Na verdade, Vivien estava amedrontada de estar ali. Só de pensar no fato de que já havia pegado detenção por ter quebrado uma das regras da escola e que agora encontrava-se ali, não cumprindo-a e fugindo, fazia com que ela quisesse dar meia volta e sair correndo para a biblioteca.

Mas não faria isso. Não naquela noite. Queria provar para aquele idiota do Shane que podia ser uma menina descolada, que algumas vezes não dava a mínima para o que os outros diriam. Ela era a última do grupo, alguns metros atrás deles. Podia ver Shane, Betsy e Grant andando decididos na frente. Podia ver Harmony um pouco mais atrás, recebendo algumas cantadas de Eric. E podia observar Dylan, olhando para os dois, com uma expressão triste e desapontada. E por nenhum instante, Vivien desconfiou que Dylan poderia estar sentindo ciúmes de Eric e Harmony.

"Não é ciúme!", pensou Dylan. "Mas ela parece ser uma menina legal. E eu me sinto atraído por ela". Ele apertou o passo para tentar acompanhar Shane, que andava um pouco mais na frente. Deu uma última olhada para Harmony, e pôde vê-la desvencilhando-se de uma investida de Eric para beijá-la.

Dylan sentia uma pontada de raiva. Mas era ridículo pensar naquilo. Afinal, nunca havia reparado em Harmony direito até aquela noite, e observar Eric dando em cima dela não faria com que ele, algum tempo depois, pudesse tentar investir na garota. A não ser que Eric e Harmony namorassem, o que a tornaria um território proibido.

"Mas isso não vai acontecer...", pensou ele.

A caminhada durou mais alguns minutos, e finalmente chegaram ao lugar onde Grant havia dito que iria levá-los. Eles pararam em um corredor mal iluminado pelas velas ainda acesas, e esperaram pelo próximo movimento de Grant. Ele olhou para os amigos, animado, e apontou com as duas mãos para uma parede, como se estivesse apresentando uma próxima atração circense.

- Tchã rã! — exclamou ele, animado.

- Mas que merda...? — perguntou Vivien.

Betsy começou a rir, assim como os meninos.

- Calma aí, Viv, você nunca ouviu falar da Sala Precisa? — perguntou Betsy.

- Não — respondeu Vivien, sentindo-se a pessoa mais desatualizada do mundo.

- Querida, é um lugar também conhecido como Sala Vai-e-Vem — começou Betsy — É uma sala que aparece e desaparece.

- E geralmente, aparece para quem realmente precisa dela — disse Eric.

- Ela pode se tornar o que você quiser — completou Betsy.

- Mas no nosso caso, vamos a uma versão dela um tanto bagunçada — disse Grant.

Ele parou em frente à parede, e ficou a observando, como se ela estivesse passando algum filme. E de repente, para a surpresa de Vivien, uma enorme porta foi se formando da parede. Aos poucos, ela já havia ganhado forma, o que deixou Vivien e Harmony completamente pasmas.

- E essa é a nossa porta de entrada — disse Shane.

- Ah, sério? Não brinca! — ironizou Vivien.

- Viv, eu não sabia desse lugar — sussurrou Harmony em seu ouvido.

- Nem eu! — disse Vivien, mais baixo ainda.

Grant abriu a porta, e fez um sinal para que todos entrassem. Vivien e Harmony foram as últimas, mas pararam na frente da porta, assustadas. Elas olharam para Grant.

- Podem ir. A Sala Precisa não morde. Mas eu sim — disse ele.

Vivien foi na frente, com uma Harmony medrosa segurando sua mão. A sala não estava escura, e as duas haviam visto do lado de fora o que havia ali: montes enormes de tralhas, formando inúmeros corredores. Livros, mesas, gaiolas, cadeiras e várias outras coisas formavam os montes. O que assustava Harmony era que, ao saber que a sala sumia e aparecia, os sete pudessem ficar presos ali por um tempo indeterminado, até a sala resolver aparecer novamente.

Mas Harmony por um instante esqueceu desse pensamento ao perceber o quão grande era a sala. Parecia que os montes não tinham fim. Era realmente muito grande.

Grant passou ao seu lado, puxando seu braço.

- Venha, vamos encontrar um lugar bom para ficar — disse ele.

