Bapoé
1 Prólogo
E mesmo lá, o céu ainda resplandecia. Apesar de que em vez de as nuvens serem vistas por cima, encontravam-se abaixo daquele lugar. O lugar citado agora pouco era imenso, talvez poderiam dizer infinito. Estendia-se sobre o nosso planeta, acompanhando sua circunferência. Montes, mares, planícies e florestas. Tudo que há aqui lá também existia, mas por algum motivo, de alguma forma mais bela. Milhares de animais distintos convivendo pacificamente. Claro, também havia humanos, mas estes viviam em “cidades” misturadas com a natureza. Na verdade, era um pouco como se vivessem somente em torno das pessoas que estes se importavam, e assim indo num ciclo sem fim. Mesmo parecendo um estilo de vida meio rústico, diziam que suas tecnologias progrediam ao mesmo tempo que a nossa, mas somente proporcionando benefícios. Nenhum tipo de arma existia. Por algum motivo, este vasto e plano mundo não produzia alguma sombra que atrapalhasse a vinda da luz do sol até aqui. Mas isso não impedia de receberem-no também.
Afastado de todas casas, muito longe mesmo, havia uma casa. Uma casa de madeira simples. Não parecia ter mais de três cômodos. E dentro dela, uma enorme cadeira ficava. Virado para o lado da janela, de onde podia ver uma bela vista daquele mundo. E ao seu lado, um homem em pé estava. Somente parado de braços cruzados, com seu olhar sem demonstrar expressão alguma. Era alto e de aparência musculosa. Vestia uma armadura semelhante as medievais, com ornamentos pretos sobre as placas douradas, e em suas costas, uma longa espada embainhada repousava. Em suas costas, havia asas. Imensas asas com semelhanças às asas de aves como águias. E em sua cabeça, uma auréola dourada flutuava. Um sinal do que ele era. Era chamado de arcanjo, e seu nome era Michael.
E um som de uma batida de porta pela sala ecoou, e na casa, um anjo entrou. Apesar de sua tarefa ser simples, estava corado. Não acreditava em quem ele estava conhecendo, pois um anjo de baixo nível era. Michael e o velho, não mexeram o rosto. Passou-se alguns minutos, e dentro do anjo um pouco de coragem surgiu. E então falou:
– Vossa divindade…
A cadeira se virou, e quem estava sentado um velho ser se revelou. Um homem velho, acho que se fossem determinar sua idade como aqui na terra seria mais de oitenta anos. Seu cabelo parecia que não fora cortado a alguns meses, assim como a barba que descia de sua face. Vestia uma túnica branca básica e chinelos. Apenas isso. Este tal velho interrompeu o anjo:
– Chame-me apenas de Bapoé.
– Como ordenar, vossa…
– Bapoé!
Uma vergonha dentro do anjo surgiu. Mas ele continuou. Fora ordenado a isto.
– O senhor Sobserf terminou o relatório anual sobre a população do planeta Terra, Vossa… – Parou e finalmente acertou – Bapoé.
Ironicamente, Bapoé respondeu:
– Ah é? Já chegamos no mês de dezembro naquele tal de calendário – Fez uma careta – cristão.
O anjo tirou de seu bolso e entregou um pergaminho, desta vez não estava mais tremendo. Caminhou e entregou até Bapoé, que o examinou. Guardara-o e apoiou suas mãos na superfície dos braços da cadeira. Reuniu forças e impulsionou-se, e então levantou. Caminhou até uma estante próxima àquilo e pegou uma caneta e uma folha de papel. Não gostava de tintas muito menos pergaminhos. Começou a escrever, enquanto o anjo o fitava. Já Michael, continuava sem demonstrar expressão.
Entregou o papel para o anjo e boa sorte o desejou. Ele apenas retirou-se, pegou impulso. Suas asas que até então permaneciam fechadas se abriram. Delas uma rajada de vento emanou quando começaram a fecharem-se e abrirem-se. Relaxou o corpo e deixou as asas o guiarem pela liberdade daquele céu. A sensação de liberdade, o barulho do vento sendo acompanhado, a paisagem que encontrava-se abaixo dele, as aves que voavam ao seu torno… Não havia como definir o que deixava o hábito de voar tão belo.
Talvez não seja por curiosidade, apenas por certeza, mas o anjo resolveu ler a carta enquanto voava. Estava escrita com uma letra feia entre linhas tortas.
“Eaí, mocorongo. Esqueceu que sou deus? Eu sei de tudo! Mas não faz mal. Para você ver que os humanos cada vez melhoram mais. Apesar de que quantas vidas de outros seres aumentaram... Tirando o caso de um humano que tira a vida de outro humano, isto me deixa perplexo...”
