Badlands
15 Tilt You Back
O carro estava silencioso e abafado. A tarde se estendia na frente deles, sem conseguirem notar o passar do tempo. O que era o tempo, afinal? Quanto mais o dia passava, mais Adam Parrish tinha a certeza de que estavam indo para um destino sem volta, ou apenas voltando para um lugar onde nunca deveriam ter saído. Noah Czerny estava ali. Presente. Quase como se continuasse vivo, mas seu silêncio era insuportável. Ronan Lynch há muito tinha desistido de falar qualquer coisa. Richard Gansey estava com os nós dos dedos brancos, apertando o volante do Pig. Blue Sargent sentia o suor nas suas costas. Muito tempo sentada pressionada contra aquele banco. Muito calor, muito desconfortável.
Gansey parou o carro. De repente, sem aviso. Os outros quatro ficaram alarmados.
— Beco sem saída – Gansey disse, em um sussurro abafado, encarando o mapa amassado. Encarando a rua fora do carro. Encarando tudo, menos seus amigos no carro abafado.
— Como assim, beco sem saída? — Adam Parrish despertou de um sono de olhos abertos e se inclinou para a frente do banco — Achei que estávamos indo por onde chegamos...
— Bom, eu também — Gansey murmurou — mas acho que peguei alguma entrada errada.
— Olha — Blue começou, secando a testa. Por que estava suando tanto? E por que era a única tão desconfortável naquele carro? — dê a ré e vamos voltar para onde estávamos.
— Se fosse simples assim, já teria feito — Gansey suspirou, sem encarar Blue. — Se eu der ré, vamos ir para outra entrada. Eu não sei, mas tenho certeza que era aqui.
— Eles não nos querem aqui — Noah disse, estava com os olhos arregalados encarando o muro alto que os impedia de continuar. Como aquilo surgiu no meio da estrada? Blue encarou o lugar com outro olhar e notou que sim, eles tinham ido pelo caminho certo.
— Não diga que eles nos trancaram aqui — Ronan finalmente se manifestou — A porcaria da mágica de novo? Não me diga isso, por favor — ele rosnou, como se Noah tivesse culpa de algo.
— Não exatamente. Mas não estamos prontos — Adam disse, de um jeito que dava a certeza de que ele sabia o que estava dizendo.
A rua estava deserta, apesar da hora. Nenhum barulho em nenhum lugar. Nenhuma alma viva, só os quatro, Noah já desaparecendo aos poucos enquanto continuavam parados na frente de um muro. O asfalto embaixo deles indicava que a estrada deveria continuar, que ali era onde eles deveriam entrar. Gansey estava tentando enxergar coisas no mapa que não vira antes. Não seria impossível, já que havia acontecido há algumas horas.
Eles continuaram no carro, não parecia um lugar seguro para sair. Mas Ronan Lynch começava a sentir-se desconfortável naquele banco. Suas pernas muito espremidas atrás do bando do passageiro, onde Blue estava.
— Eu não aguento ficar aqui — Ronan disse, tirando a atenção de Gansey do mapa. Ele olhou Ronan por cima do ombro e suspirou alto.
— Vamos alongar as pernas enquanto pensamos.
O dia estava se arrastando. O sol parecia derretê-los enquanto saiam do carro. Um atípico dia quente. Época e hora errada.
Eles se aproximaram do muro e ele parecia tão sólido quanto qualquer muro. Adam passava a mão pelos tijolos, tentando ver algo que ninguém conseguiria.
Duas pessoas se aproximaram, do nada, perto deles. Gansey estava desconfiado, mas se aproximou. Eram dois homens altos.
Eles perguntaram se algum deles tinha cigarro. Olharam imediatamente para Ronan Lynch, que chutava o asfalta com seu coturno apertado. Ele olhou para os homens e apenas balançou a cabeça. Se afastou a tempo de ouvir a voz arrastada de Gansey:
— O que você sabe sobre os reis galeses?
— Por que ele não pergunta se eles sabem de alguma saída? — Ronan rosnou. Não perguntou a ninguém em particular, mas Adam estava por perto.
— Eles não sabem — ele disse simplesmente, como se a pergunta tivesse, de fato, sido feita.
— Vocês acham que estão brincando com a gente? — Blue se aproximou dos dois, deixando Gansey conversando com os homens. — Eu não aguento isso. — ela bufou e Ronan apenas balançou a cabeça.
— Eu só quero ir pra casa. Quero acabar logo com isso. — Blue murmurou, encarou Adam por alguns segundos e ele baixou a cabeça.
— Acho que não precisamos antecipar as coisas — ele deu de ombros — vamos...
— Não me diga que Cabeswater tem se comunicado com você e não sabemos — Ronan riu, embora a hipótese não fosse tão absurda.
— Não exatamente. Mas acho que quando estivermos prontos, vamos ter nosso caminho liberado.
— E vamos ver tudo acontecendo? Vamos ver o muro desmoronando ou o que?
— Verme — Ronan sibilou, encarando Blue — Saberemos na hora.
Blue ia dizer alguma coisa, mas Gansey se aproximou.
— É, eles não são daqui.
— E por que eles apareceram do nada?
— Seria rude perguntar — Gansey franziu o cenho, encarando Ronan como se ele fosse um animal selvagem.
— Eu não quero ficar aqui. Está assustador e logo vai escurecer. — Blue estava suando frio.
— Escurecer? Esse sol está rachando meu crânio! — Ronan passou a mão pela cabeça raspada. — mas não quero ficar aqui também.
— Querem ficar no carro? — Gansey já estava se aproximando do carro para abrir a porta.
— Vamos descansar? — Adam perguntou depois de um longo bocejo. — Eu acho que amanhã podemos ir.
— Descansar onde? Você viu onde estamos, Parrish? — estava tudo deserto, não viam nada em lugar nenhum.
— Vamos procurar então — Adam deu de ombros e foi até o banco de trás do carro.
Gansey deu ré e enquanto se afastava conseguia ver o muro pelo retrovisor, cada vez ficando mais distante e mais inacreditável. Como aquilo apareceu ali?
Estavam todos em silêncio, contemplando a maravilha – e frustração – que era estar envolvido com a magia, mas cada vez mais parecia uma piada interna que eles não tinham conhecimento. Nem mesmo Adam sabia o que estava acontecendo, Gansey podia notar pelo seu olhar distante, o cenho franzido e as mãos inquietas.
— É uma espelunca — Ronan disse quando Gansey estacionou na frente de uma pousada caindo aos pedaços. Eles não tinham passado por ela antes.
— Você pegou outro caminho? — Blue perguntou enquanto encarava aquele lugar. A pousada era no meio do nada, o mato em volta dela era a única coisa normal. E mesmo assim era assustador naquela escuridão. A tarde há muito tinha se despedido, trazendo a noite e uma brisa leve.
— Não. Acho que não notamos enquanto estávamos indo embora — Gansey fez uma careta. Não era um lugar muito agradável, mas era bom para uma noite.
— Achei muito solitária — Noah murmurou do banco de trás. Já não surpreendendo nenhum com os sumiços e aparecimentos.
— Você está morto. Tem algo mais solitário que isso? — Ronan sussurrou.
— Vamos entrar — Gansey disse. Eles ficaram sentados enquanto ele abria a porta.
Dentro não era muito melhor. As paredes mostravam umidade exagerada. Pontos escuros e grandes em um papel de parede claro. A escada de madeira tinha lascas soltas e rangia quando pisavam. Mas os quartos eram confortáveis.
Cada um conseguiu um quarto, mas ninguém pretendia dormir neles.
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