O grupo continuou seu caminho, até que encontraram um lugar amplo, em forma de círculo, cercado pelos montes de tralhas. Eles sentaram ali, e se acomodaram.

- Calma aí, um instante... — disse Grant, e levantou-se em seguida.

Ele andou apressado na direção de um corredor, e em menos de um minuto, voltou com duas garrafas de hidromel.

- Agora sim! — exclamou Betsy.

- Opa, opa! — disse Dylan — Mas como você achou isso?

- Cara, da última vez que eu estava aqui...

- Sozinho? — perguntou Shane.

- Isso não vem ao caso — respondeu Grant, arracando risadas de todos, e continuou — Eu vi essas garrafas de hidromel aqui, e pensei: da próxima vez que eu tiver a oportunidade, vou beber com meus amigos!

Shane, Eric, Dylan e Betsy aplaudiram.

- Então eu as escondi em um lugar estratégico... E aqui estamos nós!

- Meu Deus, eu preciso de um gole generoso — disse Betsy.

Ela pegou uma das garrafas da mão de Grant, e deu algumas goladas. Quando acabou, pela expressão de seu rosto, parecia que havia comido baratas.

- Ai, eu odeio hidromel — reclamou ela.

- Tô vendo! — disse Vivien.

Harmony riu.

A garrafa foi sendo passada pelo círculo depois de Betsy ter bebido. Até que parou em Vivien, que passou direto para Betsy de novo, pulando também Harmony.

- Opa! Espera aí! — alertou Shane — Você não vai beber?

- Olha aqui, eu já estou aqui com vocês, fugindo de uma detenção. Pode me chamar de robô que nada vai me fazer tomar essa bebida!

- Tudo bem, tudo bem... — disse Shane.

- Então, pelo menos vê se a sua amiga quer — sugeriu Eric.

- Eu e Harmony não bebemos! — disse Vivien — Ou você vai querer experimentar? — e olhou para Harmony.

Apesar da expressão de Vivien estar normal, Harmony sentiu-se pressionada. Ela passou a mão em seus cabelos escuros e cacheados, olhando em sua volta. Todos olhavam para ela, e Harmony pensou que se não desse a resposta certa, seria boicotada por todos.

- Um golinho não faz mal, Viv — disse Harmony, pegando a bebida da mão da amiga.

Vivien ficou surpresa com a atitude de Harmony, que em dois goles, fez uma careta muito feia.

- Assim que se fala, garota — disse Betsy.

- Harmony, se você quiser beber, eu não ligo. Mas vai devagar, hein — disse Vivien.

- Pode deixar, amiga, foi minha única golada da noite — disse Harmony.

Passada um hora, todos, menos Vivien, já riam como bêbados, e diziam coisas estúpidas que fazia com que todos caíssem na gargalhada. Apesar de não beber, Vivien não ficou tão preocupada com isso e acabou divertindo-se também. Ela ria e cantava como os outros também faziam, e apenas algumas vezes olhava para Harmony.

Vivien nunca havia visto Harmony daquele jeito. A menina estava feliz, e ria junto com Betsy. Harmony não era de ficar assim, tão desinibida. Foi sempre uma garota mais tímida e reservada na frente das pessoas. Vivien era uma das poucas exceções em que Harmony era ela mesma, e se soltava por inteira.

Mas naquela noite, a história era outra, e Harmony enfim, parecia estar mostrando a todos quem ela era de verdade. Talvez era verdade o que muitos amigos seus já haviam lhe dito: o álcool não te altera. Apenas faz você botar pra fora tudo aquilo que você sente. Simples assim.

Uma das garrafas já havia se esgotado, e a outra já estava na metade. Provavelmente, eles ficaram bêbados tão rápido devido a estarem de barriga vazia, por não terem comido nada, e por terem praticamente virado o hidromel.

- Muito bem! Tudo está maravilhoso, só que eu acho que a gente pode melhorar essa parada — disse Shane.

- O quê podemos fazer? — perguntou Harmony.

Shane pegou a garrafa vazia, e a colocou deitada no chão. Ele a girou uma vez, sinalizando a sua ideia.

- Verdade ou consequência? — perguntou ele.

