Baixinha encaracolada

1 BAIXINHA ENCARACOLADA


Minha vida é feita de números. Eu saio de casa às 5 horas; apanho um ônibus da linha 267; desço na 5ª parada da Avenida Arterial-2; caminho 9 quadras até a padaria “Salmo 23”; pago 3 reais e 25 centavos ao caixa; espero 2 minutos e ½ pelo meu misto quente; ponho 3 colheres de açúcar no meu café com leite; deixo a padaria e sigo para o trabalho em 10 minutos; Bato meu cartão às 8 horas em ponto.

Tenho uma doença neurológica que torna difícil, pra mim, registrar, na memória, o nome de pessoas e lugares que eu conheço. Por isso eu preciso associá-los a algum tipo de número. Carmem, por exemplo, é a recepcionista da firma onde eu trabalho. Ela teve 3 maridos e 1 filho com cada um deles. Somando 3 filhos e 3 maridos, eu chego ao número 6. Por isso, antes de lembrar o nome de Carmem, eu preciso pensar no número 336. Isso evita que eu a confunda com a Marina do setor administrativo, que também teve 3 maridos, mas só teve filho com um deles. Somando 3 maridos com 1 filho, eu chego ao número 4. Por isso, quando tenho que lembrar o nome de Marina, eu penso em 314.

O nome do meu chefe é Garcia. Ele é dono de 5 carros: Um Ford 1959, um Chrysler 1969, um Mercedes 1971 e um Puma 1979. Mas ele só usa 1 deles: O Chevrolet 1982. Por isso, eu somo 5 mais 1 e uso o número 516 para lembrar o nome dele. É claro que eu não acrescentaria os anos de fabricação dos carros à conta porque seria ridículo. Eu acabaria o confundindo com o faxineiro que nasceu com 5 kg no ano de 1959; perdeu a mãe em 1969; perdeu o pai em 1971; herdou uma dívida de 1979 reais e teve uma filha em 1982.

Nos tempos de escola, eu confesso, era bem mais fácil lembrar o nome das pessoas: por causa da lista de chamada. Os professores, em vez de nos chamar por nossos nomes, nos chamavam por números referentes à ordem alfabética. A líder de classe era a número 1, porque seu nome começava com a letra A; a melhor amiga dela era a número 7, porque seu nome começava com B e, ainda havia mais 5 alunos cujos nomes começavam com a letra A; o rei dos pestinhas era o número 8, porque seu nome era com C e porque a número 7 era a única cujo nome começava com a letra B. E eu era o número 6, mas não sei porquê, porque não me lembro dos nomes dos outros alunos e nem da primeira letra de seus nomes. Estranhamente, com relação à Elisa, acontece o contrario: eu não me lembro de seu número, mas me lembro de seu nome.

Elisa, eu me lembro, era a minha melhor amiga. Fazíamos mil coisas idiotas juntos, como apedrejar casas de vespas, tomar banho na água do canal, apertar campainhas e dar no pé. A coitada era feinha que doía. Era muito magra, baixinha — a menor da turma —, e, apesar de ser loura, tinha os cabelos difíceis de pentear.

Depois do colégio, passei muito tempo sem vê-la. Até algumas semanas atrás, na padaria “Salmo 23”.

Eu tomava o meu tradicional café com misto quente quando vi entrar na padaria uma mulher de 1,50m; uns 80cm de busto e mais ou menos 90cm de quadril. Tinha os cabelos encaracolados como os de Elisa — só que um pouco mais arrumados. Tinha os mesmos olhos verdes e os mesmos dentinhos tortos que Elisa tinha.

Eu até posso me enganar quanto ao nome das pessoas, mas as feições eu nunca esqueço. Estava um pouco mudada — mais bonita, mais atraente —, mas eu tinha certeza que aquela garota era Elisa.

Apesar da certeza, não tive coragem de me aproximar dela. Estava acompanhada de um cara boa-pinta que parecia gostar muito dela. Parecia que havia arranjado um companheiro à altura de sua beleza e sua doçura. Certamente já não se lembrava de nosso casamento na roça aos 13 anos.

Terminei o meu misto e segui para o trabalho, pois já eram 5 minutos antes das 8. E a cena se repetiu exatamente 4 vezes, pois houve 6 dias em que ela não apareceu. Até que, numa certa manhã do mês 7, ela finalmente me viu e me reconheceu. Abriu um imenso sorriso e veio em minha direção, trazendo pela mão o seu amigo de sorte.

“Número 6!”, ela disse animada, e me abraçou com seu corpo gostoso confortante — “6” havia se tornado meu apelido na escola devido a minha mania com números.

Ela veio pelo meu lado quando eu estava sentado abraçou topo da minha cabeça. Os seus seios pequenos e macios esfregando-se em meu rosto. Indicou-me seu amigo e perguntou, “você se lembra do Junior, o meu irmão?”

“Juuunior!” eu exclamei feliz e o abracei como se fosse meu irmão. Mas é claro que ele era o Junior! Como eu pude me esquecer do fantástico número 14 que sempre salvava nosso time no ultimo minuto.

Nós 3 ficamos sentados, fazendo um resumo de tudo o que houve conosco depois do colégio. Ao fim de 10 minutos, não havia mais nada a dizer.

Elisa me deu seu novo endereço e pediu que eu fosse vê-la à noite. Fiquei ansioso e, durante o dia todo, não fiz nada direito: Chamei a recepcionista de 336, a assistente administrativa de 314, o meu chefe Garcia de 516 e o bom faxineiro de 5.1959.1969.1971.1979.1.1982.9866.

Fui à noite ver Elisa e levei flores como nos filmes. Ela abriu a porta e foi como se eu levasse um choque de desfibrilador: ela usava uma camisola em meia malha e me convidava para entrar.

Agradeceu as flores e perguntou se eu queria vodca. Eu disse que sou abstêmio. Ela tomou meia garrafa e depois fomos para o seu quarto.

Ela parecia nervosa, mas ficou bem ao notar que eu estava mais ainda.

Pediu que eu deitasse na cama. Eu me deitei sem tirar as roupas. Ela veio em seguida e passou uma das pernas por cima do meu rosto. Ficou de 4 por de mim, mas eu não via a sua cara, via a outra extremidade — neste dia o 4 passou a ser o meu número preferido.

Abriu o zíper da minha calça e agarrou o meu passarinho. Enquanto descia os quadris em direção ao meu rosto, pude ver, sem a censura de uma calcinha, aquela magnífica flor úmida que dava um zoom...

Mas espera um pouco! Isso me fez lembrar que, na lista de chamada em que eu era o número 6, Elisa era o número 9!

FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!