Bang Bang, You're The One!
2 Capítulo 2
The Ritz London, 150 Piccadilly — Londres 16h50 PM
– Até que enfim, pensei que nunca chegaria ou que eu teria que rastreá-lo na Dinamarca — ia dizendo o Italiano – apesar de velho, aparentava uma boa aparência –, insatisfeito pelo atraso considerável do rapaz, que se sentava a sua frente em uma das mesas do salão para o chá das cinco. — Já não se fazem europeus pontuais como os de antigamente.
– Eu estou aqui, não estou? — disse o rapaz, insatisfeito com a recepção nada calorosa que recebia. — De fato não se fazem europeus gentis e educados como os de antigamente — sorriu satisfeito ao ver que o velho fechara a cara e agora mantinha no rosto uma expressão vazia. — Estou muito bem, obrigado. Ah, e da próxima eu aceito passagens de primeira classe. Estou lhe prestando serviços e não favores.
– Quanta ousadia, meu rapaz — apesar da ousadia, o velho admirava a personalidade do rapaz, que não se deixava intimidar por pouco, era assim que as coisas tinham que ser. Admirava o fato de que pelo menos alguém em sua família tinha motivos de orgulho para com suas proles. — Cadê a dama que o acompanha?
– Acredito que esteja no quarto ou na loja de roupas mais próxima — reviraram os olhos inconscientemente, mulheres. — Mas creio eu que não foi os interesses sobre a minha companhia que o trouxe até aqui, afinal, um telefona bastava, não precisava ter saído da Itália para isso — o sarcasmo era tangível em sua voz, e o velho azedava cada vez mais sua feição. — Podemos ir direto ao assunto? — levou a xícara, preenchida de chá com leite, até a boca.
– Quem diria que um dia duas máfias europeias – Londrina e a Dinamarquesa – trabalhariam em conjunto para o bem de uma só família, os d' Médici — fez uma careta ao pronunciar o próprio sobrenome, como se fosse um desconhecido, não um membro da família. — Em especial, por um membro, Katharine d' Médici — o rapaz contorceu o rosto ao ouvir aquele nome.
– Não é nenhum segredo que as "mães" — fez aspas com os dedos. — do crime trabalham juntas quando há uma relação de interesse. Admira-me o fato de que ainda não tenham se juntado aos agentes da Interpol, que trabalham no Centro de Investigações da Dinamarca, como o nosso querido Christopher d' Médici, o melhor da equipe — arqueou a sobrancelha, apoiou os antebraços na mesa e as mãos abaixo do queixo, se curvou para frente e continuou. — Seria uma pena se alguém tivesse matado seu pai para que o mesmo não tivesse a chance de se orgulhar do prestígio do filho, que só tende a crescer... — sussurrou como se contasse o segredo da imortalidade para alguém.
– E a nos atrapalhar — o italiano completou desgostoso a sentença iniciada pelo jovem.
– Não há motivos para aumentar suas rugas de preocupação, Sr. d' Médici — segurou um sorriso infeliz ao ver a reação do velho. — Um estalar de dedos e POOF é mais uma carta fora do baralho...
– Não acredito que essa seja uma ideia muito inteligente — argumentou. — Veja quem se aproxima para ceder-nos o prazer de sua companhia — o velho desviou a sua atenção do jovem ao ver a jovem mulher, que sorria abertamente, se aproximando até a mesa onde se encontravam. O italiano se levantou para melhor recepcioná-la. — Boa tarde, como foi a viagem? — se curvando para depositar um beijo à mão da bela moça.
– Olha só como a educação parece cair do céu quando um rabo de saia aparece — o jovem se calou assim que viu o olhar da mulher, que o censurava pela falta de educação, e o do velho, que o censurava por dizer a verdade de uma forma descarada. Rolou os olhos.
– Como de costume, sempre muito boa. Obrigado pela preocupação — sibilou a mulher, sorrindo para o homem, que lhe retribuía com um sorriso paterno. Ele puxou uma cadeira para a mulher se sentar, e ela o fez. — Então... Sobre o que falavam antes de eu interrompê-los? — dizia ela enquanto o velho retomava seu lugar à mesa.
