Os corredores de Hogwarts estavam desertos com quase todos os alunos foda da escola para o feriado. Betsy e Grant eram as únicas pessoas que se via perambulando por eles naquele horário. Eram quase sete da noite, e a neve caía pesadamente do lado de fora. Betsy estava abraçada pelos braços do garoto, que tentava lhe arrancar alguns beijos, mas a garota sempre negava, com algumas risadas provocadoras.

- Então, já decidiu o que vai me dar de Natal? — perguntou ele.

Betsy o encarou, esperando que fosse uma brincadeira. Ele sorriu, o que indicou que ele não falava sério.

- Na verdade... — começou ela — Talvez eu tenha algo que você irá gostar demais....

- Agora eu estou curioso — disse ele.

Betsy riu outra vez, e lhe deu um beijo no rosto.

- Por acaso foi isso que você acabou de dar no meu rosto? — perguntou Grant, malicioso.

A menina encarou o teto, mexendo em seus cabelos negros e lisos e fingindo-se de desentendida.

- Não sei... — respondeu Betsy — Talvez...

- Mas seria em outro lugar, né? — perguntou ele, a apertando cada vez mais.

- Hum, deixa eu ver... É, acho que sim. Um pouco mais pro lado, né? — sugeriu ela.

- Eu estava pensando em algo mais ousado — disse Grant — Quem sabe um pouco mais embaixo?

Com um tapinha leve em sua barriga, Betsy chamou a atenção de Grant. Mas ela ria.

- Você é muito engraçadinho, Grant.

- Eu tento ser — rebateu ele.

Eles continuaram andando pelos corredores em silêncio. Um grupo de três amigos passaram por eles, provavelmente dirigindo-se ao Salão Principal para a ceia de Natal. Pensar naquilo fez o estômago de Grant roncar. Ele havia percebido que estava com muita fome.

- Meu Deus, tomara que não demore muito. Eu já estou morrendo de fome — comentou ele.

- É melhor você se segurar — alertou Betsy — Nós combinamos de nos encontrarmos apenas às nove. Até lá, coma algum doce só para enganar seu estômago.

- Boa ideia. Quando eu voltar para o dormitório irei comer um tablete de nugá que deixei dentro da minha mala.

- Grant! Acabei de lembrar — exclamou Betsy, e logo em seguida, ela continuou a falar, mas em voz baixa — Você sabe se a Lauren irá na reunião?

- Eu não tenho a mínima ideia — respondeu ele.

- Mas você a chamou, não é? — perguntou Betsy.

- Claro, isso eu fiz. Mas ela quase não deixou eu terminar de falar — respondeu Grant — Disse não sem pensar duas vezes.

A menina deu um grunhido.

- Foi assim comigo também — disse ela.

Eles continuaram a andar, e viraram mais um corredor. Eles estavam quase na porta do Salão Principal, e continuaram a conversa enquanto entravam e acomodavam-se em uma mesa.

- Meu Deus, isso é uma pena. Quero dizer, eu sei que ela é um pouco temperamental... Algumas vezes difícil de lidar. Mas passar o Natal sozinha é horrível... — disse Betsy horrorizada.

- Quer tentar mais uma vez? — perguntou Grant.

- Eu gostaria — respondeu ela.

- Então pode tentar agora — disse ele, e com o rosto, apontou para a mesa ao lado.

Betsy pôde reconhecer Lauren, sentada de costas aos dois, lendo um jornal e comendo lentamente algumas batatas corada. Betsy pôde ver a tristeza que a menina tentava esconder. Longa da família e dos amigos. Sem ninguém para passar uma das mais belas noites do ano. Betsy levantou-se da mesa e disse a Grant:

- Tudo bem, eu vou lá. Tentar pela última vez.

E rapidamente ela alcançou Lauren. Quando encostou no braço da menina para falar com ela, Lauren deu um salto, mas quando viu que era Betsy deu um sorriso forçado.

- Oi, Lauren. Como está? — cumprimentou Betsy.

- Tudo ótimo — respondeu Lauren secamente.

- Então, planos para essa noite? — perguntou Betsy, tentando agir discretamente.

- Não, nenhum — respondeu Lauren.

E antes que Betsy pudesse falar mais alguma coisa, Lauren já havia a interrompido.

- Olha, Betsy, eu agradeço pela sua insistência... Mas eu não vou — concluiu Lauren.

- Mas por que? — perguntou Betsy.

- Tente entender o por quê, Betsy — pediu ela.

Betsy ficou encarando para a menina.

- Você e Grant são maravilhosos, e eu realmente gostaria de passar o Natal com vocês... Mas meu ex-namorado e a menina que eu briguei na escola há pouco tempo estarão lá também — disse Lauren.

