Uma enorme mesa estava no centro do jardim. Deveria medir, aproximadamente, quatro metros. Era feita de muitos tipos de madeiras diferentes, entalhadas com diversos símbolos. Na mesa estavam sentados seis “pessoas”, mas cinco delas possuíam asas. Eram anjos. Não, arcanjos. E em sua ponta, ficava Bapoé. Na outra, Michael.

– Madiall tornara-se aquilo…Falara uma dos arcanjos. Mirrah. Mesmo que anjos não reproduzissem, ainda possuíam gêneros. Esta no caso tinha uma aparência feminina, ainda que muito mais atraente que muitas humanas ou fêmeas de outras espécies. Trajava um vestido que ia até um pouco abaixo dos joelhos, de um material que parecia ser seda, básico, de uma cor verde azulada que fazia contraste com seus cabelos louros. – Agora a responsabilidade está sobre nós.

– Exato. E agora está criando um caos. Não podemos ficar parados.

Quem falara desta vez fora Uriel. Era um arcanjo de pele escura e olhos negros, o maior de todos no jardim, somente perdendo para as enormes criaturas que em volta dele haviam. Seres da classificação répteis enormes e penosos que um dia já fora até mesmo a raça principal que abitara a terra, antes mesmo de existir anjos.

– O velho há de ter seus próprios motivos para isso, afinal, ele sabe tudo, não é?

Raphael. Este estava sentado inclinado em sua cadeira, com os pés na do seu lado que estava vazia enquanto observava cada tipo de ave exótica que voava sobre eles. Havia duas cadeiras vazias naquela mesa.

– Concordarei com Raphael desta vez. Há um motivo para tudo isso.

E o próprio Bapoé enfim falou:

– Meus queridos e também querida… – Dera uma pausa, mas provavelmente em vão. Assim como os outros arcanjos afirmaram, ele não precisaria parar para sequer um pensamento básico. – Amigos. – Mas Michael, este que apesar de no caso não ter sentimentos, sentiu que ele poderia ter usado alguma palavra melhor. – Vocês já ouviram falar sobre aquela lei que pendura por qualquer planeta deste universo; A lei do livro arbítrio?

Todos então pararam. Era claro que a conheciam. Todos os mundos possuíam suas próprias criaturas, a maioria, assim como os anjos, similar aos humanos. Sua composição que fora feita por Bapoé era estritamente similar à que pertencia os deuses. Mas isto vira com um preço, podendo se dizer até mesmo uma “falha”.

– Todos conhecemos. – Falou Michael – A que Madiall rompeu severamente. E acho que chegou uma das únicas vezes de os anjos realmente mostrarem para que existem.

Capítulo dois:

Conflitos

Thomas espreitava pela janela da sala da casa de Marcus, ajoelhado sobre um largo sofá no qual estava mais cinco; Jimmy, que as pernas passavam pela mesa do centro. Samuel, o magricela que antes de conhecerem Klaus nunca havia lido na vida. Harrisson, um dos que tinha recebido uma das armas. O metido estava contando alguma típica história de algo que aconteceu para os outros, provavelmente tentando acalmar Samantha. Ela era como a irmã mais nova de todos. Desde criança cuidavam dela, por ser apenas uma garotinha e tirando o próprio Thomas, a mais nova. Ela estivera assustada o caminho todo até aqui. E ao lado, Raphaelly. A garota também precisava de apoio, já que seu namorado, Adam, um dos do grupo de Thomas, tinha desaparecido e acabaram tendo de deixá-lo para trás, e desde então ela chorava. Klaus nunca faria isso, todos acreditavam que graças a algo ele teve de fazer. Aquelas criaturas devastaram boa parte da cidade, e por sorte não cruzaram por uma no caminho. Ao sofá do lado estavam os outros dois do grupo, Paul e Alan. Amigos inseparáveis, foram achados juntos, e apesar de serem o oposto um do outro; Alan alto, Paul baixo. Alan loiro, Paul moreno. Ainda assim são considerados por todos como irmãos. No mesmo sofá estava Oscar, Samuel e também Leon, este era um colega que cursava Engenharia elétrica, a mesma cadeira que Alan e Paul.