– Você não nos interrompeu, queri...
– Interrompeu sim — o jovem cortou o velho no meio de sua sentença, que lhe lançou um olhar torto, mas foi ignorado com sucesso. — Falávamos sobre nossas joias, os d' Médici. Ou melhor, sobre a nossa joia, Katharine d' Médici, a nova queridinha dos mafiosos europeus, e sobre como o filho do conde só complica o nosso lado.
– Ah, sim, Katharine d' Médici — a mulher se pronunciou. — Vocês precisam ser mais cautelosos, estão lidando com algo muito maior que nós — suspirou.
– Como assim? Eu não sabia que os agentes tinham se fortalecido tanto assim no ramo. Eles sempre foram bons, sabemos disso, mas nunca chegaram até nós. Estamos invictos — disse o rapaz.
– Não se fortaleceram. Eles sempre foram bons. Na verdade, Christopher é bom! — ela suspirou ao dizer o nome do rapaz.
– Christopher, huh? — o rapaz a olhava sugestivamente. — Tenta não se apegar, ele vai acabar morrendo.
– Não seja ridículo. Ele é bom, muito bom, mas agora ele não está mais sozinho. O que faz dele um excelente agente.
– Como assim não está mais sozinho? — finalmente o italiano se pronunciou.
– Os homens de Burke se juntaram a ele.
– Eu sabia! — o rapaz exclamou. — Sabia que não demoraria muito até que os homens de Steven se juntassem a eles, afinal, esses malditos mafiosos ingleses não perdem uma. Mas, pelo menos, ainda temos os dinamarqueses do nosso lado, não?
– Não — a jovem disse entre os dentes. — Eles já estão totalmente infiltrados na Interpol, chefiam o lugar. São espertos o suficiente para não deixar que as coisas fujam do controle.
– Pensei que com a morte do conde eles sairiam de cena, afinal, era o conde que dava as cartas ali. Inclusive morreu por saber demais.
– E teriam saído, mas o conde tinha uma carta na manga — ela olhou para os dois homens e sibilou derrotada. — Ele deixou um sucessor. Ou melhor, uma sucessora — ambos arregalaram os olhos com a notícia.
– Quem?
– A Condessa de Rosenborg.
– A prima da rainha? — o rapaz quis saber.
– Uma das.
– Como ela é? Digo, ela é velha? — a mulher riu baixo e balançou a cabeça em negação.
– Talvez você já a conheça... — deixou a frase morrer com um sorriso satisfeito no rosto.
– Como? Eu teria percebido... — a mulher balançava a cabeça enquanto o rapaz falava.
– Não é minha culpa se, além de burro — ele a olhou feio. -, você é lerdo. Sorte a tua que você é bonitinho — ela se curvou até ele e passou a mão em seu cabelo.
– Burro? Eu?
– Não, meu anjo, imagina — ele relaxou os ombros e sorriu. — É lógico que é você, né, garoto — ela lhe deu um tapa na cabeça.
– Eu acho que estamos perdendo o foco aqui — o velho resolveu se pronunciar antes que aqueles dois acabassem se atracando no meio do salão.
– Que seja — o rapaz deu de ombros.
– Acho que podemos resolver os detalhes outra hora — sorriu delicadamente. — Preciso ajeitar algumas coisas por aqui ainda, nos veremos em breve — sorriu para o velho e piscou para o rapaz, que ainda mantinha a expressão fechada. — Não será necessário que me procure, eu aparecerei na hora certa — disse, por fim saindo.
A mulher se dirigia à saída daquele salão, e os homens, que permaneceram à mesa, ficaram a observando. Para eles, ela seria a arma perfeita se não estivesse tão imparcial ao jogo.
– Vou ficar hospedado aqui até o fim da minha estádia, semana que vem, quando voltarei à Itália. Nos encontraremos mais vezes — disse o italiano ao rapaz, que ainda olhava a mulher. — Precisamos voltar a agir ou tudo o que fizemos até agora terá sido em vão e...
– É para isso que você me faz viajar até a Rússia? Para ela chegar aqui, dizer meia dúzia de palavras desconexas e ir embora assim? — o rapaz o interrompeu.