Lauren deixou Betsy sem palavras.

- Olha, Lauren, você e a Vivien, sei lá... Não rola uma conversa, nem nada? — perguntou Betsy.

- Não. O que eu fiz foi errado, mas ela me humilhou na frente da escola. Ela beijou o Ryan, lembra-se? — perguntou Lauren. Sua voz já estava um pouco alterada.

- Calma, calma — Betsy tentou tranquilizar — Olha, o que eu quero dizer é que é Natal. Por mais clichê que seja, é época de perdoar. De renovar os sentimentos um pelo outro.

Lauren ouvia a conversa calmamente.

- Eu acho que você e a Vivien começaram com o pé esquerdo — disse Betsy — Quem sabe não surge um pedido de desculpas, um reconciliamento, ou um tratado de paz de ambas as partes? — perguntou — Mas alguém precisa ceder. Alguém precisa fazer isso.

Parece que agora Betsy havia deixado Lauren sem palavras.

- É... Talvez isso tudo que você disse faça sentido — comentou Lauren, sem graça.

- Mas e então? — perguntou Betsy.

- E então o que? — rebateu Lauren.

- Ora, e então? Você vai ou não? — perguntou Betsy.

- Eu vou pensar — respondeu Lauren.

Betsy abriu um sorriso e abraçou a amiga:

- Vindo de você, já é uma grande chance! Nos encontraremos na casa dos barcos, às nove da noite.

E Betsy deixou Lauren sozinha, e foi juntar-se a Grant de volta.

- Mas não pense que isso é uma grande chance, Betsy — disse Lauren — Não mesmo.

Mesmo assim, Betsy voltou a sentar-se ao lado de Grant, e antes que falasse, um fraco sorriso estava em seu rosto.

- Convenci a Lauren! — anunciou ela.

- Bem, desculpa estragar o clima, mas ela nem deu certeza — disse Grant.

- Você ouviu o que ela disse? — perguntou Betsy.

- Eu vou pensar — Grant respondeu.

- Bingo! — exclamou ela — Isso vindo da Lauren — e agora Betsy falava mais baixo — já é mais que o sufuciente.

*****

Já passava das nove e Vivien estava atrasada. Pelo que havia contado, já havia se passado algo em torno de dez minutos desde que consultara o relógio em seu dormitório pela última vez. Agora ela alndava sozinha pelos corredores, com passos apressados, para logo juntar-se aos amigos em uma pequena reunião natalina.

Vivien não pôde evitar e mais uma vez pensou em Lauren. E lembrou-se como a menina estava sentada um pouco triste e decepcionada quando jantou sozinha algumas noites atrás. Vincent e Louise, que geralmente sentavam com ela, haviam se acomodado junto ao grupo, pois não haviam encontrado a amiga desde cedo. Lauren, assim que os avistou, percebeu que estavam de costas, e que nunca a avistariam, a não ser que olhassem para trás. Vivien percebeu que Lauren estava completamente sozinha apenas quando a viu levantando-se, andando devagar e indo embora. Aquilo fez o coração de Vivien apertar. Ela esperava que sua relação com Lauren pudesse ter começado diferente.

Porque aquilo era a única coisa que impedia todo o grupo de ficar junto. Ou faltavam Lauren, Vincent e Louise, como sempre, e, em exceções como havia acontecido naquela noite, apenas Lauren faltava. E o que mais incomodava Vivien era o fato de que ele mesma nunca havia ficado completamente sozinha. Sempre na companhia de Harmony, Betsy e dos meninos, como Eric, Sebastian e Grant. E então percebeu que as companhias de Lauren ultimamente limitavam-se apenas a Vincent e Louise.

Imersa em seus pensamentos, Vivien estava um pouco distraída e ao dobrar um corredor, esbarrou com força em outra pessoa.

- Meu Deus, me desculpa — disse ela, antes que pudesse ver quem era.

E era Lauren. Vivien parou, e seu coração acelerou um pouco. Por um curto tempo, as duas encararam-se, gélidas. E o momento foi quebrado assim que Lauren deu as costas.

- Tudo bem, não foi nada — disse ela.

Vivien observou a menina andando pela direção oposta a que seguia, cada vez mais afastando-se do local de encontro. E então, ela decidiu arriscar.

- Lauren! — chamou ela.

Quando Lauren já estava prestes a virar o outro corredor, ela olhou para trás. Vivien andou em sua direção lentamente, enquanto continuava a falar:

- Você não vai na reunião?

- Não, eu decidi não ir — respondeu Lauren. Vivien percebeu que a menina estava um pouco desconfortável.