Todos ali, por muito esforço, conseguiram juntar-se a melhor faculdade de Hassweld. A universidade de Hassweld. Tinha até alguns como Harrisson que faziam somente por insistência de Klaus, já que por pouco não rodou até agora. E outros como Jimmy que precisou de muita ajuda de Klaus para recuperar o tempo perdido na escola básica ainda. Thomas apesar de seu problema nunca teve dificuldade na escola, e ainda que no orfanato todos eram obrigados a ir. Ele cursava Ciências Sociais e Humanas. Fora o curso que mais identificara-se mesmo que a recém fizera o primeiro semestre. Ele, Samantha E Jimmy começaram a pouco tempo, e dependendo de como essa situação encaminhar-se-ia, provavelmente nunca a completaria.

A situação de antes deixara Thomas muito assustado. Não conseguia compreender o que estava acontecendo. Primeiro um meteoro, depois uns bichos estranhos, agora esta morte… Tentaria rezar se já soubesse que não conseguiria.

A casa era enorme. A sala por si só deveria medir uns oito metros. Thomas havia ouvido de Marcus no meio da viagem que seu pai era um médico aposentado que hoje passava a vida como uma espécie de cientista. E agora, Marcus praticava estágio no mesmo hospital que um dia erguera-se graças ao seu pai, Dr. Liehardt. Que quando chegaram encontraram-no morto.

No meio da sala. Mas a casa continuava intacto, assim como seu corpo. Algo totalmente estranho. Não levara tiro, muito menos corte. Não havia nem sequer jeito de ter levado algum golpe, estava caído no chão.

Ao ver a cena, Marcus, disfarçando que não estava chorando, mostrou onde ficava os sofás para abrigarem-se, e seguiu para seu quarto. Thomas tentava imaginar como seria a dor de perder um pai, mas nunca teve algum. Então tentava imaginar perdendo Klaus, apesar deste ser somente cinco anos mais velho do que ele, a dor parecia enorme.

Repousaram o pobre rapaz que encontraram na cratera na cama de Marcus. Este que fora para a cama de seu pai. Antes de levar o corpo para o laboratório, lógico. Mas Thomas resolvera não o incomodar e ficou no sofá.

Os outros que juntaram-se ao seu grupo durante a confusão estavam por aí. Dois tinham abandonado o grupo quando chegaram aqui, mas, pelo menos, fizeram o favor de deixá-los ali. Só que agora tinham um carro de menos, assim como uma arma porque aquele cara que matara um dos monstros insistira para levá-la, e Klaus assentiu.

Fora então que um barulho fez Thomas parar de observar a chuva que caia para ir vê-lo. O resto estava entretido, mas ele seguiu sozinho. Tremendo. Seguiu para a cozinha para investigar. Devia ser nada de mais, mas as ideias sobre algo apocalíptico atormentavam-no. Ao chegar lá deparou-se com três silhuetas, mexendo na geladeira, provavelmente atrás de algo para comer.

– O que estão fazendo aí? – Perguntou, com as mãos no bolso. Dois rapazes e uma garota estavam comendo uma pizza que estivera guardada na geladeira. Provavelmente sem permissão.

– Matando a fome. – Um dos rapazes falou. Era alto e usava apenas uma calça, tênis caros e camiseta de uma marca chique qualquer. Playboys, pensou. – Faz umas cinco horas desde a confusão toda.

– Eu percebi, mas por acaso você pediu a autorização do dono da casa?

– Nem para ficar vivo por mais alguns minutos para servir algo adequado para nós serve – a garota falara com uma expressão tão debochada que Thomas ficou com vontade de socá-la, mas era uma garota… – Pega uma aí e cale a boca.