– Você sabe que o que ela disse faz todo o sentido. Não sei para que tanta irritação assim, não é como se a presença dela seja um martírio a você — o italiano olhou para o rapaz sugestivamente. — Inclusive, acho que deveríamos encerrar por aqui, para você aliviar da tensão que ela te deixa — arqueou a sobrancelha e riu brevemente do rapaz à sua frente. — Nos veremos em breve — saiu do saguão e foi em direção ao elevador para que, enfim, retornasse ao seu quarto.
– Talvez eu devesse ter ficado na Dinamarca com eles– murmurou para si mesmo, deixou o lugar sem ao menos perceber o homem, que os observava a algumas mesas de distância.
– Alô? — o homem, que antes os observava, atendeu o celular.
– Pode falar? — uma voz feminina dizia do outro lado da linha.
– Sim.
– A condessa está te esperando – a ligação foi finalizada, e o homem partiu.
Frederiksborg, Dinamarca.
– Finalmente, férias! — a menina entrou em casa e deu espaço para que Katharine passasse. – Família, eu cheguei – gritou ao pé da escada.
– Ash, tem jujuba? — Katharine se sentou (lê-se: jogou) no sofá. — Não é exatamente férias que eu queria, eu queria mesmo era que acabasse tudo de vez — Ashley apontou para o potinho ao lado da TV preenchido de jujubas de morango, as preferidas de Katharine. – Eu te amo, sabia?
– Interesseira – Ashley riu e jogou uma almofada na cara de Katharine. — Eu sei, todos nós queríamos o fim disso tudo, mas por enquanto férias estão de bom tamanho – a menina se sentou ao chão e encostou-se ao sofá em que a amiga estava deitada. – Você já tem algum estágio em vista?
– Nope... — Ashley a olhou. — Na verdade, eu pretendo falar com o Chris sobre isso... Sabe, ele pode me arranjar alguma coisa.
– Nunca achei que você iria para área de promotoria ou algo do tipo, mas entrar para equipe de investigações da Interpol? — Katharine riu do jeito que a amiga falava. — Não é um pouco agitado demais para você, não?
– Naaaaah, eu gosto de viver a vida perigosamente...
– Kath, não é como se você fosse virar um tira...
– Ashley, meu amor, não estraga as minhas fantasias — Katharine disse com a boca cheia de jujubas.
– Katharine, modos! — Ashley ria da amiga, que lhe mandou o dedo feio em resposta à repreensão que levou. — Deve ser algo bem legal mesmo assim, mas mesmo assim deve ser muito mais legal trabalhar para...
– Máfia da Dinamarca — Katharine disse junto com a menina. — Todos nós sabemos que você nutre uma paixão secreta por mafiosos, mas ainda assim acho que você não “escolhe” — fez aspas com os dedos. — São eles que escolhem você.
– Que seja... Mas que eu queria ter essa sorte — Katharine a olhou. – Eu queria.
– Não acho que isso seja uma questão de sorte.
– Sabe o que eu estava pensando esses dias? — Katharine abriu a boca para caçoar a menina, mas não teve a oportunidade. — Cala boca, me deixa continuar — a amiga fez um sinal com a mão para que Ashley continuasse. — Sobre a sua família, sabe, seu sobrenome é italiano e você mora na Dinamarca, tem parentesco com a família real e tudo mais, como isso foi acontecer?
– Na verdade, eu não sei... — Ashley olhou-a, incrédula. — É sério! Eu nunca fui atrás da história... Sempre que tentei especular sobre isso, todo mundo muda de assunto ou algo do tipo — a menina se preparava para questionar, masKatharine continuou. – Eu sei, isso é bem estranho. Porém, eu até entendo o porquê da minha mãe evitar o assunto. Quando ela saiu da Itália para vir para cá, ela fugiu, literalmente. Ela estava grávida e se o pai dela, meu avô, descobrisse, provavelmente não estaria mais aqui.
– Mas a sua mãe não era mais uma adolescente quando fez a burrada de ficar grávida de você — Katharine jogou uma almofada na cabeça dela. — Estou brincando — Ashley riu. — Para ser sincera, eu acho que tem muito mais pano para manga nessa história do que você tá sabendo.
