Barreiras Invisíveis
1 Capítulo 1
Notas iniciais
No ínicio a história pode parecer meio confusa, mas vão entender tudo no fim.
A chuva não era forte, mas, ao bater no telhado do grande colégio, fazia um pequeno barulho, como lágrimas a cair. As gotas deslizavam pelas suas paredes brancas até às janelas ao vidro. Milhares eram essas janelas.
O colégio que ali estava, no meio de um grande campo que estava seco e parecia mal tratado, era enorme. Tinha uma grande porta de madeira e os rebordos dessas janelas eram feitas do mesmo modo. Aos olhos de quem ali passasse, por uma pequena estrada de terra, aquele lugar era para gente rica que tinha dinheiro para colocar os seus filhos a estudar. Mas quem olhasse com atenção poderia perceber que tinha muitas janelas partidas, remendadas com lençóis ou tábuas de madeira.
Por dentro do edifício o aspeto não era melhor. Havia algumas pequenas teias de aranhas à entrada, mas, tal como as janelas, havia milhares de portas. E dentro delas havia quem já estivesse acordado.
Dentro de um quarto pintado a roxo, várias jovens falavam entre si, trocando ideias ou roupas. Quase todas estavam prontas para sair, apenas uma jovem continuava na cama. Ela tinha cabelos loiros e o seu rosto estava totalmente relaxado, mas os seus olhos azuis abertos indicavam que não estava a dormir. Eram de um azul puro, mas tinham um brilho de um branco leitoso. Ela era cega.
— Hey, Dianne. Gosta do meu vestido? — perguntou a voz de uma garota que segurava um pequeno vestido preto nas mãos, — espera, eu me esqueci. Você não vê! — e, juntamente com ela, as suas colegas começaram a gargalhar.
Os olhos de Dianne fecharam-se fortemente, enquanto empurrava a cabeça para baixo da almofada, afim de não ouvir as conversas constrangedoras. A verdade era que há muito aprendera a ignorar as conversas alheias de gozações sobre a sua deficiência. Para as colegas do seu quarto, era quase inaceitável ter uma “anormal” a dormir sobre o mesmo teto, sendo que ela nem poderia ir às aulas por não haver professores que pudessem ensinar alguém com ajuda especial. E com a sua falta de empenho, os professores simplesmente disseram para não continuar a ir às aulas. Era um desperdício de tempo e dinheiro.
Quando a porta do quarto fechou com força e deixou de ouvir barulhos irritantes, Dianne procurou pelo seu “guia”, ou seja, um pedaço de pau embrulhado em papel de alumínio. Era ele que lhe permitia sobreviver naquela espelunca. Quando o agarrou firmemente, colocou as suas pernas para fora da cama e apoiando-se num varão que ali fora colocado para a ajudar a andar. Lenta e muito cuidadosamente andou em pequenos passos até a um roupeiro pequeno, localizado ao lado da sua cama. Sentiu as maçanetas das portas e abriu. Ao contrário dos outros roupeiros normais, este era composto por gavetas, em que nelas estavam pequenos pontos que apenas eram entendidos na linguagem dos cegos. Dianne procurou pela gaveta das camisolas e pegou na primeira que saiu que, segundo quem lhe comprou, era branca. Era fácil de identificar porque tinha pequenas missanga. Vestiu-a e voltou a escolher umas calças, mas desta vez eram pretas. Por fim, após calçar uns tênis também pretos, saiu do quarto.
Nunca tinha nada para fazer, sendo que o seu único amigo, Kevin, tinha aulas. Então, andava pelos corredores, mas não se atrevia a aventurar demasiado. Ao contrário do que as pessoas pensavam, Dianne não fazia o papel de coitadinha. Para ela já era suficientemente humilhante ser cega, não precisava de fazer birras. O que ela mais gostava naquele colégio era poder ir para os campos e sentar-se num banco para sentir o vento no seu rosto. Desde que nasceu foi obrigada a viver apenas com quatros dos cinco sentidos.
