BakuVision

9 A primadonna e os figurantes


Notas iniciais
No capítulo de hoje, muitos flashbacks se alternam com a narração atual. Por favor, prestem atenção à identificação do ambiente e período para não se perderem.

Torre Kyuusei, ala hospitalar. Sete anos atrás, após a batalha da Guerra Civil.

— Como ele está? — Uravision estava preocupada.

— Vai sobreviver – a dureza na voz de Shota Aizawa era uma punição contra Ochako. Ele era, sim, um homem fechado e com cara de poucos amigos, mas aquela rispidez era diferente; menos afável do que o normal.

Os olhos robóticos dela transmitiam vergonha. Ainda assim ela o encarava, suplicante. Sabia que haveria sequelas.

— Mas há 65% de chance de ele ficar tetraplégico — ele continuou.

Se ela salivasse, engoliria em seco. Se conseguisse chorar, conteria suas lágrimas. Mas Uravision não tinha funções biológicas para manifestar seu remorso.

— Como isso aconteceu? — Aizawa indagou.

— Eu... Eu errei.

— Eu não sabia que você era capaz de errar – disse Aizawa, cortante, deixando-a sozinha com a vista de Nishiya inconsciente e hospitalizado, do outro lado do vidro.

— Nem eu – disse Ochako Uravision, para ninguém em particular.

Durante a batalha da Guerra Civil, jato de energia de Uravision atingiu Nishiya enquanto o kyuuseishu voava, perseguindo o helicóptero de All Might. Shinji Nishiya e Uravision estavam do mesmo lado; o lado de Aizawa. Nishiya era perseguido por Kayama, que lutava ao lado de Yagi no conflito. O herói pediu à sintezoide que mirasse no equipamento de vôo de Nemuri, que percebeu Uravision em sua cola e desviou-se do ataque. O impacto do raio de Uravision foi sofrido por Shinji, que despencara para o solo, ferindo gravemente sua coluna vertebral. Uma ironia cruel.

Nishigawa, residência Vision-Bakugou. Hoje.

Ficar brigado com a esposa era péssimo, principalmente na metade da gravidez.

Katsuki estava pronto para engolir o orgulho, pedir desculpas e fazer as pazes. Parado no batente da porta do quarto, quebrou o silêncio:

— Vai comer.

Ochako olhou pra ele com sua cara mais sisuda. Não poderia dizer que não estava com fome, já que sua barriga roncava alto. E agora ela comia por dois.

Quando sentou à mesa, sentiu náuseas com o cheiro do yakisoba.

— Eu quero barriga de porco ao teriyaki – exigiu, ignorando todo o trabalho que o marido tivera ao cozinhar pela manhã.

Ele também não fazia muita questão. Enquanto lavava os pratos, mexeu as mãos e transmutou a comida para o que Ochako pediu.

Durante algumas colheradas, reinou um silêncio sepulcral. Katsuki tentou voltar sua atenção à louça e ao sabão. Colocar a reconciliação nas costas de Ochako era infrutífero — e injusto, também. Mas ele não sabia como se aproximar sabendo que ela estava chateada.

A esposa quebrou o silêncio.

— O que tem fora de Nishigawa?

Parando de esfregar a panela, ele respirou fundo.

— As coisas estão funcionando normalmente fora do distrito.

— Então é só por aqui?

Ele ascentiu.

— Por que está fazendo isso com todas essas pessoas?

Ela não daria trégua tão fácil, Katsuki pensou.

— Porque só aqui é seguro pra você e nosso filho.

— Isso não responde minha pergunta.

Ochako pegou sua tigela e foi terminar sua refeição no quarto.

Torre Kyuusei. Sete anos atrás, logo após a batalha da Guerra Civil.

À noite, no dormitório de Bakugou, Ochako se desculpava por ter lutado antagonicamente a ele nessa guerra.

— Agora eu entendi, eu entendi o que é a culpa! Quase matei Nishiya e agora ele está paraplégico. Fui eu que fiz isso! Esse sentimento está me consumindo. Eu não quero mais sentir isso, Katsuki!

Katsuki a abraçou forte, pedindo-lhe que ficasse em silêncio.

— Ele vai ficar bem, R2. A tecnologia da Hatsume deve fazer ele voltar a andar.

— Katsuki, eu também não sirvo pra ser heroína.

— Vamos embora.

— Pra onde? — Perguntou, erguendo seus olhos para Bakugou. Aquilo a pegou de surpresa.

