Notas iniciais
N/a: Oi pessoas, como estão ? Bem, eu espero. Eu fiz essa adaptação do conto do Barba Azul para o desafio de Carnaval no Nyah. Gostei da ideia, pra passar o tempo nesse carnaval e me divertir, resolvi escrever. Bem, eu espero que gostem!Beijoos!

Barba Azul

Anita sorriu para o espelho. Aquele seria o melhor dia da sua vida. O vestido de noiva lhe caía muito bem, parecia uma verdadeira princesa. Sentiu–se tão confiante, talvez, pela primeira vez em sua vida. Dean era um homem maravilhoso. Haviam se conhecido no restaurante que ela trabalhava, ele jantava lá todas as terças. Em uma daquelas noites, ele ficou no restaurante até que todos os outros clientes fossem embora. E então a chamou para sair.

Não foi preciso muito, depois de alguns encontros ela estava encantada. No segundo mês, tinha plena certeza de que havia achado a pessoa certa para ela. E o tempo que os dois haviam passado juntos a mostrou quem realmente era Dean Machado. Em todas as matérias que havia lido em revistas ele era retratado como um homem violento e misterioso que anulou mais casamentos do que poderia sonhar.

O Dean que ela havia conhecido nos quatro meses de namoro, era outro. Teve certeza que a mídia havia o julgado mal. Olhou mais uma vez para o espelho, o sorriso não saia de seus lábios. E ela teve certeza de que seria assim para sempre.

“O casamento do ano” noticiavam alguns jornais, mesmo havendo se passado um mês desde o casamento dos dois. Aquele mês havia sido o melhor de sua vida, não por estar casada com um homem rico, Anita não se importava com a riqueza de Dean. Gostara dele pelo que ele era, pelo lado carinhoso e espontâneo que havia mostrado a ela. Somente a ela.

A recepção daquela noite, na casa dos dois, era para apresentá–la a sociedade. Mesmo que todos já a conhecessem pelos jornais. Ainda não se sentia totalmente confortável com todo o luxo, com os empregados, a enorme mansão e muito menos a maneira como os ricos amigos de Dean a tratavam. A noite estava mostrando que, talvez, mudar de classe social, seria seu grande problema.

Por isso, resolveu esconder–se na sacada. Quem a procuraria ali, afinal? Seu marido estava ocupado com seus sócios e ela não conhecia ninguém naquela festa. Sentou–se em um banco escondido atrás de muitas plantas, era o lugar perfeito para ficar escondida até seu marido se desocupasse ou até que todos fossem embora.

O lugar, que ela achava seguro, em apenas alguns minutos, se tornou o covil de cobras. Ouviu umas cinco delas entrarem, a última fechou as portas. Estavam todas muito bem vestidas. Olharam para fora, talvez, a procura de alguém que pudesse ouvir a conversa que teriam. Mas como não notaram nada de anormal, nem mesmo a anfitriã encolhida no banco atrás de toda aquela folhagem, começaram a destilar seu veneno.

–Oh, como sinto pena da pobre moça! – Disse a mais velha de todas – Não sabe em que está se metendo. Se eu fosse ela, fugiria enquanto ainda há tempo.

–Você acha mesmo que há tempo, Vânia? Eles já estão casados, o primeiro passo para a ruína da moça, já foi dado. –Quem disse foi a baixinha de cabelos pretos. – Só ainda não entendo porque se casou com ela, achei que seus alvos fosse apenas moças de família nobre, por isso o apelido.

–Vocês não entendem, não é mesmo? –Talvez a mais nova do grupo, falou. – Não acho muito que a nobreza da garota importe, ele vai sumir com ela, assim que puder. E o pior é que essa moça, não terá uma família rica para tentar encontrá–la.

–Como se o dinheiro e as influências ajudassem nessa hora! –A quarta moça disse, um pouco melancólica. –Ele sumiu com Mirdes, até hoje não temos noticias de minha prima. Meu tio daria toda a fortuna da família, para achá–la, no entanto, não há pista alguma sobre o desaparecimento de minha prima.

–Alguém, alguma hora, vai ter que pegá–lo. –Vânia voltou a falar. –Queria poder alertar a garota, dizer a ela para fugir e nunca mais voltar.

–Isso não vai adiantar! –As cinco se viraram assustadas. Anita saiu de trás das folhagens as olhando com reprovação. –Pois não acredito em vocês.