Um outro anjo voava também. Ele era semelhante a um adolescente, fisicamente. Sua túnica estava cheia de manchas vermelhas. Voava com pressa para a direção de que o outro anjo retornava. Quando guardou a carta e o enxergou, abaixou sua altitude para cumprimentá-lo. Fizera uma reverência, pois aquele anjo na verdade era um arcanjo. Era chamado de Madiall.
Madiall passou voando direto. E por pouco, não atropelou o outro anjo. Quando bruscamente aterrissou e abrira a porta da morada de Bapoé com força, até Michael olhou-o. Ele caminhou lentamente até ficar atrás da cadeira de Bapoé, pois este não se mexeu.
– Vossa divindade – Ele nunca chamara-o assim. Michael sabia muito bem. – Poderia fazer uma pergunta?
– O que você fez, Madiall? – Ele sabe. Até eu consegui perceber. Pensou Michael
– Quando me concedeu o título de arcanjo, mesmo que eu fosse tão jovem. Milhares de vezes mais jovens que qualquer anjo. Naquele dia, destes-me o direito total sobre minha tropa.
Era interessante o fato de uma sociedade perfeita precisar de um exército. Mas isso era uma questão mais antiga. Os anjos eram perfeitos para guerras, por isso não deveria existir algum oponente o bastante para um.
– Então – Ele continuou – Eles se recusaram a cumprir uma de minhas ordens. Começou aos poucos. Um por um. Então, eu preciso de mais soldados.
Somente um anjo pode matar outro anjo. A princípio.
– Você matou todos seus soldados por não obedecerem uma de suas ordens… – Não fora uma pergunta. – O que tem na cabeça?
– Apenas não cumpriram uma ordem. Faltavam-lhe disciplina.
Talvez esta fora uma das primeiras vezes que Michael vira, “um ser perfeito” como Bapoé sentir raiva.
– Quem aqui falou em disciplina? Eles são seres perfeitos, não máquinas de guerra. Sabem julgar ordens. Principalmente vindas de algum ser que tem 0,75% de suas idades, assim como sabedoria.
– Mas decidiu transformar este tal ser em um arcanjo. Mesmo vindo disso. Mesmo tendo vivido apenas dezessete anos. Confesse, Bapoé. Eu tenho mais potencial do que qualquer ser que você julga perfeito.
– Talvez eu tenha visto algo. Talvez fora somente uma aposta. Mas esqueci de como humanos tem esse orgulho. Ainda é tolo. Teve sua chance como anjo, conseguiu derrotar um arcanjo em uma luta, mas ainda lhe falta sabedora. E além disso. Sabe o que falta em você rapaz? Humildade.
Em um ato que provavelmente fora por impulso, Madiall tentou, usando suas lâminas que carregava em correntes, atacar Bapoé pelas costas. A lâmina tentou cair em direção ao pescoço, que jazia desprotegido. Um dedo. Um dedo de Bapoé fora colocado pelo mesmo no último instante. A lâmina partiu-se ao meio e voou seus pedaços pela sala, assim como Madiall voou para o canto da sala com o impacto. Com esta visão periférica, ele se deu conta. Michael não estava mais ao lado de Bapoé.
– VOCÊ DEVERIA TREINAR PELO MENOS MAIS VINTE E NOVE MILHÕES DE VEZES ANTES DE TENTAR SUPERAR DEUS!
Ele estava no ar com as espadas nas costas. Acumulou a pressão necessária e acertou Madiall bem no pescoço em um ataque de cima para baixo. A pressão foi suficiente para o empurrar para baixo, destruindo uma parte do piso em um túnel sem fim. Acabara de rasgar uma camada inteira daquele tal mundo.
– Ah, Michael. Quando eu estava exercitando-me um pouco acabaste com a diversão...
– Devo ir atrás dele pra recuperar seu corpo? Ele cairá na direção de Terra. Mas sua alma com certeza irá direto ao inferno.
– Não é necessário. Michael. Mas reuna todos arcanjos. Precisamos estar preparados. Antes, acha que cometi uma falha naquela decisão?
Havia sido uma decisão muito imprudente, Michael sabia disso. Mas ele também tinha culpa.
Há uns quarenta anos atrás, em meio à terceira guerra mundial, havia tantas almas que juntaram-se ao céu... Mas uma delas era extremamente peculiar.
Todas as almas haviam um lugar em meio suas pessoas amadas, mas esta citada, vivia sem teto. Vivendo em becos e outras coisas. Ainda preferia a cidade, mas não havia lugar para ele lá. Não amava ninguém.