– Eu sei que não, essa é a única peça que não se encaixa — Katharine suspirou. — A família do meu pai foi nascida e criada em Napoli, na Itália, e a família da minha mãe comanda Roma. Não tem motivos para ela ter fugido.
– Comandar Roma significa comandar toda Itália, afinal, Roma é a capital — Ashley ponderou. — Por acaso seu avô é prefeito, presidente, rei, Deus ou algo do tipo?
– Não que eu saiba... — Katharine considerou a possibilidade, mas o “negócio” da família era bem mais complexo. — Não, com certeza não.
– Então ele só pode ser o chefe da...
– Máfia — Katharine se divertia com a fascinação da amiga com todas essas coisas. — Sim, ele é e a família do meu pai é o braço direito, não que eles façam parte, mas são aliados.
– Cara, isso é insano — a menina se maravilhava com toda aquela árvore genealógica da amiga. — Mas acima de tudo, eu acho que você deveria pesquisar mais sobre o seu passado. Ninguém foge grávida da Itália quando se carrega um possível herdeiro no ventre.
– Quem fala insano nos dias de hoje? — Katharine brincou. — É, pode até ser. Não vou atrás, tenho certeza que isso acabará chegando até mim.
– Fazer o que se sou antiquada?! — Katharine riu. – Se você é praticamente italiana, como é que o conde é seu parente?
– Minha avó é dinamarquesa, acho que isso sana suas dúvidas — Ashley confirmou com a cabeça.
– Falando em conde... Como vocês andam? — Ashley perguntou cautelosamente, sabia a delicadeza do assunto. – Você sabe, o caso, você, o Chris, sua família...
– Sabe quando há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la? — Ashley confirmou com a cabeça. Katharine mordeu os lábios antes de continuar e engoliu seco, precisava ser forte ou choraria, Ashley pegou as mãos da menina e as segurou. — É exatamente assim que eu me sinto desde que ele se foi. A vida é curta, mas os sentimentos que alguém deixa para trás podem durar uma eternidade — seus olhos estavam marejados. — Christopher não demonstra, mas sei que ele sente. Ele sempre soube que o conde era pai dele e agora que ele se foi... Ele está dando o melhor de si naquela equipe para desvendar quem fez aquilo. Meus pais andam cada vez mais afastados, misteriosos, cheios de compromissos, eu não os tenho mais. Rosalie ficou muito abatida com isso, mas aprendeu a ser forte para que pudesse nos manter forte — Katharine suspirou. — É difícil? Para caramba, mas a gente tem que seguir em frente, já passou um ano... — uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. — Mas eu ainda sinto falta dele, ainda dói aqui dentro — apontou para o próprio coração. — Toda vez que eu me lembro dele.
– Me desculpe... Eu não queria ter que fazer você passar por isso... — Ashley se sentou no sofá, ao lado da amiga, e a puxou para um abraço.
– Tudo bem, Ash, eu preciso por para fora às vezes. Sabe, não faz bem guardar tudo para mim...
– Vai ficar tudo bem, eu prometo — ela sorriu para a amiga e limpou as lágrimas em seu rosto. — Chega de falar de coisa ruim. Vamos assistir a um bom filme de terror com brigadeiro, fechou?
– Mais que fechado — Katharine sorriu, e as duas foram para a cozinha.
As meninas foram para cozinha e fizeram brigadeiro enquanto conversavam sobre bobagens e garotos.
Escolheram um bom filme de terror após uma pequena briga, pois Ashley queria ver Atividade Paranormal, e Katharine dizia que aquilo não era terror de verdade. Assistiram ao filme e se assustaram mais do que criancinhas assistindo Chuck: O boneco assassino. Não tinha ninguém em casa, podiam fazer quanto barulho que quisessem e não perderam tempo com isso, gritavam a cada susto que levavam. Katharine estava praticamente enterrada sobre o sofá e Ashley cobria os olhos. As meninas estavam tão distraídas que não percebiam a velocidade com que o tempo passava e nem muito menos o fato de estarem sendo observadas, assim permaneceram, até que acabaram pegando no sono antes mesmo do final do filme.