–Oh, pobre tola, ingênua e apaixonada! –A última mulher abriu espaço entre as outras para ficar frente a frente com Anita. Ela havia julgado mal, aquela era a mais velha das mulheres. Um pouco mais velha que Vânia, Lucia suspirou como se já soubesse que não adiantaria nada alertar Anita. – Vocês podem nos deixar as sós? –Olhou para as outras amigas e elas assentiram.

Lucia Garcia era uma bela mulher. Cabelos ruivos, um pouco mais claros do que os Anita, pele clara e uma postura elegante. Anita simpatizou com ela, mesmo sabendo o que Lucia diria. As duas, em partes, era muito parecidas. Os cabelos de Anita pendiam mais para o castanho avermelhado, quase ruivo. Os olhos castanhos e a altura das duas.

–Anita, não posso persuadi–la, sei disso. –Lucia disse em tom maternal. –Mas quero que saiba. Dean Machado foi casado com minha filha mais nova, Ana. Ela sumiu misteriosamente um mês depois do casamento. Contratamos todos os detetives que conseguimos, os melhores, mas nenhum deles nos trouxe nenhuma noticia sobre Ana. Não desistimos, mas até hoje, ninguém sabe nada sobre ela.

–Mas senhora...

–Lucia Garcia, Anita. Sei que não acredita, mas tome cuidado. Seja mais esperta que as outras... Seja mais esperta do que minha Ana foi. –Anita aceitou com carinho as mãos da mulher, não por acreditar no que ela dizia, mas por compadecer do sofrimento de uma mãe.

–Sei que deve haver algum engano, Lucia. E espero de todo meu coração que Ana seja encontrada. E muito obrigada, pelo conselho. –Anita sorriu e Lucia balançou a cabeça, sabendo que por nada ela se convenceria do contrario.

–Fique com meu cartão, caso aconteça alguma coisa, ligue–me.

–Muito obrigada, Lucia!

Lucia deixou Anita na sacada. Ela pensou muito no que Lucia havia lhe dito e por mais que não acreditasse na senhora, havia gostado de conversar com alguém. Ficou ali até que todos os convidados tivessem ido embora. Viu a porta abrir e se virou. Sorriu para o marido.

–Como foram as coisas? –Perguntou Anita e viu um belo sorriso surgir do rosto do marido.

–Tudo certo, querida. – Ele se aproximou e beijou os lábios da esposa. –O que acha daqui? –Mostrou a paisagem, pouco visível pela escuridão da noite.

–É um belo lugar, mas eu não vejo nada. – Ela ouviu Dean contar baixinho “Três, dois, um...” e as luzes se ascenderam, a paisagem deixou Anita de boca aberta e ela sentiu os braços de Dean a rodearem e os lábios dele tocando seu pescoço. –É maravilhoso, querido.

–Tão maravilhoso quanto você, Nita.

Os dois foram aos tropeços para o quarto. Distraídos com beijos e caricias, tropeçaram em um dos vasos, ele apenas balançou, mas não chegou a cair. Anita olhou para os lados, com medo de que algum dos empregados os visse, porem não encontrou viu nenhum deles, se focou em uma porta da casa, não soube porque, mas quando seus olhos encontraram aquela porta, ela sentiu um calafrio.

Não quis perguntar a Dean, porque no momento ele havia a carregado no colo e a levava em direção ao quarto dos dois. Anita olhou para o homem com quem havia se casado e ele lhe devolveu o olhar, intenso e cheio de paixão. Nunca precisaria de palavras para saber que ele gostava dela da maneira que ela gostava dele.

Anita abriu os olhos preguiçosamente. Havia dormido e esquecido de perguntar a Dean que porta era aquela. Olhou para o marido, dormindo tranquilamente e resolveu explorar um pouco a casa. Calçou as pantufas, vestiu o robe e saiu do quarto. Andou um pouco até achar a porta que havia visto. Era bonita, uma porta de madeira talhada. Anita reparou nos desenhos talhados na madeira, eram mulheres, quatro, ao todo.

Ela passou a mão pela madeira, olhou para os outros desenhos, flores e mais flores, as mulheres entalhadas estavam em ordem. Todas sorriam. Aquilo só intrigou Anita. As chaves de todas as portas da casa ficavam ao lado, em um pequeno compartimento. Dean havia mostrado isso a ela no seu primeiro dia na casa. Anita procurou o compartimento e quando achou a chave, sentiu uma mão forte sobre a sua.