Todos aplaudiram. Vivien, por incrível que pareça, adorou a ideia. Seria uma ótima maneira de poder mandar Shane beijar seu pé, ou lamber algum objeto bem empoeirado.

- A-do-ro — aprovou Betsy.

- Calma aí — disse Grant — Vale tudo?

- Tudo! — respondeu Betsy.

- Na medida do possível, né? — perguntou Vivien.

- Claro, amiga! Ou você acha que eu vou sair dando por aí? — perguntou Betsy.

- Bem, eu acho... — disse Vivien, com um sorriso no rosto.

- Sua vaca! — riu Betsy.

Todos riram da piada de Vivien, o que fez com que a menina se sentisse mais à vontade. Afinal, ela não poderia fazer um papel tão idiota quando o de qualquer um que estivesse ali, bêbado.

Eles ajeitaram-se no círculo, e Shane esticou seu braço para girar a garrafa.

- A boca da garrafa é quem pergunta, e o fundo é quem responde — avisou ele.

Ele girou da primeira vez, e Shane perguntou para Harmony.

- Consequência — ela respondeu.

- Ui, temos um valentona por aqui! — zombou Shane.

Vivien já sabia o que Shane iria sugerir.

- Tudo bem, Harmony. Selinho no Eric! — disse Shane.

"Mas que porra!", pensou Dylan.

Harmony corou por uma momento. Eric riu para ela. Harmony se deu conta de que, apesar de não estar beijando Eric pra valer, ela tocaria em sua lábios. Nos lábios do menino que ela admirava passando nos corredores, dos olhos claros, e que naquela noite, gostaria muito de beijá-la.

- Ok, então — disse ela, ficando de joelhos. Ela aproximou-se de Eric.

- Dez segundos — disse Shane.

Ela olhou para Eric. Eric riu para ela mais uma vez.

- Tá esperando eu chegar em você? — perguntou ela.

Ele olhou surpreso, e em seguida, aproximou-se dela. Seus lábios se tocaram, e Shane começou a contar em voz alta. Quando ele alcançava o cinco, Harmony pôde sentir a mão de Eric em seu pescoço, pressionando seus lábios ainda mais contra os dele.

Eric começou a beijá-la, e Harmony retribuiu. Ele pegou em seus cabelos cacheados, enquanto Harmony passava suas nas costas do garoto.

- Eita — disse Betsy.

Os dois sentaram-se então, ainda se beijando. Eric apoiou suas mãos no chão, inclinando-se para Harmony, que pendurou em seu pescoço, e continuava a beijá-lo. Depois de perceber que haviam passado provavelmente o quíntuplo do tempo que deviam trocar um mísero selinho, Harmony afastou-se dele, mas não sem antes dar uma leve mordida nos lábios de Eric.

Eric sentiu um arrepio na nuca com a mordida, e agora devia sentar um pouco de lado para que ninguém pudesse perceber o quão excitado estava. Se ele pudesse, e se os outros não estivessem ali, com certeza teria tirado a blusa de Harmony, e ter feito sexo ali mesmo, no chão frio da Sala Precisa.

- 30 minutos... Muito bem, podem parar de se beijar — disse Shane.

Harmony riu, sem graça. Eric olhava para ela mais intesamente do que nunca. Dylan tentava não se importar com a cena.

- Muito bem, vamos ver quem será agora — disse Shane. Ele girou a garrafa, e Harmony perguntou para Eric.

- Consequência — respondeu ele.

- Então tá. Deixa eu ver... — pensou ela — Já sei! Um selinho na Vivien.

Vivien riu.

- Cara, entende o significado de selinho? — perguntou Dylan.

- Claro, claro — disse Eric — Meu interesse em algo mais era com outra — Harmony corou — Vou deixar a ruiva pro Shane.

- Opa! — respondeu Shane.

- Nem fodendo — falou Vivien.

Todos riram, menos Shane, que a ficou observando com uma cara maliciosa.

- Depois que você provar disso, Ginger, você não vai querer outra coisa — disse ele.

Vivien o ignorou, e ajoelhou-se para dar o selinho em Eric. E pronto. Já haviam dado, e voltado a seus lugares.

- Tão rápido! — disse Dylan.

- Você não falou o tempo, mané! — disse Eric.

- Tem razão. Vou me lembrar da próxima.

Vivien pegou a garrafa, e girou.

