BakuVision
4 Coração e estômago
Notas iniciais
Àquela altura, seu corpo já estava acostumado ao balanço do navio. Todo o ambiente cheirava a gin, peixe e metal. Sabre de abordagem na mão, cada passo que o capitão dava naquele piso de madeira era cuidadosamente calculado. A luta o deixava mais consciente de seu corpo, constrito na medida certa pela grossa faixa de algodão em sua cintura e livre do torso para cima, sob o conforto da camisa bufante de linho. Sua oponente, mais comprimida que ele, trajava calças folgadas de tela e um corset de fivelas douradas, e ele não era estúpido o suficiente para se distrair com a curva de seus seios durante um combate. Ainda assim, ela lutava de igual pra ele. Ambos dominavam a modalidade de luta dos piratas; cada um carregando características próprias em seu modo de combater.
Os bucaneiros festejavam ao entardecer. Alguns cantavam animadamente ao som de alaúdes, e a música se acelerava progressivamente, exigindo mais fôlego a cada estrofe. A animação harmonizava com os duelos de espadas. Os tripulantes assistiam à acirrada disputa atentos, como se estivessem na plateia de um torneio. Navegadores sabiam bem como criar seu próprio entretenimento.
Ele tinha reflexos afiados e não perdia o equilíbrio, provando a cada movimento não se limitar a ser um combatente alto e forte. Suas técnicas de combate eram impecáveis, aprimoradas, requintadas; de alguém digno de comandar um navio inteiro, afinal. Cada ataque dela era desviado com fintas e giros. As lâminas cantavam notas agudas cada vez que se chocavam. Pelo olhar, sua imediata parecia incansável, sedenta pela adrenalina que só uma luta com o mais habilidoso deles podia lhe oferecer. Pequena, era ágil como uma felina; o que combinava com o kajal que contornava seus olhos, destacando o brilho castanho de suas íris. Não teria vergonha em admitir que a beleza era uma de suas armas para ludibriar adversários; porque era nítido que ela dispunha de muita destreza em combate, além de energia de sobra. Sua graciosidade se misturava à selvageria numa doce contradição que só as mulheres mais belas e perigosas eram capazes de desvelar.
Como uma dama dando uma lição a um cavalheiro mal-educado, pisara-lhe o pé com força. Nem de longe era o suficiente para sobrepujar o rival alto e forte, mas arrancou-lhe um breve gemido e um curvar reflexivo no tronco.
— Isso é golpe baixo.
Com um leve sorriso astuto, a bucaneira chocava a espada contra a dele, aproximando-se cada vez mais. Surpreendeu o rival dando-lhe um tórrido beijo, que arregalou os olhos de uma legião boquiaberta de navegadores e ladrões. O capitão rendia-se aos lábios da mulher, não sem segurar-lhe os punhos para impedi-la de atacá-lo num momento de indefensabilidade. Driblando sua força, ela girou, cruzando dolorosamente os braços do comandante enamorado, forçando-o a soltá-la. Aproveitando-se de cada segundo da vulnerabilidade do homem, tomou-lhe a espada e chutou-lhe no peito, roubando seu equilíbrio. No momento seguinte, ele se percebeu rendido, caído no chão, com um dos pés dela pressionando contra seu pulso direito, os joelhos pressionando seu peito. Na altura de seu queixo, espetando-lhe a pele, ela segurava uma adaga dourada, adornada de pequenos rubis; presente dado por ele quando ainda se cortejavam. Desviando os olhos para o lado, encontrou sua espada jogada de lado.
Essa era a rendição de um guerreiro à mulher que roubara-lhe os suspiros. Não precisava derrotá-lo com sua própria espada, mesmo que a tivesse em posse. Fazia-o utilizando a menor das adagas, colocando-o refém de seu próprio coração. Ela nunca falhava em deixá-lo ajoelhado.
Katsuki deu-lhe um sorriso lascivo. Cada pormenor daquela situação o excitava.
Travessa, Ochako respondeu-lhe com um sorriso satisfeito. Levantando-se de cima dele, pisou na alça da espada de seu capitão derrotado, fazendo-a pular. Agarrou-a no ar, erguendo sua lâmina em comemoração vitoriosa.
