa Anne e continuam a caminho do galpão.
- Porque eu não podia pegar o fruto? — Perguntou Anne como toda mulher curiosa.
- A serpente que você viu é a mesma do jardim do Éden. Ela que ofereceu o fruto a Eva. Se você aceitasse o fruto, e pegasse? No mesmo instante você se tornaria uma delas. Olhe para trás?
Anne parou e se virou e na parte de trás da grande e linda árvore estava uma cobra na ponta do galho mais alto, Anne viu, metade da cobra era uma mulher. Anne corre e Mary a acompanha.
Chegando no galpão. Mary com muito cuidado, entra sem ninguém ver, e coloca em Anne como nela própria um saco escuro cobrindo o corpo das duas. Anne olha para ela como quem queria saber de onde ela tirou tal saco. Mary sorri e diz: Sou uma bruxinha não lembra?. Ambas sorriem e entram no quarto de Frederick.
- Venha Anne. Ele me disse um dia que se algo acontecesse a ele para eu buscar no chão em baixo da cama uma portinhola coberta por um tapete um buraco secreto e lá poderia estar à salvação dele.
As meninas ficaram de quatro e entraram em baixo da cama e logo aquele lugar se transformou em outro lugar. Elas ficam em pé e olham ao derredor e era um nada, olham para o chão e veem o pequeno tapete com desenhos de pirâmides do Egito e o levanta. Uma argola de ferro está a solta no chão daquela sala, Mary pega a argola e puxa. Ao abrir a portinhola ela encontra a caixa de pandora. A mesma que Frederick usou para salvar a vida de Anne ao receber a visão do futuro, quando o padre voltaria a igreja e faria um clone de Barry.
Elas pegam a caixa e saem de volta ao quarto de Frederick. Correm para fora e com a caixa nos bracos, Mary e Anne voltam para a escola de Broswille.
********
Na cidade e no rodeio de Browsville.
- Iupiiiiiii. — Grita Doris no rodeio da cidade.
- Nossa meu amor, que presente dos deuses eu aqui nessa cidade que eu nem encontrei no mapa dos Estados Unidos. hahahahahahaha.
- A cidade não estava nos seus planos meu amor? — Ela grita em seus ouvidos.
- Não. — Responde Harry.- Doris olha para ele com uma cara diferente. Mas Harry continua a pular e a dançar. Ela mostra um rosto de preocupada.
- Então como viemos parar aqui?
- O que? Não estou te ouvindo querida. — Ele responde e continua a sua alegria de um cowboy que estava perdendo a virgindade.
O som acaba e a música estava sendo substituída por um grupo de dois casais no palco. Ele ainda sorridente cumprimenta todas as pessoas que passam por ele. Doris fica meio tensa. Ela estava se sentindo num mundo fantasmagórico desde que naquela noite o carro quebrou e ficaram parados a mercê da igreja. Até aquela hora, nenhum mecânico foi ver o carro. A aparição daquele homem na escuridão não a deixou confortável. Mas era festa e seu marido estava prá lá de feliz, Doris não queria estragar isso.
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