Dylan perguntou para Betsy.

- Consequência caliente — respondeu ela.

- Selinho no Grant — respondeu Dylan, sem pestanejar.

Grant e Betsy estavam sentados um do lado do outro. Então, apenas esticaram seu pescoço para a troca de selinho que duraria cindo segundos.

Assim que seus lábios se tocaram, Grant investiu para beijar Betsy. Ela se afastou, e olhou surpresa para ele.

- Cara, você tá achando que fazendo a mesma coisa que o Eric fez você vai conseguir me beijar? — perguntou ela.

Todos ficaram surpresos com a fala de Betsy.

- Eu... — começou Grant sem graça.

- Porque querido, deu certo — e ela tascou um beijo em Grant que fez com que todos na sala perdessem o fôlego.

Shane e Eric começaram a rir.

- Cagou na retrance, hein, Grant? — disse Eric.

Sem interromper o beijo, Grant apontou o dedo médio para Eric, que rolava de tanto rir. Grant e Betsy não paravam de se beijar, e quando eles paravam, e todos pensavam que retomariam o jogo, eles continuavam o beijo.

- Nós estamos aqui — lembrou Shane — Querendo dar selinhos também.

Betsy e Grant se afastaram.

- Meu Deus, que pegada, Grant! — disse Betsy.

- Quer continuar? — perguntou ele.

- Agora não dá, filho, eles também querem jogar! — disse Betsy.

- A gente pode ir ali atrás... — sugeriu ele.

- Tá beleza — concordou ela, levantando-se — Galera, tentem continuar sem mim.

E saiu apressada para um dos corredores da Sala Precisa, com Grant em seu encalço.

- Caraca... — disse Eric — O negócio vai ficar pegado.

- Se vai... — disse Dylan.

Os cinco restantes continuaram a jogar. Eric rodou a garrafa. Eric perguntou pra Vivien.

- Consequência — pediu ela.

- Selinho no Dylan — respondeu Eric — Cinco segundos.

Dylan e Vivien trocaram o selinho, e voltaram para seus lugares.

- Você beija bem — brincou Vivien.

Dylan riu. Ele girou a garrafa. Harmony perguntou para Shane.

- Acho que devia ser só Consequência o nome desse jogo — disse ele.

- Muito bem, então. Vou te surpreender... — disse Harmony — Me dá um selinho. Dez segundos.

- Opa, realmente é uma surpresa. Não sabia que você queria tanto o meu beijo — disse Shane.

- Você não sabe o quanto — zombou ela.

Shane e Harmony também trocaram o selinho, mas quando sentaram-se, ninguém mais rodou a garrafa.

Eles ficaram se encarando um pouco, até que Eric disse:

- Já que ninguém roda a garrafa... Já tava ficando chato mesmo, então... Cada um arranja um par... — e foi se aproximando de Harmony. Ela riu, botando seus cabelos cacheados em frente a seu rosto.

Quando ele estava ao seu lado, ele tirou seus cabelos da frente, e lhe deu um beijo. Harmony retribuiu novamente.

- Parece que vai ser nós três agora — disse Shane.

- Fecha a roda e vamos brincar de falar verdades então — sugeriu Vivien.

- Beleza — concordou ele, aproximando-se de Vivien e formando um triângulo.

Eric e Harmony estavam na maior pegação, e pareciam que não iam acabar tão cedo.

- É verdade... — começou Shane, olhando para a Vivien — Que eu vou tentar te beijar.

E, rapidamente, Shane aproximou-se de Vivien. O reflexo da garota foi mais rápido, e Vivien sentiu a boca de Shane arrastando-se em seu rosto. Ela lhe deu um empurrão para trás, que fez com que Shane deitasse no chão.

- Tá ficando doido, garoto? — perguntou ela, brava.

Ele ficou a encarando.

- Primeiro você fica me enchendo o saco, me chamando de robô. E agora você vem querendo me agarrar, pensando que ia ignorar as coisas que você me falou?

- Calma, Vivien, eu só pensei que você também gostaria de ficar comigo — disse Shane, parecendo arrependido.

- Talvez eu ficaria, mas eu não sou uma garota que você puxa quando bem quiser para beijar — respondeu ela — Não sou mesmo.