Ela atirou um dos pedaços na direção de Thomas. Ele instintivamente levou a mão em direção. Chegou a tocá-la, mas suas mãos tremiam e falhara. A pizza chegou ao chão e se estragou.

– Você estragou minha pizza? – Falou o outro que ainda não tinha falado.

– Nem sequer era sua. – Mesmo que não fosse capaz de se defender por conta de suas mãos, o enfrentava. Nunca na vida Thomas foi chamado de covarde.

Um soco na face. Foi isso que recebera por enfrentá-lo. Caiu no chão, por alguns segundos ficou atordoado, e então não conseguiu se levantar.

– Pera aí, Dylan. – falou um dos rapazes – Esse é o cara que tem parkison da faculdade, não lembra que ouvimos falar. Que otário ainda querer pagar uma de machão pra cima da gente.

Sentiu a saliva desse tal Dylan sendo jogada em seu rosto por um cuspe.

– Será que é complicado para bater punheta assim? – Debochou o outro.

– Sempre idiotas. Não tem nenhum respeito no que falam. – A garota largou a pizza e passou por Thomas e o encarou. Por um momento pensou que ela não era tão retardada quanto aos outros, esquecendo do comentário dela. Mas o que ela soltou depois foi mais escroto do que dos outros: – É lógico que ele deve pagar para mãe dele dar pra ele. Sabe como são essses pobres.

Uma outra voz foi ecoada pela sala, uma voz familiar para Thomas.

– Perdi alguma coisa, maninho?– Era Harrison.

Ao vê-lo, os dois recuaram. Não teriam como fugir, então decidiram enfrentá-lo. A garota tentara, mas seguraram seu pulso. Thomas não acreditou quando percebeu que era Samantha. A garota que conhecia até pouco tempo atrás tinha medo de pessoas.

– Me solta – gritou a garota – Jonathan, Dylan, façam algo, porra. – Ela estava tentando empurrar Samantha, que resistia.

— Vocês machucaeam meu irmão — Lágrimas jorraram de seu rosto quando a outra cravou as unhas em seu braço para tentar desequilibrá-la. Samantha então decidira fazer o mesmo, e cravou no pulso da outra. — É você que… — fungou — deveria pedir suas desculpas!

Jonathan e Dylan estavam em posição de luta, os dois lado a lado preparando-se para acertar um soco em Harrison, mas este caminhou, mantendo a mesma distância que mantinha antes e abriu uma das gavetas da pia. Retirou uma faca de cozinha brilhante, extremamente fina. Seu cabo envolvia toda a mão dele. Thomas já tinha ouvido falar que antigamente ocorria o risco de facas caírem e machucar quem as utilizava. Ainda não haviam facas para quem possuísse parkison, mas Thomas tinha uma colher especialmente para isto, assim como uma caneta. Carregava-as sempre consigo.

– Sabe como usar uma dessas? – O dedo indicador esquerdo de Harisson deslizaram pela lâmina, e um fiapo de gotas de sangue foram jorrados – Corta-se com a parte laminada. – Ele devolveu ela ao seu lugar, já que os filhinhos de papai já haviam se assustado. – Não se preocupe com a faca, me ataquem logo.

Jonanthan tentou dar-lhe um soco, Harrison com maestria desviou e segurou seu pulso, e com força atirou-o ao chão, torceu-lhe o braço e falou:

– É assim que se sobrevive nas ruas. – limpou as mãos em sua jaqueta, que já era um pouco velha apesar de Klaus comprar roupas novas sempre. – Vai ficar encarando eu quebrar o braço do seu amigo?

– Seu filho de uma prostituta qualquer.