Ela apoiava-se nas paredes do corredor enquanto usava o seu “guia” para não embater em nada. Queria ir para a biblioteca, mesmo sendo irónico, mas gostava que sentir os livros e, principalmente, de falar coma a funcionária que ali trabalhava. Era bom ter alguém do sexo feminino para poder trocar opiniões sobre amores, mesmo que se sentisse envergonhada nessas conversas com a bibliotecária. Mesmo que gostasse muito do seu amigo, Kevin, não poderia negar que tinha muita falta de feminismo. Algo que sabia que ele não lhe poderia dar, mesmo tendo-lhe contado que era gay.
Demorou algum tempo até chegar ao corredor da biblioteca. Com medo de se enganar, ela precisava de andar o mais lentamente possível para não cair.
— Dianne! — chamou uma voz atrás de si, sendo reconhecida por Kevin. — A Srª.Dudmou faltou — disse, pegando num dos braços da sua amiga.
— Está a chover? — perguntou ela enquanto caminhava mais confiante com a ajuda dele.
— Um pouco.
O resto do dia foi passado da mesma maneira que os outros. Ela sempre acordava, ia para a biblioteca, depois voltava para se encontrar com Kevin e almoçavam, fazendo-a depois voltar para a biblioteca ou ia para os campos. Mesmo estando habituada a uma vida monótona, de certo modo começava a ficar farta. Dianne sentia que estava presa a si mesma, que não tinha nada mais além de uma barreira, mas que não a podia derrubar senão ficava perdida.
Xxx
Outro dia igual, outra semana idêntica. Era assim que sempre passava a sua vida.
Aquele dia não seria diferente. Vestiu-se e saiu do quarto, mas não queria voltar para a biblioteca. Estava farta. Por isso decidiu que seria louca naquele dia. A sua vida precisava de uma pequena loucura.
Em vez de virar à direita para a biblioteca ou seguir em frente para as salas de aula e o refeitório, ela foi para a esquerda. Raramente ia por ali se não estivesse com Kevin, tinha medo de não saber o caminho de volta, mas agarrou-se à parede para se movimentar pelos corredores. Não havia um único barulho, indicando que estava totalmente sozinha. Virou à direita, depois à esquerda e seguiu em frente para voltar a virar para a esquerda. Cansada, ela sentou-se no chão e colocou a cabeça apoiada nos joelhos. Não havia nada de novo, nunca existia o “renascer” para ela.
Ficou ali sentada tendo apenas o silencio como acompanhante por um longo tempo. Pensava na sua vida e em tudo o que a rodeava. Pensava no que poderia fazer, no que queria sonhar seguir. E assim ficou, mas uma pequena voz a despertou.
— Está aí alguém? — era uma voz jovem, possivelmente de uma criança. Dianne levantou a cabeça e tentou ouvir de onde vinha o som, mas parecia que ecoava na sua mente.
— Eu. Quem é você? — perguntou a jovem, levantando-se para tentar chegar ao pequeno ser feminimo, pois era o que dava a entender pela voz aguda.
— Meu nome é Nadainna.
— Sou a Dianne. — ficaram assim em silêncio, até ser quebrado pela pequena.
— Consegues me ver?
— Não. Sou cega. — respondeu, voltando a sentar-se no chão. Sentia um pequeno ar no seu pescoço, indicando ali a presença da Nadainna.
— Eu também era — anunciou ela animadamente. — você vive aqui?
Dianne perdeu-se em pensamentos antes de responder. A verdade é que nunca tinha ouvido que existia ali uma criança, muito menos que ela se chama-se “Nadainna”. Nem sabia que esse nome existia.
— Sim. Também aqui vives?
— Não — respondeu apenas, instalando o silêncio entre elas. Não era constrangedor, era apenas calmo.
— O que você aqui faz? — Dianne perguntou para poder ter alguém com quem conversar. Deveria ser a primeira pessoa que não lhe chamava de coitadinha ou tinha pena. Bem, Nadainna era uma criança, então não parecia muito capaz de poder compreender esse problema.
— Trouxeram-me para aqui há muito tempo. — Antes que a jovem pudesse perguntar mais alguma coisa, o toque da campainha tinha tocado. Se Kevin não a visse na biblioteca começaria a ficar preocupado.
— Tenho de ir — disse amavelmente, tentando levantar-se com o seu “guia”. — Você sabe o caminho de volta?