— Pra onde quisermos.

O feiticeiro abriu o armário e pegou uma mochila esportiva, na qual ele havia empacotado todas as suas coisas em caso de derrota na Guerra Civil. Pegou a mão de Uravision e esgueiraram-se juntos por todas as portas e elevadores da torre, evitando qualquer conhecido que pudesse lhes perguntar para onde iria.

Quando já estavam longe da torre, esperando o metrô, Ochako Uravision podia jurar que sentia frio na barriga.

Nishigawa, Residência Vision-Bakugou. 01h05.

Katsuki despertou com o som de Ochako vomitando. Correu para o banheiro, encontrando-a com o rosto afundado na toalete. Ajoelhou-se ao lado dela, segurando-lhe o cabelo. Nenhuma palavra, apenas o solene silêncio.

Ela se sentia fraca. Seu rosto estava pálido, e seus lábios, ressecados. Olhou para Katsuki, que secou-lhe os resquícios de lágrimas nos cantos dos olhos.

— Eu vou te fazer uma vitamina.

Ochako agarrou-se em seu pescoço:

— Eu quero dormir na sala com você.

A fraqueza no corpo a deixava mais sensível. Ele a tomou nos braços e carregou até a cama que, até um dia atrás, era sofá. Perto do travesseiro, estava um macacão cor-de-rosa bordado Eu amo o papai, além de alguns pequenos bichos de pelúcia.

— Usa isso entre as pernas – disse entregando a ela um travesseiro alongado e achatado – E deita virada pra esquerda. Os médicos dizem que é melhor.

Depois de arrumar a cama, Katsuki e Ochako se deitaram de bruços, ela de costas e com a cabeça apoiada no braço esticado dele.

— Kat.

— Hm.

— Por que avançamos cinco meses?

— Não avançamos no tempo. Só sua barriga – ele pausou para tomar fôlego antes de contar a verdade — Você sofreu um aborto no meio do chá de fralda. Só não se lembra porque eu consegui voltar alguns segundos no tempo.

— Não sabia que você podia fazer isso.

— Nem eu – Katsuki suspirou fundo. — Eu não sei até onde esse poder consegue ir.

Também não sabia que era capaz de conjurar você da cabeça aos pés, mas aqui estamos nós, pensou o feiticeiro.

Ela sentiu a respiração quente do marido em seu cabelo; Katsuki adormeceu rápido. Quando Ochako sentiu a mão dele posicionada sobre sua barriga, entendeu o porquê das roupas de bebê e brinquedos sobre a cama. Então, ela sentiu culpa. Esse tempo que ela passou de mal com o marido foi tempo em que ela o privou de ter contato com seu filho; com sua expectativa de paternidade.

A mão de Katsuki se posicionava em sua barriga como se tivesse medo de o bebê escapar. Ela se lembrou da promessa que fez quando ele acordou em pânico depois de um pesadelo.

“Nunca vou sair de perto de você.”

Ochako Uravision-Bakugou se desmanchou em lágrimas. Mordeu os lábios e respirou devagar, prendendo seu soluço, temendo acordar Katsuki.

Aquele dilema lhe doía tanto.

Cinco anos atrás. Okinawa. Dia anterior à chegada de Thanos.

Depois de fazer pequenas compras pela cidade, Katsuki levou Ochako para conhecer sua antiga casa.

— Então era aqui que vocês viviam?

O segundo andar do prédio abandonado para onde Katsuki levou Ochako era grafitado por quase todas as paredes. Parte dos móveis eram feitos com a mesma madeira. Os itens decorativos destoavam entre si, conferindo um visual caótico ao ambiente.

— Onde tem mato não dava miquinho?

— Dava. A gente dava frutinha pra eles.

Ochako quase sugeriu que se assentassem ali, em vez de pagar aluguel em Nishigawa, mas ponderou que a morada da família falecida de Katsuki poderia reviver memórias agridoces.

— O picnic de urbex está romântico? — Katsuki provocou.

— Picnic pra quem? Só você pode comer.

Katsuki já havia esvaziado a bandeja de isopor. Eles olhavam para a cidade, do parapeito da janela. O vestido de tule esvoaçava em volta do corpo dela. Katsuki sempre dava um jeito de comprar um pra ela, depois que descobriu que a sintezoide gostava do estilo “roupa de catar amora”, como ele gostava de chamar.