- Ah, então vai se ferrar — disse Shane.

Vivien não pensou duas vezes. Ela deu um tapa na cara de Shane que estalou. Eric e Harmony pararam de se beijar para encarar os três, e estavam assustados.

Shane, com a cara virada, olhou para Vivien com um total desprezo.

- Idiota! — vociferou ela.

Ele ficou calado, e levantou-se. Entrou em um dos corredores de montes de tralha, e desapareceu.

Vivien começou a fazer tranças em seus cabelos, pois era isso que fazia quando estava nervosa ou ansiosa.

- Tá tudo bem, Viv? — perguntou Harmony.

- Está sim — respondeu ela.

Eric tentou beijar Harmony de volta, mas ela ainda olhava para a amiga. Depois de alguns segundos, certificando-se que foi um acesso de raiva de Vivien, ela voltou a beijá-lo.

- Sabe... — começou Dylan — Tem um lado bom nisso.

Ela não disse nada.

- Pelo menos eu não ia segurar vela, sozinho, sem ninguém — completou.

Vivien soltou uma leve risada.

- Olha pra mim — disse Dylan, e ela olhou — Não liga pro Shane. Ele fica meio babaca quando está bêbado. Ele é um cara muito legal.

Ela novamente não disse nada, mas assentiu com a cabeça. Ficou observando o nada.

- Gente, gente! — disse Betsy, correndo, voltando para o local onde todos estavam — Nós precisamos ir! Está quase amanhecendo. Nosso tempo de detenção está acabando. Snape vai pegar a gente! Podemos ser expulsos! Cadê a garrafa de hidromel?

- Tá comigo — disse Harmony, falando um pouco embolado.

Vivien se deu conta de que Harmony havia passado dos limites. Ela não estava bem. Ela tentou se levantar, mas caiu, sendo amparada por Eric. Na segunda tentativa, com a ajuda dele, Harmony ficou de pé, cambaleando um pouco.

- Cadê o Shane? — perguntou Betsy, preocupada.

- Eu não sei, ele saiu por esses corredores aí — respondeu Dylan.

- Shane! — gritou Grant — Aparece cara. A gente precisa ir! Nosso tempo tá acabando!

Shane saiu de um corredor alguns segundos depois. Ele passou do lado de Vivien, mas não olhou para ele. Vivien ficou arrependida pelo tapa.

- Vamos! Vamos! — disse Grant — A gente ainda precisa chegar na biblioteca!

Os sete saíram em disparada. Nem todos. Harmony parava um pouco. Estava tão tonta que estava quase entrando em dos corredores ao seu lado, e sumir de vista.

- Harmony, amiga! Falei pra você tomar cuidado! — disse Vivien — Vamos! A gente tá atrasado!

Vivien deu a mão à Harmony. Elas correram um pouco, mas Eric logo chegou para ajudá-las.

- Eu levo ela! — disse ele, passando os braços por Harmony e a pegando no colo.

- Meu Deus! Você não vai aguentar! — disse Vivien.

- Quando eu não aguentar mais, a gente faz o resto a pé. Vamos! — disse ele.

Vivien e Eric voltaram a correr. Quando saíram da Sala Precisa, viram que os outros já dobravam o corredor, correndo como se não houvesse chão.

- Filhos da mãe... — disse Eric.

Vivien e Eric apertaram o passo, correndo desenfreadamente, tentando alcançar ao máximo os outros. Mas não teria como. Não com Eric carregando Harmony no colo.

Eles já não aguntavam mais correr. Vivien estava perdendo o fôlego, e imaginou Eric correndo por dois. Ele devia estar bem pior.

- Vamos — disse ele, ofegante.

- Eric, chega! — disse ela — Deixa a Harmony ir um pouco. Ela está te atrasando. Ela consegue sozinha agora.

- Tudo bem — disse Eric, sem pensar duas vezes. Colocou Harmony no chão, que ainda cambaleava um pouco, e seguiram caminho, correndo desesperadamente.

Vivien e Eric já estavam dobrando o corredor para a biblioteca, e viram Betsy esperando por eles.

- Pai do Céu! — exclamou ela — Por que demoraram tanto?

- Por culpa da bêbada aqui — disse Vivien, apontando para Harmony.