–Anita! –A voz de Dean a assustou. Ela colocou a mão no coração e deu um passo para trás. –Te procurei na cama e não achei... O que está fazendo aqui?

–E-eu... –Ela respirou fundo e sorriu para ele. – Eu vi essa porta... E... Bem, quis ver o que tinha dentro dela. –Dean não sorriu.

–Esse quarto é como qualquer um dos outros. –A voz de Dean ficou fria, de um momento para o outro e aquilo assustou Anita. –Não quero que entre nele.

–Por quê? –A pergunta a pegou de surpresa. E pelo olhar que Dean lançou a Anita, ele também estava surpreso. –Esqueça. Eu estou curiosa... A casa, não tive tempo de explorá–la por causa do trabalho. –Ela sorriu confiante e a careta de Dean se desfez.

–Desculpe querida. Pode vir aqui depois se quiser. Não gosto desse cômodo. – Ele pegou a chave que abri a o cômodo ao lado da porta. Demorou um pouco, mas abriu a porta.

Dean ligou a luz e Anita pode ver o interior do quarto. Olhou para ele sem entender. Aquele quarto era enorme, só perdia, talvez, para o quarto dos dois. Totalmente branco, o quarto era circular ao redor das paredes havia grandes baús. Ao lado de cada baú havia uma porta. No centro do quarto, havia um baú maior ainda e ao seu lado uma mesa com diversas chaves.

–O que é isso... ? –Anita perguntou pasma.

–Atrás de cada uma dessas portas está os pertences que as minha ex–mulheres deixaram quando foram embora.

–Você foi casado tantas vezes assim...?

–Por isso não queria que visse o quarto. – Dean aproximou–se de Anita e segurou carinhosamente suas mãos. Eu te amo, não quero que o meu passado, todos esses casamentos que não deram certo, fiquem entre nós.

–Não ficaram, eu prometo. –Dean fechou a porta e os dois voltaram para o quarto. Anita não tinha mais dúvidas quanto ao passado dele.

Os meses passaram rápido. E não havia mais suspeita alguma na mente de Anita. Quando ela e Dean fizeram quatro meses de casado, ela resolveu fazer algo especial para ele. Pediu aos empregados que a ajudassem. Ela queria um jantar a luz de velas, algo que fosse romanticamente romântico.

–O que acha disso, Mila?

–Ele vai gostar, senhora. –A empregada sorriu para Anita.

–Me chame só de Nita, Mila, ou de Ani. Todos me chamam de Ani.

–Sim, senhora Ani...

–Ok. Não insistirei, uma hora me chamará só de Ani, sem perceber.

–É tão boa, Dona Ani. As outras esposas do senhor... –Ela refreou a língua, com medo.

–O que tinha as outras esposas de Dean, Mila? – Ninguém nunca falava sobre as esposas que vieram antes dela. Sempre paravam de falar antes que alguma informação escapasse.

–Nada demais, senhora...

–Mila...

–Elas eram nobres. Diferente da senhora. Não que a senhora não seja nobre... Mas elas eram filhas de nobres, com algum parentesco com a realeza de algum lugar do mundo. Nenhuma era ruim, mas nenhuma era realmente boa como a senhora.

–E Ana? Ana Garcia, como ela era... ? –Mila demorou um pouco até saber o que dizer sobre Ana.

–Ela era uma boa moça, ruiva como as outras, inteligente e bonita também. Muito bonita. Mas era tão curiosa senhora... Passava horas e horas mexendo nos jardins. Dizíamos a dona Ana para não mexer demais, porque ela poderia acabar achando o que não devia. Mas ela procurava. Fugiu depois que encontrou as roupas da primeira esposa do senhor. Achou que ele ainda a amasse.

–Ana fugiu mesmo, Mila? Tem certeza disso? – Mila assentiu.

–Meu menino, Dean, ficou tão arrasado. Ai lhe dei a ideia. Ele não sabia o que fazer com as roupas e os outros pertences das esposas. Assim ele não precisa olhar para tudo e lembrar–se do que elas fizeram.

–Fez muito bem, Mila. Ana... Bem, conheço alguém que gosta o bastante de Ana para saber sobre isso. Vou me arrumar agora, muito obrigada por tudo.