— Você viu que tinha um vestido de noiva nos fundos da loja de conveniência? — mencionou Katsuki.

— Um pouco sujo, com alguns bordados se desfazendo. Por que a gente precisaria de um vestido de noiva, afinal?

— Dava pra ajeitar depois.

— Desde quando você sabe costurar?

— Com feitiços, R2.

— Não respondeu minha outra pergunta. Qual a serventia de um vestido de noiva? Você quer revender depois de transmutar roupa velha em artigo de luxo?

— Não seria má ideia. Mas isso a gente deixa pra conversar outra hora.

Katsuki se ajoelhou, ficando não muito menor que a sintezoide em altura. Suas mãos grandes e ásperas delicadamente tomaram a mão pequena e macia de Ochako.

— Casa comigo.

Tão logo o feiticeiro colocou um anel de coco no dedo da sintezoide, o material marrom e liso se transmutou numa refinada joia dourada, incrustada de pequenos cristais. No topo do anel, duas gemas, uma turmalina âmbar, como a joia na testa de Ochako, e a outra rubi, como a magia do homem que a amava.

Ela, mais uma vez, lamentou não poder produzir lágrimas para expressar sua euforia.

— Katsuki, tem certeza? Pensei que o que a gente tem já fosse tão forte quanto um casamento.

— Seja minha esposa, Ochako. Eu quero formar uma família, e quero começar por você.

— Achei... Que a gente já fosse uma família...

— Para de embaçar, R2! Se não quiser é só dizer “não”.

— Eu aceito. É claro que eu aceito!

Ainda ajoelhado, ele a puxou pela cintura e a beijou com vontade, demoradamente. Embaraçosamente, ela começou a rir:

— Kat, a gente não tem ninguém pra convidar pra festa.

— Qualquer coisa a gente invade um casamento e enfeitiça os convidados pra comemorar com a gente.

Ochako pegou sua mão e o guiou até uma das camas; àquela que julgou ser a dele, dada a cor vermelha dos travesseiros empoeirados e os padrões nas pichações na parede. Empurrou Katsuki na cama, e sentou-se em seu colo.

— Eu quero foder aqui – pediu, abrindo o vestido lentamente.

— Não, né, caralho! Nossa primeira transa como noivo tem que ser especial!

— Tem ocasião mais especial que um urbex na sua antiga casa? — insistiu, tomando-lhe os lábios de volta, enquanto arrancava-lhe a blusa.

Ele se rendeu aos encantos de sua, agora, noiva.

Para Bakugou, só existiam eles dois. Todo o resto eram figurantes num cenário.

O feiticeiro tomou-lhe a mão e beijou seu anel de noivado.

— Nós contra o mundo – declarou Ochako.

Nishigawa, hoje. Residência Vision-Bakugou.

Katsuki estava trabalhando no quarto do bebê. As paredes estavam prontas. Com sua experiência em marcenaria, ele montava os móveis, começando pelo berço. Os martelos e pregos flutuavam, e o manual planava no ar sem amassar. Ochako entrou no quartinho, curiosa pelo andamento.

— Cuidado, R2. Aqui tá empoeirado.

— Como tá ficando o berço?

— Igual sua cara.

— Engraçadinho.

Quando Ochako se deu conta, o berço, montado pela metade, tinha o formato de meia lua.

— Por isso você quis pintar estrelinhas numa parede e nuvens na outra! — Ochako observou. — Pena que não vai mais combinar com os quadros de dinossauros.

— Tá indo pra onde? — Perguntou, percebendo a esposa vestida como que para dar um breve passeio.

— Vou ao médico.

— Então vamos – levantou-se.

— É só um exame rotineiro, Kat. Você fica aqui e faz sukiyaki pra gente jantar quando eu voltar. Que tal? – beijou-lhe nos lábios — E depois, a gente planeja o chá de revelação. Pode ser algo só nosso, dessa vez.

Enganá-lo assim lhe fazia tremer, enfraquecia-lhe as pernas. Ele conseguia invadir mentes, afinal. Poderia estar blefando. Ochako não sabia se conseguiria ir às vias de fato, mas precisava tentar.

— Não inventa de fazer o primeiro ultrassom sem mim.

— Não seja bobo.

Ela deixou o quartinho empoeirado e foi até a porta. Quando sua mão se estendeu para pegar suas chaves, elas voaram pra longe de sua mão numa névoa vermelha. Ochako olhou para trás rapidamente, vendo um Katsuki com um copo d’água na mão e alguns comprimidos na outra.

