BakuVision
3 Magia do Caos
Notas iniciais
Cinco anos atrás. Housu.
Todo o território se revirava numa batalha feroz.
— Katsuki, você precisa destrui-la! — implorou Ochako.
Ele sabia que ela falava da joia em sua cabeça.
— Tem que ter outro jeito.
— Você precisa... — ela insistiu.
— Não!
— Com uma joia a menos, o Titã não pode destruir metade de toda a vida existente — gritava. — O universo ainda pode ter uma chance.
Katsuki não tinha mais como contrargumentar. Só queria recusar.
Ela correu até ele. Pegara suas mãos, beijou-as e as levara à sua testa.
— Não é justo que seja com você, meu amor. Eu sei que dói. Está tudo bem.
Eu só sinto você.
Relutante, Feiticeiro Escarlate disparou um feixe de luzes rubras em direção à joia na testa de Uravision. Nada lhe doeu mais do que ver o semblante de dor intensa de Ochako ao ter sua fonte de vida destruída. Foi necessário muito de seu poder para destruir a gema por completo, e ela aguentou cada interminável segundo.
Aquele projeto repulsivo de malthusiano te reviveu na minha frente só pra arrancar sua joia. Eu tive que te ver morrer duas vezes. Diante do seu cadáver, suas cores apagadas e um buraco atroz na sua testa, meu único momento de alívio foi ao me desintegrar em pó.
O mundo estando seguro ou destruído, eu perderia você de qualquer jeito. Decidi que nunca mais sacrificaria nada do que amo em prol de qualquer bem maior que fosse.
Quatro meses atrás. Distrito de Hokkaido.
— Você tirou tudo o que era meu — voiciferou, se derramando em ódio.
— Eu nem te conheço — o titã respondeu, com confusão e um toque de desdém.
— Vai conhecer — Katsuki, irredutível, erguera as mãos, que brilhavam em nebulosas vermelhas. — E vai se arrepender de cada maldita escolha que fez, depois que eu acabar com seu rabo roxo.
Toshinori foi enterrado em toda a sua glória. Se perguntasse a qualquer um o motivo do estardalhaço, ou de todo mundo se ajoelhando num gesto ridículo de adoração, diriam que foi por ele ter se sacrificado tão bravamente. E você não foi sacrificada? Eu não tive que destruir o seu cerne e te ouvir gritar de dor até o último segundo?
Fui atrás do seu corpo para fazer um enterro digno. Não precisava daquele circo todo que fizeram pro Yagi. Seria uma coisa só nossa. Entrei no prédio da corporação perguntando pelo seu corpo. Eu era o mais próximo de você, tinha esse direito. Me levaram a uma sala de operações. Você estava aberta, desmembrada, despedaçada. Fios expostos. Dissecada como um sapo morto num laboratório de ensino fundamental.
Eu quase destruí aquela sala. Teria desmantelado aquele prédio inteiro até o último grão de cimento, se não tivessem tocado meu ponto fraco.
"Ela não iria querer isso" foi o que um cientista da cara de palerma disse.
Dar uma surra no titã louco não aliviou a minha raiva por muito tempo. Tampouco te trouxe de volta pra mim. Um prédio cheio de engravatados guardando artefatos místicos e armas além da nossa compreensão por baixo de burocracia e soberania legal só serviria para um reboot da minha vingança reles, ridícula e insuficiente.
Não tive estamina pra criar feitiço nenhum. Peguei um trem e voltei para Nishigawa. Mal senti o tempo passar durante o trajeto. O vazio me consumia e me fazia dissociar. Não tinha mais o que sentir. Até o direito de te enterrar foi roubado de mim. Foi tanta frustração que tudo em mim adormeceu; me resignei. Não tinha o que fazer.
Três meses e três semanas atrás. Distrito de Nishigawa. 23:14.
Katsuki abrira a porta do pequeno apartamento. As chaves pareciam novas de tão brilhantes, mas a residência estava no nome deles fazia cinco anos, pouco antes de Katsuki ser apagado pelas joias. A iluminação era pouca, e a decoração, parca. Mas havia algo novo em cima de uma cômoda. Um embrulho de papel pardo amarrado com um barbante rosa. Por trás do nó, um bilhete. Letra cursiva e caneta brilhante. Alguns adesivos de ursinho.
"Para começar nossa decoração ♡
Estou louca para começar uma família com você
— Chako".
Por quanto tempo esse presente esteve aqui?
Katsuki rasgou o embrulho com afobação. Era um quadro letreiro com luzes de led.
NÓS CONTRA
O
MUNDO!
A doce e risonha voz de Ochako veio em sua cabeça ao ler a luminária. Katsuki precisou se apoiar na cômoda para não perder o equilíbrio. O sorriso dela piscava em sua mente, ora vívido, ora desvanecendo. Abraçando o quadro como se fosse um tesouro, Katsuki desmoronava. Agachado, gritava de dor, frustração e raiva. Ela lhe havia deixado uma surpresa, um pequeno ponto de partida para marcar o começo de uma nova vida juntos. Sem fugas, sem lutas, sem obrigações em salvar o mundo.
O peso em seu peito tornou-se tão insuportável que explodiu em névoa vermelha. O caldeirão de sentimentos que ficaram adormecidos durante sua viagem despertara com a força de mil sóis. Sua cólera se convertia em poder; e sua magia tomava a forma de seu desejo mais visceral.
Moldada e consolidada pela magia vermelha de Katsuki, Ochako tomava forma, tão bela e vívida quanto sua memória conseguia resgatar.
— Bem vindo ao lar, Katsu — ela sorria com ternura.
E a realidade inteira parecia se curvar à vontade de Katsuki Bakugou.

Fale com o autor