–De nada, minha querida. Bom jantar!

–Eu te amo! – Dean beijou a mão de Anita.

–Te amo, querido.

–O que acha, Nita, de irmos para Itália? Ou Grécia? Podemos fazer as malas e amanhã estaremos nos divertindo em outro país.

–Querido, eu tenho trabalho amanhã.

–Vamos, lá, Nita!

–Meu amor, não posso faltar meu trabalho para dar uma volta pela Europa...

–Eu não acredito nisso, Anita! –Dean se levantou bruscamente. –Você está dizendo que prefere trabalhar a ir comigo para uma viagem?

–Dean, isso não tem nada a ver com não querer ir com você, meu amor, mas eu tenho um compromisso. Preciso do meu trabalho! – Sentiu um calafrio percorrer seu corpo quando seu olhar se cruzou com o de Dean.

–Que droga, Anita! – Anita levantou–se quando tudo que havia sobre a mesa, foi derrubado por Dean, em uma onda de fúria.

–O que houve? Porque está agindo assim? – Nem mesmo o medo a impediu de questionar o homem em sua frente.

–Vamos comigo, nós arrumamos nossa mala e...

–Dean! Qual parte você não entendeu? – A voz doce havia se transformado, ela estava irritada com a falta de maturidade do marido. – Quer mesmo que eu deixe meu emprego para acompanhá–lo em uma viagem de férias? Por puro capricho?

Dean se aproximou perigosamente.

–Você é minha mulher! Vai aonde eu for ou...

–Ou o quê? Não pode gritar comigo, não pode... – Dean levou a mão ao pescoço de Anita que tentou, em vão, se libertar.

–Você é minha, Anita! Só minha. Não tem emprego, nem coisa alguma que possa dizer o contrário! –Dizendo isso, ele forçou seus lábios contra os de Anita e depois a soltou.

Anita ficou encolhida ali. Com medo do que viria a seguir. Ouviu uma porta, em algum lugar da mansão, bater. Chorou até não ter mais lágrimas. Passou uma noite terrível ali, deitada no chão da sala. Acordou um pouco antes do dia nascer. Foi até o quarto, onde o marido dormia tranquilamente. Não quis se aproximar muito e gelou quando ouviu sua voz.

–Nita? O que está fazendo ai? – Teve medo de dizer que iria embora. Teve medo de chegar perto demais. – Venha para a cama amor.

–Estou indo. –Não teve outra alternativa a não ser deitar–se na mesma cama que Dean. Que pela primeira vez em meses, havia mostrado a ela, sua outra face.

Os dias se passaram sem qualquer ataque de fúria de Dean. Ele estava como sempre fora. Para Anita, aquilo era extremamente estranho. Tentou sondar o motorista sobre as esposas de Dean, mas ele nada disse. Havia só mais duas pessoas na casa com quem falar. Tâmara e o mordomo, Aquiles. Tâmara não parecia tão confiável, por isso, que na folga de Aquiles, ela seguiu com ele até o ponto de ônibus.

– Aquiles!

–Senhora Machado! –O mordomo de assustou.

–Nita. Me chame de Nita,Aquiles.

–O que faz aqui senhora ?

–Preciso de respostas, Aquiles. O que aconteceu com as esposas do meu marido...

–Senhora eu não... –O homem olhou para aquela mulher, aquela pobre mulher e olhou em volta. –Se quer um conselho, saia de lá enquanto a tempo. Fuja agora. Vá para longe, nem ao menos pise novamente os pés naquela casa, ou pode ser a última coisa que fará na vida.

–Está me assustando, Aquiles.

–E é para estar assustada, senhora. Nunca diga que eu disse isso, nenhuma delas fugiu. Todas permanecem na casa...

Com aquele ultimato. Ele se foi. Seu ônibus havia chegado. Anita precisava voltar para a casa. Ligaria para Lucia Garcia, falaria o que Aquiles havia lhe dito, depois iria embora. Andou até a mansão do marido. Entrou na casa, com um grande medo. Foi até seu quarto, trancou a porta e pegou o telefone.

–Gostaria de falar com Lucia Garcia, por favor. É Anita Machado! – Ela tentou parecer o mais calma possível, mas não adiantou.

–Anita ?