Dylan era mais alto do que Jonathan, era verdade. Mas Thomas sabia que não teria nenhuma chance contra Harrisson. Este esquivou do golpe que veio carregado de ira muito mais rápido do que antes. Dylan poderia parecer mais forte, mas era mais lento. Ao movimentar seu pé para trás, Harrisson deixou seu corpo na horizontal, inclinou-o para o lado e deu um chute na direção da face do outro. O golpe era previsível demais, até Thomas sabia. O playboy agarrou a perna do companheiro de Thomas. De uma forma inacreditável, conseguiu pegar impulso com a que o servia de base já que Dylan o segurava e deu um chute no pescoço do mesmo. Harrisson soltou-se quando Dylan caiu e olhou diretamente para a garota que estava até agora em empurra-empurra com Samantha.

– É a namorada de algum desses idiotas ou está solteira? – Limpou as mãos novamente e agarrou o pulso de Thomas para ajudá-lo a se levantar.

Ele logo cuspiu na cara dos dois otários que estavam no chão gemendo. Samantha soltou a garota que correu para a porta da casa e saiu em bora. Provavelmente voltaria, não tinha para onde ir e estava arriscado demais sair de casa após o que presenciaram no centro da cidade.

– Obrigado mais uma vez, como sempre, me salvou…

– Não é nada. Nunca é demais surrar alguns idiotas. – Harrisson limpou o pé na cara de Dylan. – Tá bem Sam?

A garota ainda estava em volta às lágrimas. Devia ser a primeira vez na vida que brigava, mas ela apenas assentiu:

– Sim… Só preciso ir dormir.

A garota foi para a sala novamente.

– Foi a primeira vez dela brigando, meu. Pra você ver que ainda fica se subestimando. Você é importante para todos nós a ponto de fazer até Samantha brigar. – Harrisson soltou uma gargalhada. – E ainda mesmo com esses problemas, consegue ser mais inteligente que quase todo mundo. Acho que mesmo que não tivéssemos encontrado Klaus ainda conseguiria chegar a uma faculdade. Mesmo sendo nosso caçula já é considerado um exemplo pra todos nós, viu? E nem eu, nem o Jimmy, muito menos o Klaus, nem o Paul, o Oscar, o Alan, agora pouco percebeu que nem a Samatha se importaria de se machucar por algum de nós. Podemos não ter pais nem uma família comum, mas temos nós. E se ficarmos juntos, nem aqueles demônios vão nos separar.

Thomas até comoveu-se um pouco depois do discurso de Harisson. Mas para ele, isso era algo ruim. Sempre nas histórias após uma cena dessas vinha a morte, de um dos dois.

Seguiram para a sala e juntaram-se aos outros. Por um momento Thomas parecia ter parado de tremer, mas logo voltou.

E menos de cinco minutos depois ouviu outro barulho, mas dessa vez todos ouviram. Era um grito de uma mulher.

– Vamos lá ver, pode ser aquela gatinha amiga dos otários. – Falou Harrisson.

Todos levantaram-se, Jimmy e Harrisson carregando as armas. Quando estavam saindo, encontrou os playboys de novo.

– Ela é nossa irmã. – Falou um deles. – Peço desculpa por tudo que fez, mas por favor, vá conosco ver o que aconteceu.

– Mesmo vocês sendo uns paus no cu não a abandonaríamos. – Falou Jimmy. – Daí tu vê que somos muito mais humanos do que vocês, mesmo vocês tendo esse preconceito.

Os outros dois ignoraram a discussão e assim abriram a porta. Encontraram a garota no chão úmido. Mas ao menos já não chovia mais. Ela era bela, por mais trouxa que ela fosse, Thomas tinha que concordar. Mas sem metade da face e com as tripas para fora, não tinha como considerar isso. Samantha vomitou ao vê-la.