- Mas por que? — perguntou Vivien.

Tudo bem. aquilo havia sido uma pergunta idiota. Mas por outro lado, Vivien pensou rapidamente que aquela pergunta pudesse demonstrar que, de fato, sua inimizade com Lauren já não era mais tão alarmante.

Lauren a encarou com um olhar impaciente.

- Ah sim, tudo bem... — começou Vivien — Desculpa por tentar quebrar o gelo...

Lauren virou-se para continuar a andar, mas Vivien insistiu, apesar de achar aquilo idiota.

- Calma! Por favor! — chamou ela. Lauren parou mais uma vez e a encarou — Não vá para onde você está indo.

- E por que eu não iria? — perguntou Lauren.

- Porque eu não quero que você fique mais sozinha do que você já está — respondeu Vivien.

- Nossa, muito obrigada — ironizou Lauren.

- Desculpa. Quero dizer... Eu vejo você no Salão Principal muitas vezes, Lauren — disse Vivien — Eu consigo reparar o quanto você está triste com tudo isso.

- Eu não estou triste — rebateu Lauren.

- Então, deve ser algo da minha cabeça — dosse Vivien — Você tem certeza?

Lauren parou um pouco.

- Eu não sei porque estamos aqui conversando. Acho melhor eu ir pro meu quarto — disse ela.

- Lauren, eu ainda estou falando com você! — exclamou Vivien — Pare de ser teimosa e converse comigo.

A menina se assustou com Vivien, e ficou calada enquanto Vivien continuou a falar:

- Eu não quero virar sua melhor amiga. E se você quiser, nem preciso ser sua amiga. Por mim, se pudermos conviver em paz, pelo menos, já está de bom tamanho.

- Aonde você quer chegar, garota? — perguntou Lauren.

- Eu entendo o que deve ter passado pela sua cabeça sobre ser relacionamento com o Shane — continuou Vivien, e Lauren ficou corada.

"Você cometeu um erro, Lauren, e isso você não pode negar. Mas acho digno e verdadeiro da sua parte tentar voltar com o Shane. Apesar de nem sempre ser de um jeito delicado, e isso você também não pode negar".

Lauren deu um sorriso.

- Olha, Lauren, sobre aquela noite que ficamos de detenção, e o Shane tentou me beijar... — começou Vivien envergonhada — Tudo não passou de um mal entendido. Ele nem sequer me beijou. E ele estava bêbado.

A conversa agora estava um pouco mais perigosa.

- Acontece que eu nunca quis estar no meio disso — explicou Vivien — Eu não vou dizer que nunca ficarei com o Shane, porque eu não sei o que poderá ser do amanhã — Lauren fechou a cara — Mas hoje, e pelo menos me parece que por muito tempo, eu não terei nenhum desejo de beijá-lo. E se eu fosse sua amiga, isso nunca aconteceria sem eu antes conversar com você.

Quando Vivien disse a última parte, Lauren parecia um pouco mais aliviada.

- Tudo bem, Vivien — disse Lauren — Eu agi como uma idiota quando soube do fato de ele ter tentando te beijado. Foi estúpido.

- Mesmo que seja estúpido, e mesmo que tenha me atingido, eu consigo entender o motivo de você ter feito isso. Por mais estranho que pareça — disse Vivien — Você fez aquilo como uma ex-namorada que errou, e que queria outra chance. E surtou quando ao menor sinal imaginou que pudesse perdê-lo de vez.

- Mas mesmo assim não justifica as coisas que eu fiz contra você — insistiu Lauren.

- Pra te falar a verdade, foi um ciclo, não é? — perguntou Vivien.

- Como assim? — perguntou Lauren.

- Ora, você começou com aquela briga. Eu depois te provoquei. Apesar de ter sido sem querer, eu mereço a culpa de ter gritado o nome do Ryan por todo o salão. E depois foi você mais uma vez...

- Te humilhando... — riu Lauren.

- E como — disse Vivien.

- Me sinto mal por ser um pouco especialista nisso — comentou Lauren.

- E por fim — continuou Vivien — Eu dei o golpe final beijando o Ryan.

- E mais uma vez, sem querer — lembrou Lauren.

- Acontece que não importa quem começou, Lauren. Nós ferimos uma à outra. Até quase saímos no tapa — terminou Vivien — Mas o que eu realmente queria dizer é que por nossa culpa o que poderia ser um grupo formado por... — e pausou um pouco para contar todos os integrantes — dez pessoas...

- Onze — corrigiu Lauren.

- Quem eu esqueci? — perguntou-se Vivien.

- Ponho a mão no fogo que foi o Sebastian.