–Sim, senhora. Sou eu, dona Lucia. Estou indo embora da mansão. Estou com medo, há alguns dias Dean me atacou. Ele estava transtornado. Senti medo do que poderia acontecer. E hoje, um dos funcionários da casa me garantiu que as mulheres... –Ela sussurrou. –Que as antigas mulheres de Dean, ainda permanecem na casa!

–Oh, meu Deus. Anita. Onde você está ?

–Trancada em meu quarto. Estou com medo de que ele chegue quando eu esteja indo embora. Não confio mais nem nas paredes dessa casa.

–Olhe querida, confie em mim. Tudo vai dar certo. Ana nunca me ligou. Talvez se ela houvesse conseguido me ligar... Bem, agora, não importa. Fique trancada no quarto, Anita. Vou pedir que meu filho mais velho, Eduardo, passe ai para buscá–la. Dean, com toda certeza, não tentará nada contra ele.

–Obrigada, Lucia. Obrigada. –Anita poderei agradecer Lucia por horas a fio, mas o medo estava a dominando. Lucia desligou o telefone e ela ficou ali, tentando arrumar suas coisas.

Lembrou–se de uma coisa, quando ainda estava terminando de colocar suas coisas em uma mala. O quarto que Dean havia deixado que ela entrasse. Era ali que as esposas dele deveriam estar... Só podia. Abriu a porta com medo. Deu de cara com o imenso corredor vazio. Caminhou como em um dia normal, chegou ao quarto das mulheres. Pegou a chave ao lado da porta e abriu. A trancou assim que estava dentro do quarto e segura.

Eram tantas as chaves, Anita achou melhor achar as das portas primeiro. Abriu a primeira porta depois de alguns minutos ali dentro. Era o quarto da primeira esposa, ela sabia disso por causa do grande numero um que havia no fim do closet dela. A esposa número um tinha um bom gosto para roupas, Anita notou. Vestidos, corpetes, sapatos, bolsas e mais milhares de acessórios. Ela viu uma pequena coroa e muitas joias.

“Quem seria louca de ir embora sem suas coisas ?”, perguntou–se. Ela mesma havia acabado de arrumar tudo que tinha, que não era tanto quanto a primeira esposa de Dean, não gostaria de deixar nada para trás. Respirou fundo e foi para a segunda porta. Era a porta da segunda esposa que, ela descobriu sem muito esforço, ser Ana Garcia.

Ana era uma mulher pequena, notou por suas roupas. Além de roupas, sapatos, bolsas e joias, haviam muitos livros ali. Ela identificou um livro que tinha dedicatória de Lucia. O livro era dedicado a Ana. Anita sentiu seu coração se apertar. Queria mesmo que Ana estivesse viva, mas se o que Aquiles falou estivesse certo, nenhuma das esposas havia escapado da crueldade de Dean.

“Eu devia ter dado ouvido a todos”, pensou Anita, aturdida. Abriu a terceira porta, a quarta e a quinta. Olhou para os baús com medo. Mesmo assim procurou chave por chave. E achou a do primeiro baú. Seu coração batia como tambor ela abriu o baú no mesmo momento em que a porta do quarto era aberta com a chave mestra. Estava tão ansiosa para ver o que tinha no baú, que não se deu conta de que da pessoa se aproximada dela.

O baú estava vazio, como se nada nunca houvesse estado dentro dele. Respirou aliviada, mas quando tentou procurar a outra chave, sentiu um par de mãos puxar seu cabelo. O medo a atingiu em seu âmago e foi difícil não gritar. Gritar por ajuda, por socorro, mandar Dean parar de puxar seus cabelos. Gritou “Pare Dean”, por tantas vezes, que só notou que não era ele que a segurava quando sentiu–se fraca demais para lutar. Seus olhos se fecharam, não antes de assustar–se ao ver quem tentava matá–la.

Anita acordou em um lugar sujo. Escuro e com cinco mulheres penduradas a sua volta. Não gritar não era a opção. Todas estavam mortas, cinco cadáveres preservados em um porão escuro. As cinco primeiras esposas de seu marido. Suas mãos estavam presas no alto, por uma corrente. Estava no circulo. Notou que as esposas do seu marido eram ruivas. Todas. Seu cabelo não chegava a ser ruivo, era castanho avermelhado, passava perto do “padrão Dean”.

–Oh Deus.

–Rezar por Deus não vai prevenir sua morte, querida.