— Sim. Tem de virar à direita, seguir em frente para virar novamente à direita e depois para a esquerda. Voltas para me ver? — a voz da criança parecia carregada de animação, mas ao mesmo tempo de tremor por não voltar a falar com ninguém.
— Sim. — respondeu Dianne com um rasgado sorriso na cara. Mesmo que a garota fosse uma criança era ótima companhia para estar. Por fim despediu-se dolorosamente dela e seguiu pelo caminho indicado.
Percebeu que tinha chegado ao corredor que levaria ao refeitório por que havia imensas vozes conversadoras a seu lado. Sempre se sentia desorientada em sítios movimentados. Não sabia onde ir e onde estava uma pessoa. Quando ela embatia em alguém, eles empurravam-na furiosos sem compreender que ela não tinha culpa. O seu maior problema era que ninguém, nem mesmo Kevin, a conseguia perceber. Ela fora obrigada a criar o seu próprio mundo e ninguém conseguia entrar nele porque Dianne não tinha bilhetes de entrada.
— Você está aí! — exclamou a voz aliviada de Kevin quando acordou a sua amiga dos profundos pensamentos. — onde estava?
— Fui passear — respondeu enquanto andava de braço dado ao seu amigo que a guiava para uma mesa de almoço. Sentou-a cuidadosamente e voltou cinco minutos depois com dois tabuleiros de comida.
— Esparguete à bolonhesa — disse antes de Dianne poder fazer a sua pergunta diária. — deste lado está a massa — colocou o garfo na mão da amiga e indicou a comida — aqui a carne.
— Eu sei, Kevin. — resmungou ela. A verdade era que lhe incomodava ser um peso morto nos ombros do amigo. Não queria ser dependente dele.
— Você foi aonde?
— Aventurar-me nos corredores — declarou enquanto comia. De vez em quando falhava ao colocar os talheres no prato.
— Até você se perder...
— Eu não sou estúpida! — disse furiosa. Odiava quando ele se armava em seu pai, como a tratando como uma criança. Era irritante.
— Eu nunca disse que o eras. Mas andares por aí não é nada bom. — ela suspirou. Ele tinha razão, como sempre tivera, mas Kevin era como uma fechadura que a prendia no seu mundo não a deixando sair.
— Encontrei uma pessoa. Uma criança.
— Crianças aqui na escola? Que eu saiba não...
— Ela disse que não morava ali, mas que fora obrigada a entrar. Chama-se Nadainna. — Kevin olhou desconfiado para ela. Era comum a sua amiga inventar algumas histórias como se as quisesse viver. Era possível que a criança tivesse sido da sua mente. Como lendo os seus pensamentos, Dianne acrescentou — Não era imaginação minha!
— Certo. Acreditando que de facto era uma criança, nunca conheci ou ouvi esse nome.
— Mas era. Mesmo que o nome seja estranho eu não estou inventando nada. Eu falei com ela.
O assunto não voltou a ser tocado.
XxX
Os dias que se seguiram foram os melhores para Dianne. Todos os dias ia para o corredor onde falava com a criança. Nunca lhe perguntou por que sempre ali ficava. Adorava a sua companhia para a afastar.
— Você gosta de alguém? — perguntou Naidanna enquanto passava uma das suas pequenas mãos pelos seus longos cabelos castanhos. As duas garotas estavam sentadas no chão, encostadas à parede.
— Não. A minha vida é limitada em apenas a sobreviver para me poder apaixonar.
— Para mim não faz sentido. — disse a garota enquanto encolhia os ombros. — Eu gostava de me apaixonar.
— Que idade você tem? — perguntou Dianne contendo o riso. Era estranho falar com uma criança que parecia um adulto.
— Eu tinha oito anos... — falou de maneira incerta.
— Você já não tem?
— Não sei... que idade tem você?
— Dezasseis anos, mas mesmo assim sinto que sou mais velha, como se tivesse vivido metade da minha vida. Mas você não compreende. É muito nova.
— As pessoas costumavam falar para mim que eu era jovem para entender as coisas, mas eu sempre entendi.
— Dianne? — Chamou uma voz a seu lado. A jovem identificou como sendo Kevin. Como ela a tinha encontrado? — Com quem estás a falar?