- Claro! — exclamou Vivien — Como você sabia?

- Coitado... Quero dizer, adoro ele. Mas algumas vezes eu o esqueço — explicou Lauren.

- Incrível... — comentou Vivien, e logo continuou a sua fala — Poderíamos ser um grupo de onze, mas por culpa nossa, e inteiramente nossa, o grupo fica dividido: uns sete aqui, quatro ali. E até uma noite que apenas um sobrava.

Lauren encarou Vivien, mas não ousou olhar nos olhos da menina.

- Eu fiquei um pouco incomodada com aquele dia mesmo... — disse ela.

- Eu sei — disse Vivien — Eu só estou aqui, falando com você, porque eu só quero propor um acordo de paz. Não precisamos declarar nosso amor um pela outra, mas podemos tentar, talvez. Sermos amigas.

- É, talvez — disse Lauren vagamente.

- Então você me desculpa? — perguntou Vivien — Principalmente pelo beijo no Ryan?

- Não, por favor, não seja ridícula. Eu lhe devo a maior parte das desculpas — disse Lauren — Eu sou um pouco temperamental, e acabei falando demais. Eu passei dos limites com você.

- Está tudo bem — perguntou Vivien — Eu te desculpo.

- E eu também... — disse Lauren.

Ela ficou encarando Vivien por um tempo, com um sorriso no rosto.

- O que foi? — perguntou Vivien.

- O Ryan beija muito bem, não é? — perguntou Lauren.

- Meu Deus! Foi uma loucura — revelou Vivien.

As duas riram.

- Bem, é melhor não nos abraçarmos para não ficar ainda mais constrangedor do que este momento agora — sugeriu Lauren — E eu agradeço pelo seu convite de ir no encontro de Natal. Quero dizer, sua insistência para eu ir.

- Por que? Você não vai? — perguntou Vivien.

- Eu não sei — respondeu Lauren — Vou dar um tempo aqui em cima e vou pensar.

- Mas pensar por que? — perguntou Vivien, aproximando-se um pouco mais da menina.

Lauren sentou-se em um banco que estava no corredor, e Vivien a acompanhou.

- Shane e eu ainda não conversamos — revelou Lauren.

- A respeito de que? — perguntou Vivien.

- De nada. Nós não estamos nos falando — disse Lauren — Talvez não seja uma boa ideia eu aparecer. Ele já tem que lidar com o fim do casamento dos pais, e ainda me verá hoje no Natal.

- Bobagem... — encorajou Vivien.

- Eu não sei... — disse Lauren pensativa.

- Qualquer coisa eu te faço uma companhia. Não tão íntima... — riu Vivien.

- Eu vou pensar — disse Lauren — Juro que vou.

- Tudo bem, então. Eu te espero lá — disse Vivien levantando-se.

Ela continuou o caminho que fazia antes de esbarrar em Lauren. Não deixou escapar um sorriso quando já estava de costas para Lauren. E quando estava para dobrar mais um corredor e desaparecer de vista, Lauren a chamou:

- Vivien!

- Oi? — perguntou Vivien, olhando para trás.

- Talvez a culpa não foi inteiramente de nós duas — disse Lauren.

- Como assim? — perguntou Vivien curiosa.

- Ora, se o babaca do Shane não tivesse tentando te beijar... — riu Lauren.

Vivien soltou uma fraca risada. E virou-se para continuar o caminho, deixando Lauren ali, sozinha no banco, no meio do corredor.

A neve havia diminuído. Lauren sentia muito frio.

A menina ficou ali no banco, um pouco encolhida. Pensou em tudo que havia acabado de acontecer. E se sentiu uma idiota por ter feito tudo aquilo com uma menina tão gentil como Vivien. Talvez aquilo devia ter sido seu maior erro naquele ano. Empatado por ter traído Shane com Ryan Rivers. Ela já estava se sentindo pesada com toda a relação conturbada com Vivien, e, apesar de ter sido um choque ter visto a ruiva beijando Ryan bem em sua frente e na frente de quase toda a escola, Lauren pensava mais nas coisas que havia falado para Vivien.

E com o perdão da garota, Lauren sentia-se mais leve. Pensou se passaria o Natal junto de Vivien, Shane e os outros em um momento que seria muito constrangedor, ou se continuasse seu caminho anterior para os dormitórios. Lauren ficou sentada por algum tempo, algo em torno de quinze minutos. E então, ainda indecisa, ela levantou-se. E caminhou em direção ao lugar que mais parecia aconchegante à ela.

*****

As luzes das velas que flutuvam pela casa dos barcos refletiam na superfície congelada do lago. Shane, Vivien, Betsy e Grant estavam rindo, bebendo suco de abóbora, encolhidos em uma pequena roda para se auqecerem do frio.