— Você esqueceu suas vitaminas pré-natais.

Eu abaixei a guarda. Pensei que pudéssemos voltar a viver tranquilamente nossos sonhos; pensei que o seu atrito comigo por causa dos Nishigawanos fosse só um lapso na nossa paz, como um conflito breve. Eu quis tanto que estivesse tudo bem que acreditei piamente que estivesse. É muito fácil enganar alguém dando-lhe o que quer.

Ochako se aproximou do marido, engoliu as pílulas e bebeu a água.

— Você cuida tão bem de mim.

— Acha que pode passar uma gravidez sem suplemento vitamínico?

Ochako desviou os olhos, fazendo uma carinha travessa.

— Me dá um beijo. E minhas chaves.

Katsuki afundou os dedos no cabelo macio de Ochako ao tomar seu rosto delicadamente nas mãos para beijá-la. Demorou um pouco antes de deixá-la livre para sair de casa, mas ela também foi cúmplice na lentidão dos beijos e do carinho. Ele sempre a deixava nas pontas dos pés; e esta era uma das vezes em que a literalidade se aplicava.

— Eu tenho que ir, Kat – sussurrou.

Ele ainda tinha certo receio de se afastar dela e algo acontecer, como ela se ferir. Ou a magia se desfazer. Mas a deixou ir. Seu filho precisava desses cuidados para nascer saudável, afinal.

Antes de fechar a porta atrás de si, ela prometeu:

— Volto na hora do jantar.

Você conseguiu me enganar. Não estava indo ao médico. Você sabia que aqueles civis estavam enfeitiçados para te agradar, então pediu a algum deles para te levar de carro até a fronteira do distrito. Você atravessou as barreiras e começou a gritar por ajuda. Puta merda, grávida do nosso filho. Implorou às autoridades que resgatassem os residentes, pouco se importando com seu corpo se desintegrando. Eu só fui perceber quando você começou a se desfragmentar.

Fronteira de Nishigawa.

— Eu não deveria dar detalhes – sussurrava Tooru ao celular — então preciso que você mantenha sigilo.

— Quando aconteceu aquele alvoroço na Nigéria — dizia a voz gélida do outro lado da linha – ele estava me salvando. Eu nunca tive a chance de agradecer. Contem comigo.

Ao fim do telefonema, Tooru sentia-se revigorada pela esperança.

— Ele topou!

— A Vespa também — Iida ainda tinha o celular no ouvido. — Agora você liga pra Coração de Ferro e eu, pro Soldado Invernal.

Uma perturbação na barreira. Outro barulho de bobina de Tesla; desta vez, menos estrondoso, mas tão metálico quanto. Uma voz de mulher que, até então, só era ouvida em aparelhos de TV.

— As pessoas precisam de socorro! Salvem os Nishigawanos!

Uravision estendia um dos braços para a frente, como se quisesse puxar para dentro da barreira o primeiro que lhe desse a mão. Ela parecia pesada tentando andar para frente, como se fosse feita de ferro maciço. Os bastonetes em glitch da barreira insistiam em grudar nela, como se fossem uma só carne.

Hakagure congelou diante da visão: a primadonna quebrava a quarta parede. Quando Uravision conseguiu, enfim, se afastar da parede de feitiço, pedaços pequenos de seu rosto, sua pele e suas roupas eram atraídos de volta para a barreira como pequenos pedaços de ferro atraídos por um ímã potente.

— Não é o corpo original, Iida! — Todas as engrenagens na mente de Tooru se encaixaram – Ela não foi roubada!

— Ela é feita do mesmo feitiço que ergue as barreiras! — respondeu o agente – Sekijiro mentiu.

— Se ela é feita de magia, por que está se voltando contra Bakugou?

Aquele seria o pior momento para soltar aquele ditado popular. “O feitiço se voltou contra o feiticeiro”.

Fóton tentou correr até Uravision, mas fora rapidamente neutralizado com choques elétricos de alta voltagem no pescoço, sob ordens de Sekijiro.

Nishigawa, residência Vision-Bakugou.

Katsuki estava prestes a fatiar a carne quando seu coração vacilou. Soltou o facão sobre a pia, tentanto entender de onde vinha essa prostração. Não era exatamente físico; não vinha dele.

Era seu filho, dentro de Ochako. Ele estava se desfazendo, exposto em algum lugar onde o feitiço não alcançava. Os olhos de Bakugou brilharam em vermelho.