Este foi um dos dias que fora mostrado o por quê da existência dos anjos. Havia uma alma humana ferindo outras almas foram requisitados cinco soldados para pararem-na. Quando chegaram, encontraram a alma de Madiall segurando a de uma criança pelo pescoço, enquanto com a outra, segurava uma faca.
Vale ressaltar que as almas naquele mundo, o céu, era praticamente um segundo corpo, com a diferença de ser imortal. Já os anjos, apenas poderiam ser mortos por outros anjos mesmo, pela parte dos seres conhecidos, mas ainda possuíam um corpo físico.
– Parado! – Gritou um dos solados. Era um novato. Também estava confuso com o fato de ser a primeira vez de que ouviam falar de uma alma no céu que praticava o mal.
Madiall largou a criança e deu um chute em seu rosto. Ela desatou a chorar mais forte desta vez e fugiu. Madiall pegou outra faca no meio de suas coisas esparramadas e quando o anjo aproximou-se para imobilizá-lo, atirou bem em meio ao seu peito. Anjos não sentem dor, mas ainda ficariam incapacitados até regenerarem-se. Ficou no chão incapacitado. Retirou a faca e mirou em outro, e atirou. Este carregava um escudo, e tentou se defender, mas a faca passou de raspão e o acertou no pescoço. Outro deles parte para derrubá-los. Usando sua força consegue deixar Madiall no chão. Mas este, mesmo com os braços presos e somente a mão livre, com um ângulo bom conseguiu atirar a faca direto no peito. Quando soltou Madiall, o jovem aproveitou e fugiu de seus braços pegando a espada do anjo e foi lutar contra outro.
Trocavam investidas com as espadas, mas aproveitando-se do tamanho, Madiall conseguiu esquivar de um dos golpes mais precisos do homem abaixando-se. O ângulo já favorável fê-lo cravar a espada na barriga do anjo.
– Esplêndido. – Madiall procurou em volta em posição de luta quem falou aquilo, mas não encontrou ninguém. Até que por intuito olhou pra cima. Sentado em um dos telhados, estava Michael. Todo mundo conhecia-o, era considerado um soldado perfeito para qualquer mundo que poderia existir. – Como aprendeu a lutar assim?
– Sozinho.
– Vejo que a sobrevivência surte mais efeito que um treinamento, mesmo que quem passe pelo treinamento seja perfeito. – Michael pulou para o chão. Mas ainda tem a questão: Por que uma alma estaria machucando outra? Você não veio direto para o céu, não é? O que é você?
– Já ouviu falar de força de vontade?
– Não estaria insinuando que com esta idade, uma criança humana... passou pelo purgatório?
– Exato. Aos quatro anos, perdi toda minha família na guerra. Eu consegui fugir e me salvar, mas não do mesmo destino deles. Como gostaria que alguém como eu fosse uma pessoa pura após tudo isso? Mas fazer o que, se no inferno seria mais um qualquer.
Purgatório era um lugar onde as criaturas passavam para ser testadas antes de ir para o inferno. Eram dois anos sendo botadas contra elas mesmas penando. É quase impossível descrevê-lo, mas até hoje foram extremamente poucos os casos de almas que passaram por lá e depois ao céu.
– Fez isso só porque estava cansado de ser mais um? – Garoto, mesmo fazendo isso, não posso negar o fato de lutar bem. Há boatos sobre um ritual de purificação, onde uma alma pode renascer em um corpo de um anjo. Desse jeito, receberia o treinamento que merece.
– Se eu entrar, vou ser um arcanjo logo de cara. Sou mais forte que qualquer soldado que viveu a vida toda no céu.
– Não devo negar seu potencial, mas faltaria anos. No mínimo dez mil anos para chegar num nível de um arcanjo.
E não foi o que aconteceu. Mas mesmo assim continuou ingênuo, e orgulhoso também.
E ele ainda estava caindo. Rasgando a atmosfera fazendo-a pegar fogo.
– SEUS FILHOS DA PUTA!
Sua auréola desintegrou-se. Sua face começara a tornar-se deformada esmagando-a no ar. Seu rosto estava grotesco. Mas seu olhar carrancudo ainda era o mesmo. E sua coluna, estranhamente, maior. Assim como garras que aumentaram. Sua pele rasgou-se, e agora era só carne e viva. Até um rabo, formado de ossos com algo que parecia uma lâmina, composto de uma enorme unha surgira. Mas o melhor, fora suas asas. As penas das asas angelicais desapareceram-se, e aquela estrutura composta de ossos, começou a pegar fogo. Ele estava parecendo-se... Parecendo-se com um demônio.
E assim caiu, como um meteoro, em direção a uma metrópole.
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