- Cala a boca, Viv — disse Harmony. Vivien começou a rir.

Os quatro chegaram na porta da biblioteca. Entraram, ofegantes, sem fazer barulho pois Filch ainda poderia estar ali. E estava. O grupo passou devagar por Filch. Seu sanduíche estava caído no chão agora, mas Filch ainda dormia como uma pedra.

Eles chegaram ao local onde deveriam catalogar os livros, e começaram a tarefa rapidamente. Vivien sentou Harmony em uma mesa, afastada dos papéis onde deviam catalogar, pois a primeira palavra que Harmony escreveu no papel foi "foda-se". Vivien conseguiu escrever por cima da palavra, apagando os registros de Harmony, e começou a escrever com a letra mais feia que já havia feito.

Não durou muito para que Snape chegasse. Ele chegou em silêncio, e ninguém reparou em sua chegada.

- Ora, ora... — começou ele.

Todos levantaram-se de um salto. Harmony rapidamente reconstitui-se, tentando agir normalmente.

- Fazendo tão rapidamente... Só por que eu cheguei? — perguntou Snape.

Os sete se entreolharam.

- É — confirmou Shane.

- Pois bem, estão liberados — disse ele.

Ninguém pensou duas vezes antes de se levantar. Apressados, todos começaram a passar por Snape, até que chegou a vez de Harmony.

"Que merda! Não dá mais pra segurar!", pensou Harmony. Ela apenas abaixou a cabeça e vomitou no sapato do professor. Betsy olhou para trás com os olhos arregalados e com uma expressão de "fodeu!".

O olhar de Snape para Harmony poderia matá-la. Harmony olhou assustada para ele.

- Professor... eu... — começou ela.

- Professor Snape! — chamou Vivien — Eu conheço a Harmony há muito tempo, e ela é meio fraca de saúde. Quando ela fica muito tempo sem comer, ela acaba passando mal. Estávamos indo para nossos dormitórios comer um pouco, mas acabamos pegando a detenção, e ela não comeu nada. Meu Deus! Me desculpe, professor.

Apesar de parecer desconfiado, Snape apenas disse:

- Tudo bem, senhorita. Leva sua amiga para a enfermaria e volte para completar a detenção.

- O quê? — perguntou Eric.

- Acabei de notar nos papéis que a quantidade de livros catalogados não bate com a quantidade de tempo em que ficaram aqui para realizar a tarefa. Aliás, não bate nem um pouco — e olhou para Vivien. — Leve sua amiga para a enfermaria, e volte para cumprir a detenção — disse ele.

- Sim, senhor — disse Vivien, saindo da sala de mãos dadas com Harmony.

Snape virou-se para Filch, que ainda dormia.

- Senhor Filch! — chamou ele, em um tom grave e alto.

Filch acordou em um pulo.

— Por acaso, o senhor dormiu há pouco tempo? Ou passou a noite toda dormindo? Porque isso pode lhe custar caro...

- Não, não, professor — disse Filch, apressado — Dormi há menos de trinta minutos — mentiu ele.

- E esses meninos aparentaram conversar muito? Porque eles não realizaram quase nada da detenção — disse Snape.

- Ah, sim! Não fizeram nada quase a noite inteira — mentiu Filch, ainda mais.

- Muito bem. Podem catalogar os livros — ordenou Snape.

- Mas professor, passamos a noite toda acordados! — reclamou Eric.

- Então eu vou ser bonzinho... Cataloguem os livros até às oito.

Eric fez uma cara de desapontamento.

- E mais uma coisa... O professor Dumbledora ficará ciente disso — e saiu da sala, deixando Shane, Eric, Dylan, Betsy e Grant sozinhos.

- Ao trabalho! — disse Dylan.

- Caralho, a Harmony vomitou no pé do Snape. Pensei que ele ia matá-la! — disse Betsy.

Todos riram, e depois disso, começaram a catalogar os livros pra valer.

Apesar de tudo, a noite valeu a pena. Pediria desculpas a Vivien, e tentaria ser amigo dela. Ela e Harmony pareciam ser muito legais. E pensou no que Filch falou. Que eles passaram a noite toda na biblioteca conversando. Melhor isso do que Snape saber que foram para a Sala Precisa cachaçar. Shane ficou agradecido por Filch ter mentido.