Fronteira de Nishigawa

A barreira atrás de Uravision estremeceu, soando como estalos metálicos. Iida poderia jurar que faíscas voariam. As paredes de glitch se estenderam, alcançando o simulacro da sintezoide e engolindo-a de volta, como se o feitiço fosse senciente.

Das paredes, emergiu a silhueta do Feiticeiro Escarlate. Sekijiro, numa tomada de fôlego, ordenou que os soldados mirassem em Bakugou.

— Esse é o meu último aviso – a voz de Bakugou era imponente e reverberava como um tambor – Fiquem longe da minha cidade.

— Não é sua, Feiticeiro – Sekijiro era protegido pelas forças emprestadas do batalhão — Você os tomou como reféns.

— Não sou eu quem está armado. Vocês, organizações de heróis, são uma piada pronta.

— Quer liberdade condicional? — Ofereceu o diretor. — Perdão nacional? Podemos negociar.

A pressão midiática em cima do feiticeiro, decorrente de seu emblemático acidente heroico, era justificativa suficiente para sua recusa em cooperar com as iniciativas extranacionais de segurança, conforme pensavam muitos cientistas ali. Hakagure relutaria em admitir, no entanto.

Bakugou dispensou-lhe as orfertas.

— Mandem e desmandem aí fora, eu não tô nem aí. Mas deixem minha família em paz. Ninguém vai tirar Ochako Uravision de mim... outra vez.

Katsuki Bakugou enfeitiçou os soldados para que mirassem suas armas em Sekijiro.

Quando o feiticeiro atravessou a barreira de volta para seu distrito enfeitiçado, o encantamento se desfizera, e os soldados recuperaram a consciência. Era um aviso.

Nishigawa, próximo às fronteiras.

Uma Ochako inconsciente debruçava-se no meio da estrada. Um carro roxo estava acostado a pouco menos de dois metros dela, com a porta do motorista aberta. Neito Monoma, ajoelhado ao lado da mulher, checava seu pulso. Katsuki apertou o passo para alcançá-los.

— Bakugou! — o americano chamou.

— Ela precisa de um médico? — perguntara Katsuki, afoito, juntando-se a Monoma. Com o dorso da mão, sentia a temperatura do rosto pálido de Ochako.

— A pressão dela caiu, e a temperatura também.

— Nos leve ao hospital – pediu.

— Carregue ela até o carro.

Katsuki cuidadosamente tomou a adormecida Ochako nos braços e sentou-se com ela no banco de trás do veículo. Neito dera a partida.

Hospital regional de Nishigawa.

Katsuki observava Ochako dormir. Soro fisiológico era injetado em sua veia. O feiticeiro estava aliviado por ela continuar sã; estava apenas fraca. O bebê não corria riscos.

Ouviu murmúrios vindos do lado de fora do leito. Gemidos distantes de crianças com frio. Não; medo. Sons de adultos pedindo socorro. Parecia uma representação sonora do nono círculo do inferno de Dante; Katsuki podia jurar que já viu isso na TV, quando criança.

Deixando o quarto de Ochako, viu um cenário que em nada se parecia com o hospital em que esteve meia hora antes. As paredes eram cavernosas. Vento frio corria esporadicamente, causando-lhe arrepios, ainda que estivesse agasalhado. Algumas runas roxas brilhavam na marquise do teto. Nas paredes, pequenas mesas com artefatos vitorianos. Alguns brilhavam em violeta e índigo. Na direção oposta à de Bakugou, um livro de capa dura era exposto, orgulhosamente postando-se como o item mais importante de todo aquele inventário ocultista.

— Doce Kacchan.

Monoma surgira, com um coelho ruivo nos braços. Quem ele acreditava ser seu vizinho e aliado, sorria-lhe, arrogante. Katsuki percebeu que o coelho dispunha de apenas uma orelha; e àquela altura, não sabia se queria saber se era fruto de anomalia genética ou se o animal fora mutilado por Neito.

— Do alto de sua síndrome de protagonista, você realmente acreditou ser o único mahou shounem na cidade, não foi? O nome é Nathaniel Donovan, mais conhecido entre os covens comoNate,o Monomaníaco. É uma honra, enfim, me apresentar devidamente, meu caro.

Notas finais
Foi o Monoma e mais ninguém! Dicionário do Bakugou: Cottagecore = de catar amora
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.