Estavam em um quarto todo escuro, exceto pela luz fraca que pendia do meio do teto, iluminando fracamente a cadeira que se encontrava abaixo.
Um homem todo de preto andava ao redor daquela cadeira, apavorando a menina nela amarrada. Uma menina jovem, muito bonita, com cabelos longos e pretos. Era Katharine.
– Uma mulher tão jovem e tão bonita... — o homem dizia, próximo a sua orelha. — Me faz até sentir pena só de pensar em te matar — ele tirou da bainha, presa à calça, uma faca. Katharine, ao ver aquela faca na mão do homem, se desesperou, arregalou os olhos e tentou gritar, teria conseguido se não estivesse amordaçada. — Shhhh — o homem escorregou a lâmina pelos lábios da menina. — Fica quietinha senão eu vou ter que te machucar — lágrimas de medo escorriam pelos olhos assustados da garota, e soluços abafados ecoavam pelo cômodo. — O conde não se apavorou. Pensei que a valentia corria no sangue real... — apesar da pouca luminosidade, Katharine conseguiu focalizar os olhos do homem à sua frente, pareciam tão familiares... — Mas pelo visto, eu me enganei — ele escorregou a lâmina por toda a garganta da menina, aquilo estava a apavorando. — Sabia que, mesmo à beira da morte, o conde se lembrou de você? Seu último pedido foi para que eu ficasse longe de você e do Christopher — ela fechou os olhos, não queria ter o mesmo fim. — Tolo. Isso é o que Cristiano foi, tolo — o homem ria. — Sabe por quê? Porque ele achou que eu atenderia o seu último pedido — ela queria gritar com todas as forças que tinha, pedir por ajuda, por socorro, mas não podia. Estava de mãos atadas, presa àquela cadeira, sem rota de fuga. Era o fim da linha. — Agora vocês são apenas peças do jogo esperando pelo xeque-mate — ele tirou as amordaças da boca da menina. — Quais são as suas últimas palavras, amor? — ela o reconheceu e, quando ele se aproximou da luz, pode ter certeza de quem era, o pânico tomou conta de Katharine, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, gritou. Aquele grito foi sua última palavra, pois logo após teve sua garganta degolada pela pessoa que tanto confiou e amou.
– Kath, acorda, meu anjo — Ashley chamava pela amiga, que se mexia inquieta no sofá. — Kath, acorda... — a menina se sentou ao chão e passava a mão pelo cabelo da menina desacordada. — Katharine — chamou mais uma vez, mas a menina não respondeu. Ashley estava preocupada, sempre lhe disseram para ter cuidado ao acordar alguém que está tendo pesadelos, mas não tinha como. Katharine, além de se remexer inquietamente ali naquele sofá, também chorava silenciosamente. — Kath, acorda, porra — a menina chamava a amiga, mas parecia estar falando com uma estátua. Ela se encostou à mesinha de centro atrás dela e suspirou pesadamente, sem querer, sua mão esbarrou no vaso de flores de sua mãe, quase o derrubando. Ashley sorriu marotamente. — KATHARINE D' MÉDICI, ACORDA! — a menina tirou as flores do vaso e jogou toda a água que tinha ali na cara de Katharine.
– PUTA QUE PARIU! NOSSA-SINHORA-VIRGI-MARIA, MORRI? — Katharine disse afobadamente, ela estava assustada.
– Até que enfim você acordou, princesa — Ashley colocava as flores de volta no vaso vazio. Katharine a olhava incrédula.
– Isso — ela apontou para si mesma com a roupa toda encharcada. — Foi obra sua?
– Ué, eu fiquei um tempão tentando te acordar — Ashley deu de ombros. — Não teve outro jeito.
– Eu espero do fundo do meu coração que você morra!
– Ai, que horror, menina — Ashley colocou a mão sobre o peito. — Não fala isso — bateu três vezes na mesinha de madeira. Katharine rolou os olhos.
– Eu quase morri! — Katharine disse, incrédula. — Na verdade, eu morri, mas agora eu quase morri de verdade.
– Como assim morreu? — Ashley a olhava estranho, e a menina contou todo o sonho pesadelo para ela. — Nossa! — Ashley a encarava de olhos arregalados. — Você acha que era ele mesmo?