–Qual é o problema de vocês ? Porque fazem isso com as pessoas ? –Anita perguntou ao homem e a mulher em sua frente, os dois apenas sorriram pacientemente para ela.

–Oh, querida Anita, você nem imagina, não é mesmo ? – Camila perguntou. –Eu criei Dean. Não a mãe dele, ela nunca soube o que estava acontecendo com seu filho. Ele sempre foi tão doce... Casou–se então com Marieta Parson. Que odiosa aquela mulher. Ela tratava todos na casa tão mal. Quando Dean descobriu isso, ficou furioso com ela, disse que estava tudo acabado, que não podia viver com alguém que tratasse sua família, é assim que ele nos chama, mal. A estúpida tentou conversar, mas Dean saiu de casa. O meu Dean saiu de casa por causa da piranha da Parson, porque então, eu, deveria poupá–la ?

–Você a matou... Se ele havia acabado tudo, porque fez isso, Camila ? –Camila caminhou até a primeira esposa de Dean.

–Ela não merecia estar na casa dos Machado, com ou sem o sobrenome dele. Disse a Dean que ela me bateu e logo depois fugiu. Ele perguntou é claro, porque ela não havia pego suas coisas. Eu falei o que Marieta falaria... ‘Eu posso comprar tudo que eu quiser’ e Dean acreditou na hora.

–E onde ele entra nisso ? –Nita apontou para Aquiles. –Ele mentiu pra mim. Ele...

–É, um desconforto moral, acredito. Aquiles me ajuda a carregar os corpos para cá, eu sou uma senhora, Anita, uma velha senhora, não teria condição de carregar as Morcegas de Dean para cá.

–O que acontece com a segunda ? O que aconteceu com Ana ?

–Antes de você chegar aqui, Ana ainda era minha favorita. Nos tratava tão bem quanto você nos trata. Mas sempre foi tão curiosa a nossa Ana. Ela descobriu tudo sozinha. Achou muito estranho que em uma noite Dean fosse agressivo e durante o dia ele fosse tão calmo a ponto de nem tocar no assunto. Descobriu a droga que eu colocava na comida dele. Bem, a droga era apenas para prevenir que ela continuasse tentando saber o que tinha no porão.

–Droga...? Se você colocou droga na comida de Dean, como eu não...

–Você disse milhares de vezes. “Sou alérgica a camarão”. Pensei e fiz camarão para Dean e algo que não envolvesse nenhum fruto do mar para você. Só por prevenção. Eu ouvi sua conversa com Lucia Garcia. Sabia que uma hora ou outra você ficaria curiosa o suficiente para ir atrás da verdade. E não é que ficou, Nita ?

–Eu...Eu só desconfiei de Dean, depois do que ele fez... Do que vocês fizeram com ele. Eu o amo...

–E ele também te ama, querida. Acho que a sua partida, vai ser a mais dolorosa para ele. –Estava ficando difícil respirar. Anita queria gritar, mas sabia que seria apenas um gasto a mais, com a energia que ela não tinha. Ninguém a ouviria dali. Seria a sexta esposa de Dean que desaparecia.

–O que aconteceu com a terceira esposa ? –Ela perguntou, num fio de voz.

–Ah sim. Todas elas sempre querem saber o que aconteceu com as outras. Palmer. Sim, um nome horrível para a garota. Palmer Sanders, uma vagabunda. Casou–se com Dean porque seu hobby era casar–se com qualquer um. O pai tentava colocá–la em casamentos com homens da elite, para abafar os escândalos. Essa daí, não procurou. Achou sem querer. Chegou bêbada uma noite, entrou no quarto errado. Achou as roupas de Marieta e as de Ana. Ficou fascinada com as joias de Marieta e afinal, quem não ficaria ? Só que nessa época, os corpos embalsamados das esposas ficavam no andar de cima mesmo. Dean odiava aquele quarto, nem chegava perto.Ela achou que se no closet havia tantas coisas, o que poderia haver no baú ? Gritou tanto a desgraçada, se Dean estivesse em casa, descobriria na hora. E então eu a matei.

–Porque ele guarda as coisas delas...? –Mila sorriu.

