O Último Serafim esboçou um sorriso de compaixão. Ele via a determinação — o desespero — no interior de cada um daqueles pobres garotos. Mas ele não podia fazer nada para ajudá-los.

–Desculpe... Os humanos foram criados para viver um período limitado de vida. E quando essa vida é tirada deles, nem mesmo eu posso fazê-los voltar à vida...

–Não é justo — Coelho de Preto retrucou. Era a primeira vez que ele parecia ficar fora de controle. — Nós perdemos tudo para chegar até aqui! Nossas lembranças, nossas vidas e até mesmo nossas almas, não nos resta mais nada!

A face do Serafim se tornou muda e impenetrável.

Perdidos e desorientados, ninguém mais sabia o que fazer.

–Espera... — Como uma luz que surgia na escuridão, a Pequena Dama de Espadas se lembrou de um detalhe que podia mudar tudo. — As armas.

Ninguém pareceu se importar.

–As armas! — ela repetiu — Vocês têm um relógio que para o tempo, então, se ele faz isso, pode voltar no tempo também!

Um por um, o rosto dos garotos voltou a ganhar cor.

–Sinistro! — Coelho de Preto gritou, agitando repetidas vezes os braços no ar. — Volte àquela sexta-feira e mude o passado.


Enquanto isso, na Sala dos Portais, Domo e Curinga aguardavam, ansiosos.

–E se eles precisarem de nossa ajuda, o que faremos? — a dúvida corroía Curinga por dentro.

Os dois garotos trocaram um olhar mudo e depois encararam Azael. Observando o gigante de fogo, Domo parou por um instante e estudou o próprio anel em seu dedo... fogo. Mas será que as chamas alcançariam o céu?

–São chamas demoníacas — Azael falou, notando a dúvida do humano.

–Então alcançam? — Domo perguntou, receoso.

–Exato.

–Sobre o que estão falando? — Curinga perguntou, perdido na conversa deles.

Mas não houve tempo para resposta. A corda amarrada no punho de Curinga foi puxada depressa. Três vezes seguidas, esse era o sinal.

–Agora é nossa vez... — o garoto disse, ficando pálido.

Domo sorriu e se levantou.

–Eu tenho uma ideia.

Ás pressas, os dois se dirigiram para a frente do portal. Azael apenas os observou em silêncio.

Esticando a mão que continha o anel, ele ordenou que as chamas, quentes, saíssem. E foi exatamente o que aconteceu.

–Wow! — Curinga disse, quase perdendo o fôlego diante da força contida daquele anel transformado em arma.

–E que o fogo chegue até vocês! — Domo gritou, na mais esperançosa das intenções.



De volta ao Reino do Céu, sinistro encarou os amigos e em seguida o relógio.

–E-eu posso voltar no tempo? — perguntou aos dois celestiais a sua frente.

Sendo um objeto modificado por um demônio, Pequena Dama de Espadas não sabia a resposta...

–Tente — Serafim argumentou, dando de ombros. — O que mais você tem a perder?

E pela primeira vez, ele viu que aquele ser tinha razão.

Quando Dark Carvalho abriu a boca para falar que o celeste estava certo, ele parou, um cheiro e um brilho estranho vindo dos céus dominando sua atenção.

Era fogo.

Coelho de Preto percebeu com horror o erro que havia cometido quando agitou os braços instantes atrás.

–Essa não... — ele murmurou, atordoado. — Domo!

Cogumelo Fantasma voltou-se rapidamente para Sinistro.

–Vá depressa, Sinistro. Volte no tempo e mudo o passado. Salve as garotas, salve a gente!

O garoto encarou o relógio diabólico pela segunda vez. Um nó prendeu sua garganta. Tudo estava nas mãos dele.

Trêmulo, ele tentou esboçar um último sorriso.

–Vejo vocês na sexta-feira — E desapareceu bem diante dos amigos.



As chamas alcançaram o céu.

E o céu se transformou num inferno.