Insano e Imperatriz encararam os jovens no mesmo instante. Aquele grupo de humanos desajeitados, porém inseparáveis e determinados, era mesmo raro.

–Tudo bem — Essa única verdade revelada por eles bastou para convencê-lo — Mas isso vai ter um preço.

–Estamos dispostos a pagar o que desejar — Cogumelo Fantasma argumentou de repente.

Insano lambeu os lábios, segurando a gargalhada.

–Eu sou o Forjador de Memórias! — ele exclamou — Se fecharem um contrato comigo e conseguirem o que querem, o meu preço é a memória de vocês. Toda a memória de cada um dos seis... Tudo o que viveram, que sentiram até hoje pertencerá a mim.

–Eu aceito — Coelho de Preto disse, para o espanto dos incrédulos amigos.

Depois do que ele e os outros fizeram, aquele era um preço ínfimo a ser pago à dor que causaram a todos a sua volta com a morte das garotas.

–Eu também — Sinistro conseguiu dizer. E Dark Carvalho, e pouco a pouco cada um dos demais garotos também.

–Ótimo — Direto e objetivo, Insano não perdeu mais tempo — Coloquem qualquer pertence de vocês em cima desta bancada.

Um por um, mesmo hesitantes, os objetos foram depositados. Domo, um anel; Curinga, um colar; Sinistro, um relógio; Dark Carvalho, uma meia usada; Coelho de Preto, um casaco de lã.

–Em breve suas armas estarão prontas, meus senhores — Essas foram as últimas palavras do Forjador de Memórias antes de expulsá-los dali.

Enquanto caminhavam mais uma vez pelo corredor, aos golpes e múrmurios de Imperatriz sobre o quão irritante, chato e teimoso Insano era, os seis seguiram seu caminho.



Próxima parada, o Anjo-Caído.



–Chegamos — a mulher disse, quando pararam em frente a uma porta coberta por cadeados e correntes — Mas, antes, preciso saber de uma coisa... Por que mataram essas meninas?

Era um silêncio constrangedor, humilhante.

–Foi um acidente — Foram as únicas palavras de Curinga.

Enquanto destrancava os cadeados, Imperatriz ponderou as palavras do menino e pensou em suas filhas... Os demônios, imortais, não sabiam o que era a morte, o que era matar alguém importante para você. Mesmo entre eles, naquele mundo sombrio e ganancioso em que viviam, haviam os poucos em que podiam confiar, que podiam provar a si mesmos que eles não eram seres tão perdidos e sorrateiros assim. Com um último suspiro, a mulher abriu a porta.

–Se tem um Anjo-Caído aí, por que ele continua trancado desse jeito? — Cogumelo Fantasma sussurrou ao Curinga.

Imperatriz havia escutado cada sopro de voz trocado pelos dois.

–Para começar, é ela. — E foi tudo o que disse.

Numa sala escura, uma única luz brilhava no fundo do aposento. Não... não era uma luz vinda do exterior, mas sim da própria garota que habitava aquela solidão.

–Pequena Dama de Espadas — A voz de Imperatriz estava tomada pela inveja da beleza angelical daquele ser alado a sua frente.

Mesmo presa, atada a correntes e trancafiada numa sala fúnebre, ainda assim o anjo não perdera sua luz.

–Quantas penas vai arrancar de mim hoje? — Foi tudo que a garota disse, numa ironia que abalou sua beleza.

Imperatriz sorriu e apontou para os garotos.

–Esses humanos precisam da sua ajuda.

–Queremos ir ao Reino dos Céus. — Sinistro disse, simpatizado com aquela beleza que brilhava na escuridão.

Pequena Dama de Espadas não disse nada, apenas analisou cada um dos garotos que estavam a sua frente. E foi então que ela levantou-se, pela primeira vez revelando o par de asas escondidos em suas costas. Os garotos a encararam, horrorizados. Como um pássaro que aprisionam numa gaiola, não foi o sangue escorrendo de uma de suas asas agora imperfeitas, ou as manchas de desolação que machucavam sua pele. Foram os olhos dela. Tristes, sem esperança. Nunca nenhum deles haviam visto olhos assim.

Eles estavam presos a formar com ela um contrato também?! Não... eles não eram covardes, nem tão baixos assim.



Ou será que eram?