— Kevin, esta é a Nadainna — apontou para onde pensava que se encontrava a criança.
— Mas... não está aí ninguém! — disse desconfiado. Não havia ninguém ali à exceção da sua amiga loira. Nada mais.
— A Nadainna não está aqui? — perguntou ela, enquanto tentava procurar com o seu “guia” a garota, mas não encontrou nada. — Eu estava a falar com ela.
— Bem, você estava falando, mas com a parede.
— Não! Eu estava a falar com a Nadainna!
— Dianne, não está aí ninguém...
— Ele não me vê? — perguntou a voz da criança assustando Dianne. Ela tentou escutar de onde vinha o som, mas este, como sempre, parecia ecoar na sua mente.
— Ela está aqui. Não a ouves?
— Não. — Kevin começava-se a assustar com a sua amiga. Sabia que os problemas de saúde dela poderiam levar a uma psicose pela enorme necessidade de querer entender o mundo, mas ouvir vozes era algo que ele não esperava.
— Como você me consegue ver? — a voz dela ecoava na sua mente que parecia prestes a explodir. Tudo passou tão rapidamente que nem tempo tivera para tentar compreender o que se estava a passar, mas perguntas surgiam agora: Kevin estava a brincar com a sua visão ou realmente... Nadainna não existia?
— Não sei. O que se está a passar? — o seu amigo não conseguiu perceber se ela falava com ele ou com a sua imaginação. Falava para o nada.
— Dianne, vamos, por favor — pediu ele, puxando-a daquele corredor.
Andaram de volta até ao quarto das garotas onde ela dormia. Cuidadosamente ele colocou-a sobre a cama e pegou num pequeno frasco de comprimidos. A sua médica tinha lhe receitado para quando se enervasse demasiado. Ajudaria a adormecer.
Kevin ficou andando pelo quarto até sentir a respiração profunda da amiga, saindo em seguida para a biblioteca. Este local era enorme e com imensos livros. Qualquer informação necessária encontrava-se ali.
Mesmo achando que a sua amiga estava louca, Kevin não pode evitar pensar se ela realmente não estivesse. Algo estava a acontecer. Quando entrou foi até à bibliotecária, uma senhora já idosa e gorducha.
— Procuro umas informações sobre... uma criança — pediu-lhe incerto. De certeza que havia milhares de noticias sobre crianças ali. Contudo tentar encontrar uma Nadainna não seria complicado.
— Que tipo de informações, meu querido? — perguntou ela amavelmente.
— Ela chamasse Nadainna. É a única coisa que eu sei. — a bibliotecária sorriu para ele e sentou-se numa cadeira preta de pano enquanto procura algo no PC da escola. Este apenas poderia ser usado por ela. Enquanto existia o silêncio, Kevin sentou-se numa cadeira, esperando por uma resposta.
Após o que parecer horas, a bibliotecária levantou-se e deu-lhe um pequeno monte de papeis, saindo em seguida.
O dia começava a escurecer e com toda aquela confusão ele faltou às aulas. A primeira folha era de um jornal muito antigo, quase que as letras eram invisíveis de tão gastas, contudo conseguiu perceber o cabeçalho: Foi encontrado um cadáver de uma criança no Colégio Interno School.
Passou horas tentando decifrar alguma informação daquele papel, escrevendo todas as pistas na mesa com um lápis. Quando finalmente a noite caiu, Kevin olhou para o que tinha encontrado. Durante cinco minutos tentou juntas as palavras no papel gasto, conseguindo obter as seguintes frases: “O assassínio da criança ocorreu há muito tempo […] o CIS pode ter sido construido mesmo em cima dela […] apesar de os ossos estarem desgastados […] o seu nome era Nadainna […] cega.”
Nadainna... o seu nome era Nadainna. Não... simplesmente não era possível, pensou Kevin, erguendo-se o mais rápido possível até à bibliotecária, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, ela lhe respondeu:
— Lamento, meu querido, mas vamos fechar. Eu o ajudo amanhã — e com isso apagou as luzes da biblioteca, deixando Kevin entregue às duvidas e à escuridão.