O que Shane não podia deixar de reparar era que, ao contrário dele e de Vivien, que nem estavam tão próximos um do outro, Betsy e Grant eram quase um só. Ele abraçava a garota com prazer, enquanto riam e se divertiam com a calorosa conversa. Grant já havia tentando roubar alguns beijos dela naquela noite, e Betsy sempre desviava seu rosto para continuar a conversa. Shane os achava um casal divertido, mas sabia que nem ele e nem ela aguentariam considerarem-se um casal. Compromisso era o que Betsy e Grant menos queriam.

Shane encarava Vivien rapidamente algumas vezes. Em outras, arriscava-se olhar um pouco mais. Shane não podia negar que depois da noite que havia tentando beijá-la, e depois de toda a escola comentar que ele e Vivien talvez estivessem em algum relacionamento, ele não havia parado de pensar na menina. Desde a primeira vez em que realmente teve algum tipo de conversa com ela — a fatídica noite em que ele derrubou todos os livros da garota pelo chão -, Shane começou a olhá-la de modo diferente. Era óbvio que ele já a conhecia antes, avistando-a pelos corredores da escola e em algumas aulas em que Lufa-Lufa dividia com Corvinal. Mas nunca havia reparado o quanto Vivien era bonita. Os longos cabelos ruivos que esvoaçavam pelo mínimo vento que soprasse.

Talvez tudo aquilo fosse um sinal de uma nova paixão. "Está louco?", pensou ele assim que a ideia veio em sua mente. Claro que não seria viável começar a namorar depois de um conturbado término de namoro com Lauren. Não que isso fosse um trauma, mas talvez provasse que ele ainda não era maduro o suficiente para assumir outro compromisso sério. Ele não queria passar por tudo aquilo de novo.

Shane mais uma vez olhou para Vivien. Mas dessa vez, ela reparou, e conseguiu olhar em seus olhos antes que ele pudesse desviá-los. Era Grant quem falava agora, então provavelmente a atenção deveria estar para ele. E Shane continuava olhando para Vivien. Aliás, ela já havia reparado muito antes que ele não parava de encará-la.

- Mais suco de abóbora? — ofereceu Shane à ela. Era uma boa maneira de olhar para Vivien sem ter que arrumar uma desculpa.

- Eu quero sim — respondeu ela encarando-o — Obrigada.

Ele a serviu, mas não ousou olhar para ela. Shane sabia que ela já fazia isso. Então, o momento que se seguiu até que o copo de Vivien estivesse cheio foi silencioso entre os dois e constrangedor.

- Ei! — chamou Grant — Vocês estão prestando atenção no que eu estou falando?

- Claro. Só estou servindo suco pra Vivien — respondeu Shane.

- Hum, então olhe para mim agora — pediu Grant, e continuou a história.

Vivien e Shane olharam para Grant, tentando ignorar um ao outro.

- Muito bem — disse Betsy, quando Grant já havia acabado de contar a história — Chega de suco de abóbora.

Betsy tirou de sua mochila uma grande garrafa de hidromel. Em seguida, retirou quatro taças e distribuiu a cada uma que estava ali.

- Agora a festa ficará bem melhor! — exclamou ela.

Vivien riu.

- Claro, onde já se viu uma comemoração com Betsy sem um pouco de álcool? — perguntou ela.

- Nunca se viu! — riu Betsy — Pelo menos até eu conhecê-lo.

- E então? Vocês acham que a Lauren virá? — perguntou Grant.

Shane ficou sério. Betsy olhou para Vivien, que abriu um sorriso

- Bem, eu vou entrar um pouco no espírito natalino, e contar um milagre de Natal — anunciou Vivien.

Todos ficaram em silêncio esperando a novidade.

- Eu acho que Lauren e eu fizemos as pazes — disse ela.

Betsy ficou surpresa. Shane então parecia estar em choque.

- Você tá brincando, né? — perguntou Grant.

- Meu Deus, isso é ótimo! — comemorou Betsy — Meu Deus, vou encher minha taça!

- E como isso aconteceu? — perguntou Grant.

Shane ainda não havia falado nada.

- Bem, nos esbarramos no corredor, e falei pra ela tudo o que havia passado. Que havia sido um engano terrível ela ter pensado que eu e o Shane havíamos nos beijado. E que não iria rolar nada com ele — disse Vivien — Nada pessoal, Shane — acrescentou ela, voltando-se para o garoto.

Aquilo foi uma facada em Shane. Direto no coração. Se há pouco tempo ele já considerava em não investir em Vivien, agora ele tinha certeza disso.

