Badlands

13 Empty Gold


Ronan prestava atenção nas árvores. Tentava escutá-las, mas só conseguia ouvir o barulho do vento balançando as folhas, as fazendo cair aos poucos. Adam também prestava atenção, qualquer sinal ele diria a Ronan para tentar traduzir. Gansey apenas observava, a procura de qualquer pista que os indicasse a próxima parada.

O mapa parou naquela parte da floresta. Eles sentiam a Linha Ley pulsar a seus pés e Noah estava ali. Presente. Parecia vivo. Blue sentou-se no chão, tentando enxergar algo no mapa que talvez alguém tenha deixado passar.

Eles estavam cercados por árvores, cada uma maior que a outra, quase escondendo a claridade que insistia em permanecer. As folhas continuavam caindo, as flores nascendo, o ar abafado e um vento que só parecia mexer com as árvores. Todas as estações pareciam presentes naquela floresta mágica, mas não parecia Cabeswater. Ela não era acolhedora.

Ronan conseguia ouvir alguns sussurros, mas as palavras se confundiam entre elas. Podia escutar “continuem em frente”, mas também “saiam daqui”.

Eles se sentiam cada vez mais longe do rei, mesmo presente naquele lugar que parecia ser o correto. Gansey já não escondia a frustração, ainda procurando cavernas escondidas, mas torcendo para ser em outro lugar. “Não uma caverna, por favor”, Noah conseguia murmurar, mas ninguém prestava atenção nele.

O céu, que antes estava estranhamente claro, começou a escurecer. A névoa dominava o lugar, eles não estavam se enxergando por entre aquela escuridão e fumaça, mas as árvores continuavam lá, ainda sussurrando palavras que ninguém entendia.

De repente o silêncio dominou o lugar. As folhas já não caíam das árvores. A escuridão permanecia junto com a névoa. Eles observavam, esperando algo. Foi quando um só sussurro, vindo de todas as árvores, disse: iniuriam loco (lugar errado).

— O que disseram? — Gansey perguntou ao ver a expressão de Ronan. Em segundos a floresta estava do mesmo jeito de antes: viva. Sem névoa ou escuridão, apenas claridade.

— Que estamos no lugar errado. — Ronan semicerrou os olhos e olhou em volta, a procura de alguma coisa. Qualquer coisa.

— Uma árvore não precisaria me dizer isso, está bem óbvio. — Blue disse, surpreendendo Adam. Esse era o tipo de coisa que Ronan diria, sem dúvida, mas ele estava tão frustrado quanto Gansey ao descobrir que eles estavam no lugar errado.

— Por que está bem óbvio, verme? Tudo nos trouxe aqui. — Ronan bufou.

— O mapa pode estar errado. — Blue deu de ombros, indo na direção dele e lhe mostrando o mapa, que estava amassado e rabiscado. — Nós estávamos aqui. — Ela apontou para Henrietta. — E estamos aqui. — Ela apontou para o fim do traço vermelho do mapa. — Mas não parece o fim aqui. — Ela observou, guiando o dedo indicador até o outro lado do mapa.

— Mas isto está errado. — Noah observou. — Se for assim, então não precisaríamos ter saído de Henrietta.

— Pois é, a resposta estava perto e nem prestamos atenção.

— Como assim? — Adam os encarou, confuso e se aproximou. — Do que vocês estão falando?

Em resposta, Blue virou o mapa para Adam e Gansey, que havia se aproximado em silêncio, e, pela primeira vez, notou a parte de trás do mapa. “Impossível. Essa parte não estava ali”, ele estava pensando, mas não disse nada a ninguém.

Blue encarou os dois enquanto eles absorviam as informações.

A parte de trás do mapa mostrava Henrietta. E, diferente de qualquer outro mapa – até mesmo o que eles tinham até o momento -, Cabeswater estava ali. Com todas as letras “CABESWATER” era o destino deles.

— Eu não acredito. — Ronan estava balançando a cabeça, incrédulo.

— Como você não viu isso? — Blue perguntou a Gansey, que continuava encarando o mapa. Na parte da frente, onde ele tinha feito todas anotações possíveis e um traço gigante até aquela floresta errada, não havia “Cabeswater” escrito. Não havia nada, apenas um mapa barato de Henrietta até a cidade vizinha onde estavam. Mas na parte de trás que, como mágica, apareceu ali naquela tarde, estava registrado todo o caminho das Linhas Ley. E, mesmo aquele sendo o lugar errado, ele aparecia no mapa.

— Mesmo assim não sabemos se é nosso destino. Só mostram as Linhas Ley. — Gansey, educadamente, ignorou a pergunta.

— Cabeswater é nosso destino. — Adam confirmou. Não por que sabia de algo, ou sentia, mas naquele momento, debaixo de todas aquelas árvores curvadas e enquanto todos o encaravam atrás de uma resposta, ele tinha a mesma certeza de Blue: eles estavam no lugar errado e o lugar certo estava lá, o tempo todo.

— A viagem foi perda de tempo então. — Gansey bufou, saindo de perto de todos e indo em direção ao carro. Ignorou as flores nascendo aos seus pés e ignorou algumas folhas caindo nos seus ombros. Sabia que, assim que saísse da floresta, a escuridão da noite o invadiria, mas não se importou. Ele voltaria para a casa.

Gansey estava diferente, talvez a busca estivesse finalmente o deixando estressado e sem paciência. Ronan temia pelo amigo, mas não tinha muito o que dizer, também sentia que tudo aquilo havia sido perda de tempo. Blue, pelo contrário, considerou a viagem um presente a eles, mas talvez ela só estivesse feliz por causa dos momentos que todos compartilharam naqueles dois dias (ou foram três? O tempo parecia diferente ali). Adam ainda encarava o mapa, tentava buscar alguma resposta naquela parte que antes ninguém tinha notado. “Como isso veio parar aqui?”, Adam pensou, com a testa franzida e virando o mapa para tentar entender, Noah, que estava ao seu lado, respondeu “mágica”.

Mas – quase – todos sabiam: quanto mais longe do rei, menos tempo Gansey teria.