Xxx
Na manhã seguinte ele reparou que Dianne ainda estava amargurada com ele. Sabia que tinha exagerado com ela, pensava que estava louca, mas naquele momento o louco era ele.
— Não preciso de você hoje. Independentemente se esteja sonhando ou não eu vou voltar — disse chateada, enquanto saía da sala de refeições, mas foi impedida por ele que lhe agarrou o braço.
— Vem comigo — pediu, a levando de volta à biblioteca.
Sentaram-se a uma mesa o mais distante possível dos ouvidos curiosos dos que os rodeavam.
— Olhe, me desculpe pelo meu comportamento de ontem. Eu achei que você realmente pudesse estar louca, mas — acrescentou em seguida quando viu que a sua amiga se iria opor — eu fui procurar por algumas... informações. Bem, a Nadainna existiu... ela foi encontrada em... cadáver aqui na escola — inesperadamente Dianne gargalhou de forma estrondosa. Ela era a louca, mas ele pensava que havia fantasmas?
— Olhe — disse quanto o seu ataque de riso passou — eu sei que você quer tentar encontrar uma razão para eu não ser “A louca”, mas agora dizer que ela está morta, que ela é um... fantasma? É...
— “Foi encontrado um cadáver de uma criança no Colégio Interno School.” — leu o titulo do jornal que viu ontem, continuando pelas informações descobertas. Dianne estava em silêncio, não sorria, mas os seus olhos não acreditavam nele. Era impossível.
— Sabe, eu acho que você é que está precisando de tomar os remédios para a loucura — falou secantemente.
— Se eu estou louco me diga porque é que eu não consigo ver a garotinha? Me explique, por favor, porque não estou entendendo!
A verdade é que Dianne também não estava a entender nada. Nada fazia sentido. Mesmo que pudesse colocar a questão de que ele estaria a zoar com ela, conhecia Kevin o suficiente para saber que ele não fazia isso. Mas encarar a possibilidade de que... não, não era aceitável.
— Então, se ela é um fantasma, porque eu consigo falar com ela? Porque é que eu a sinto?
— Os espíritos são invisíveis, mas não intocáveis. Eu estive a pesquisar ontem à noite quando saí daqui. Se o espírito da criança está aqui no colégio, qualquer coisa está a prende-la aqui.
— Mas o corpo foi retirado...
— Não tem de ser o corpo. Pode ser qualquer coisa, como um objeto, um amuleto... — enquanto Kevin falava, Dianne lembrou-se de algo que a criança disse: “Trouxeram-me para aqui há muito tempo.” — ... mas ela foi encontrada fora do colégio, então pode estar em qualquer lado...
— Ela disse que a trouxeram para aqui. Algo está aqui, mas como vamos descobrir?
— Porque você não lhe pergunta se ela perdeu algo... algo que tenha sido importante.
Xxx
Apesar de Kevin insistir em resolver o “caso”, nas semanas que se seguiram era o que menos Dianne queria. Mesmo que a sua nova amiga fosse um fantasma, gostava de falar com ela sobre a vida, sobre os sonhos, as paixonetas, os amigos, os gostos, falaram sobre tudo do que fosse visível à cegueira de Dianne. Ela não queria negar a sua companhia, mas também não se podia esquecer que a criança não pertencia àquele lugar. Ela não deveria estar ali.
— Posso lhe fazer uma pergunta? — questionou ela, enquanto estava sentada numa cadeira que colocaram ali.
— Claro. — a voz de Nadainna era animada na sua mente.
— Você já perdeu algo? — pergunto temerosa com a questão. Poderia ser ofensiva para a menina. — algo que realmente gostasse.
— Muita coisa. Os meus irmãos me tiravam quase tudo o que pertencia. Odiavam-me.
— Os... teus irmãos? — nunca houve nenhuma referência a um familiar da criança.
— Sim, mas eles já não estão comigo. Eu perdi o meu peluche. Era um pequeno ursinho. Foi isso que me trouxe até aqui.
Peluche... nunca tinha visto nenhum peluche na escola. Provavelmente ele nem deveria existir mais.
— Como ele era?