Uma daquelas criaturas estavam ao lado. Parecia humano. Ainda no rosto tinha o nariz um pouco arredondado, os lábios, por mais grotescos que fossem, grossos. E aquelas pupilas sem cor estavam em olhos estreitos abaixo de uma larga pupila feita de uma pele podre. Por algum motivo, seus traços marcaram Thomas. Mas o que tinha de humano, tinha de desumano. Sua coluna era mais cumprida que o normal, e fina. Seus braços eram puro osso e também mais longos, com as mãos somente em unhas. E o que o mais o deixava estranho eram aquelas asas. Estavam rasgadas, portanto, talvez não pudesse voar para fugir se atirassem nele. A criatura olhou-os e foi em sua direção.

– Christina! – Gritou Dylan. Talvez para outra pessoa, no lugar de Thomas, vê-lo chorando desesperado fosse prazeroso. Mas isto apenas deixou-o triste. Imaginou-se perdendo Samantha.

A criatura seguiu em passos largos até Dylan. Este que nem sequer reagiu. Apenas olhava a irmã morta. Foi quando a criatura aproximou-se para cheirá-lo que ele do bolso retirou aquela mesma faca e cravou em um de seus olhos. A criatura soltou um guincho e atirou-o longe, fazendo suas garras perfurarem sua pele. Dylan caiu longe. E o monstro seguiu para perto dele e agarrou-o pelo pescoço, sem um dos olhos. A faca permanecia caída na frente do pátio.

– Não é somente quem é da rua que sabe usar uma faca. – Falou. A criatura arrancou um de seus braços. – Garoto, desculpe pelo que falei antes. – E arrancou o outro. A criatura sorriu, com dentes grotescos. Um sorriso apavorador. Mas ele não podia ter medo. Samantha gritou e fugiu para trás de Jimmy e de Harrisson. Estes que tentavam mirar em um ângulo que não tivesse chance de também matar o homem. – Cara, foi a primeira vez que alguém deu uma surra em mim. Então, agora é com você. – Aquele… Demônio! Fez-lhe um corte na barriga e começou a puxar alguns dos órgãos. Quase sem força restando, o rapaz que a pouco Thomas odiava falou suas últimas palavras: – Jonathan, vou ter que ir para cuidar da Chris no céu ou onde quer que vamos parar. Portanto, cuide-se de si mesmo…

O que quer que fosse aquilo que estava na sua frente, levou um tiro certeiro no pescoço. Disparado de Harrisson. E então o sorriso de sua face desaparecera. Em uma velocidade maior do que já havia visto, já estava em cima de Harrisson. Este o olhou diretamente com seus olhos azuis para a criatura, estava atirando mas largou a arma depois de um tempo, não tinha acabado o cartucho. Thomas começou a chorar.

– Harry! – Gritou Samantha, em vão. – Ajudem-no, por favor. – E gritou mais alto. Ajudem-no!

E a criatura fez um corte no rosto de Harrisson, um pouco abaixo do olho. Não o tirou, mas começou a fazer uma linha com suas garras. Gotas de sangue percorriam um caminho da bochecha. Estavam indo para perto do pescoço, quando a criatura levou novamente tiros. E começou a recuar. Jimmy estava disparando contra ela, evitando olhá-la diretamente na face, por algum motivo que Thomas ainda não tinha compreendido.

– Alguém, pegue a faca! – Ele gritou enquanto recarregava a arma.

Oscar, era um garoto de pele escura, cuja nacionalidade eles não sabiam, mas falava alemão muito bem. Fora o último a chegar no orfanato, quando já tinha catorze anos, junto a Samuel, um magricela que era o único que não tinha ido para a faculdade, somente acompanhavam-nos na saída pois trabalhava ali perto, carregavam Harrisson para dentro. Samantha já não estava por perto, Talvez fora suplicar ajuda.

– Acabou aqui. – Falou Leon.

– Eu também… – Respondeu Jimmy.