- Mas eu também fiz isso principalmente pelo grupo — explicou Vivien — Quero dizer, a Louise e o Vincent sempre ficavam com a Lauren... Eu não achava isso legal.

- Muito bem, Viv — parabenizou-a Grant — Você fez muito bem.

- Verdade — concordou Betsy — Foi certíssima.

- E então? Você a convenceu de vir? — perguntou Grant.

- Eu a chamei, disse à ela que todos nós queríamos que ela viesse — respondeu Vivien.

Shane pigarreou, mas Vivien ignorou.

- E parecia que elaestava super a fim de vir — completou ela.

- Poxa, então é melhor a esperarmos! — sugeriu Betsy. Ela olhou para a sua taça de hidromel — Quero dizer, pelo menos pra ceia...

Grant riu.

- Será que você estará bêbada o suficiente para fazer uma loucura de Natal? — perguntou ele maliciosamente.

Betsy o encarou com um sorriso.

- Quem sabe? Me jogar em cima do Alfred Collins, jogador de quadribol da Corvinal. Nossa, ele é tão bombado — disse ela.

- Sabe, quando você me perder você vai ver... — ameaçou Grant brincando.

- Ah, não! Vai deixar, Betsy? — riu Shane.

- Ah! Como você ousa? — perguntou Betsy a Grant — Eu vou ver o que? Minha liberdade?

- Você vai chorar tanto... — disse Grant.

- Não vou nada! — negou Betsy.

- Eu acho que vai. O que você acha, Shane? — perguntou Vivien.

- Depressão na certa.

Betsy olhou para todos surpresa, mas não deixando de rir.

- Idiotas! Todos vocês! — começou ela — Saibam que se eu quiser... — e ela parou de repente, olhando para a entrada da casa de barcos.

Shane assustou-se, e pensou que algum professor havia descoberto os quatro ali. Mas depois lembrou-se que esperavam por mais uma pessoa. E quando ele olhou para a porta, lá estava Lauren, parada, olhando para todos timidamente.

- Você veio! — sorriu Betsy, e levantou-se para abraçá-la.

Lauren retribuiu o abraço, e olhou para todos que estavam ali. Grant e Vivien retribuiram-lhe o sorriso, mas Shane, antes que ela pudesse olhar para ele, desviou o olhar.

- A sua sorte é que ainda não começamos a comer! — avisou Betsy — Já passam das dez. Acho que já podemos comer, não é?

- O que vocês estiverem fazendo — respondeu Lauren — Eu acabei de chegar e não sei de nada.

Lauren sentiu como Shane estava inquieto, e como ela havia trazido negativadade para ele naquele instante.

- Oi, Shane — cumprimentou ela, sem graça.

- Ei — respondeu ele secamente sem olhar em seus olhos.

A expressão de Lauren mudou para descontentamento. Ela sentia-se tímida e culpada. Sabia que aquilo aconteceria. Sabia que Betsy e Vivien apenas haviam tentado dizer que todos concordavam com a presença dela ali, porque Shane não a queria ali. Talvez nunca mais em qualquer lugar.

Betsy repreendeu Shane com o olhar, mas ele a ignorou.

- Olha, eu esqueci que tenho que adiantar algumas coisas da escola — começou Lauren — Não tem nenhum problema. Eu posso voltar pro meu dormitório...

- Não, por favor, Lauren — pediu Betsy.

- Deixe de ser boba. Sente-se e beba com a gente — sugeriu Grant.

Ele já estava enchendo a taça da garota enquanto Betsy a levava até o grupo. Betsy trouxe Lauren para perto de Grant, mas a menina andou para o outro lado e sentou-se um pouco próxima à Vivien.

- Oi, Vivien — cumprimentou ela.

- Oi — respondeu Vivien sorrindo.

Era óbvio que a conversa das duas parou ali. "Quem sabe daqui mais pra frente estaremos conversando sobre meninos, escola e fofocas?", pensou Vivien.

- Aqui, Lauren — disse Grant entregando-lhe a bebida.

- Obrigada — agradeceu Lauren.

Um rápido silêncio tomou conta do lugar, mas logo em seguida Betsy pôs-se a falar:

- Lauren, você acredita que eles acham que eu sou apaixonada pelo Grant? Que eu não viveria sem ele?

- Bem... — começou Lauren — Acho que até o professor Dumbledore acha que vocês formam o casal do ano.

Grant deu uma risada bem alta perto de Betsy, que não aguentou e começou a rir.

- Até você, menina? — perguntou ela.

- Bem, mas é verdade — defendeu-se Lauren.

- Mas pra falar a verdade, até que vocês dois combinam — comentou Vivien.