–Boa pergunta, Anita. Mas eu a reformularia. Porque ele guarda as coisas de vocês, as esposas ? Dean a principio, querida jogar tudo fora. Sentiu raiva de Marieta por abandoná–lo. Mas depois não conseguiu fazer isso. Eu tive a ideia de deixar no antigo closet de sua mãe. Oito portas, oito closets. Ele colocou lá e eu resolvi colocar os baús. Falei a ele que a decoração ficaria melhor. Naquela época as chaves dos baús não ficavam lá, obviamente. Não sou uma amadora, Anita. Depois, ele resolveu deixar as coisas lá, porque queria que ela voltasse e se explicasse. E por fim, acho que ele se acomodou com a ideia de que talvez um dia, uma delas voltasse para dizer o que havia acontecido.

–A quarta...

–Mandy Mel. A pobre Mandy, tinha problemas. Havia sido internada em muitas clinicas, diversas vezes. Disse que existiam espíritos na casa. Espíritos que queriam vingança. Com o perfil de Dean, todos poderiam mesmo acreditar. Mas seus próprios pais a consideravam louca. Bem, não vou mentir, a desgraçada parecia mesmo falar com espíritos. Fugiu quando encontrou uma brecha, nós a encontramos. Reportamos a Dean, ele conversou com a família de Mandy, eles não ligaram tanto. Mas então ela sumiu de vez. Dean não teve duvidas de que ela havia mesmo fugido. Passou muito tempo procurando a garota, quando não deu mais, ele desistiu. A quinta, antes que você pergunte. Mariah Castelle. Passava o dia no telefone, conversando com as amigas, um dia a bonitona achou que o lugar com melhor sinal na casa era o porão. Ela nunca mais saiu dele, como pode ver.

–O que vai fazer comigo ? – Camila riu alto.

–Desculpe, Anita. Mas você por acaso é burra, querida ? Eu degolei todas elas, pelo meu amor a Dean. Ele irá sofrer, mas como poderei dormir tranquila sabendo que a mulher que meu menino ama, poderá lhe contar o que fiz ?

–Eu prometo, Mila. Eu não conto nada. –Anita assentiu.

–Ai Anita. Você é ingênua. E boba. Mas devo admitir, caso meu segredo fosse outro, você teria prazer de guardar para o bem de Dean. Como conheço seu caráter, tenho certeza que a primeira coisa que faria caso saísse desse porão, seria chamar a policia.

Anita começou a gritar, ao ver uma faca de poda na mão de Camila. Gritou e se balançou. Olhar para as outras esposas agora parecia uma tarefa árdua. Os gritos aumentaram. Camila a segurou pelo cabelo, e encostou a faca de poda em seu pescoço. Quando estava prestes a pressionar e rasgar o lindo pescoço de Anita, a porta do porão foi arrombada com força.

Um rapaz ruivo e bonito passou por ela, com uma arma na mão. Atrás dele muitos outros policiais e por fim, Dean, muito assustado. O rapaz, Eduardo Garcia, era delegado de policia e irmão de Ana Garcia. Anita chorou enquanto via Aquiles, que continuava tão mudo quanto o momento em que ela acordou naquele porão terrível; E a desesperada Camila Martins, sendo levados embora.

Dean chorou ao soltá–la e ao ver os estados de todas suas exs esposas. Embalsamadas e penduradas pelos braços no mesmo ferro em que Anita estava. Dean jurou que nunca havia desconfiado de nada e Eduardo acreditou. Anita ainda estava em choque e por isso resolveu que não colocaria mais os pés naquela casa.

–Acho melhor assim. – Disse a Dean. – Não colocarei mais meus pés aqui...

Dean entendeu perfeitamente. Aquela noite, depois de tudo aconteceu, desceu até o porão onde suas mulheres haviam sido mortas. Sentou–se em volta do circulo. Cada uma delas apareceu de braços cruzados. As almas não estavam tão furiosas quanto antes, os fantasmas das esposas tremeluziam.

–Sou um ótimo ator, não ?! –Ele sorriu. – Se até mesmo um delegado de policia acreditou em minha inocência, quem não acreditará ?

–Ah, Dean. Você deveria ter partido com seus cúmplices. –A primeira esposa, Marieta, disse. Sendo apoiada pelas outras –Porque, meu caro. Assim como todas nós, você ficará aqui para sempre!

Os gritos de Dean Machado foram ouvido por toda a residência durante toda a noite. Suas esposas, depois daquela noite, finalmente, libertaram suas almas daquela casa!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!