Jimmy estava sem balas e Leon tinha pegado as de Harry, e ainda disparavam. Por sorte já haviam levado ele para dentro da sala. Jimmy partiu para pegar a faca. Paul e Alan foram para dentro, já que não haviam armas para ajudar. Mas Thomas estava tremendo. Desta vez não pela doença, mas sim por medo. Não conseguia simplesmente pegar e fugir. Quando acabaram a bala de ambos, Jimmy tentou ir feri-lo com a faca, mas a criatura o segurou e levou ao chão. Iria ela completar o mesmo ritual de antes ou somente matá-lo? Talvez a última opção fosse melhor para Jimmy, mas Thomas preferia que fosse a primeira.

Arrancar-lhe-ia o braço, mas Leon pegou a faca e enquanto a criatura divertia-se arrancando a pele de Jimmy. Este já estava com uma aparência brutal, poderia até ser confundi com um deles, com boa parte do rosto em carne viva. Leon aproveitando disso cravou no outro olho da besta, que gruniu e atirou para trás. Desta vez ela não cometeu o mesmo erro e começou atacando partes vitais de Leon.

– Pelos deuses. Não consigo me levantar. Thomas, vamos todos morrer se não fizer você isso. Pegue a faca e mate-o!

Havia passado mais de dois minutos e nada dos outros. Não podia ser verdade que haviam deixado-os para serem mortos. Thomas não tinha coragem sequer para se mover, e ainda tinha a doença. Nunca conseguiria matar a criatura. Ela que por si estava desmembrando Leon. Provavelmente ele já estivesse morto, mas o monstro parecia ser um pouco idiota. Foi então que ouviu outra voz.

– Thomas, ele vai matar o Leon! – Klaus gritava da porta, enquanto corria para a direção. – Se pararmos de atirar ela vai matá-lo.

Correu para alguns metros da criatura, tentou pegar a faca. Klaus e o Cara Que Matou A Criatura já estavam ao seu lado, disparando contra ela para impedi-la de se mover, já tinha matado o Leon graças a falha de Thomas. Se parassem por algum segundo, ela conseguiria se mover. Tem de ser eu, pensou. De acordo com o relato do rapaz, com a faca ele pode ter certeza que conseguiria matar.

E então ele conseguiu a coragem para ir. Segurou a faca firme o suficiente que mesmo com a tremedeira não a derrubava. Chegou perto e cravou a faca em sua garganta, mas como sua mão tremia não conseguiu retirá-la. Ficou caído apavorado, enquanto a criatura sem olhos tateava o chão para procurá-lo. Parou de receber tiros. Quando o clarão aliviou-se Thomas enxergou Klaus ao seu lado, tentando arrastá-lo. E a criatura indo para cima dos dois. O olhar de Klaus a vê-la era sofrido demais. Thomas entendera o que perceberam nela. E era algo horrível de se pensar. Começou a chorar quando percebeu. Jimmy estava de pé, e fora tentar ganhar tempo para eles. Adam arrancou seu braço e o jogou no chão, ignorando-o completamente. Queria ver o sangue dos dois. O clarão das armas parou de vez, e o Cara Que Matou A Criatura estava com a sua própria faca tentando acertá-la. Mas por algum motivo parou. E Adam também. Ambos olharam para trás, mesmo que nesse momento já não tivesse olhos.

Todos viram uma figura, no meio das árvores próximo ao mar da bacia que ficava nas fronteiras de Hassweld. Um homem velho. Com longos cabelos brancos e uma longa barba. Vestia uma estranha túnica que estava molhada e estava descalço. Segurava um peixe na mão esquerda, um peixe aberto ao meio. E com a direita, enfiou a mão no peixe, e puxou uma própria faca. Era prateada também, mas com entalhes magníficos. Naquela hora pareceu a coisa mais bela que havia visto na vida. Piscou. Thomas eventualmente piscou, e quando o fez, em questão de muito menos de um segundo, este homem barbudo já estava alguns metros na frente, e a criatura decepada. Para Thomas pareceu-lhe aquelas cenas de filmes.