Posicionando-se como se fosse ela mesma a capitã daquele navio, Ochako era saudada por toda a tripulação, que gritava e bebia com mais euforia do que nunca. Naquela noite, eles iriam saquear; e aquela algazarra fora não mais que um aquecimento.
Nós comandamos um pelotão inteiro de bucaneiros. Conquistamos terras como se o mundo fosse a porra de um tabuleiro de War, lutávamos com todo tipo de oponente, fossem eles ogros, draconatos, elfos, duendes ou anões. Fomos caçadores de recompensas, bardos, necromantes; até clérica eu te fiz só pra ter o prazer de te ver abrir mão de seus votos e me exigir que tirasse sua calcinha. Te vi ser uma amazona. Às vezes feiticeira. As músicas medievais só me deixavam com mais vontade de te ver dançar.
Mas eu não prendi a gente nesse multiverso medievalista. Na verdade, eu intercalei tanto cenários distintos que a transição chegava a dar vertigem. Ergui uma cidade futurista, que nós percorremos de cabo a rabo; e eu sinceramente não sei dizer qual de nós dois estava mais sedento pela adrenalina. Puta merda, eu cheguei a foder até algumas leis da física pra transformar essa mísera cidade numa estação espacial, porque sabia do quanto você gostava dessa porra.
Quando você tem um poder de escolha tão ilimitado quanto eu tive, vem aquele medo de eventualmente se entediar. Porra, é muito estímulo sensorial. Uma hora eu ficava de saco cheio e acabava voltando pra um ambiente mais sóbrio. É muito fácil perder a graça de tudo quando você está no controle e tem todas as opções; mas eu nunca consegui ficar entediado. A cada segundo longe de você eu ficava mais ansioso por te reencontrar; e sempre que eu estava perto de ti queria aproveitar sem deixar um detalhe escapar. Dentro de mim, lá no fundo da minha psique, existia aquele medo de você desaparecer; escapar entre meus dedos feito areia. Você era feita da mesma matéria que constituía cada uma daquelas fantasias. Era feita de sonhos. E eu tinha pavor de acordar a qualquer momento.
Nós fomos parceiros do crime; fomos noivos prometidos a fim de apaziguar guerras. E que se fodesse qualquer fantasia boba de reis e rainha, porque eu era capaz de te erguer um império se você me pedisse. Fomos rockeiros de bandas rivais, e transávamos em cima dos amplificadores quando o festival de música underground já havia acabado. Fomos inimigos que se apaixonavam.
Não importava os conflitos que eu roteirizasse; a gente sempre se atraía um para o outro até o fim do dia. Mesmo estando em lados opostos, e defendendo ideais divergentes; você voltava pros meus braços.
E cada um desses cenários era uma nova oportunidade de me apaixonar por você.
Sempre que eu colocava meus olhos na sua figura pela primeira vez ao dia, eu sabia que seria minha. Desdobrei mais tramas que achava que minha cabeça era capaz de bolar. Muitas delas variavam em diversos aspectos, mas todas elas tinham um denominador comum: nossos caminhos sempre davam um jeito de se cruzar.
6 anos atrás, em algum parque de diversões próximo à praia. Cidade de Ishigaki.
Uma bola rolou até seus pés. Ochako Uravision agachou-se, pegando-a com as mãos e entregando a um garotinho que vinha correndo.
— Brigado, tia.
Vindo atrás, a mãe do menino sorria simpática, agradecendo a gentileza. Trajava um chapéu de palha e vestido listrado folgado, mas que se esticava por toda a protuberância redonda de sua barriga; o irmãozinho da criança que estava por vir.
Uravision se demorou olhando para o menininho e para sua mãe. Bakugou entendeu tudo.
— Ei. Sabe que eles não precisam sair de você, né?
— Eu sei, é que... — Suspirou — Eu fico com inveja daquelas que conseguem ter filhos naturalmente.
— Adotar não te tornaria menos mãe.
— Não poder engravidar é um lembrete que eu não sou humana.
— Para de show. Eu gosto de você desse jeito aí. — Falava de sua configuração para imitar pele e cabelo humanos — Gosto também de você feita em borracha e metal. Não precisa parecer humana por dentro.