- Eu também acho. Na verdade, eu sempre achei — disse Lauren.

- Sério? — perguntou Grant surpreso.

- Sério! E depois que vocês começaram a ficar, ficou ainda mais explícito — completou Lauren.

- Viu, amor? Todo mundo acha que fomos... — e Grant parou de falar. Já sabia o erro que tinha cometido.

- Amor? — perguntou Shane, começando a rir — Amor? A-m-o-r?

- Eu não acredito! — disse Vivien.

- Grant! Burro! — reclamou Betsy, dando leves tapas no braço do menino.

Grant abaixou a cabeça.

- Nem adianta mais, amigão. Tudo foi revelado! — falou Shane.

- Eu nem acredito que dei esse vacilo... — riu Grant.

- Pode acreditar — disse Vivien.

- Tudo bem, mudando de assunto... — cortou Betsy, alcançando uma outra mochila — A comida já deve estar um pouco fria, mas podemos começar a ceia?

- Acho ótimo. Estou morrendo de fome — disse Lauren — Mas como você conseguiu isso?

- Eu e Grant passamos no Salão Principal e pegamos algumas coisas, colocamos em sacolas e botamos na mochila — respondeu Betsy.

- Sem ninguém ver? — perguntou Lauren.

- Eu não me preocupei tanto, mas Grant sim. Então fizemos tudo escondido e o mais natural possível — respondeu Betsy novamente.

Ela pegou da sacola três sacolas de uma vez. Uma continha pedaços de frango e batatas coradas. Outra continha ovos mexidos com bacon, e a última estava com cinco generosos pedaços de torta de framboesa.

- Acho que isso vai me saciar — disse Grant, já servindo-se do frango.

- Eu vou me matar de tanto comer — disse Vivien.

- Somos duas — disse Lauren, comendo bacons.

À medida que o tempo passava, o clima estava cada vez mais aconchegante. Haviam momentos que Betsy e Grant começavam a se beijar, o que deixava Shane, Vivien e Lauren sozinhos. E talvez fossem esses os momentos mais constrangedores da noite. Vivien não sabia se seria melhor falar com Lauren ou com Shane para puxar assunto, e apesar de ficar receosa, tentava inclui-los em uma mesma conversa.

Depois de um tempo, eles decidiram apagar as luzes das velas para não chamar tanta atenção, deixando apenas a iluminação da escola funcionar.

Quando Grant finalmente olhou em seu relógio, anunciou:

- Galera, já passaram-se três minutos de meia-noite. Feliz Natal.

Então ele abraçou e beijou Betsy, um desejando feliz Natal ao outro. Vivien e Lauren trocaram um rápido abraço, mas Lauren pôde sentir que havia sido um abraço verdadeiro de ambas as partes. E isso a fez se sentir bem melhor naquela noite.

Vivien levantou-se para cumprimentar Grant e Betsy, deixando Shane e Lauren em pé, evitando um olhar para o outro. Mas ambos estavam constrangidos o suficiente para não se abraçarem, e mais constrangidos ainda por esse fato. Então Lauren foi na direção de Betsy, e a abraçou, o que deixou Shane aliviado.

Assim que Lauren afastou-se, a mente de Shane já não estava mais ali. Shane pensava em sua família, em sua casa. Pensava em sua irmã, Sarah, perguntando aos seus pais o motivo de ele não estar ali. E lembrou-se de seus pais, fingindo estarem juntos, respondendo as perguntas da filha. Aquilo tudo fez uma lágrima brotar dos olhos dele. E quando já havia sido tarde demais — quando Lauren avistou que Shane estava chorando — ele virou-se, e foi para a beirada da casa, e permaneceu lá em pé, observando o lago e a neve que caía.

- O que aconteceu com o Shane? — perguntou Betsy.

- Ele deve estar lembrando da família dele — respondeu Grant.

- Eu vou lá falar com ele — disse Betsy.

- Não — disse Lauren — Deixa que eu vou.

- Lauren, você tem certeza? — perguntou Betsy.

Lauren balançou a cabeça e andou lentamente em direção ao garoto.

Ao aproximar-se, Lauren pôde ouvir os resmungos de Shane. Pôde concluir que o choro havia tornado-se uma pouco mais intenso.

- Shane? — chamou ela.

Ele não respondeu., mas rapidamente conteve o choro. Lauren esperou uma resposta, mas não obteve.

- Eu soube dos seus pais, Shane — começou ela — E eu sinto muito.

Shane continuou sem falar absolutamente nada.