– Quem foi que matou uma destas "baleias do inferno" – Ele perguntou.

– Fui eu… – Respondeu o cara.

– Ah, que pena. Não é você.

– Como assim, senhor, foi ele mesmo. – Thomas havia o respondido, esqueceu de agradecer ou se quer se apresentar. – A principio, obri… – Mas quando o fez, fora interrompido.

– Não é isso. Você não é quem eu estava procurando. Mas apenas uma pergunta. Se antes conseguiu matar uma sozinha, por que agora em grupo não conseguiram? – Ninguém respondeu, até que o cara falou:

– Pois estávamos mais preocupados em salvar os outros do que com a vitória? – Quando falou isso, tudo veio a tona para Thomas. Um ferido terrivelmente, outro sem um braço e com o resto em carne viva. Três mortos… E aquilo que acontecera a Adam.

– Exato.

– Mas isso significa que temos que deixar de proteger os outros? – Perguntou Klaus. Ele não era do tipo de fazer perguntas, provavelmente estava testando o velho.

– Se fossem mais fortes, poderiam impedir a morte deles. Garoto. – Falou para o rapaz que matara a criatura. – Qual seu nome?

– Henri. Henrique Stratio.

– Você tinha matado um deles e nesta batalha demorou para vir. Por quê? Ocupado com coisas de adolescente? — Riu — Já passei por isso.

– Estive ocupado. Mas em algo importante. Falhamos brutalmente, eu sei. Mas senhor, se você estava o tempo todo aí, não poderia ter impedido a morte deles?

– Eu impedi as suas. Já não foi o bastante? Foi mal, tava molhado demais para vir nadando, por isso tive que fazer algo mais complexo.

– Não. – Klaus finalmente levantou-se, Thomas estava apoiado nele. – Podia tê-las impedido também.

– Peço-lhe desculpas. Estava com curiosidade de vê-los lutando, e fiquei decepcionado. Pareceram bodes tentando espiar um ao outro — Soltou uma gargalhada. Uma frase estranha não-engraçada acompanhada de uma gargalhada – Arrumem mochilas com coisas e vamos partir. Desse jeito não conseguirão sobreviver o que está por vir.

Todos ficaram confusos com o que ele falou.

– Ir para onde? – Perguntou Klaus.

– Algum lugar onde possam ficar mais fortes. Vamos lá, arrumem-se.

Quando todos entraram, foram direto para o laboratório, Harry estava deitado em uma das macas, enquanto Paul e Alan trocavam os curativos.

– Derramem um pouco de vinho, ele parece forte o bastante para aguentar. Assim cauteriza as feridas mais rápido. – Falou Marcus. Seus olhos estavam absurdamente vermelhos. – Levem o Jimmy para uma delas também… Sinto muito pelo seu braço direito, vai precisar arranjar uma namorada. – Marcus gargalhou, mas logo voltara ao aspecto triste. – Quem é esse?

– Apenas um peixeiro qualquer. Podem me chamar de peixeiro mesmo. Cuidem de seu pessoal, mas depois precisaremos ir embora.

– Henrique, siga-me. – Falou Marcus –Vamos acabar o que preciso de sua ajuda.

Os dois estavam retirando-se para mais uma sala ao fundo quando Klaus parou Marcus para perguntar uma coisa:

– Marcus, eu e meus irmãos realizaremos o enterro de quem morreu hoje. Quer que eu faça o do seu pai também?

– Não! Este eu farei.

Passaram a noite cavando covas para Leon, a garota e seu irmão. Mas teve mais alguém que foi enterrado, a criatura, Adam. O fato de perceberem que ela era ele deixava Thomas com um nó no estômago, mas não havia mais lágrimas que ele pudesse derramar. Apos todos, com exceção de Sam, Marcus, Henri, Jimmy e Harry cavarem quatro covas, Samantha apareceu correndo.

– Ele acordou! O garoto!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.