— Você não tem que preferir nada — revirou os olhos.
— Cavala — sorriu, secamente — Para de invejar gente banal só porque têm pâncreas e fígado.
— Tá bom — resignou-se.
Sentadas num banco próximo, um casal de mulheres dividia um gyosa.
— Ah, qual é! — Ochako emburrou-se.
— Vem cá, não olha — ele a virou para si e a recostou em seu peito. Ela sentia os batimentos cardíacos em seu rosto.
— Eu queria ter um coração — disse, a voz abafada no peitoral de Katsuki.
Ele a segurou pelos ombros e a afastou.
— Hoje você tá impossível! Vem, vou te levar pro carrossel — disse passando o braço por seu ombro — Você vai gostar — puseram-se a andar.
— Não é bem ali que eu quero cavalgar.
— Por que você não pode comer mas tem funções sexuais?
— Tem a ver com o fato de eu ser um android com feições de mulher? Soma 2+2, Kat.
— Tch. Aquele Dr. Cho é um tarado.
— Pra sua sorte.
— Pra minha sorte — Katsuki concordou, beijando-a enquanto entravam na fila para o carrossel.
Você queria tanto um corpo humano que eu te dei um. Queria um coração que batesse de verdade, uma pele que suasse, um estômago que roncasse quando estivesse com fome. Nunca mais sofreria aquele drama de Ghost in the Shell. Não era que eu não tivesse paciência pra te ouvir reclamar. Eu só nunca gostei de te ver sofrer, mesmo que as suas queixas fossem por não poder sentir dor de barriga.
Quando você começou a descobrir o mundo sensorialmente, eu também me vi deslumbrado. Cada nova experiência sua me alegrava. Te ver comendo pela primeira vez foi como ver um vídeo de criança surda ouvindo a voz da mãe pela primeira vez, depois de colocar implante coclear. Você queria conhecer mais e mais sabores, e eu não queria perder uma reação sua. Cada sorriso, cada arregalar de olhos, cada cara de surpresa era preciosa pra mim. Te levei pra todos os restaurantes que nossa cidade dos sonhos podia oferecer. Te arrastei pela mão a floriculturas, até que decidi que seria ainda vantajoso te levar pra fazer jardinagem e sentir o cheiro de terra molhada.
Na maior inocência, eu jurei que te dar um corpo humano serviria para satisfazer caprichos seus. Não imaginei que sentir seu coração batendo quando te abraçasse me traria tanto conforto. Você passou anos ao meu lado e eu demorei muito pra perceber o quanto sentir calor vindo de você me faria bem. Calor de verdade, natural, que denunciasse todas as suas vulnerabilidades e todos os efeitos que eu causava em você; não a temperatura autorregulada, configurada pelo cientista que te projetou.
Eu dizia que não me incomodava a sua condição de sintezóide; e nunca incomodou. Eu te amava de qualquer jeito. Também nunca duvidei que seus sentimentos fossem genuínos; nem os que você tinha por mim, nem seu fascínio por tudo o que há de belo.
Mas sentir seu corpo reagir de forma autêntica ao mundo era melhor do que qualquer coisa com que eu já sonhei.
— Aqui — falou passando uma colher na vasilha — A massa crua também é gostosa.
Ochako abocanhou a colher na mão estendida de Katsuki.
— Delicioso — sorriu — Por mim, a gente nem coloca pra assar mais.
— Você quer ter dor de barriga? Comida crua faz mal.
— Por que você me deu, então?
— Porque se for de pouquinho, não dá nada.
— Só mais uma colher, por favor!
— Tá. Mas me dá um beijo antes.
Da primeira vez em que cozinharam juntos, na torre Kyuusei, Uravision fracassara em fazer macarrão para animar Bakugou. Ela colocara um ingrediente vermelho pensando ser páprica, o que estragou todo o sabor da receita.
Agora, ela estava sentada na bancada da cozinha com a barriga cheia de doces. Ambos estavam sujos de farinha e fermento, na companhia de algumas cascas de ovo, copos de leite vazios e o que sobrou de tabletes de manteiga. Vestiam apenas aventais e roupa íntima. Enquanto esperavam o forno apitar, cada beijo dado parecia ser o primeiro.
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