- Na verdade, eu sinto muito por tudo que eu fiz pra você nessas últimas semanas — disse Lauren — Eu agi como uma idiota, e como você pôde ver, eu consegui me resolver com a Vivien. E mesmo que você não queira isso agora, eu gostaria muito de estar bem com você também.

Mais silêncio. E depois, Shane disse algo:

- Sabe... Eu deixei de passar o Natal com a minha família por causa da separação dos meus pais. E eu não me arrependo da minha escolha, mas me arrependo de não estar lá para a Sarah. Me arrependo de não estar lá com os meus, fingindo que está tudo bem. Porque na verdade, está tudo bem. A única coisa é que eles não estão mais juntos.

Lauren aproximou-se mais um pouco.

- Shane, talvez demore um tempo para concluir, mas quem sabe não foi melhor desse jeito? — perguntou ela calmamente — Ou você prefere que seus pais mantenham um casamento sem amor nenhum?

- Eu prefiro que eles se amem — respondeu Shane.

- Mas isso não está acontecendo. Pelo menos agora — disse Lauren — E você tem que apoiá-los.

- Apoiar em que? Apoiá-los para partirem o coração da Sarah?

- Shane, para. Olha pra mim — pediu Lauren, pegando em uma de suas mãos.

Shane agora olhou para ela.

- Seus pais vieram até você, antes do Natal, para lhe contarem isso. Porque eles te amam. Confiam em você. E como filho mais velho, eles esperam que você possa ajudá-los a passar por isso — disse Lauren.

Shane abaixou a cabeça e pensou um pouco.

- É, eles precisam de mim — concordou ele.

- Mas é claro! — disse Lauren — E você precisa de seus amigos. E eles estão ali para você.

- Vocês, meus amigos, estão ali para o que der e vier?

Lauren ficou emocionada, e abriu um sorriso.

- Claro, Shane — respondeu ela, abraçando-o.

O que deixou Lauren mais feliz ainda naquela noite foi que aquele abraço também foi verdadeiro. Ela sentiu aquilo. Depois que se afastaram, ela continuou a segurá-lo pelos braços e perguntou:

- Nós podemos conversar ainda mais tarde, mas eu gostaria de saber se você pode me dar uma chance? — perguntou ela, e logo apressou-se para corrigir a pergunta — Uma chance de sermos amigos novamente.

- Eu vou preferir conversar com você, Lauren. Mas é claro — respondeu ele — Eu também quero lhe pedir desculpas por tudo o que aconteceu.

- Ai, são águas passadas... — disse ela — Vamos voltar?

Ela pegou Shane pela mão e o levou de volta à casa. Betsy já o esperava de braços abertos, pronta para abraça-lo. Grant foi em seguida, e Vivien depois.

- Querido, estaremos aqui pra você — disse Betsy.

- Não fica assim — disse Grant — Tudo vai se resolver.

- E você pode sempre contar com a gente — disse Betsy.

- Para o que der e vier — lembrou Lauren.

- E até mesmo para as pessoas que você conheceu recentemente — riu Vivien.

Shane abriu um sorriso.

- Acabei de concluir que não estou passando o Natal longe da família — disse ele. Todos ali então sorriram — Não mesmo.

- Então vamos comemorar, porque eu trouxe outra garrafa de hidromel, meu bem. Feliz Natal, Shane — disse Betsy, abraçando-o mais uma vez.

- Feliz Natal — retribuiu ele.

Enquanto Betsy pegava a outra garrafa, Grant e Vivien dançavam. Shane oferecia mais um copo para Lauren, e tudo aquilo, mais uma vez, fez a felicidade de Lauren quase explodir. Porque além de tudo aquilo ser verdadeiro, ela esperava que fosse pra sempre. E mesmo tendo a certeza que seria, Lauren adorava torcer por aquelas pessoas. Por aquelas amizades. E desejou que aquele espírito de Natal pudesse acontecer todos os dias.

Notas finais
Natal... uma das minha épocas preferidas no ano. Época que sempre me sinto mais amoroso, mais feliz, mais carinhoso. Esse é o verdadeiro espírito do Natal. E foi isso que fez Lauren finalmente resolver-se com Shane e Vivien.

Por enquanto pelo menos... Quero dizer, não é spoiler, mas sabe-se lá o que ainda está para acontecer? E adoraria informá-los que estou adorando escrever sobre Betsy e Grant como um casal. Eu, particularmente, os acho incríveis juntos. Não pensem que tudo acabou não. Ainda há muita coisa para acontecer nessa temporada. Afinal, ainda faltam onze capítulos para acabar. Muita coisa está para acontecer.

E se posso adiantar alguma coisa, já haverão novos casais no próximo capítulo. Esses barrados...

PEDRO ROGERIO