— Era de pano. Foi a vovó que o fez. A última vez que o vi foi num lugar escuro... tinha um cheiro estranho, eu não gostei de lá, por isso fugi e não voltei a ver — o seu tom infantil era como uma faca no coração de Dianne. Nadainna era só uma criança. Uma pequena criança. Inocente.
O resto do dia foi calmo, mas na hora do jantar Dianne não tardou a contar a sua descoberta a Kevin.
Este pensou a noite toda enquanto estava deitado na sua cama. Partilhava o quarto com outros garotos, mas não era incomodado por nenhum deles. Pegou num pequeno pedaço de papel que tinha todos as salas da escola e procurou por algo que indicasse um lugar sujo. Procurou mais de metade da noite até finalmente encontrar a resposta. O laboratório.
Vestiu um robe e pegou numa pequena lanterna. Naquele horário todos os corredores estavam vazios, por isso não teve nenhum impedimento até à sala. O lugar era sujo e tinha um cheiro repugnante a químicos. Era pequeno e estava um pouco destruído, pois os alunos não tinham aulas naquele lugar. Procurou a noite toda, foi aos grandes e pequenos armários que ali estava espalhados, retirou todos os frascos de químicos com o maior cuidado para não fazer nenhuma explosão. O sol já nascia e ele transpirava, deitando pequenas gotas de suor para o chão. Por fim, quando parecia já ter revistado tudo, deste cadeiras a mesas e até sacos de lixo que ali estavam ele pensava em desistir, mas ao sair reparou numa coisa preta no chão. Estava entre um armário e a parede.
Kevin retirou as teias de aranha que ali estavam e puxou o objeto dali. Era o peluche mais estranho que já via, estava gasto, sujo e deformado. Mas aquela era a fechadura para Nadainna.
Xxx
Dianne não queria queimar aquele peluche. Não queria ficar longe da criança. Era quase como uma filha para ela, mesmo não tento muita noção do que era o amor materno, pois os pais a tinham colocado naquele colégio para não terem de substentar um cega.
Todas as pessoas a julgavam, quer por repulsa como por pena. Nadainna era como ela, era a única que a compreendia. Passaram meses juntas e, de certo modo, Dianne sentia que a sua vida se ligou à criança. Que estavam inseparáveis.
— Eu sei o que você é — disse Dianne com a cabeça entre as pernas, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. Não sabia qual era a reação da sua menina, mas foi um longo silêncio até ela falar.
— Ainda bem — a sua voz era animada e infantil, aquela voz que a jovem adorava. — esperava que percebesse mais cedo, antes de encontrar o peluche.
— Como... você sabia disso? — perguntou Dianne confusa. Em momento algum lhe falou sobre o peluche.
— Eu sei tudo.
— Quem é você?
— Dianne, eu não sou um fantasma. Em tempos antigos eu fui humana, mas agora já não o sou. Os meus pais odiaram-me quando eu nasci cega e os meus irmãos infernizaram minha vida até que eles me mataram. Eu não me recordo bem do que aconteceu a seguir, apenas senti uma pequena convulsão e eu estava numa sala iluminada e estava um senhor à minha frente. Ele tinha um ceptro na mão e dizia ser um ceifeiro. Ele deu-me um desejo e eu escolhi poder voltar a ver, algo que eu sempre sonhei. E assim foi. Mas não era tudo. O ceifeiro me trouxe à vida para eu poder ter uma segunda oportunidade, mesmo não compreendendo o que ele queria dizer com aquilo. E assim eu voltei, assistindo à queda daqueles que me desprezaram. Um dia eu vi uns garotos trazendo o meu antigo peluche para o colégio e soube que estaria presa, para sempre. Eu nunca tive medo, nem mesmo quando morri. Mas naquele momento eu tinha medo de ficar sozinha. De me sentir abandonada, mas agora eu entendo que não estou. Eu tive a minha segunda oportunidade para ser amada. Eu não sou um fantasma, sou apenas... eu.
Era muita informação confusa para a mente de Dianne. Sem perceber como ela sentia o peluche na sua mão e um isqueiro na outra. Entendeu o que teria de fazer.
— Você vai voltar? — perguntou incerta.
— Sim, eu vou voltar. — e assim Dianne acendeu o isqueiro.
Mas a verdade era que Nadainna não voltou mais.
Fale com o autor