– Não sei, acho que sim.
– E se foi, tipo, uma premonição? E se ele tentar te matar de verdade?
– Não pira, Ash, ele nunca faria isso. Ele não faz mal nem a uma formiga.
– Não sei, não... Acho melhor você ficar aqui em casa essa noite, não tem ninguém na sua e você tá sem carro.
– Por quanto tempo eu dormi? — Katharine mudou de assunto, não queria falar sobre aquilo.
– Umas três horas. Eu também acabei pegando no sono e acordei agora pouco — Katharine olhou para a janela e viu que estava tudo escuro, já devia passar das 9 horas.
– Eu acho que eu vou embora, está tarde e eu tenho que terminar umas coisas para amanhã.
– Eu acho que você deveria ficar...
– Ashley, relaxa! O Scott não vai me matar ou coisa assim, nem aqui ele tá — a loira a encarava séria. — É sério, gata. Foi só um sonho, eu já estou bem — embora aquilo não fosse totalmente verdade, ela não queria preocupar a amiga. — Bom, eu vou indo — se levantou do sofá e pegou a mochila que estava jogada ali próximo. — Diz tchau à sua mãe por mim, ok?
– Eu até te levaria, mas sabe também tô sem carro... — fez uma careta de desgosto.
– Não esquenta, Ash. Eu vou andando mesmo, tô precisando de um ar — ela abraçou a amiga e deu um beijo em sua testa.
– Chama um táxi, pelo menos.
– Não precisa, anjo. Eu moro praticamente aqui do lado — Katharine sorriu docemente. — Eu vou ficar bem.
– Tudo bem — a menina suspirou, sabia que não adiantaria discutir com Katharine. — Só fica bem, tá? Me liga quando chegar em casa, não esquece — Katharine sorriu e saiu dali, Ashley a observava da porta e, quando a menina sumiu de vista, fechou a porta e entrou. Estava preocupada, pois sabia que se a amiga precisasse de ajuda, não teria a quem recorrer.
Os pais de Katharine estavam fora, e a empregada, o irmão e o namorado estavam viajando.
[...]
Katharine caminhava tranquilamente pela calçada, que por causa da noite e da má iluminação estava mal iluminada, o movimento ali era muito pouco. Alguns bares e prédios, provavelmente abandonados, completavam a paisagem daquela rua. Sua casa não era tão longe assim da casa de Ashley, apenas alguns quarteirões, mas, diga-se de passagem, o trecho que as separavam não era lá os melhores lugares para se frequentar à noite e ainda por cima sozinha. Se não fosse a presença de becos tão escuros, que mal dava para ver o final, e a ausência de pessoas ali, a menina não estaria tão amedrontada com a presença daquela sensação, a sensação de estar sendo observada. Dessa vez ela estava certa e não demorou muito até que uma mão a agarrasse pelo braço e a puxasse para dentro de um daqueles becos. O silêncio era tão grande que foi possível escutar o som da arma ao destravar. Ela estava sem saída.
– Quais são as suas últimas palavras, princesa? — ela tentava se soltar, mas o homem era mais forte, o que impossibilitava e tornava todo o esforço inútil. O homem apontou a arma em sua cabeça, estava pronto para atirar. A menina fechou os olhos e permaneceu encolhida ali nos braços do homem. — Pensei que você era uma garota mais corajosa.
– Solta ela — outra voz se fez presente no local, Katharine abriu os olhos para tentar descobrir quem era, mas nada viu devido à escuridão. — Agora — aos poucos, a luz da lua iluminando parcialmente aquele lugar tornava a imagem nítida do homem que se aproximava. — Eu. Disse. Solta. Ela. Agora.
– Não se aproxime ou a mocinha morre — o homem disse, fazendo com que o rapaz também apontasse uma arma para ele.
– Eu acho que você não me entendeu muito bem — o rapaz destravou a arma. — Eu disse para soltar — se aproximou mais um pouco.
– Eu avisei...
A frase nunca chegou a ser terminada, o barulho de um corpo caindo no chão e um grito foram as únicas coisas que preencheram aquele silêncio após o disparo de uma arma.
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