Bar Shinigami
14 Capítulo 14
E então, as lembranças vieram.
Era uma sexta-feira à tarde. Eles estavam no enterro de Valete de Ouro.
O garoto que protegeu a irmã e a mãe dos tiros dos assaltantes. O garoto que morreu como um escudo, essas eram as palavras sussurradas repentinamente por todos que ali estavam. Mas aquilo não era uma verdade, não era o que realmente havia acontecido.
Coelho de Preto havia sido o primeiro a perceber. O caixão, menor que o corpo do amigo; seu interior, lacrado para nunca permitir que fosse revelado o vazio que habitava ali dentro.Tudo não passava de uma farsa.
–Não chore, Pudim de mel... — Sinistro confortava uma garota em seus braços. — Era a primeira vez que ela revelava uma fraqueza como aquela.
Ao lado dos dois, com os pensamentos nebulosos há quilômetros dali, Bolinho de arroz cinzento fitava o vazio. Ela sabia que nunca se recuperaria daquela perda.
–É tudo mentira — Coelho de Preto apareceu ao seu lado de repente, apenas sussurrando em seu ouvido para ninguém mais ouvir.
–O quê? — Bolinho de arroz cinzento o encarou. — Como você sabe disso?
–Valete de Ouro me disse uma vez... ele não queria mais viver nesse mundo do jeito que ele está agora. Ele falou que havia conhecido alguém que podia tirá-lo daqui, em troca de uma pequena recompensa...
–Isso não existe — a garota o interrompeu, rude. Pasmo, Coelho de Preto perdeu a fala.
–É verdade, sim!
Os joelhos de Bolinho de arroz cinzento ficaram trêmulos. Ela não iria aguentar um desaforo daqueles diante da morte de um de seus melhores e mais preciosos amigos.
–Vamos, Pudim de mel — Ela chamou pela irmã. — Não temos mais nada a fazer aqui.
–O que houve? — Dark Carvalho e Cogumelo Fantasma se aproximaram deles. Sinistro também se juntou ao grupo.
–Isso... isso — Bolinho de arroz cinzento cerrou os punhos, confusa e com medo. — Não existe!
Seu grito chamou a atenção das pessoas ali mais próximas. Com vergonha de si mesma percebendo que em breve suas lágrimas fugiriam de seus olhos, ela puxou a irmã pelo punho e correu em direção à saída.
–O que houve?! — Domo exclamou, quando viu as duas garotas passando às pressas ao lado dele e de Curinga.
–Segure elas! — Dark Carvalho gritou aos dois.
Mudos e estáticos, Domo e Curinga não conseguiram agir a tempo. Vendo Dark Carvalho, Sinistro e Cogumelo Fantasma correndo atrás das garotas, Domo finalmente se deu conta de que algo errado havia acontecido. Um mal entendido que poderia acabar em tragédia.
E não tardou até seu presságio transformar-se em realidade.
Avançando para fora do cemitério, nenhum dos garotos conseguiu alcançá-las antes do fim. A voz de Pudim de Mel, num grito surpreso e sufocado, desapareceu no mesmo instante em que o barulho de um carro derrapando e uma pancada brusca as atingiu em cheio.
Não houve tempo para adeus, para um abraço de despedida. As duas morreram ali mesmo.
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