Foi bem a tempo que Sinistro mudou de ideia. Voltar àquela sexta-feira não resolveria nada. O que ele precisava, na verdade, era retornar a um tempo antes da morte de Valete de Ouro... mais precisamente, a dois meses atrás.

Ele sabia onde Valete de Ouro morava e achou que dois meses era tempo suficiente para encontrá-lo antes daquela cadeia de eventos desastrosos em efeito dominó voltar a acontecer. Como aprendera com Ventania, uma das tão exóticas e místicas filhas de Imperatriz, voltar no tempo havia sido fácil — o desafio agora era correr contra o tempo e conseguir convencer Valete de Ouro a acreditar nele.

-Temos que fazer alguma coisa! — gritou Cogumelo Fantasma, percebendo que em breve as chamas os alcançariam.

Todos ali sabiam que não podiam voltar pelo Portal, pois se voltassem, era a mesma coisa que dizer que haviam fracassado. O portal teria que esperar.

-Chamas... — murmurou Dark Carvalho consigo mesmo, encarando a arma que tinha em mãos. Uma meia que guarda o que você precisar dentro, as palavras de Insano ressoavam dentro da mente do garoto. Ele precisava de uma saída, uma rota de fuga. Mas será que a encontraria ali dentro?

Voltar ao mundo humano era reconfortante. E escolher retornar numa época em que tudo ainda estava bem, era mais reconfortante ainda.

Sinistro parou em frente a casa de Valete de Ouro. Tudo continuava do jeito em que ele se lembrava. Não demorou até o próprio Valete de Ouro abrir a porta ao amigo.

-Sinistro?! — ele perguntou, estranhando a visita incomum do garoto.

-Preciso falar com você. — ele disse em resposta.

A dupla seguiu para o quintal, a parte mais isolada da casa, e encararam um ao outro.

-Preciso que acredite em tudo o que eu disser agora. Você confia em mim, não é?

Realmente, era raro alguém não confiar em Sinistro. Com um único movimento afirmativo com a cabeça, Valete de Ouro ouviu o que o amigo tinha a dizer.

Sinistro não escondeu nada, revelando cada detalhe do que havia acontecido após a morte de Valete de Ouro.

-Você já invocou o Ceifador de Almas? Não aceite o contrato dele, o Ceifador só quer enganar você.

Valete de Ouro só desviou os olhos, mudo. Cerrando os punhos agora trêmulos, ele disse em seguida:

-Não... você não me entende, Sinistro! — Como se algo corroesse sua garganta, sua voz havia ganhado outo tom — Eu não aguento mais esse mundo. Não do jeito que ele está agora. — Valete de Ouro voltou a encarar o amigo. Sua expressão estava cheia de ódio. — Não vou fazer o que você me pediu.