Bala de Sangue
2 Capítulo 2
Ver alguém comer uma banana com eloquente prazer diante de quem estava prestes a se matar, era uma cena surreal, parecia tirada de um filme. Tammy fechou parcialmente os olhos, aumentou um pouco a frequência respiratória e contraiu ainda mais os músculos da face. Não sabia se devia atirar, gritar ou bronquear com o policial. Ofegante, bradou, altissonante :
– Saia daqui ! Eu vou me matar. – E ficou a um fio de apertar o gatilho. Parecia que Tammy realmente estouraria os próprios miolos.
A multidão acompanhando tudo do lado de fora, sussurrou apavorada, o psiquiatra colocou as mãos nos olhos para não ver a desgraça.
Todos pensaram que Jack se retiraria imediatamente de cena para evitar o acidente.
Ele poderia agir da mesma maneira que o psiquiatra “Não faça isso!” ou “A vida é bela”. Entretanto, num sobressalto, colocou-se de pé, para assombro de todos e em especial do suicida e disse em voz alta.
– “Que seja anulada sua infância seus sorrisos e seus medos!
Anulem-se da sua meninice suas peripécias e suas aventuras!
Risquem-se da sua maturidade seus sonhos e pesadelos, sua lucidez e suas loucuras!”
Após te-las dito a plenos pulmões, Jack expressou um ar de tristeza e, abaixou o tom de voz.
A multidão, atônita, perguntava-se se aquilo não era uma peça de teatro. Tampouco os chefes dos bombeiros e os policiais colegas deJack sabiam como reagir : Seria melhor intervir ou continuar acompanhando o desenrolar dos fatos?
Tammy ficou pasma, quase em estado de choque. As palavras do policial ecoaram em sua mente sem que ela lhes desse permissão. Indignada, reagiu com violência:
– Quem é você para querer assassinar o meu passado? Que direito pensa que tem para destruir minha infância? Quanta ousadia. – Após agredir verbalmente o policial, caiu em si e pensou “Será que não sou eu a autora desse assassinato, não seria eu a responsável? — Mas lutava para dissipar qualquer ponderação.
Vendo-a circunspecta, o misterioso policial teve o atrevimento de provoca-la ainda mais:
– Cuidado! Pensar é perigoso, principalmente para quem quer morrer. Se quiser se matar, não pense.
Tammy ficou embaraçada, fora fisgada pelo invasor. Pensou consigo : “ Esse cara está me encorajando a morrer ou o quê? Será que estou diante de um sádico? Será que ele quer ver sangue?” Sacudiu a cabeça como se assim pudesse interromper seus devaneios, mas os pensamentos sempre traem os desejos impulsivos. Percebendo a confusão mental da garota, Jack falou com suavidade, mas não com menos contundência.
– Não pense! Pois, se pensar, vai perceber que quem se mata comete homicídios múltiplos : Mata primeiro a si mesmo, e depois, aos que ficam. Se pensar entenderá que a culpa, os erros, as decepções e as desgraças, são privilégios de uma vida consciente. A morte não tem esses privilégios!
Em seguida o policial saiu do estado de segurança e passou para o de angusta movimentando a cabeça indignadamente.
Tammy ficou paralisada. Queria rejeitar as ideias do policial, mas elas pareciam um vírus invadindo os circuitos de sua mente. Perturbando e tentando resistir as reflexões, ela disse;
– Quem é você que em vez de me poupar, me confronta? Por que não me trata como uma miserável doente mental digna de pena? – E aumentando o tom de voz, decretou. – Cai fora! Sou uma garota completamente acabada.
Em vez de se intimidar, Jack perdeu a paciência e a censurou :
– Quem disse que você é uma pessoa frágil ? Ou uma deprimida que esgotou o prazer de viver? Para mim, você não é nada disso. Para mim, você é apenas uma menina orgulhosa, presa na sua gaiola emocional, alienada de misérias maiores que a sua.
– Quem é você para me chamar de orgulha, uma prisioneira em minha gaiola emocional? Quem é você para me dizer que estou alienada de sofrimentos maiores que os meus? — Tammy sentia-se alvejada no peito, sem ar, e gritou – Cale-se Não fale mais nada, deixe-me morrer, que diferença faz?
– Eu respeito sua dor e não posso elaborar nenhuma tese sobre ela. Sua dor é única, e é a única que você consegue sentir. Ela te pertence e a mais ninguém.
Essas palavras iluminaram os pensamentos de Tammy quase em prantos. Ela entendeu que ninguém pode julgar a dor dos outros. Compreendeu que sua infância difícil, que a dor de ter perdido a mãe aos oito anos de idade, que ter convivido com o pai bêbado e ter sido sempre uma garota sozinha, enfim, compreendeu que sua dor é única e, portanto, não poderia ser sentida ou avaliada por mais ninguém, a não ser por ela mesma.
Sempre condenará veemente seu pai, mas começou a vê-lo, pela primeira vez, com outros olhos. Nesse instante, para sua surpresa, o policial lhe teceu algumas palavras que era difícil de saber se eram elogios ou criticas:
– Para mim, você é também uma garota corajosa, pois tenciona estourar seus próprios miolos em troca de uma longa noite de sono no claustro de um túmulo! É, sem duvida uma bela ilusão. – Interrompeu suas palvras para que Tammy pudesse refletir.
– Não vejo motivos para continuar está merda de vida, se já não bastasse tudo que já passei, agora também serei presa.
– Merda de vida?! Mas que ingratidão! Seu coração nesse momento, deve estar querendo rasgar seu tórax e protestar com lagrimas de sangue o extermínio da vida ! – E, com uma voz mais grave, com uma rara eloquência, tentou reproduzir a voz do coração. – “Não, não! Tenha compaixão de mim ! Eu bombeei seu sangue incansavelmente, milhões e milhões de vezes. Supri suas necessidades, fui seu servo sem reclamar, e agora você quer me calar sem chance de defesa. Ora... que fui o servo mais fiel de todos. E qual o meu premio? Uma morte estúpida! Você quer interromper minha pulsação para estancar seu sofrimento. Quem me dera eu lhe pudesse bombear coragem! Enfrente a vida, sua egocêntrica!”
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